segunda-feira, 30 de março de 2009
Avô Cantigas contra os Krasnoludki
Amiúde dou por mim a pensar nos meus passeios à beira-mar em Vila do Conde, naquela estrada em paralelo que dava acesso à praia do Mindelo, deslizando o carro em direcção Atlântico, nessa praia assisti tantas vezes a lindos pôr-do-sol, estas e muitas outras memórias (tantas!) que Portugal deixa são cortadas por a realidade pura e dura de me encontrar emigrado num país improvável, numa cidade velha e cinzenta, sem mar, sem lagos e nem sequer com um rio que se veja.
Recordo-me estar dentro do meu velho Fiat 128 Sport, num Domingo qualquer, num Verão qualquer, com uma ex-namorada, com um calor abrasador intervalado por uma fresca brisa marítima e pensar como gostaria de ter outra vida.
Aquela relação estava condenada, o carro era emprestado pelo meu pai e eu era mais um dos estudantes universitários da cidade do Porto, se alguém me dissesse que dali por 10 anos estaria a viver e a trabalhar na Polónia, casado com uma polaca e com dois filhos iria certamente rir-me a bandeiras despregadas!
sexta-feira, 20 de março de 2009
Primavera para "português" ver...
Valha-nos o Google para nos recordar que estamos no primeiro dia de Primavera!Nunca diria tal coisa tendo em conta que comecei o dia protegendo o meu filhote da neve, a mete-lo rapidamente na cadeirinha e a sacudir a neve da carroçaria, quando rodei a chave na ignição lá ouvi, mais uma vez, o irritante alarme de aviso de gelo na estrada e constatei no ecrã do ar condicionado que estavam -1...
São no entanto boas notícias para quem vive na Polónia (polacos incluídos) pois já podemos visualizar o Sr. Inverno a arrumar as trouxas e ir embora durante uns largos meses dando lugar a árvores com folhas e frutos, flores de todas as cores e em breve a chegada de aves migratórias como patos e andorinhas.
O Inverno é duro e quase enlouquecemos ao fim de três meses de invernia mas a Primavera aqui na Polónia sente-se e vive-se de um modo completamente diferente daquele que temos no nosso ora húmido ora solarengo Portugal.
Agora tenho de ir fechar a clarabóia do escritório pois faz frio.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Capoeira no meu vão das escadas

Não, nenhum dos meus vizinhos instalou uma capoeira no vão das escadas.
Exceptuando o bêbado do ultimo andar deixar o seu velho cachorro canceroso fazer cocó e chichi nas portas dos outros, à parte dos meus vizinhos de baixo (aos quais deixei de falar depois de se terem embebedado a ponto de deixarem tocar música das três da manhã até às sete e meia e recusarem desligar a aparelhagem) dou-me bem com os restantes e não venho desancar em nenhum deles por causa de uma capoeira.
A capoeira a que me refiro é mesmo brasileira e tem na sua longa história a mão dos nossos "egrégios avós" a partir do momento em que começaram o chamado tráfico negreiro que é no fim de contas um eufemismo para escravatura.
A semana passada descia as escadas e reparo que no painel dos anúncios no vão das escadas estava um papel A4 de cor amarela que rezava assim:
ASSOCIAÇÃO DE CAPOEIRA LAGOA DA SAUDADE III, ŁÓDŹ POLÓNIA.
Num dia de rotina, num país onde se fala uma língua eslava, ler algo escrito em português reveste-se de uma estranheza inusitada mas lá estava o anúncio! Claro que o título estava em português mas o corpo da notícia em polaco, apelando a um grupo de praticantes de Capoeira denominado de Associação Capoeira Lagoa da Saudade III.
sábado, 7 de março de 2009
Os Kaszuby - Minoria étnica na Polónia

Esta minoria étnica reveste-se de particular interesse num país em que existe uma uniformidade em relação ao idioma ressalvando as pronúncias características de determinadas regiões como por exemplo na Silésia ou nas regiões montanhosas a Sul da Polónia.
A região de Kaszuby fica a Norte da Polónia e é banhada pelo delta do Vístula e pelo Báltico, sendo vizinha da conhecida cidade de Gdańsk ou da Trójmiasto (as três cidades) que são Gdańsk, Sopot e Gdynia.
Como todos sabemos a Polónia é um país com uma história dramática, feita de expansões e retracções territoriais, de divisões forçadas, lutas, extermínios e banhos de sangue.
Os Kaszuby sofreram as tormentas da história da Polónia e em especial da história de Gdańsk (Danzig para os alemães). De acordo com a Wikipédia apenas 5100 indivíduos possuem nacionalidade Kaszuby, no entanto pelo menos 50.000 falam este dialecto.
Reclamado pela Prússia, pela Alemanha e pela Polónia a região foi disputada amiúde sendo hoje em dia parte da região de Gdańsk.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Milennium Bank - O circo está a ser desmontado?

In: economico.sapo.pt
A 11 de Novembro de 1975 em Angola a bandeira verde e rubro descia do mastro para ser dobrada e levada debaixo do braço dando lugar a uma bandeira com uma catana e uma roda dentada partida.
Não, os portugueses não colonizaram a Polónia - nem que quisessem - mas existem fortes rumores que um dos símbolos da nossa presença em terras polacas pode desaparecer no vórtex da crise económica mundial; o Millennium Bank do grupo portugues BCP.
A bolha rebentou, como em todo o lado...
Um dos grandes problemas para os bancos ocidentais que têm subsidiárias na Polónia é o facto de grande parte dos créditos à habitação neste país terem sido contraídos em divisas que não eram a moeda local (o zloty), já que os juros praticados na zona euro e na Suíça eram bastante mais baixos do que na Polónia. Com a desvalorização em 33% da moeda polaca desde o último trimestre do ano passado muitos clientes destes bancos viram o custo real das suas hipotecas disparar, estando a deixar de serem capazes de pagar as suas prestações.
O ano passado podíamos ler amiúde que o Millennium Bank na Polónia era um caso de sucesso dos investimentos portugueses no estrangeiro, nomeadamente na Europa de Leste (Europa Central mas pronto...) e agora que nos encontramos num pantanal, rodeados de uma espessa neblina, o Millennium é afinal prejudicial para o grupo BCP.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Vinhos portugueses na Polónia

