quinta-feira, 2 de abril de 2020

O mundo, Europa, Polónia e Portugal no Estado de Emergência (Covid19)


Cem anos atrás temia-se a Gripe Espanhola que havia começado em 1918 devastando o mundo ao longo de 1919 e 1920 quando, alegadamente, a estirpe mais perigosa do vírus cessou, junto com os que morreram dela. O Influenza mutou para um tipo tratável numa era em que a Aspirina ainda só estava no mercado, patenteada pela alemã Bayer, há vinte anos. Patente essa que se perdeu, no Tratado de Versalhes como recompensa pelos danos da Primeira Guerra Mundial.
Saltamos um século, estamos no início de 2020, e as semelhanças são, por vezes, aterradoras. Em cem anos a Humanidade evoluiu tecnologicamente para um nível nunca antes visto mas mesmo assim ainda continuamos à mercê da Mãe Natureza.

Algumas pessoas apercebem-se agora em como estavam viciadas em estarem ocupadas.

Mais de cinquenta milhões de óbitos foi o resultado da pandemia do vírus Influenza ou Gripe Espanhola - apesar de não ter origem nesse país da Península Ibérica - entre os anos de 1918 e 1920.
Entre o rescaldo do conflito mundial de 1914-1918 o mundo tinha de lidar novamente com mais mortes, de todas as idades, raças e escalões sociais, ninguém foi poupado sendo a tecnologia e tratamentos na época ainda básicos senão rudimentares. 
A Aspirina patenteada em 1899 pela firma alemã Bayer estava ainda no princípio e a descoberta da penicilina por o Dr. Alexender Fleming só seria revelada em 1928. O rádio ainda estava nos primórdios; nem vinte anos haviam passado desde as primeiras emissões radiofónicas  e o mundo ainda estava muito longe da denominada "aldeia global" que a Internet proprorciona.

1920 - foto digitalizada e colorida tirada durante a pandemia do vírus Influenza ou Gripe Espanhola.
2020 - Cem anos depois as semelhanças são surpreendentes com a exceção dos veículos e da tecnologia empregue na vestimenta conhecida como Hazmat Suit (uniforme Hazmat).

Quarentena em 2020

Ásia, Europa, Américas, África e Oceania tomam medidas para conter os contágios, uns países mais do que outros, líderes mundiais apelam ao bom-senso, uns mais responsáveis, outros irresponsáveis e por vezes energúmenos como o Presidente Jair Bolsonaro no Brasil ou o Presidente mexicano Andres Obrador, o primeiro com declarações como o Covid19 ser apenas um "resfriadinho" ou uma "constipaçãozinha" para a maioria das pessoas deixando ainda a nota que ele, sendo no passado um atleta, não sentiria sintomas caso fosse contaminado ao passo que Andres Obrador mostrava dois amuletos de cariz religioso que o protegem do vírus sendo mais tarde filmado a dar um passou-bem a uma idosa de noventa e muitos anos, mãe do El Chapo, um dos mais temidos traficantes de drogas mexicano...


O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro referia há pouco mais de uma semana que pela sua "condição de atleta" o Covid19 seria sentido por ele como um "resfriadinho", uma "constipaçãozinha" e que o país não terá necessariamente de tomar medidas de encerramento já que o que será necessário conter é a histeria em massa, culpando os mídia brasileiros pela mesma. Uma semana depois o discurso já é outro, mais moderado, face ao evoluir da situação de Pandemia no Brasil, um país que é praticamente um sub-continente com mais de 210 milhões de habitantes - cerca de metade da população da União Europeia (445 milhões).

"O coração de Jesus está comigo" diz Andres Obrador, o Presidente do México. Amuletos de cariz religiosos protegem as pessoas de todos os males, incluindo esta pandemia. 

A liberal Suécia, ao contrário do resto do continente europeu continua sem grandes ações de lockdown (estado de emergência) e só recentemente, no início de Maio, começam ações de prevenção após um número elevado de casos no país o que parece estar a enfurecer a população. Será este um caso de levar o "Politicamente  Correto" até níveis absurdos como prejudicar a própria população? Nas próximas semanas saberemos se o método sueco resulta ou não. 

Portugal

Portugal, "esse jardim da Europa à beira-mar plantado" e a "ditosa pátria minha amada" parafraseando respetivamente o poeta Tomás Ribeiro e Luís Vaz de Camões, gere a situação como a maior parte dos países europeus com a agravante de ter fronteiras com a Espanha que, neste momento, se encontra num estado gravíssimo de pandemia.


O Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa e o Primeiro-Ministro António Costa anunciaram uma extensão de quinze dias ao Estado de Emergência com efeitos ainda mais restritivos e punitivos entre casos de desobediência civil, negligência e exceções - como as feiras - e outros mais mediáticos como o caso dos passeios na Avenida dos Banhos na cidade costeira minhota da Póvoa de Varzim, ou as filas para atravessar as pontes que ligam a capital portuguesa aos destinos balneares dos lisboetas, entre outros casos de desleixo por parte de alguns portugueses que, felizmente, não espelham a maior parte dos meus concidadãos que entendem a necessidade de quarentena para reverter o cenário atual, o número de contágios e falecimentos. 

Polónia

Com uma população de 38 milhões de habitantes e mais 20 milhões em diáspora a Polónia foi dos primeiros países a entrar em lockout e a decretar Estado de Emergência com o fecho de escolas, creches, instituições e repartições públicas quando os números ainda estavam na casa das centenas, números esses que foram aumentando à medida que as semanas passavam, principalmente na capital Varsóvia e em Łódź, uma cidade que tem vindo a conhecer um crescimento exponencial nas multinacionais que procuram uma força de trabalho especializada e disponível a um custo relativamente baixo em comparação com outras cidades polacas como Cracóvia e Poznań.

Os estudantes polacos agora têm aulas através da Internet, o que viu as vendas de material informático dispararem em tempos de contenção e incerteza. Muitos professores de um tempo em que não haviam computadores e ainda com uma mentalidade algo cristalizada relativamente ao ensino, encontraram agora novos desafios. A informatização apanhou de surpresa pais, alunos e professores.

Do mesmo modo que o Covid19 alterou o sistema de ensino também obrigou muitas empresas, sobretudo corporações, a deslocalizarem os seus colaboradores para aquilo que em língua inglesa se denomina de Home Office (trabalho a partir de casa). Outras empresas tiveram de suspender atividades e mesmo dispensar pessoal. Nas fronteiras a Leste, com a Ucrânia e a Bielorrússia sobretudo, o movimento migratório aumentou a partir do momento em que determinada mão-de-obra não-especializada, feita por muitos imigrantes desses países foi dispensada. É notório um abrandamento da economia a atingir sobretudo os negócios familiares e as pequenas e médias empresas levando a uma outra muito provável crise, desta vez de cariz económico já que todos os indicadores apontam para uma recessão económica com as consequências nefastas que sempre acontecem quando a economia abranda e o desemprego aumenta exponencialmente.


