quinta-feira, 20 de julho de 2017

A "PiSlónia" a recordar 1989...


"Portuguesmente falando" Jarosław Kaczyński teve recentemente um "ataque de caspa" no Parlamento polaco, o Sejm. Nada como aquela expressão idiomática portuguesa para expressar o zeitgeist do momento neste país da Europa Central. Desde o passado Domingo os protestos da oposição são diários contra a intenção do partido PiS (Lei e Justiça) em tomar o controlo absoluto do Surpremo Tribunal, i.e, passando leis que impedem o mesmo de as tornar anticonstitucionais.

O partido no poder não abdica desta decisão e só o Direito de Veto presidencial poderá reverter tudo, o problema é que o Presidente foi eleito pelo PiS...



A cartada final seria se o PiS conseguisse ter o Ministro da Justiça a nomear - e evidentemente a demitir - os juízes do Surpremo Tribunal. O argumento de Kaczyński é o de existirem elementos da outrora "PRL" ou República Popular da Polónia na dita instituição; os infiltrados, os "comunas", a "esquerdalha" como assim são adjectivados. 

A situação revela-se de tal forma grave que a UE considera sanções para a Polónia, nunca antes vistas, caso o PiS vá para a frente com esta decisão. A sanção mais grave porventura, será cancelar o direito de voto da Polónia a nível do Parlamento Europeu o que levou outro polaco, Donald Tusk, o Presidente do Conselho Europeu, a pedir uma reunião de emergência com o Presidente em funções.

Andrzej Duda, o Presidente da República, está debaixo de uma pressão imensa. Por um lado a sua lealdade a Jarosław Kaczyński e por outro o possível Direito de Veto, que só este tem, em impedir esta alteração de raiz à constituição da Polónia. Está neste momento nas mãos do Presidente Duda ficar na História da Polónia como herói ou como vilão, ainda que isto varie proporcionalmente a quem ficará afectado com o sim ou o não do veto... 

A oposição reuniu-se hoje em frente do Palácio Presidencial em Varsóvia, na charmosa Stare Miasto da capital, para um protesto monumental (dizem mais de 50.000 almas apenas em Varsóvia e outras tantas nas grande urbes). Facto referido em rodapé pelo canal estatal TVP - e em números muito menores - (canal esse agora jocosamente denominado de TVPiS...) mas amplamente noticiado pelos meios de comunicação social sem associações ao partido no poder ou por aqueles ligado à oposição.



Membros da oposição conhecidos do grande público, o Ex-Director do Tribunal Constitucional, Adam Strzembosz, idoso mas muito lúcido, discursaram com argumentos sólidos e entre palavras de ordem como "Oposição Unida!", "Polónia livre e Europeia!" e outros claramente provocatórios como denominarem o PiS de "Comunas" pela galopante censura e perseguição à oposição bem como o recurso ás autoridades para prenderem e levarem a braços manifestantes... A recordar protestos do passado como aqueles nos anos 80, em especial os que levaram ao colapso do regime Comunista-Socialista em 1989 e a posterior implementação da Democracia na Polónia.

Adam Strzembosz, ex-Director do Surpremo Tribunal Constitucional da Polónia fez questão em deixar uma mensagem a Kaczyński "há momentos aos quais não podemos passar ao lado [...] Disse ao Presidente (Kaczyński) para não se sujar com esta lei, porque um dia vão dizer que ele introduziu uma lei de responsabilidade colectiva. Isto terá conotações históricas".

Pela voz da ala dura do PiS e fidelisima a Jarosław Kaczyński, como a Primeira-Ministra Szydło, a opinião pública é inundada, sobretudo através do canal TVP, com mensagens patrióticas a relacionarem os protestos como falta de sentido patriótico, obediência cega à elite da União Europeia, que de acordo com o PIS, interfere com os assuntos e política interna da Polónia, e manobras de bastidores dos resquícios do "ancient règime", deposto, entre outros, por os irmãos Kaczyński.