Verdade seja dita que poucas vezes vou ao Joaninha (Supermercados Biedronka) mas ontem abri uma excepção depois de ter comprado, num espaço de dias, duas garrafas de zurrapa Sul Africana e Argentina, digo... vinho tinto seco (wytrawne) de origem em países a que os polacos chamam de Nowy Świat, ou seja, Novo Mundo.
A desculpa de ter a minha mãe uma temporada na Polónia e também o facto de ter alguém para me acompanhar na degustação do tintol levou-me a fazer experiências com vinhos de outras paragens; diga-se de passagem que a variedade de vinhos disponíveis nas grandes superfícies polacas já me levaram a provar vinhos de países tão distantes como a Austrália, a Califórnia (muito bom), Chile, Argentina, Marrocos e - quem sabe- um dia destes a China!
Em Portugal, pelo que me recordo, temos nas grandes superfícies o nosso vinho omnipresente a par de alguns vinhos franceses e italianos.
Ontem decidi dar uma espreita no Biedronka e, qual o meu espanto, deparo-me com uma verdadeira montra de vinhos da nossa terrinha!
A acompanhar a variedade de garrafas portuguesas expostas nas prateleiras manhosas do Biedronka (desculpas ao Grupo Jerónimo Martins mas as vossas adegas no Biedronka são terríveis) estavam brochuras a cores, com o título Z portugalskich winnic e com mais de vinte páginas explicando em detalhe as nossas regiões vitivinícolas, os tipos de acompanhamento dos vinhos, especificações e apresentação de algumas das nossas empresas exportadoras de vinhos, seus respectivos proprietários e enólogos.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Maçonaria na Polónia - os inimigos milenares da Igreja Latina

Portugal é um país com uma longa tradição e história maçónica, os chamados pedreiros-livres estão envolvidos em inúmeros momentos históricos da nossa história quase milenar como por exemplo na Fundação de Portugal e até na Implantação da República, onde alegadamente estarão envolvidos na conspiração que levou ao assassinato do rei D. Carlos e do príncipe Filipe, em 1908, através de um braço armado da Maçonaria denominado de Carbonária.
Os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, mais conhecidos como Templários, recordam a Sexta-Feira 13 (13 de outubro de 1307) como um dia trágico; foi o dia em que a Ordem seria chacinada e extinta a mando do rei francês, Filipe, o Belo.
Na realidade as dividas que o rei francês tinha para com os Templários - os banqueiros da época - levou-o a conspirar contra a Ordem junto com o então Papa, Clemente V que alegadamente tinha sido eleito Sumo Pontífice em parte pela influência do monarca; mortos os cobradores a divida estaria saldada.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Declinação - a dor de cabeça!
Contudo não temos declinação apesar dos inúmeros artigos definidos e indefinidos que precedem a maioria das nossas frases e conjunções. A língua polaca tem, além de sons complicados, sete tipos de declinação, ou seja, formas específicas de acabar as frases.
Em polaco, Polónia diz-se Polska mas quando queremos dizer que alguém vem para a Polónia alteramos Polska para Polski, do mesmo modo que automóvel diz-se samochód mas parque de estacionamento automóvel diz-se parking samochodowy!
As próprias marcas de automóveis não fogem a estes sete casos de declinação e assim é comum ouvirmos Fiatcie, Peugeocie, Mercedesa, Fordzie etc.
O meu nome por vezes também passa a ser alterado para, imagine-se, Ricarda!!!
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Emigrantes portugueses na Polónia - Afinal quem somos?

E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram;

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
A Ilha dos Amores, estrofe 83 do Canto IX
A emigração portuguesa no século XX foi, em muitos casos, dramática e fruto do desespero, daí terem chamado o salto (passar a fronteira fugindo ao controlo da PIDE) à vaga de emigração para a França, Alemanha, Luxemburgo e Bélgica nas décadas de 50, 60 e 70.
Durante o regime de Salazar emigram para a Europa mais de 1 milhão de portugueses o que equivale praticamente à população branca das nossas ex-colónias.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Queijo regional Oscypek - Eu bem queria mas...