As eleições de 10 de Maio

A Internet polaca nao perdeu tempo com memes de Jaroslaw Kaczyński

"Se a situação melhorar em finais de Abril - e as crianças regressarem à escola - não vejo motivo para cancelar as eleições" disse Bartlomiej Wroblewski um deputado do PiS, o partido no governo. Mais uma vez o partido no poder causa polémica e mesmo revolta entre a classe política e o eleitorado. As eleições de 10 de Maio deveriam ser adiadas por um ano tendo em consideração a pandemia que se vive neste momento.

A Polónia, por exemplo, apesar das medidas de emergência não é dos países com maior percentagem de testes realizados para determinar infeções com Covid19, os números atuais (em crescimento) e as cada vez mais restritas medidas de contenção dos contágios refletem precisamente a necessidade de evitar situações que potenciem o risco de haver mais casos, como seja a deslocação de pessoas para votarem.

O maior problema de haver deslocações às urnas (isto soa extremamente irónico nos tempos que correm) são precisamente os idosos, o grupo de maior risco do Covid19 que constituem também a esmagadora maioria dos votantes do PiS e leais seguidores de Jarosław Kaczyński e do seu partido, Lei & Justiça. Como tal foi sugerido o voto por correspondência já que a Internet não se apresenta como solução viável para os idosos polacos que, maioritariamente, não têm sequer uma ligação à rede ou mesmo um computador. Desse modo os emigrantes polacos deixaram no ar a questão de como se podem deslocar às urnas e formarem filas quando nos seus países de emigração estão em curfew (estado de emergência ou estado de sítio).
Ainda não há certezas de nada mas, como afirmou sobranceiramente o presidente Andrzej Duda; "se há condições para se ir ao supermercado, então também há condições para se ir as urnas".


Fotoblog




Merda em polaco nas traseiras do supermercado Netto. Alguém não parece estar conformado com a situação atual. 


Nos primeiros dias de Estado de Emergência o papel higiénico foi um dos primeiros produtos a desaparecer das estantes nos supermercados, um pouco por todo o mundo. Neste imagem, no supermercado Biendronka do grupo português Jerónimo Martins uma velhinha perdeu a oportunidade de ter o seu rolo de papel. Como na canção de Zeca Afonso"Os Vampiros - Eles Comem Tudo". E sim, eu tinha papel-higiénico em casa, não precisava de reforço... 

Se alguém se engana com seu ar sisudo

E lhe franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

Eles comem tudo eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada


Na semana seguinte os "vampiros" do papel-higiénico não precisavam mais e o stock havia sido reposicionado. Desde então não tem havido carência deste "novo ouro" nem uma explicação racional do motivo pelo qual em frente de um problema como uma pandemia muitas pessoas temem esvair-se em matéria fecal...


Os elétricos (conhecidos com Tram na Polónia) e os autocarros urbanos iam praticamente vazios. Na segunda semana foram higienizados todos os dias e os passageiros aconselhados a viajarem com uma distância de, pelo menos, dois assentos entre si.


Uma rua que costuma estar pejada de carros, a Ulica Fabryczna, onde centenas de trabalhadores do Global Delivery Center da Fujitsu e outras empresas estacionam os seus carros todos os dias, por vezes é mesmo complicado arranjar um lugar de estacionamento. Num dia da semana, apresenta-se vazia.


O vosso escriba numa selfie pouco elaborada à espera do táxi para (finalmente) levar o equipamento de trabalho para casa tal como milhares de outros na Polónia.






Nas padarias, lojas de conveniência 24/7 e farmácias os polacos começaram a manter distância entre si, um hábito que, para muitos estrangeiros que vivem neste país, já devem ter reparado parecer não estar muito enraizado devido à proximidade das pessoas entre si nas filas talvez em virtude do passado, durante o Comunismo, onde as filas eram cerradas para evitar aqueles que queriam passar à frente de outros num tempo de escassez de bens e nervos de aço esperando muitas vezes no frio gélido por algo que poderia esgotar rapidamente vindo para casa de mãos a abanar, triste e gelado.



Os editais na entrada dos prédios a avisar o perigo do Covid19 e os números de prevenção em caso de suspeita de infeção.


Áreas de recreio, lazer e exercício  fisico vedadas ao público são parte das regras de Estado de Emergência decretado por o Primeiro-Ministro Morawiecki. 

Vivemos um momento histórico no início desta década, uma experiência que terá certamente um antes e um depois da pandemia e que será recordada por muitos. Tempos difíceis avizinham-se perante uma mais do  que provável crise económica.
Estamos em confinamento, sem possibilidades reais de ter o estilo de vida anterior à epidemia, teremos de enfrentar esta nova realidade, não se sabe até quando.

Estamos mais do que nunca com tempo para refletir naquilo que realmente é importante nas nossas vidas e em companhia de alguém que negligenciamos muitas vezes, por estarmos demasiado ocupados com os outros, com o trabalho, com entretenimento e distrações materiais, muitas vezes temporárias. Esse alguém somos nós próprios. 



quinta-feira, 26 de março de 2020

Vida na Polónia durante a Pandemia do "Koronawirus SARS-CoV-2"


A História da humanidade conheceu imensas epidemias e pandemias, desde tempos imemoriais. Na antiguidade, no Império Romano, durante a Idade-Média, no Renascimento e na modernidade. Na Europa a Gripe Espanhola matou mais de 50 milhões no princípio do século passado e mais recentemente o vírus da SIDA (AIDS), Ebola, Gripe Suína, Zika e outros. O mundo agora abrandou, foi forçado a abrandar, com o Covid-19. 
A Polónia não é excepção na luta com o agora chamado "inimigo invisível" e com tudo o que por aí vem neste já atribulado ano de 2020...

Situação da Pandemia do Covid19 de acordo com o mapa da OMS (Situation Dashboard) em: https://experience.arcgis.com/experience/685d0ace521648f8a5beeeee1b9125cd


Ano Novo, Vida Nova! Ergueram-se as taças e fizeram-se desejos para o novo ano e para a nova década, os anos 20, entre o ruído do fogo-de-artifício nas ruas. Enquanto isso na China as notícias de um surto epidemico passavam nos noticiários mas era lá, na China, longe de nós. Parece que os chineses andavam a comer sopa de morcego na cidade de Wuhan, província de Hubei e um vírus mortal, denominado Corona, matava milhares. Observamos com admiração levantarem um hospital em poucos dias convictos que, porventura, tal infortúnio, não chegaria ao Ocidente. 

No entanto chegou rapidamente tendo o surto sido primeiramente registado na região da Lombardia em Itália, um país lindíssimo e pejado de turistas. todos os meses do ano. A situação agora é, como todos sabemos, grave, declarada como Pandemia pela Organização Mundial de Saúde  A História parece repetir-se, tal como a Peste-Negra, proveniente das pulgas de ratazanas vindas da Ásia em barcos do comércio da Rota da Seda, alastrando-se a partir de Veneza para o resto da Europa. 