Neste caldeirão, actual e em desenvolvimento, o líder do PiS, teve o dito "ataque de caspa" no Parlamento, mostrando-se lívido e agressivo com os protestos e com a movimentação da oposição. Visivelmente transtornado o político disse alto e em bom som (sic):

"Não limpem os vossos focinhos de traidores com o nome do meu falecido irmão. Vocês destruíram-no, vocês mataram-no! Vocês são a escória!"

A reacção não se fez esperar... Entre apupos e acusações a oposição foi peremptória em afirmar que Kaczyński finalmente deixou cair a sua máscara de hipócrita e vingativo. Será este o leit motif por trás da decisão de interferir com a Lei e funcionamento das altas instituições judiciais do país?

Uma vingança pela oposição (na altura governo) que nunca concordou com a teoria de atentado no trágico "Acidente de Smolensk" em 2010 e até com o facto de colocarem o cadáver do Presidente em Cracóvia (no Palácio de Wawel - correspondente ao Panteão Nacional em Portugal). Oposição essa que, no sua convicção, eventualmente conspirou, com a Rússia, para que a aeronave presidencial se despenhasse?

Os motivos pessoais de Kaczyński parecem arrastar a Polónia para uma instabilidade política sem precedentes desde 1989, ano em que décadas de um regime totalitário absurdo e mantido com mão-de-ferro Soviética chegou ao fim abrindo as portas para que a este país finalmente se encontrasse consigo próprio e posteriormente com o outro lado do hemisfério, com o qual se identifica em inúmeros aspectos, mantendo a sua identidade e voz no  continente europeu, ainda que não forçosamente de mão dada com a Igreja Católica e com valores conservadores a que nem todos os polacos aspiram, apoiam e suportam.










quinta-feira, 13 de julho de 2017

Donald Trump visita a Polónia - A Pax "Trumpiana"...

6 de Julho de 2017. O Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump e a Primeira-Dama Melania Trump, acompanhados pela filha Ivanka aterram na Polónia para uma "visita de médico", breve mas rodeada de grandes expectativas e curiosidade por parte da comunidade internacional. Tudo isto numa Polónia "PiSificada", governada por conservadores e por uma elite com fortes ligações á Igreja Católica. 

Trump em frente ao monumento da Insurreição de Varsóvia de 1944. 

A família Trump metida no Air Force One, atravessando o Oceano Atlântico em direcção ao Velho Continente tinha um objectivo bem definido, a reunião anual do G20, as nações com voz e músculo no mundo. Importantes decisões, parcerias, acordos e também desacordos são discutidos entre protestos de rua violentos e uma infindável quantidade de jornalistas ansiosos por notícias, ainda para mais com o tão esperado confronto Trump vs Putin entre acusações graves da Rússia ter "viciado" as eleições nos EUA, favorecendo a vitória de Trump, com recurso a pirataria informática, o problema da Coreia do Norte, Crimeia, Síria, Daesh, NATO, terrorismo etc...



Para a Polónia e para o agora todo-poderoso PiS de Kaczyński essas questões não interessam directamente à Polónia e os polacos. A visita de Trump e de um Presidente dos EUA significa muito mais para um país que, mais do que nunca, bate o punho na mesa contra tudo o que está a Leste das suas fronteiras e que não faz parte da UE, especialmente a Federação Russa, a qual acusam de ter planeado a queda do Tupolev presidencial em 2010, em Smolensk...



A Polónia do PiS não pretende apenas ser mais um dos membros da UE, da NATO ou cliente regular e refém da Gazprom na velha e gasta questão energética. O partido conservador é adamante na questão do braço-de-ferro com a Rússia pós-URSS e pretende ser o defensor dos "portões a Leste da Europa", dos valores cristãos, patriotas e culturais contra qualquer ameaça que fale russo e escreva em cirílico ou que professe a fé no Islão... 


O Presidente dos EUA, teve uma recepção calorosa (incluiu autocarros com apoiantes de aluguer) ao contrário de outros países da UE, incluindo o Reino Unido, onde Trump sabe que não é exactamente bem-vindo ou mesmo na Alemanha onde violentos protestos culminaram em actos de vandalismo.