Eu bem queria gostar de Oscypek mas não consigo... desculpem...
O queijo Oscypek é um dos queijos mais tradicionais da Polónia, oriundo da região Sul do país - da cadeia montanhosa dos Tatras - o Oscypek é feito de queijo de ovelha não-pasteurizado, salgado e posteriormente fumado, normalmente é moldado em forma de algo que se assemelha a uma granada de mão ou a um RPG soviético.
Experimentei comer o dito com uma cerveja a acompanhar mas não ajudou muito. Na bela vila de Zakopane cheguei a comer um pedaço bem grande cortado a navalha e in loco por um dos muitos vendedores de uma das muitas lojas que vendem artigos regionais e tradicionais mas com um "very good and different..." (na altura não falava polaco) acabei por evitar o que diria hoje em dia - oh kurde!!! Dziwnie smakuje!!! (brincadeira).
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Vaga de frio
A vaga de frio que se sente na Europa traduz-se por diferentes temperaturas de acordo com a localização geográfica de determinados países, aqui na Polónia a vaga de frio significa temperaturas negativas mesmo durante o dia e muita queda de neve.
Dizem os meteorologistas que lá para Sábado deve melhorar mas por enquanto ainda tem sido bastante duro conduzir nestas condições.
Ao fim de algum tempo habituamos-nos à rotina de encontrar o carro coberto de neve logo pela manhã e ao ritual de escovar a mesma ao longo da toda a carroçaria.
Apesar de alguns condutores arriscarem devemos sempre limpar toda a neve dos vidros, faróis, indicadores de mudança de direcção, farolins, luzes de matrícula e chapas de matrícula não só pela segurança acrescida mas também para evitar as pesadas multas que se aplicam aos infractores.
Médios são obrigatórios todo o dia e durante todo o ano.
Uma astúcia que alguns condutores praticam para aquecerem o motor mais rapidamente consiste na aplicação de um cartão/chapa por trás da grelha do capot.
Diga-se de passagem que um motor Diesel em países tão frios talvez não seja a melhor opção para o Inverno mas, o que me vai valendo, é o facto de serem apenas picos de temperaturas baixas normalmente provenientes de frentes frias na Sibéria ou na Escandinávia (Lapónia)...
A velocidade a que circulo dentro da cidade, mesmo com pneus de Inverno, ronda os 40 ou máximo 50 quilómetros hora pois quando neva copiosamente os limpa-neves da cidade não conseguem dar vazão a tantas estradas cobertas de neve.
Quando isto acontece deixamos de ler a sinalização das estradas e perdemos um pouco a noção das faixas de rodagem, faz-se tudo em câmara lenta e com extrema cautela.
No meu caso uso muito poucas vezes o travão de mão para ajudar a negociar alguma curva mais complicada na qual a frente aponta bastante.
Um cheirinho de travão de mão e contra-brecagem é suficiente e por vezes até se torna divertido.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Feliz Ano Novo - mas não para todos
Da janela da sala consigo ver a chaminé da central-hidroeléctrica de Bałuty, fumega abundantemente para aquecer estas ultimas noites gélidas de -10 graus, na televisão vejo fumo a levantar-se das ruas na Faixa de Gaza depois dos bombardeamentos de Israel.
Na passagem do ano foi o tradicional festejo polaco com os foguetes Made in China e do fogo de artificio. A nossa cadela tremia por tudo quanto era lado, língua de fora e respirar ofegante com receio das explosões mas o nosso filhote dorme o sono dos justos completamente alheio ao "bombardeamento" nas ruas; às duas da manhã a calma instala-se. Os foguetes esgotaram-se, os polacos foram dormir, uns deixaram-se entorpecer pelo álcool e outros festejam em discotecas e clubes até de madrugada.
As analogias entre o crepitar dos foguetes e o som de explosões, entre o fumo na chaminé e nas ruas de Gaza, o sono de uns e o pânico de outros invade-me o espírito, contudo alivia-me o pensamento de reconhecer e apreciar o simples facto de que vivemos em paz!
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Ressaca da consoada e ruas vazias
Imagem in Flickr: http://flickr.com/photos/access/2165356177/ por acess.deniedComo prenda surpresa no sapatinho - umas 7 horas antes da hora prevista - desembrulhei um acidente que me custou uma jante e dois pneus... digo dois pneus pois quando um rebenta o seu parceiro do outro lado tem de ser mudado também. Ter carros italianos e condutores portugueses serve para isto... o seu carácter latino e o temperamento típico levam-nos a ficarem ciumentos e a quererem prendas também, assim 400 PLN de prendas vão para o meu querido Lancia Lybra...
Mas, acidentes à parte, foi o dia da tradicional Wigilia ou Consoada onde não se come o bacalhau com batata cozida, nem peru nem se deve emborcar vinho ou álcool para acompanhar a refeição. Em nossa casa não é bem assim pois "cada macaco no seu galho" e sem hard feelings - felizmente para mim!
Primeiro devo frisar que não sou uma pessoa particularmente religiosa mas também não me considero ateu se bem que tecnicamente, e de acordo com os cânones da Igreja Católica, sou um herege que noutros tempos iria prestar contas por ser um insurrecto... isto serve para dizer que a tradição é, apesar de tudo mantida, mais a tradição polaca do que a portuguesa...
Na nossa mesa de Natal convivem paredes-meias as iguarias polacas e as portuguesas mas como não sou fã de peixe prefiro sempre um bom naco de carne regado com uns copinhos de tinto alentejano.
Hoje, 25 de Dezembro de 2008, as ruas estão vazias e o sossego faz com que pareça que vivo nalguma aldeia polaca, entre pastagens e florestas.
E dou por mim a pensar (mais uma vez) que estou a passar o Natal num país que, na minha infância, só ouvia falar nos programas de desenhos animados do Vasco Granja!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Filas na Polónia - Kolejka
Musiałówna Anna, <Nos primeiros anos era algo que me irritava solenemente mas com o tempo fui-me habituando - que remédio! - a esse tipo de situações. Se repararem em muitas filas de supermercado mas especialmente em talhos, padarias e pequenas mercearias os polacos estão praticamente colados uns aos outros e não se importam com tal.
Procurando uma eventual explicação para tal "hábito cultural" apenas me ocorreu que só podem ser resquícios do tempo das senhas de ração comunistas e do stress que esta gente tinha para poder comprar algo nas lojas antes que esgotasse, provavelmente um buraco na fila era o garante de alguém chegar primeiro à caixa e pedir um dos últimos bifes ou papo-secos disponíveis nas prateleiras!
O comunismo deixou marcas neste povo especialmente nas gerações mais antigas, enquanto que em Portugal tínhamos as mercearias do "Senhor Zé", com a sua típica balança Avery e as caixas de fruta na entrada, sempre com produtos disponíveis e a retalho, na Polónia o sistema era totalmente diferente e recebiam-se porções de acordo com aquilo que o governo considerava necessário.
Vejam o exemplo de uma senha de ração (Kartka) na imagem:
O P-3 constituía-se por 14 quadrados correspondentes a vários artigos como por exemplo, farinha, açúcar (250 ou 1500 gramas), cigarros (6 maços), álcool (uma garrafa), chocolate (sucedâneos pois não havia mesmo chocolate de cacau), gorduras (375 gr), 100 gramas de detergente etc, no centro assinava-se o nome e morada do comprador.A agravar este sistema "igualitário" do regime das senhas estava a disponibilidade da mercearia pois havia meses em que tudo esgotava rapidamente ou não estava disponível portanto os quadradinhos de nada serviam! Claro que para fazer frente às necessidades florescia o mercado-negro - dito o maior da Europa - e os esquemas fura-vidas que mais tarde viriam a formar algumas moles de "bebavundos" que ainda proliferam nas ruas da Polónia.
Vai demorar algumas gerações até certos hábitos mudarem mas se pensarmos que, de acordo com uma recente sondagem na Alemanha, 60% dos jovens nas escolas secundárias não sabiam o que era a RDA e a RFA então estamos, sem duvidas, no bom caminho...
sábado, 6 de dezembro de 2008
Anna Walentynowicz - O "Salgueiro Maia" polaco
"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui."
Salgueiro Maia foi, durante muitos anos, um "ilustre desconhecido" de muitos portugueses, não quis protagonismo, recusou cargos políticos e limitou-se a cumprir o seu trabalho (assumindo um grande risco) naquela madrugada de Abril de 1974, proferiu a frase supra quando ainda se encontrava na Escola Pratica de Cavalaria em Santarém.Com certeza perguntam-se o que tem Salgueiro Maia a ver com Anna Walentynowicz, perguntar-vos-eis o que tem a ver Portugal de 1974 com a Polónia. Eram dois regimes opostos, gentes que mal se conheciam e vivia-se em plena Guerra Fria, a Europa estava divida por uma "Cortina de Ferro" e assim esteve durante mais de uma década.
Salgueiro Maia e Anna Walentynowicz são ambos heróis quasi-esquecidos da revolução.
Lech Walesa é, para todos os efeitos, o ícone do Sindicato-Livre Solidariedade mas a tão conhecida e respeitada figura da oposição polaca não esteve sozinho nas inúmeras greves e conspirações que os trabalhadores dos estaleiros de Gdansk fizeram durante o socialismo.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
O FSO Polonez - Polski Motoryzacja
Quem vive na Polónia conhece sobejamente este veículo, trata-se de um FSO Polonez de fabrico polaco.
Um post num blogue acerca do Polonez parece ser uma perda de tempo (porventura até é) mas a verdade é que o Polonez foi, e ainda é, parte integrante da paisagem automobilística polaca, o Polonez foi o primeiro carro de muitas famílias polacas, a primeira grande alegria e com certeza fonte de muita irritação pois, dizem os polacos, que os FSO não eram grande coisa no que diz respeito a fiabilidade.
Este modelo tinha como função substituir o FSO 125 P ou "Duży Fiat", baseado no luxuoso Fiat 125 italiano, mas conviveram "amigavelmente" durante décadas, ou seja, o Polonez não substituiu o 125 P mas complementou-o... Para quem não sabe o Polonez é basicamente um 125P no que diz respeito ao chassis e soluções mecânicas, o que mudou foi o chapéu... ou seja, a carroçaria.
Em 1978 a FSO apresenta a primeira versão do Polonez que se identifica pelos quatro faróis redondos na frente e frente plástica, este modelo foi desenhado por Giugaro, o conhecido designer italiano, e foi exportado para imensos países, sobretudo do bloco soviético mas é possível ver Polonezes em países tão distantes como por exemplo no Egipto e no Vietname.
A história da indústria automobilística polaca é muito interessante. No final da II Guerra Mundial os polacos produziram alguns modelos populares, como o Warszawa, baseados em modelos da URSS, mais tarde a FSO criou modelos baseados em Fiats italianos como por exemplo o 126 P e o 125P mas também montaram alguns 127 e 128 Sport Coupé. No entanto com o Polonez foi possível demonstrar a capacidade dos engenheiros polacos.
Infelizmente o Comité Central cortou as asas ao engenheiros polacos e deixaram dezenas de projectos interessantes nas gavetas. Desde versões roadster do Syrena a protótipos de Coupés, Polonezes 4x4, micro-carros estilo Twingo, desenhados 15 anos antes deste modelo da Renault, até ao projecto da Euro-van que, em meados dos anos setenta apresentava um projecto, que seria visto nas ruas europeias décadas depois na forma de uma Renault Traffic.
O Polonez teve dezenas de alterações estilísticas, versões de todos os tipos como as pick-up, furgão, station, ambulância e coupé, e recebeu motores diesel de origem PSA (Peugeot) e motores a gasolina de 16 válvulas de origem Rover (iguais aos motores dos Rover 214/414).
Em 2002 o Polonez acaba a sua carreira de décadas.
Curiosamente o FSO Polonez, mesmo tendo inúmeros problemas mecânicos, apresentou resultados surpreendentes num teste de colisão efectuado em 1994. A frente absorveu bem o choque, as portas abriram depois do embate e o depósito de combustível não rebentou.
Quem diria?
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
And since we've no place to go Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!