Ao contrário dessa pandemia da Peste-Negra, que não afetou a Polónia (também Milão e o território onde hoje temos Andorra) por vários factores; desde o fecho das fronteiras naquela época do reinado de Kazimierz III Wielki, passando pela numerosa comunidade judaica, avançada em medicina e também pelo facto de terem poupados os gatos que, no resto da Europa Católica, foram dizimados por serem considerados pela prepotente Santa Inquisição como a encarnação de Satanás quando eram os animais que controlavam a população de roedores. 

Neste momento, dia 26 de Março de 2020, a situação epidemiológica na Polónia é de 901 infetados, 158 dos quais na região adminstrativa de Łódź (onde me encontro) e dez óbitos registrados. 

Entrevista de Mateusz Morawiecki com Richard Quest para a CNN International 

O governo polaco foi, ao contrário de outros países europeus, rápido a agir encerrando escolas, creches, repartições públicas e o comércio (excepto o que abastece a população com bens de primeira necessidade) sendo as fronteiras fechadas apenas se abrindo exceções  aos pesados - são dezenas de quilómetros de filas devido ao encerramento do Espaço Schengen. Muitas empresas e corporações tiveram de se adaptar e por em prática a deslocação dos seus colaboradores (aqueles sem portátil ou com funções que incluam telefone fixo) para o domicílio em ações de emergência, até antes impensáveis por questoes técnicas provando que de facto a necessidade aguça o engenho... 

Mais recentemente o Primeiro-Ministro polaco, Mateusz Morawiecki, anunciou novas medidas para conter os contágios (crescentes) tentando assim mitigar a pandemia em território polaco:

O Estado de Emergência entretanto posto em prática impõe a quarentena a todos os cidadãos com algumas exceções:

1 - Deslocações para o trabalho.

2 - Lidar com assuntos necessários ao quotidiano (comida e artigos de higiene, visitas à farmácia  e/ou médico; assistência a familiares, passear o cão e, se for o caso de ter um negócio, deslocações para bens e serviços relacionados com a actividade comercial.

3 - Actividades voluntárias para debelar a ameaça do Vírus Corona.

4 - Participação em cerimónias religiosas (máximo de cinco fiéis no templo) e restrição de movimentos em parques, áreas de recreação ou em grupos com mais de duas pessoas (excepto familiares ou parentes que vivam juntos).

5 - Estas restrições não se aplicam ao local de trabalho onde os empregados devem seguir as regras de higiene e segurança no trabalho.

6 - Transportes públicos - funcionam mas apenas com metade dos passageiros da capacidade normal.

Estas regras foram extendidas até ao dia 14 de Abril notando-se um aumento das patrulhas nas ruas. Uma nota para as cadeias de supermercados, incluindo o Biedronka do Grupo Jerónimo Martins, que não parece ter os seus empregados devidamente protegidos excepto por alguns deles usarem luvas de latex. Nada de máscaras para quem está num espaço confinado onde entram centenas, senão milhares de pessoas, todos os dias.

A situação continua a evoluir e ainda não se sabe quando a Polónia irá atingir o pico da pandemia ou quando a curva de infetados baixará.

Ate lá e para quem pode, fique em casa o mais possível e um grande, do tamanho do mundo, bem-haja para todos os profissionais de saúde que lutam diariamente com o "inimigo invisível".











domingo, 29 de dezembro de 2019

Os "Anos 20" e Caleidoscópio - Polónia 2019


Chega ao fim mais uma década e a mudança do século XX para o XXI completa nada mais, nada menos que vinte anos... vinte! Números redondos que marcam eras passadas trazendo à memória a conhecida frase " a inexorável marcha do tempo" que se sente (e bem) na pele para quem, como o vosso escriba, nasceu nos princípios dos anos 70 do século passado. 

2019 foi um ano prolífico em eventos na Polónia; uma escritora polaca (Olga Tokarczuk) ganha o prémio Nobel da literatura, ano de eleições para o Sejm (Parlamento) onde, sem grandes surpresas, o partido conservador PiS continua por mais quatro anos o seu mandato com 43% das intenções de voto, apesar dos protestos e convulsões sociais como a greve dos professores, marchas diversas como a Marcha pela Igualdade organizada na cidade de Białystok pelo LGBTQ, onde se registaram episódios de violência, as contra-reações e impulso cada vez mais sentido de grupos nacionalistas associados a ideais de Extrema-Direita e também o Mundial de Futebol U-20 FIFA que teve lugar neste país. 



Creio que a memória mais recuada que tenho será do ano 1976 ou 1977, em São João do Estoril. A tecnologia mais avançada nessa época seria os então relativamente recentes, gravadores de cassette audio com microfone. Frente ao Rés-do-Chão onde moravamos os carros estacionados tinham quase todos (excepto os Renault 5) para-choques cromados com escudetes - uns elementos em borracha que teoricamente protegiam os carros de pequenos impactos, o telefone era o clássico modelo de discar com um toque de campainha capaz de despertar o prédio inteiro.



As calças boca-de-sino, camisolas de gola-alta em lycra, golas de camisa e gravatas largas e berrantes, a moda das patilhas, cabeleira farta e óculos de massa em tamanho XL eram a moda. A televisão ainda era a preto-e-branco e havia apenas um canal, a RTP 1 que fechava cedo, pouco depois do jantar, emitindo durante algumas horas a mira-técnica e um "piiiiip" contínuo e perturbador que, alegadamente, servia para acordar alguém caso adormecesse deixando o televisor ligado. Foram tempos complicados com o êxodo dos pais de Angola, o reiniciar uma vida nova em Portugal e toda a instabilidade política pós-25 de Abril. 

Entramos sem dar conta na década de 80, já em Vila Nova de Famalicão onde viria a crescer, sou por isso um famalicense adoptado mas convicto, afinal quando me perguntam "de que parte de Portugal é" (se não me apanharem por alguma entoação nortenha) a resposta é,  invariavelmente, "Minho, Vila Nova de Famalicão". Nasci em Lisboa mas foi apenas isso...

Mário Soares assina a entrada de Portugal na então CEE em 1985. A Península Ibérica passa a fazer parte do mapa da comunidade europeia.

Os anos 80 trouxeram outras modas, cores berrantes nos tons rosa, amarelo, azul bebé e púrpura substituindo a "piroseira" da década anterior por outra... Os carros passam a ser mais plastificados, pensados em economia e praticalidade como o Fiat Uno ou o Peugeot 205. Portugal desenvolvia-se no torvelinho deixado pela revolução dos cravos e o vácuo da perda dos terrenos ultramarinos, enfrentando a morte de um Primeiro-Ministro e comitiva num mal explicado "acidente de aviação" - que ocorreu no dia do meu aniversário a 4 de Dezembro de 1980. Bastariam apenas mais cinco anos para Portugal aderiar à entao CEE (Comunidade Económica Europeia).

O panorama musical melhorou (e muito!) com canções que ainda hoje são populares, cantores e bandas como Michael Jackson, Madonna, Tina Turner, Freddy Mercury e os The Queen, Duran Duran, Frankie Goes to Hollywood, Europe e tantos, tantos outros que se reúnem num evento musical apenas comparável ao de Woodstock em 1968, o concerto Live Aid em 1985.
Os computadores Atari os Apple Macintosh de Steve Jobs, os salões de jogos eletrónicos Arcade, os primeiros micro-computadores para jogos como os Timex ZX Spectrum, são prova da revolução que está a começar e que transformará a sociedade na próxima década e no próximo século para algo comparável quando muito à Revolução Industrial no século XIX.