Kaczyński, Beata Szydło a Primeiro-Ministro e o Executivo polaco do PiS mantendo distância de Lech Wałęsa (fora da imagem).


Na Polónia correu tudo de feição e foi indubitavelmente um sucesso diplomático para os dois paises. O Presidente polaco, Andrzej Duda e a Primeiro-Ministro Beata Szydło (ambos do PiS) receberam Trump e a Primeira-Dama, com pompa e circunstância e nem Lech Wałęsa, hoje em dia um idoso de bigode e cabelos brancos, faltou no discurso (ainda que tenha poucas dúvidas que Trump apenas o leu mas não escreveu) ainda que o velho electricista de Gdańsk tenha recebido apupos entre os aplausos quando o Presidente americano agradeceu, por três vezes, a presença do "líder do Solidariedade"... É que para todos os efeitos o PiS acusa Wałęsa de ser na realidade um traidor, mandatado pelo Partido Comunista por trás das cortinas, uma marionete mais do que um herói do Solidarność, como foi, por exemplo, a falecida Anna Walentynowicz.


O discurso de Trump foi longo e dado num local simbólico de Varsóvia, de grande importância na História do país, na Praça Krasiński, onde a Insurreição de Varsóvia ocorreu em 1944. Um momento histórico remarcável e impressionante na História da Polónia e da II Grande Guerra.

Trump tinha preparado um discurso formidável no que diz respeito a "tocar o coração dos polacos" e digo formidável porque continha uma compilação de factos históricos que enche de orgulho os polacos, uma nação patriótica, orgulhosa da sua resiliência face a inúmeras tentativas de aniquilação, fronteiras contraídas e eliminadas e a traição de que foi alvo quer pelo Ocidente quer a Leste no século passado.

"Mãe,estás a ver? Deu-me um passou-bem!" Os memes na Internet polaca não se fizeram esperar como de costume... 
Recordando a famosa estrofe do hino polaco, Mazurek Dąbrowskiego, "A Polónia não desaparecerá enquanto nós vivermos", o discurso do Presidente Norte-Americano abordou a importância das lutas do povo polaco na preservação dos valores culturais da civilização ocidental e de Deus, e tomou-as como exemplo para os EUA e para o Ocidente, um Ocidente que "deve ter ensejo de sobreviver"... 



Ivanka Trump e Michael Schudrich o rabino-chefe no Museu Polin da História dos Judeus-Polacos, dedicado ao Holocausto e comunidade judaica polaca. 

Como a agenda de Trump era de horas foi a sua filha Ivana que se dirigiu ao monumento dedicado à Insurreição de Varsóvia para prestar homenagem o que provocou o desagrado da agora simbólica comunidade judaica polaca que esperava o Presidente dos EUA no monumento erigido a este evento, como é tradição, apesar de Ivanka ser casada com um judeu-ortodoxo e alegadamente professar o judaísmo... 


Assim no dia seguinte Trump estava já ali ao lado, na Alemanha, deixando para trás um momento memorável e simbólico para os polacos - sobretudo para os que apoiam a política do PiS - uma promessa de respeitar o artigo 5 da NATO (apoio mútuo em caso de invasão ou ataque a um dos membros) e também uma factura bem gorda (30 biliões de Złoty ou 8 biliões de Dólares) e negócios diversos nomeadamente a delicada questão energética... 

O aperto de mão polaco foi selado com a promessa de aquisição do sistema de mísseis Patriot pela Polónia aos EUA e o fornecimento de gás-natural liquido americano, até agora dominado pelo gigante russo Gazprom, sujeitando a Europa Central e de Leste aos "caprichos" russos - por exemplo a ultima acção da Lituania em ser independente da Gazprom levou a uma redução de preço do gás russo em 20% - deixando a Polónia e os Estados Balticos lidarem com um ainda maior descontentamento da Federação Russa...


Entre bandeiras, ruas cortadas ao trânsito e ansiedade a visita de Trump sabe porventura a "business as usual", para ambos os lados... por um lado a Polónia pretende assegurar um papel crucial na organização estratégica do continente tornando-se essencial na NATO e protegida pelos Aliados, mostrar-se claramente como estando virada para o Ocidente, enterrando a ideia estereotipada de ser apenas mais um dos países-satélite da URSS e dando uma "reguada" na mão russa no que diz respeito ao fornecimento de energia. 