Tá bem abelha! A música Let It Snow é clássica e a primeira vez que a ouvi foi em 1990 no filme Die Hard II com Bruce Willies. Na cena final, depois da explosão do Boeing 747 dos vilões, a música passava enquanto a neve caia e John McClane , ensanguentado e cansado, abraçava a sua esposa; na altura tinha 17 anos, estava sentado num cinema em Portugal e neve só havia visto duas vezes na vida, não me recordo mas com certeza não estava frio ao sair daquela sala e nunca na vida me ocorreria que iria conviver diariamente com a dita neve!
É inevitável mais um tópico de um português na Polónia acerca da neve mas a verdade é que a primeira neve é sempre um momento simbólico para quem mora na Polónia, marca o inicio de um Inverno longo e frio, de pouca luz solar e de situações aborrecidas como por exemplo vestir o dobro das roupas, ter os cabelos despenteados por causa do gorro, ter os óculos embaciados mais frequentemente, sacudir a neve e raspar o gelo do automóvel, andar com mais cuidado para não escorregar nas ruas gélidas e também ver as beldades polacas completamente vestidas durante vários meses...
Passados este anos todos a viver na Polónia, após tantos Outonos e Invernos a neve ainda me impressiona e causa-me uma relação amor-ódio; na realidade gosto de ver o manto branco por todo o lado, tem o seu encanto diga-se passagem mas torna-se banal ao fim de duas semanas, rotina em meados de Janeiro e insuportável em Fevereiro.
Um dos primeiros sinais da época fria começa em finais de Setembro quando as noites ficam quase repentinamente frias e sente-se no ar o cheiro a fumo proveniente das lareiras e salamandras das casas. Em Dezembro já nos habituamos ao som da neve a estalar debaixo das botas, aos montículos de neve ao lado dos passeios e entre os carros, já nem olhamos para os caleiros dos prédios e as suas estalactites, para o gelo sujo, atirado pelos pneus dos carros e camiões, tudo isso passa a ser invisível.
O frio, a neve e o gelo passam a ser rotina, deixamos-nos de preocupar com o termómetro e os "menos qualquer coisa", remetemos para um canto as comparações climáticas Portugal-Polónia e vivemos o dia-a-dia como qualquer polaco. No fundo há coisas muito mais importantes na vida do que neve e frio e essas ocupam-nos inevitavelmente a cabeça.
O lado bom é o regresso a casa, as divisões aquecidas e o jantar onde não faltará uma cerveja fresca e uma sobremesa de gelado para esquecer o frio que faz lá fora.
Ah! E as polacas dentro de casa não precisam de andar todas vestidas. :)
terça-feira, 18 de novembro de 2008
A como Amor - M jak Miłość