No final da década os regimes Socialista-Comunistas em países da Europa de Leste e Central caiem um por um até à derrocada da URSS. O colapso do Muro de Berlim simboliza o fim de uma era dando lugar a uma nova ordem mundial para a década seguinte.

World Wide Web, Microsoft, Windows, Internet e email são palavras que entram no quotidiano para aqueles que vivenciaram os anos 90. Nada será como dantes e ninguém consegue imaginar como o novo século que se aproxima a passos largos trará tecnologia e novidades que transformarão a sociedade, para o bem e para o mal. Os telefones passam a ter botões e sons eletrónicos, são cada vez mais compactos e a portabilidade cada vez mais necessária, surgem os telemóveis e novo vocabulário como SMS  e MMS. O século XX chega então ao fim, 100 anos que viram duas guerras mundiais devastadoras, o advento da Era Atómica e conflitos entre nações, ideais políticos e estratégicos que dividem o mundo em duas esferas de influência, um século que não acabaria sem uma ameaça de catástrofe, o "bug do milenio" que se revelaria apenas um susto... 



O dealbar do novo século 

Século XXI. Os anos 2000 que foram tão imaginados em romances e filmes de ficção científica  chegaram sem carros voadores, robos empregada-doméstica ou mordomo, naves intergalacticas, bases lunares ou invasões de extraterrestres mal intencionados, em vez disso seria o começo do New American Century e de algo muito sinistro a ocorrer em Setembro de 2001 com o evento que ficará conhecido como 9/11 dando azo a um novo termo que nasce com a liberdade de expressão proveniente da Internet, as "teorias da conspiração" assim que muitos "internautas" (outro neologismo) analisaram e esmiuçaram os acontecimentos acusando o Pentágono de permitirem este ataque ao estilo operação de bandeira falsa.

O novo século começa com a guerra do Ocidente ao terrorismo islâmico, com a fraude das armas de destruição maciça que nunca seriam encontradas no Iraque, com a remoção de líderes do mundo árabe com Sadam Hussein (2003) e Muhamar Gadaffi (2011) na Líbia, um erro - propositado ou não - no caso do último já que seria o princípio de uma crise humanitária sem precedentes com o êxodo de migrantes económicos e refugiados de guerra para a Europa na década seguinte. 
A China mostra-se cada vez mais como um gigante conquistando  o mundo economicamente, a etiqueta Made in China impõe-se em quase todos os produtos que o mundo capitalista produz.



Steve Jobs anuncia o iPhone 1 em 2007 dando início a uma revolução não apenas tecnológica mas social.

A era dos Smartphone inicia-se com força a partir do iPhone 1 da Apple, um telemóvel que é ao mesmo tempo telefone, computador e câmara dando lugar pouco depois aos sistemas operativos rivais Android e Windows Phone.

O tempo, esse, parece cada vez mais escasso assim que aparecem as chamadas redes sociais sobretudo o Facebook em 2004 e o YouTube em 2005. Entramos na era das aplicações para tudo... para socializar, para cuscovilhar a vida alheia, para encontrar amor, sexo, amizade, grupos de suporte, grupos políticos, de interesse, grupos de ódio, religiosos, ateístas, homossexuais, místicos, ocultos e tudo o mais que fica ao resto da imaginação. A noção de privacidade é discutível enquanto se partilham fotos de momentos na vida, de ideias e opiniões. Tudo identificado, rotulado e compartimentalizado, tornamo-nos uma espécie de ciber-criaturas no dito mundo civilizado enquanto os contrastes entre quem tem tudo e quem nada tem são cada vez maiores. 

Entraremos numa nova década, nos anos 20 que prometem ainda mais tecnologia e evolução nas tecnologias de informação com o desenvolvimento de algoritmos de Inteligencia Artificial, uma mais que provável Espada de Damocles que ameaça eminentemente muitos empregos hoje em dia feitos por humanos. Os carros não voam como se previa em filmes populares como Back to the Future mas passam a ter condução autónoma e o motor a explosão gradualmente é substituído por o motor elétrico. Uma nova Era Espacial parece aproximar-se no horizonte com missões planeadas à lua e a Marte. 
Entretanto o nosso habitat natural degrada-se com níveis de poluição gritantes, no ar, no mar, na terra entre discussões maioritariamente infrutiferas sobre a plausabilidade de existir aquecimento global ou não.


Caleidoscópio - Polónia 2019

Odiado por uns, amado por outros o líder do PiS teve um bom ano de 2019 somando vitórias e membros do seu partido no Sejm polaco depois de umas eleições rodeadas de tensão - e expectactivas.

Já muito foi dito aqui sobre a vitória do PiS e sobre o controle que o partido conservador exerce na Polónia, seria portanto redundante mencionar ad nausea tópicos passados. No entanto é de assinalar a declaração de 7 de Dezembro do Supremo Tribunal da Polónia: 

"Contradições entre a lei polaca e da UE [...] irão muito provavelmente levar a uma intervenção por parte das instituições da UE naquilo que diz respeito ao infrigimento dos tratados da UE e (levará) a longo-prazo à necessidade de deixar a União Europeia"

As possiveis consequências da arrogante agenda de Jarosław Kaczyński em alterar a constituição e a organização judicial parecem direcionar este país rumo a um futuro incerto onde a eventual expulsão da UE teria consequências gravíssimas para a estabilidade económica e política deste pais da Europa Central. Tal como o Feiticeiro de Oz por trás da máquina, do poder está um homunculo, covarde, com pouca argumentação. 

Olga Tokarczuk



A escritora, intelectual e ativista polaca recebeu em 2019 o prémio Nobel da Literatura de 2018 em reconhecimento pela "imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o atravessar de limites como forma de vida".

Tokarczuk junta-se assim a outros laureados polacos como Henryk Sienkiewicz (1905), Władyslaw Reymont (1924), Isaac Bashevus Singer (1978), Czesław Miłosz (1980) e Wisława Szymborska (1996).
Rodeada de controvérsia no seu próprio país fruto do seu ativismo pela causa ecológica e feminista a autora enfrentou sempre com serenidade os seus antagonistas sobretudo os que a acusam de não ser patriota e manifestar-se anti-cristã ou seja, não fazer apologia dos valores que a Igreja Católica e o PiS consideram como fundação da nação polaca e a essência de se ser polaco.

Em Portugal podemos encontrar em língua portuguesa títulos como "Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos" e "Viagens". Boas leituras!


A greve dos professores em 2019



Um protesto forte por parte dos sindicatos de professores polacos parou o ensino no princípio de Abril, duas semanas em que as escolas fecharam em protesto por um aumento de 250€ (1000 PLN) nos salários (um professor em início de carreira pode receber limpos de impostos 550€ o que atualmente não fica muito longe do salário auferido por um caixa no Biedronka ou no Lidl).