A Polónia tem o seu Dallas, chama-se M jak Miłość (leiam M iaque miu-osh-tch)
As telenovelas polacas são acima de tudo decentes... não temos mulheres histéricas a gritarem a toda a hora, decotes que praticamente só cobrem os mamilos, não temos rabos latinos em vestidos justos nem palacetes estilo novo-rico como em muitas novelas brasileiras, mexicanas e venezuelanas. Os homens são regra geral tímidos e cavalheiros mas existem também os vilões.
Normalmente os vilões polacos são de poucas falas, não se exaltam e são para todo o efeito verdadeiros filhos da puta. Desculpem a "linguagem de caserna" mas pareceu-me a mais adequada para os descrever.
Nas telenovelas latinas temos sempre ingredientes essenciais. Mulheres descascadas, piscinas, sexo, traição e traição, porrada, morte, tiros e machos latinos morenos de pelo no peito ou então depilados mas sempre com um estilo Zézé Camarinha escolarizado. Todos os personagens falam alto e choram frequentemente.
Quem aprecia o estilo então esqueça o M Jak Miłość. Este seriado é decente, temos histórias de amor, traição, violência, acidentes de automóvel, morte e ódios de estimação mas sempre em voz baixa, sem exaltações e sem grandes manifestações emocionais. Desengane-se quem pensa que os polacos são frios ou distantes. Não são!
Nós, os portugueses, e a "latinada" em geral, é que somos exaltados e barulhentos, os portugueses são, para todos os efeitos, uma espécie de espanhóis tímidos.
Se nos morre o cão choramos, dizemos "ai coitadinho do meu cão!!!" e ficamos com um aspecto tipo Amália Rodrigues a cantar "Povo que Lavas no Rio", ao passo que os polacos ficam calados, com os olhos marejados mas sem comentarem, no entanto sentem a dor tanto quanto nós.
Talvez esse seja o segredo das relações luso-polacas, umas pitadas de emoção latina misturadas com umas pitadas de racionalidade eslava.
sábado, 15 de novembro de 2008
Energia solar nos cortiços

O que podem ver na imagem são os prédios (mieszkania) típicos da Polónia comunista contudo com uma estrondosa diferença volvidos quase 30 anos desde que foram feitos.
Foram reconstruídos com material de isolamento exterior, pintados em cores mais claras, deixando o cinzento de outros tempos para trás, e agora até têm instalados painéis solares nos telhados.
Esta é a minha vizinhança, ou osiedla com dizem os polacos. A Polónia é um dos países da União Europeia com maior emissão de gases prejudiciais a atmosfera; a redução da poluição atmosférica foi um dos pontos que a UE exigiu que se tomassem medidas por parte do governo polaco.
Assim, graças a fundos estruturais da UE, muitos prédios na Polónia passarão a ter a água quente aquecida a energia solar, para tal são instalados nos telhados uma série de painéis que a funcionarem em conjunto auxiliam o aquecimento da água da companhia.
O objectivo principal é o de não sobrecarregar as centrais eléctricas que funcionam, em grande parte, a carvão. A Polónia é um dos países da UE com maior extracção e consumo de carvão e um dos gigantes exportadores do mesmo.
A queima de carvão é um problema sério para a Polónia. Por um lado o carvão é uma fonte de rendimento do país desde longa data e a redução do consumo implica perdas económicas consideráveis, por outro lado a poluição atmosférica é um assunto muito sério, para não dizer grave, neste país. Não é segredo (quando muito segredo de polichinelo) que os indicadores de poluição na Polónia são maus.
De acordo com fontes do InterScience Journal [1], a Polónia desde há 50 anos a esta parte tem deteriorado severamente o ambiente afectando a fauna e flora do país bem como a saúde pública.
Todos os anos são despejados entre três a quatro milhões de toneladas de gases tóxicos para a atmosfera como Dióxido de Enxofre entre outros, mais de 75% das águas do Vístula são impróprias para consumo inclusivamente consumo industrial.
Esperemos que o bom senso e sobretudo campanhas informativas modifiquem o estado das coisas.
Paraísos como os lagos e as grandes florestas polacas, onde ainda se encontra o bisonte europeu (żubr), não podem desaparecer nem ser ameaçadas por atitudes irresponsáveis daqueles que exercem o poder.
[1] http://www3.interscience.wiley.com/journal/119279723/abstract?CRETRY=1&SRETRY=0
[2] http://cicg-iccg.org/communs/Pologne/geo19park-en.htm
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
O "emeryta" (reformado)
Hoje fui (finalmente) lavar o carro, teve mesmo de ser pois na Quarta-Feira tenho de fazer a Przeglądu Techniczny ou seja, a Inspecção Periódica Obrigatória.
O dia esteve soalheiro e começou com 270 zloty a mudarem de mãos devido a uma panela de escape nova que, por incrível que pareça, nem sequer era especifica para os Lancia Lybra 1.9 JTD... não houve um "tłumasz" (mecânico das panelas de escape) em Łódź que me dissesse que tem uma panela para esse modelo! Felizmente que o grupo Fiat sempre foi prodigioso em partilhar componentes e como tal levei, tomada e embrulhada, uma panela de Fiat Marea que além de ser mais barata ainda deixou uma saudável [not] ressonância estilo racing sempre que circulo a baixas rotações.
Feito isto fui lavar a viatura que parecia vinda de um qualquer Paris-Dakar... o serviço custou uns modestos 16 PLN com aplicação de espuma e cera para minimizar os estragos das lixadeiras automáticas. Depois do sopro das ventoinhas ter tirado alguma água da carroçaria foi a vez de aspirar o interior.
Meti uma moedinha de 2 zloty no aspirador e limpei a praia que tinha debaixo dos tapetes. Quando sacudia os ditos reparo que tenho um idoso a olhar para mim.
O senhor aparentava os setenta e muitos, tinha um saco de supermercado na mão, boina e óculos de massa graduados com um estilo antiquado. Perguntou-me, com um sorriso no rosto, se estava a lavar o carro por causa do feriado do 11 de Novembro ao que respondi que não, na realidade lavava o carro por causa da inspecção periódica.
Enquanto secava as janelas o senhor foi-me dizendo, com uma voz cansada, que ainda é do tempo em que as pessoas andavam quase todas de bicicleta, como ele disse rower (bicicleta em polaco) ainda pensei que tivesse um Rover mas depois caí na real.
Continuou dizendo-me que nesses tempos os carros eram poucos e hoje em dia são relativamente baratos, o irmão dele tem um e estima-o bastante, já ele não pode conduzir pois a pequena reforma não lhe permite esse luxo.
Foi então que me perguntou se uma garrafa de água e refrigerante que estavam no lixo eram minhas. Disse-lhe que não, que por acaso tinha reparado que alguém tinha-as tirado do carro ao aspirar e deixado-as no cesto. O senhor terminou a conversa, começou a rodar as garrafas na mão e meteu-as no saco, foi então para a paragem de autocarro com um sorriso nos lábios.
Naquele momento fiquei a pensar nos 270 zlotys que deixei na oficina, no carro que tenho aos 34 anos de idade e na injustiça de ver alguém que, depois de trabalhar uma vida toda, não só não pode comprar e manter um carro como ainda precisa de remexer no lixo dos outros.
Recordo-me bem da primeira vez que tomei contacto com esta realidade na Polónia, as pessoas que vasculham no lixo.
Quem aqui vive já não se sente chocado mas para o estrangeiro talvez seja uma novidade, não pelo facto de não existirem vasculhadores de lixo em todo o mundo, mas pelo facto de na Polónia serem tantos e fazerem-no durante o dia.
Ao que parece a maior parte deles procuram latas de cerveja e metal para poderem vender o alumínio ao quilo e fazerem algum dinheiro, outros procuram restos de comida para não passarem fome, outros ainda vão buscar janelas, sofás, cortinados e móveis velhos para levaram para as suas dzialka, outros precisam de "fundos" para pagar o vicio do álcool.
Como diz o provérbio em inglês "one man's trash is another's man gold"!
[1] Retirado de Flickr, fotografia de oto-polska.blogspot.com
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Viver no Barco - II
Num primeiro contacto a cidade não impressiona ninguém, não tem um rio decente (tem uns afluentes), não tem praia nem lagos e parece ser uma enorme mancha cinzenta com avenidas e ruas cortadas a régua e esquadro mas não é bem assim.
Łódź é uma das cidades europeias com a maior percentagem de "mancha verde" e deve ser apreciada não como um todo mas ao pormenor. Infelizmente a maior parte dos edifícios históricos e o centro da cidade encontram-se degradados, as paredes partidas e sem ver tinta há décadas, os passeios quebrados e algumas fachadas pretas de anos de poluição vinda das chaminés e lareiras, do transito e do gelo.
Houvesse dinheiro e Łódź poderia ter um centro histórico que não fica nada a dever a algumas zonas de Paris, e não estou a exagerar! Venham cá e confirmem.
Łódź foi em tempos uma gigantesca cidade industrial. Segundo a Wikipédia, chegou a ser de tal modo industrializada que, durante o século XIX em plena Revolução Industrial, recebeu emigrantes de países tão longínquos como Portugal (sic) mas também Inglaterra, França e Irlanda. A industria têxtil tinha aqui o seu estandarte.
A comunidade judaica foi essencial para erguer a cidade e torná-la um dos maiores pólos industriais da Europa (senão o maior) no século XIX. O epíteto da "Cidade das Quatro Culturas" ou Miasto Czterech Kultur não é dado em vão, na realidade Łódź era uma cidade multi-cultural onde se podia verificar a convivência entre a comunidade judaica, alemã, russa e a maioria polaca. A cidade é inclusivamente palco de um festival anual chamado de Festival das Quatro Culturas onde se realizam eventos alusivos a essas comunidades.
Ainda hoje em dia basta uma visita relâmpago para se verem as imponentes fábricas dos grandes industriais como Israel Poznański (hoje em dia o centro comercial Manufaktura), Ludwik Geyer, Karl Scheiber, a fábrica branca entre outras, não dezenas, mas centenas de fábricas e pavilhões construídos no típico Tijolo Burro.
Os grandes magnatas da industrial têxtil construíam os seus palacetes com a fábrica(s) ao lado e edifícios, em estilo barroco, que serviam de albergue aos seus trabalhadores.
Izrael Poznanski 1833-1900. Consta que quando mandou construir o seu palácio foi perguntado sobre que estilo pretendia, terá respondido "todos!". [3]
[1] Foto retirada do site sobre os judeus de Łódź in: http://www.shtetlinks.jewishgen.org
[2] http://picasaweb.google.com/Malgorzata.Majewska/LodzACityOnceFamousForTextileIndustryButAlsoCinema#5095636460858018530
[3] [4] Wikipedia Commons
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Pszczółka Maja - Abelha Maia

E agora, desenhos animados da... Polónia!Sou da geração Vasco Granja. Não, o senhor não me traumatizou e perdoo-lhe algumas secas que nos dava antes de passar os desenhos animados da Polónia, da Checoslováquia, da Hungria e de outros países de Leste.
O que queríamos mesmo era ver o Pato Donald e o Huginho, Zezinho e Luisinho, com um bocado de sorte o Rato Mickey mas a verdade (ou Suma Sumarum como dizem na Polónia) é que passados tantos anos os desenhos animados que mais me lembro são precisamente os da Europa Central e de Leste! Isto vem a propósito da Abelha Maia e do meu filho de dois anos e meio, o verdadeiro Portulaco. Jamais imaginaria, naquelas manhãs de Domingo, que iria ter filhos naquele país estranho e tão longínquo que Vasco Granja dizia ser muito bonito, que tinha cidades lindas como Cracóvia e o rio Vístula.
Hoje em dia dou por mim a ouvir a Abelha Maia em polaco... e ainda por cima tinha que ser uma daquelas palavras que obrigam-nos a fazer perdigotos... Pszczółka Maja... Pszczółka... Pch-tch-ul-ka!!! Certo que em língua portuguesa dizemos abelha o que na minha região, o Minho, significa também "a velha"... "A maldita da belha quer ficar cu dinheiro tuodo debaitcho do cultchon!". Mas mesmo assim é mais fácil soletrar a-be-lha contra Psz-czół-ka ou talvez não... A letra que todos sabemos "era uma vez no país da abelha Maia" passa a ser assim:
Jest gdzieś, lecz nie wiadomo gdzie
świat, w którym baśń ta dzieje się
Maleńka pszczółka mieszka w nim
Co wieść chce wśród owadów prym
Tę pszczółkę którą tu widzicie
zowią Mają
Wszyscy Maję znają i kochają
Maja fruwa tu i tam
Świat swój pokazując nam
Dziś spotka was maleńka, zwinna pszczółka Maja
Mała, sprytna, rezolutna Maja
Mała przyjaciółka Maja
Maju
Baju
Maju, cóż zobaczymy dziś?
(Só não me peçam para traduzir ) :)
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Finados - Wszystkich świętych