O governo não cedeu e a greve não surtiu o efeito desejado. Entre acusações por parte de membros do governo em que literalmente acusaram os sindicatos de usarem "táticas  Nazi", de (mais uma vez o discurso insuportável e gasto) importarem ideias do estrangeiro, ideias anti-cristãs trazidas pela comunidade LGBTQ, de serem contra os valores de família, cristãos sugerindo arrogantemente que os professores podem, eles também, ter filhos e pedirem o subsídio 500+. Entretanto os sindicatos faziam o possível para que o governo entendesse que se há dinheiro para subsídios para os pais de crianças em idade escolar, para os agricultores e pensionistas (receberam quantias substanciais do governo em ano de eleições que somaram 2,5 bilhões de Euros) também haveria margem para aumentar os professores. A luta ficou adiada e a re-eleição do PiS promete mais luta em 2020.

FIFA Sub20 na Polónia 23 de Maio - 15 de Junho

Provérbio português: "de boas intenções o inferno está cheio" o que significa que se pode prometer muito e não dar nada acabando assim com o Diabo a picar-nos as nádegas com o garfo deixndo-nos, entre outros, em companhia de imensos membros do clero para toda a eternidade... 
Isto para dizer que não posso falar sobre o Sub20 na Polónia; por vários motivos... Porque sou uma exceção à regra dos portugueses pois nao costumo seguir futebol - fora o Europeu e Mundial - e porque de facto mal me recordo deste evento ao ponto de ter ido ao Google ver quem foi o vencedor (parece que foi a Ucrânia). 

Mais informação no site da FIFA: 

E assim me despeco desejando a todos os meus leitores um feliz e próspero ano novo e que a próxima década seja uma de realizações e progresso seja em que campo ou vertente da vida for.

Um grande bem-hajam!

















segunda-feira, 14 de outubro de 2019

4+ Cztery Plus (mais quatro) - Vitória indiscutível do PiS de Jarosław Kaczyński


A Democracia polaca ganhou as eleições parlamentares de ontem, 13 de Outubro, com uma frequência de 61,74%, mais uma vez com a vitória do PiS de Jarosław Kaczyński - este foi o grande vencedor na noite de eleições - com 43,6% das intenções de voto seguido do KO (Coligação do Cidadão) com 27,4%.

As reacções não se fizeram esperar por parte da oposição com promessas de combaterem por todos os meios o partido que agora estende por mais quatro anos o seu poder e agenda política. Os resultados diferem radicalmente dos grandes centros urbanos para a Polónia rural onde o PiS capta o seu eleitorado. 

O discurso da vitória foi dado por a figura de proa do partido Verdade & Justiça, o irmão gémeo sobrevivente e arqui-rival de outra figura de craveira na história contemporânea polaca, Lech Wałęsa com o qual pretende disputar um lugar na história deste país ainda que saiba que nunca terá o Nobel da Paz. Kaczyński afirmou que "mereciam mais" mas que "ganharam apesar de uma forte oposição".

Nas ruas polacas não se sentiu nenhuma particular manifestação de alegria mas sim a conformidade, o que parece revelar uma aceitação da decisão pública.




Ser democrata é aceitar que a escolha não é sempre aquela que desejamos e que nesse caso fazer oposição é claramente a única saída possível, ou isso ou deixar o país para outras paragens...




domingo, 13 de outubro de 2019

A importância fulcral das eleições de 13 de Outubro na Polónia

13 de Outubro de 2019, um Domingo solarengo de Outono, 14 graus e um vento fresco que tenta arrancar as folhas amarelas e ruivas das árvores que, teimosamente, ainda estão agarradas aos ramos mas que não vão ganhar a batalha com o Inverno que se aproxima a passos largos.
 É dia de eleições para o Sejm polaco (parlamento), provavelmente as eleições mais significativas desde aquelas que deram a este país na Europa Central a Democracia em 1989.

 Mais do que uma eleição este dia é uma batalha eleitoral não pela derrota do PiS (Verdade & Justiça) de Kaczyński que praticamente é inevitável mas para impedir o partido no poder de obter maioria absoluta.



A oposição mais forte vem do PO (Plataforma do Cidadão) de Donald Tusk seguido do partido de Esquerda SLD (Aliança Democrática de Esquerda), disputam também estas eleições o partido dos Verdes com a possibilidade de elegerem pela primeira vez um deputado numa Polónia onde o carvão  - e o seu loby - é Rei e ainda partidos de cariz  nacionalista e xenófobo como o de KORWiN (Coligação para a Renovação da República).

As sondagens dão o PiS como o grande vencedor com uma forte possibilidade de obter maioria absoluta enquanto a oposição, nomeadamente o PO, se situa entre os 22 a 24% das intenções de voto. 

Os benefícios atribuídos pelo PiS, nos últimos quatro anos, como o programa de subsídio para crianças - 500+, o 300+ ou Dobry Start de apoio financeiro para o início do ano escolar para todas as famílias e estudantes, livros escolares gratuitos e isenção de impostos para jovens até aos 23 anos têm um peso importante nesta vitória aliado ao discurso - apelidado de populista pela oposição e imprensa estrangeira - a apelar aos valores enraizados em grande parte dos polacos como aqueles defendidos pela Igreja Católica, a preservação das famílias cristãs, o patrotismo e a luta pela identidade nacional contra uma União Europeia manifestamente desagradada com o rumo político do PiS (comandada pela Alemanha) e ideias tidas por este partido conservador como progressistas estrangeiras que defendem a diversidade e a inclusão de grupos como a comunidade LGBT+ e a aceitação de refugiados de fé islâmica provenientes de zonas de guerra no Oriente Médio. 

A contagem dos votos termina hoje às 21 horas (20 horas em Portugal) sendo o apuro final contabilizado na Segunda-Feira. 




quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A morte de Paweł Adamowicz expõe o canal estatal polaco TVP como uma espécie de KCNA

O assassinato a sangue frio do autarca de Gdańsk, Paweł Adamowicz, a 14 de Janeiro de 2019, na final do espetáculo da WOŚP (Grande Orquestra de Caridade Natalícia) expõe claramente o que tem vindo a ser observado, escrito, reportado, divulgado e inclusivamente repreendido (pela Comissão Europeia); Os média estatais polacos estão sob absoluto controlo do partido no poder, o PiS (Lei e Justiça), numa cavalgante censura, mascarada de informação, num nível nunca antes visto, a relembrar - dizem muitos polacos - os tempos obscuros e deprimentes da PRL ou República Popular da Polónia, onde o sistema Socialista-Comunista procurava controlar todos os aspectos da vida dos seus cidadãos.

Paweł Adamowicz, Presidente de Gdańsk de 1997 até 2019; vítima de um brutal e completamente injustificado ataque à integridade física, não sobreviveu aos ferimentos apesar dos esforços médicos. Viveu 53 anos, deixa viúva Magdalena Abramska e duas filhas menores, Antonina com 15 anos e Teresa com 9.