O que vale é que tinha 150 zloty de gasóleo no depósito, tinha abastecido de manhã nas bombas do Tesco, a 4.08 o litro, antes de me aventurar na ida ao cemitério.
Hoje tirei um dia de folga para supostamente tratar de assuntos pessoais entre os quais mudar a panela de escape da minha carrinha, pensei que daria tempo para tudo inclusivamente ir com a sogra ao cemitério onde se encontra a campa do meu sogro mas nem por ser uma Sexta-Feira me livrei de ficar com a perna esquerda cansada de tanto embraiar alem de ter tirado uns bons quilómetros de vida útil ao disco de embraiagem.
Este dia de Todos os Santos ou Wszystkich Swiętych mobiliza os polacos de tal modo que se torna mórbido não o ir ao cemitério mas sim usar o carro para a visita, principalmente em grandes cidades como Łódź. Mais vale ficar enlatado nalgum autocarro Icarus ou ir de Volvo ou Mercedes mesmo que se vá de pé toda a viagem.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Graffiti

A dada altura deixamos de notar que eles existem mas a verdade é que a quantidade de paredes, muros, mobiliário urbano - praticamente tudo o que está estático na via pública - das grandes cidades polacas está "graffitado" ou "tagado".
Aqui em Łódź a guerra dos graffiti faz-se sobretudo entre os fãs dos clubes de futebol ŁKS e Widzew, normalmente começa com um simples graffiti do logótipo do clube que vai ser riscado e vandalizado pelos rivais. Para quem não está a par desta realidade ficará chocado com a quantidade de cruzes de David (o símbolo de Israel) que aparecem como forma de insulto mas não é nada directamente contra os judeus ou especificamente contra a nação israelita mesmo que apareca uma forca com uma cruz de David pendurada e a mensagem "ŁKS = Judeus" ou "Widzew = Judeus".
O nível dos graffiti é proporcional à inteligência e fanatismo dos seus adeptos, chamar judeu é um insulto e uma forma de menosprezar o clube adversário. De onde virá este anti-semitismo?
Mas, à parte deste lado negro dos graffiti futebolísticos, surgem por vezes verdadeiras pinturas murais que só no nosso "Verão Quente" existiram.
O mais conhecido de todos, tido como o maior da Polónia e da Europa, fica na avenida Piotrkowska, na alçada lateral de um edifício, e representa a cidade de Łódź como um barco (łódź) que navega num mar de lajes de cimento.

Para os lados de minha casa, em Bałuty, o proprietário de uma pizzaria resolveu que estava na hora de acabar com os constantes graffitis futebolísticos e vai de contratar os ditos "vândalos" para lhe pintarem a parede da "Pizzeria Corleone"!

Remédio santo!
domingo, 26 de outubro de 2008
Outono - Jesień

Hoje de manhã, enquanto passeava a cadela, tirei esta fotografia nas traseiras do prédio. O Outono chegou com toda a sua força e beleza, pelo menos para mim é um espectáculo da natureza, o prelúdio do Inverno (aquela palavra terrível - Zima!) e de... muito frio.
Ainda há pouco tempo estas árvores estavam repletas de folhagem verde e os ninhos dos pássaros com as suas crias fervilhavam de actividade, as crianças brincavam nas caixas de areia, nos baloiços e nos arcos enquanto os adolescentes jogavam basquetebol ruidosamente e ao sabor do hip hop que emanava das colunas dos seus carros.
Os "pombinhos" beijavam-se nos bancos mais próximos e sentia-se frequentemente o cheiro a kiełbasa assada (o churrasco polaco) proveniente de alguns "parterze" (rés-do-chão) mais afortunados que têm a sorte de terem um terrenito nas traseiras mas agora tudo acaba assim.
A esta fase que atravessamos os polacos chamam-lhe "Outono polaco dourado" por causa das cores outonais que invadem a paisagem, sobretudo os dourados e amarelados das folhas.
Penso muitas vezes no Outono de Vila Nova de Famalicão, que diferença! Se por um lado é menos frio por outro é muito mais húmido e as nossas belas casinhas mediterrâneas/sulistas não foram feitas para o frio, os portugueses no fundo são optimistas e andar de camisola e meias grossas dentro de uma casa húmida é normal (é só até ao Carnaval!), ao menos aqui temos os aquecedores a fazerem esquecer rapidamente as agruras do tempo, já em Portugal era normal ficar com os dedos gelados no teclado do computador!
Mas não posso ser tão ríspido com o nosso Outono português. Fazem-me falta as castanhas... essa iguaria que tantas vezes me fez protestar quando passava na Avenida dos Aliados e ficava a cheirar a castanha assada ao passar pelas inúmeras vendedoras de castanhas que rodeiam a estação de São Bento.
Desculpem minhas senhoras! Nunca mais vos farei cara de pau! Venham as castanhas embrulhadas nas páginas amarelas roubadas nas cabines telefónicas, podem mesmo vir embrulhadas no Correio da Manhã ou no jornal A Bola, venham é as minhas ricas castanhas assadas e os saudosos magustos que por aqui as castanhas polacas não são comestíveis e magusto é algo que nunca se ouviu por estas paragens!
Na passada Sexta-Feira, ao rodar a chave do carro, ouvi novamente o melancólico "plin plin plin" do computador de bordo a avisar para ter atenção na estrada, o carro relembra-me sempre que o frio chegou e a temperatura está abaixo de 4 graus. Obrigado pela preocupação mas por vezes preferia nem saber!
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Prawo Jazdy vs Carta de Condução