Já muito se escreveu e noticiou sobre a morte do Presidente da Câmara da cidade costeira que viu nascer o sindicato livre Solidariedade. O assassinato brutal e despropositado de Paweł Adamowicz foi notícia por todo o mundo e teve repercussões muito além das fronteiras da Polónia, portanto acerca disto não há muito mais a acrescentar. Porém tudo o que ocorreu entre o fatídico dia e o funeral de Adamowicz - um evento nacional com direito a três dias de luto - foi noticiado de modo completamente distinto no que diz respeito aos média deste país na Europa Central.

É certo e sabido que todos os meios de informação sob a alçada de qualquer Estado estão inevitavelmente sujeitos a serem instrumentalizados, como é o caso de Portugal e da RTP que foi fundada pelo Estado-Novo de Salazar e posteriormente administrada numa autêntica "dança de cadeiras" entre os partidos que foram intercaladamente formando governo desde 1974. Igual situação ocorre na BBC, TV Globo,  TVE em Espanha, France TV etc.
A Polónia não é excepção e o canal estatal TVP (Telewizja Polska) com todos os seus estúdios nas grandes urbes, como a TVP3 Warszawa, TVP3 Łódź, TVP3 Gdańsk, TVP3 Wrocław, TVP3 Poznań, TVP3 Białystok etc, emite diariamente em três canais: o TVP1, TVP2 e os já mencionados TVP3, mais os canais de especialidade como os de desporto, história, cultura, infantil entre outros. 

As jocosas comparações entre o canal TVP e a estação televisava norte-coreana KCNA. A actual pivot do noticiário estatal Danuta Olecka semelhante à apresentadora da Coreia do Norte, Ri Chun Hui.


O canal TVP Info (de notícias) emite 24/7 sendo o principal serviço noticioso, desde 1989, quando a Polónia se tornou uma Democracia. É denominado de "Wiadomości" ou seja, Noticias. É aqui que mais se nota a carga da agenda política do PiS. A perda galopante de qualidade jornalística, de imparcialidade é tal que surgem inúmeros memes comparando a TVP ao canal Norte Coreano KCNA, como estando a imitar as táticas do Ministro da Propaganda Nazi, Joseph Goebbels ou simplesmente como uma enorme palhaçada. Um canal televisivo que cada vez mais se aproxima dos pilares ideológicos do partido de Kaczyński, uma quase-réplica do tão salazarista Deus, Pátria e Família que foi derrubado pela Revolução dos Cravos há quase 50 anos. 

Um filme que não passa na televisão há muito tempo; O Dwóch Takich, co Ukradli Księżyc (Os dois que roubaram a Lua) com os irmãos gémeos como principais personagens, um filme de 1962 realizado por Jan Batory.

A agenda política do PiS, onde a cabeça do polvo são os fundadores, os irmãos Kaczyński, de braço dado com certas figuras proeminentes e influentes da Igreja Católica polaca (note-se que muitos católicos polacos e clero não apoiam este partido) e da Polónia conservadora da Direita cristã, espalha-se assim, ao sete-ventos, diariamente, cortanto a eito tudo o que não lhes convém noticiar ou simplesmente não faz parte das suas ideologias. Quaisquer referências ou acontecimentos respeitantes a minorias, emigração, comunidade gay, laicismo, União Europeia, instituições ecológicas independentes, racismo e intolerância - crescente na Polónia - e diversidade passam a ser não-notícia, são distorcidos ou passam como nota de rodapé. Os próprios programas televisivos, desde as novelas, passando pela escolha de filmes, séries televisivas, debates e documentários são escolhidos a dedo, havendo uma cada vez maior divulgação, por vezes ad nausea, de programas sobre a história da Polónia relembrando os horrores que a nação polaca sofreu ao longo da sua vasta e trágica linha temporal.

O cortejo fúnebre nos históricos estaleiros de Gdańsk

O funeral de Paweł Adamowicz foi um evento histórico para todos os efeitos, juntou milhares em  Gdańsk - perto de 50.000 almas - desde populares até figuras públicas, políticos de todos os quadrantes, celebridades e representantes de Estado e da União Europeia. Já não se via tal desde os funerais das vítimas do desastre de Smolensk em 2010. 

As exéquias fúnebres, desde a missa celebrada em câmara-ardente até ao funeral propriamente dito foram transmitidas pelos principais canais televisivos, especialmente o rival TVN24, em direto. Numa inusitada, mas não surpreendente transmissão, o canal estatal TVP, cortou propositadamente os momentos vividos dentro da histórica basílica medieval de Santa Maria onde, entre muitos, estavam inúmeros líderes e membros da oposição e do Senado mas também arqui-inimigos de Kaczyński, como Lech Wałęsa (onde escandalizou mais uma vez ao usar uma t-shirt onde se lia Konstytucja), Donald Tusk e o ex-Presidente Aleksander Kwasniewcki. O descalabro foi tal que a filmagem só era retomada quando algum político do PiS, o Primeiro-Ministro Mateusz Morawiecki ou o Presidente Andrzej Duda cumprimentavam a viúva, as filhas do falecido ou membros do clero. 

O canal televisivo tem um novo logótipo de acordo com os internautas polacos... 


Como os tempos são outros, apesar de alguns indivíduos cristalizados e obedientes na TVP pensarem à antiga, a Internet polaca foi rápida e eficaz em captar e divulgar nas redes sociais o "contraste". Vídeos no YouTube mostram claramente a homenagem prestada na basílica, transmitida por canais privados, enquanto a TVP mostrava grandes planos de Gdańsk ou um conveniente close-up da multidão em frente do edifício religioso na tentativa de demonstrar que o acontecimento foi de menor importância...


A Orquestra de Caridade e o PiS

A decisão política, desde sempre, do PiS em não apoiar a Grande Orquestra de Caridade Natalícia, devido sobretudo ao facto desta instituição ser privada, laica e independente do Estado, baseada na idéia e trabalho árduo de Jerzy Owsiak, o homem dos óculos vermelhos, está alinhada com os sectores e círculos mais conservadores da Igreja Católica, que suportam instituições como a Caritas e outras afiliadas ao catolicismo. Nesse sentido toda a organização do evento (abreviado como WOŚP) a nível de segurança é baseada em contratos com firmas privadas e não com a polícia que, nos dias de recolha de contribuições, praticamente não se vê, apesar da aglomeração de pessoas nas ruas, centros comerciais e concertos musicais onde cada cidade vai contar a quantia recolhida ao fim do dia. 
Foi nesse ambiente de festa onde a segurança é mínima que o assassino de Paweł Adamowicz, um agressivo cadastrado e assaltante, teve a oportunidade de se dirigir na direção do presidente, empunhar, entre a multidão, uma faca, subir ao palco e desferir inúmeros golpes para ainda ter tempo de agarrar no microfone justificando o seu acto como vingança por alegadas torturas que o partido PO (Plataforma do Cidadão) lhe impôs, partido esse que foi em tempos o de Adamowicz, antes de este se tornar independente. O Po é por excelência o principal opositor dos conservadores cristãos. 