Ando com este dilema... ficar com a minha carta de condução portuguesa ou trocar por a carta de condução (Prawo Jazdy) polaca.
Antes da adesão da Polónia à União Europeia era um martírio poder conduzir com carta de condução portuguesa neste país, nem a Carta Verde das companhias de seguros cobriam a Polónia, era preciso uma extensão de cobertura e emissão de nova carta verde.
O nosso patrício Luís Sousa vive em Łódź há muitos anos e gastou muito dinheiro para obter uma carta de condução internacional e para a revalidar regularmente, caso contrário não poderia conduzir o seu próprio carro nestas paragens. A nossa carta de condução, modelo das comunidades, com o P era, até há bem pouco tempo, nie honorowana o que significa que não era aceite nem válida pelas autoridades polacas.
Cheguei a enervar-me na Direcção Geral de Viação deles, mesmo depois da adesão! Na altura o Wydział Komunikacji (DGV) onde se obtinham as cartas ficava no célebre palácio do judeu Israel Poznański e estava ocupado por funcionários públicos dos tempos "da outra senhora" os quais eram tudo menos prestáveis.
Disseram-nos (aos portugueses) que a nossa carta de condução não era válida e que precisaríamos de fazer exame teórico e prático para poder conduzir na Polónia. Quando confrontados com um e-mail da Comissão Europeia, que me dei ao trabalho de contactar e que dizia que a nossa carta era válida em todo o território da UE, limitaram-se a fazer má cara e a dizerem que "prosze pana... jak pan chce!" o que traduzindo diz "caro senhor... como queira!".
Entretanto o Wydzial Komunikacji mudou de instalações e de funcionários. Onde outrora estava uma velha rabugenta está uma polaca ruiva que fala inglês e explicou tudo tin-tin por tin-tin.
Afinal a carta é válida e pode ser trocada por uma carta polaca, sem necessidade de exames. O senão é o facto de termos de eliminar a nossa carta do P, tem mesmo de ser obliterada.
A desvantagem maior contudo reside no facto de ao obtermos a Prawo Jazdy passarmos a ter pontos na carta (20 pontos) que são retirados consoante as infracções cometidas pelo titular, o que não acontece na nossa "cor-de-rosa", modelo das comunidades. Portanto nada de ultrapassar os 0,2 de alcoolemia ou pisar demasiado no acelerador sempre que vemos aquelas rectas ladeadas de plátanos e com campos verdes a perder de vista ou os tractores e inúmeros camiões que regularmente entopem as droga krajowa...

Como a União Europeia pretende uniformizar as cartas de condução para modelo único e válido no território então mais vale esperar; no meu caso ia custar-me ver a minha velhinha carta de condução, com aquela foto de um português magrinho e de olhar inocente, ser destruída num qualquer furador polaco.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Viver no Barco - I

Não foi a primeira escolha de local para viver, apesar de ter passado um tempo fenomenal no Erasmus que fiz na Wyższa Szkoła Humanistyczna Ekonomiczna (WSHE), tendo conhecido a minha companheira nesta cidade, mesmo tendo casado por aqui ainda tentamos viver em Portugal mas todas as circunstâncias empurraram-nos para estas paragens.
Portugal encheu-me o saco, desculpem a frontalidade. Não o país em si, não a família ou os amigos mas o "Portuguese way of life" se é que podemos usar este neologismo. Foram frustrações em cima de frustrações, salários ridículos e horas extraordinárias que nunca seriam pagas, e depois uma situação de desemprego que na altura era geral na família!
Acima de tudo fomos vítimas das políticas de emigração que penalizavam todos os cidadãos portugueses casados com estrangeiros fora da União Europeia (casamos antes da adesão da Polónia à UE).
Fosse a minha mulher brasileira ou cidadã da União Europeia e tudo tinha sido diferente mas para os SEF não bastava o casamento para que ela se juntasse a mim e tivesse o tão ambicionado "visto de residência". Gastei muito dinheiro nos SEF em papeladas, selos e extensões do visto de turismo.
Quer em Braga quer no Porto eram hordas de emigrantes a pedirem vistos e extensões. Na Loja do Cidadão em Braga a funcionária disse-nos com um sorriso artificial que a "a Paulinha" (como se tivesse andado com ela na escola) teria de ir para o seu país e esperar pelo visto de residência. Prontamente lhe agradeci e disse que o melhor mesmo era emigrar para o país dela pois em breve ia ser parte da UE e tudo iria começar para aqueles lados.
Nós estávamos fartos da separação, de ansiedade e frustrados com as respostas que nos davam. A isto juntou-se mais uma vez o desemprego e como tal não foi preciso muito para que chegasse a casa e dissesse à Paula "Start packing because tomorrow we go to Poland". Praticamente fomos viver para a Polónia com uma mão à frente e outra atrás, não fosse a ajuda das mães e teria sido virtualmente impossível a mudança.
E assim foi. Enchi metade do depósito, pois a abastecer totalmente só depois de atravessar a fronteira, despedi-me da minha irmã e do meu cunhado na noite anterior e da minha mãe de manhã e fizemos-nos de novo à estrada naquele Corsa 1.0 mas desta vez numa viagem de ida e sem volta programada. Quando atravessamos a fronteira (na Galiza) parei o carro para contemplar Portugal e meditar naquilo que deixava para trás, nas décadas que passei naquele país e nas memórias que ali deixava. Como sentia uma crescente mistura de revolta, frustração e tristeza decidi não sacudir o pó das sandálias mas ao invés arrancar a queimar pneu.
Chegamos a Łódź três dias e meio depois, completamente exaustos (dormi 18 horas seguidas!) mas com esperanças renovadas. Emprego encontramos passado pouco tempo e entretanto como a Polónia tinha aderido à UE não foi difícil obter o visto de residência ou Karta Pobytu.
Estou perfeitamente integrado na sociedade polaca com as devidas nuances em virtude de várias opções de vida como por exemplo não querer ter religião e como tal não participar na vida religiosa que muitos polacos vivem fervorosamente. Talvez esta seja a parte em que menos me integrei. Acabamos por não casar pela igreja apesar das pressões da família (sobretudo da família polaca) e decidimos, tendo em conta o livre-arbítrio, que o baptismo das crianças deverá ser escolha delas no futuro e em plena consciência. Se quiserem seguir a religião católica são livres de o fazer.
Fim do primeiro capítulo.