Voluntárias e voluntários do WOŚP com as tradicionas latas para recolha de fundos onde cada contribuição dá direito a um autocolante em forma de coração com os dizeres Wielka Orkiestra Świątecznej Pomocy.



Neste vendaval e sob enorme pressão o fundador do WOŚP e celebridade polaca, Jerzy Owczak, demite-se do seu cargo provocando uma enorme onda de solidariedade que o levou a aceitar novamente os comandos da instituição, volvida uma semana, enquanto, a pedido da viúva do presidente falecido e alegadamente do próprio antes de falecer, uma recolha de fundos intitulada "vamos ajudar a encher a última latinha do presidente para o WOŚP" para a causa da Grande Orquestra tendo atingido hoje, dia 23 de Janeiro, quase 16 milhões de Złoty (3 milhões e 700 mil Euro) que se vão juntar aos quase 100 milhões de Złoty (23 milhões de Euro) recolhidos pelos voluntários.

Foram, no entanto, as palavras de um amigo pessoal de Adamowicz, o Frei Ludwik Wisniewski, que mais impressionaram:

"Não podemos ficar indiferentes ao espalhar do veneno do ódio nas ruas, nos meios de comunicação social, na Internet, nas escolas, no parlamento e também nas igrejas", relembrando aos presentes a notória ausência de Jarosław Kaczyński "Uma pessoa cheia de ódio, que construiu a sua carreira baseada na mentira, não pode sustentar posições destas no nosso país e vamos certificar-nos disso".

A ovação foi longa mas todos os apelos na missa a pedirem o fim do discurso do ódio e manipulação dos média não passaram na TVP... 



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Caleidoscópio - Polónia 2018



2018 chega ao fim e, a passos largos, caminhamos para o fim de mais  uma década, os anos 20 estão aí à porta, sem a revolução do Jazz como no século passado mas certamente atribulados. Na Polónia o ano foi abundante em batalhas políticas e na continuidade da "PiSificação" do país no ano em que se celebrou o centenário da independência no final da I Grande Guerra em 1918, uma data "redonda", celebrada com pompa e circunstância mas onde faltou a presença de uma conhecida figura da Polónia moderna, Lech Wałęsa, o arqui-rival de um dos homens mais odiados (mas também amado por alguns) da Polónia, Jarosław Kaczyński. Resta pois um ano para as eleições do "Sejm" polaco em Novembro de 2019 que se prevêm serem pouco favoráveis aos conservadores depois da derrota do PiS nas autárquicas, sobretudo nas grandes áreas urbanas.


Campos de concentração polacos é algo que não se deve dizer na Polónia sem consequências legais depois de aprovada uma lei para penalizar - e alegadamente repor a verdade histórica - a quem não menciona que os ditos foram alemães, construídos durante a ocupação do território pelas forças do Terceiro Reich. A lei e a interpretação toca também todos os que insinuarem ou afirmarem que os polacos tiveram cumplicidade ou participação ativa no extermínio dos judeus durante os anos da guerra o que obviamente se reveste de uma grande polémica pela questão dos "Pogrom" ou "caça aos judeus" que envolveu não apenas os invasores mas também os nativos da Polónia e da Ucrânia, na altura URSS. Uma questão abordada pelo autor português João Pinto Coelho no romance Os Loucos da Rua Mazur, o qual foi criticado veementemente  nalguns círculos polacos inclusivamente pelo embaixador da Polónia em Portugal.

O calendário de "proibição" ao comércio aos domingos - com a cruz os dias em que o mesmo está encerrado.


Na senda da "PiSificação" do país e da cada vez mais etérea separação dos poderes do Estado e da Igreja, o comércio passou a ser proibido (dizem regulado) aos Domingos. Num mês abre uma ou duas vezes consoante o calendário estabelecido ainda que as lojas de venda de álcool e algumas cadeias de lojas de conveniência - como o Żabka - abram nesses dias.
O domingo é dia santo e de descanso para os católicos e a Igreja parece ter ficado satisfeita com a decisão do governo - ainda que o mundo não tenha terminado, apesar dos protestos dos patrões e da maior movimentação nas grandes superfícies e supermercados ao sábado nas vésperas dos domingos de encerramento do comércio.
Pessoalmente tive de ir ao tal Żabka num domingo, numa ocasião por não  ter mais açúcar e noutra porque se me acabou o sal...

E à medida que o Inverno - pouco castigador em 2018 - chegava ao fim o governo anunciava a inauguração do monumento às vítimas do desastre de Smolensk em 2010, mesmo ao lado do túmulo ao soldado desconhecido na Praça Józef Piłsudski, no coração da capital, Varsóvia. O monumento apresenta-se como umas escadas a evocar as escadas de acesso ao Tupolev presidencial e, claro está, as que levam ao céu. Pouco depois colocaram ao lado deste uma estátua a Lech Kaczyński, falecido no desastre de Smoleńsk, o que causou, mais uma vez, polémica e o desagrado com comparações ao culto da personalidade das dinastias coreanas ou mesmo de líderes dos odiados comunistas como Nicolae Ceausescu, Estaline ou Lenine. Aliás é de assinalar a proliferação de estátuas ao falecido, que o actual presidente comparou a uma das maiores figuras da história da Polónia depois do Marechal Piłsudski (sic). Recentemente uma foi inaugurada uma no coração do Solidariedade (e cidade onde  reside Wałęsa) em Gdańsk.


Lech Kaczyński e a primeira-dama da Polónia jazem em Wawel - correspondente ao Panteão Nacional português ou Panteão da Pátria no Brasil - o que causou indignação em muitos círculos intelectuais e da oposição e, a adicionar a esta tensão,  dois novos monumentos são erigidos mesmo ao lado do memorial ao soldado desconhecido, um ao desastre de Smolensk em 2010 e outro, mais recente, ao falecido presidente que, de mão no peito comtempla o memorial dedicado ao evento que o partido PiS considera como um complô da Rússia para liquidar a liderança da Polónia enquanto para outros terá sido a atitude do próprio Kaczyński a contribuir para o trágico desfecho do que seria um dia de celebração e homenagem às vítimas das execuções de Smolenk durante a II Grande Guerra. 


Em Abril o novo Acordo do Supremo Tribunal entra em vigor estabelecendo que sob decisão presidencial os juízes passam automaticamente à reforma (aos 65 anos) excepto aqueles apontados pelo presidente eleito. Uma medida que em quase trinta anos de Democracia não tinha sido tomada.
O Supremo Tribunal de Justiça é um dos pilares do sistema democrático polaco no entanto, Kaczyński e o seu partido, estavam determinados em mudar o rumo da História e ficarem na mesma ao "limparem" o sistema de alegados resquícios perniciosos dos tempos da República Popular da Polónia ou PRL (Polska Rzeczpospolita Ludowa) nem que para isso tivessem de modificar a constituição o que foi considerado pela oposição como anti-democrático, caça às bruxas e paranóia do cabecilha do partido cuja reputação parece andar pelas ruas da amargura e sofrer de alegada oposição interna apesar de nos média estatais a imagem deste e do seu falecido irmão serem frequentemente exaltadas quer na sua influência para o colapso do comunismo e fundação do Sindicato Livre Solidariedade quer na modernização e futuro da Polónia na UE e no mundo, nas noticias, em debates políticos e em documentários "à la carte" nos meios de comunicação estatais e naqueles filiados aos conservadores e religiosos...

O símbolo da defesa da constituição (Konstytucja) que Wałęsa mostrou numa t-shirt durante o mediático e algo patético processo judicial levantado por Jarosław Kaczyński contra o mítico e nobelizado sindicalista.



Tal como mencionado no post anterior deste blogue celebraram-se os 100 anos da independência da Polónia depois de 123 anos onde literalmente desapareceu do mapa da Europa. A ocasião foi celebrada com pompa e circunstância e o evento organizado em Varsóvia, no Estádio Nacional, entre símbolos patrióticos, canções da guerra e de independência, o hino nacional e menções a figuras de craveira da mesma como o Marechal Piłsudski e a importância do Exército Nacional (Armia Błękitna ou Armada Cerúlea) na libertação dos polacos do jugo Soviético, Austro-Húngaro e Alemão. Entre as centenas de convidados ao evento faltou o legendário líder do Sindicato Livre Solidariedade, Lech Walesa, já com idade avançada (75 anos) mas sem deixar de manifestar a sua opinião - nos média da oposição - contra o PiS e Kaczyński ao ponto de ser inclusivamente levado a tribunal por este...

Wałęsa e Kaczyński em tribunal depois de sucessivos adiamentos




Wałęsa, o electricista de Gdańsk como ele próprio se intitula, nunca foi diplomático, suave ou até consequente quando toca a dizer aquilo que pensa, não é malcriado no sentido de usar o abundante vernáculo polaco - não temos chance de competir com eles no nosso idioma - mas está-se literalmente nas tintas para o politicamente correto e tem mesmo prazer em "partir a loiça"...

E assim foi quando compareceu no tribunal de Gdańsk para responder a Kaczyński pelas alegadas ofensas à memória do seu falecido irmão. Wałęsa afirmou publicamente, no Facebook, aquilo que pensava (e que muitos pensam) sobre os acontecimentos de Smolensk e das responsabilidades na queda da aeronave em território russo. Para ele (Wałęsa) o acidente foi provocado pela atitude petulante dos irmãos gémeos - Lech  teria sido instigado pelo irmão Jarosław - em aterrar o avião e a comitiva a qualquer custo em condições atmosféricas precárias; afirmando ainda que Jarosław Kaczyński é mentalmente desequilibrado e que teve papel fundamental na alegada insinuação que Wałęsa, no cárcere, durante os anos do comunismo, foi forçado a assinar um papel no qual passaria a ter cooperação - ser bufo - com as autoridades da República Popular da Polónia e que alegadamente Kaczyński estaria por trás disto para tramar o sindicalista e afastá-lo dos destinos do Solidarność ou Solidariedade.

30,000 PLN ou 7,000€ foi o montante pedido pelas ofensas pessoais ao que Wałęsa respondeu na entrada do tribunal,  no seu típico estilo bonacheirão, sorrindo e envergando uma t-shirt onde se lia "Konstytucja" (Constituição), claramente provocando o líder do PiS, apoiado por seguidores que vociveravam "Lech Wałęsa! Lech Wałęsa! Lech Wałęsa!" enquanto Jarosław, visivelmente agastado, pedia à polícia para levar dali para fora os "arruaceiros que ali estavam para perturbar os trabalhos do tribunal". 

A decisão foi finalmente tomada em Dezembro: Wałęsa não tem de pagar os 30,000 Złoty (seriam dados à caridade) mas terá de pedir desculpas a Kaczyński, oficialmente, na página do Facebook, afixado durante 7 dias em negrito com fundo uniforme (sic), no Newsweek Polska e no Gazeta Wyborcza - média da oposição - numa página afastada de qualquer outra publicação e lido por Wałęsa na Radio TOK FM.

Kaczyński pode esperar sentado...

O presidente da Polónia, Andrzej Duda, visita a Casa Branca 

2 biliões de dólares para assegurar a presença norte-americana em território da Polónia ou na fronteira Leste da NATO, e uma base militar a ser construida brevemente com o nome "Fort Trump", sim, leu bem, Forte Trump!, foi a oferta de Andrzej Duda, na sua visita aos EUA. Esta decisão, impopular na Polónia, onde este valor é absolutamente escandaloso num país ainda com carências enormes nas áreas da saúde, do meio-ambiente, de infraestruturas (apesar de grandes progressos nos últimos dez anos) e onde o salário mínimo são 480 euros. 

Com a Rússia a modernizar o seu exército ultrapassando a tecnologia norte-americana na questão dos mísseis nucleares inter-continentais, afirmando-se como o grande  opositor destemido dos EUA e da NATO, a China com um exército imenso e bem preparado e uma forte importância e influência política e militar na Ásia e a liga-árabe a mostrar claros sinais de descontentamento com os EUA depois destes aprovarem a mudança da sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém a Polónia tenciona também ter um papel fundamental na NATO e não estar sozinha na defesa das suas fronteiras e dos limites da Aliança Atlântica a Leste do continente europeu. O enclave de Kaliningrad - a Norte da Polónia e a Oeste da Lituânia - é território da Federação Russa e ali, no mar Báltico, as tensões são crescentes com manobras militares de parte a parte, demonstrações de poderio e acusações mútuas de provocação e necessidade de defesa perante um potencial ataque.
Uma nova Guerra-Fria avizinha-se com a nuance de, desta vez, termos no tabuleiro a China que se mostra mais próxima da política da Federação Russa e como moderador privilegiado nos potenciais conflitos na Península Coreana e região Ásia-Pacífico. 


A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas em Katowice

Estranhamente, ou não, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas teve no lugar na capital do carvão e capital da região da Silésia, a poucas centenas de quilómetros da República Checa e da Eslováquia. A Polónia é um dos maiores extratores de carvão da Europa e grande parte do aquecimento doméstico e da água quente que corre nas torneiras dos lares polacos, cerca de 80%, provem de centrais hidroeléctricas que consumem este recurso energético para o seu funcionamento. É um lobby poderosíssimo, praticamente intocável, que não pode, por motivos óbvios, ceder às pretendidas e mais do que necessárias, transições para novas formas de energia. O carvão polui o ambiente e o país tem uma qualidade do ar muito baixa em comparação com outros países europeus, um assunto quase tabu mas cada vez mais discutido levando à consciencialização deste problema em partes da população que até há bem pouco tempo nem se tinham apercebido da gravidade da situação apesar do governo atual não manifestar interesse em mudar as mentalidades por questões políticas. 

Na conferência quatro países não alinharam com a agenda para a transição energética, os Estados Unidos, a Federação Russa, a Arábia Saudita e o Kuwait. Mais poderia escrever sobre este assunto mas finalizo com o discurso de Greta Thunberg, uma ativista sueca de 15 anos, que restaura a fé na humanidade num momento em que parece perdida e que nos faz refletir sob se realmente não chegou o momento de puxar o freio de emergência...