Os EUA e a administração Trump selam um acordo ao estilo "Pax Americana" dando exemplo a outros membros da NATO em como é essencial a contribuição de todos, comprando mais armamento - preferencialmente aos EUA - e pagando o quinhão que Trump diz não estar a ser respeitado, apoiando a expansão do Complexo Militar Industrial na Europa, mostrando que os Estados Unidos da América serão sempre os Aliados da Europa (e vice-versa) na preservação dos valores democráticos , da liberdade, de Deus e do estilo de vida Ocidental que, na opinião quer de Trump quer do PiS, estão ameaçados por forças externas interessadas em destruir e impor outros, opostos àqueles da civilização ocidental...



Extracto do discurso de Trump:



"Esta é a minha primeira visita à Europa Central, como Presidente, e eu estou muito feliz que possa estar aqui mesmo, neste magnificente e bonito pedaço de terra. É bonito. (Aplausos.) A Polónia é o coração geográfico da Europa, mas o mais importante, e que no povo polaco, vemos a alma da Europa. A vossa nação é grande porque o vosso espírito é grande e o vosso espírito é forte. (Aplausos).



Durante dois séculos a Polónia sofreu ataques brutais e constantes. Mas enquanto a Polónia foi invadida e ocupada, e as suas fronteiras apagadas do mapa, ela nunca poderia ser apagada da história ou dos vossos corações. Naqueles dias escuros, vocês perderam a vossa terra, mas nunca perderam o vosso orgulho. (Aplausos).


Assim, é com verdadeira admiração que eu posso dizer hoje, que a partir das fazendas e aldeias no vosso campo para as catedrais e praças das vossas grandes cidades, a Polónia vive, a Polónia próspera e a Polónia prevalece. (Aplausos).

Apesar de todos os esforços em transformar-vos, oprimir-vos, ou destruir-vos, vocês resistiram e venceram. Vocês são a nação orgulhosa de Copérnico - pensem nisso - (aplauso) - de Chopin, São João Paulo II. A Polónia é uma terra de grandes heróis. (Aplausos.) E vocês são um povo que sabe o verdadeiro valor do que defendem.

O triunfo do espírito polaco ao longo de séculos de dificuldades dá-nos a todos esperança num futuro no qual o bem vence o mal, alcança a vitória e a paz sobre a guerra.

Para os americanos, a Polónia tem sido um símbolo de esperança desde o início da nossa nação. Heróis e patriotas americanos polacos lutaram lado a lado na nossa Guerra de Independência e em muitas guerras que se seguiram. Os nossos soldados ainda servem juntos hoje no Afeganistão e no Iraque, combatendo os inimigos de toda a civilização.

Por parte dos Estados Unidos nunca desistiremos da liberdade e independência enquanto direito e o destino do povo polaco, e nunca, nunca o fará. (Aplausos). Os nossos dois países compartilham um vínculo especial forjado por histórias únicas e personagens nacionais. É uma comunhão que existe apenas entre as pessoas que lutaram e sangraram e morreram pela liberdade. (Aplausos.) 

Juntamente com o Papa João Paulo II, os polacos reafirmaram sua identidade como nação dedicada a Deus. E com essa poderosa declaração de quem vocês são, vocês vão entender o que fazer e como viver. Vocês estiveram em solidariedade contra a opressão, contra a polícia secreta sem lei, contra um sistema cruel e perverso que empobreceu as vossas cidades e as vossas almas. E vocês ganharam. A Polónia prevaleceu. A Polónia vai sempre prevalecer. (Aplausos)."



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Zbigniew Wodecki 1950-2017

Fora da Polónia practicamente era conhecido mas para quem reside neste da Europa Central era uma conhecida faceta da televisao e radio polacas.


Com a sua e abundante cabeleira, Zbigniew Wodecki, era imediatamente sendo frequentemente convidado e parte integrante de programas de entretenimento e musicais onde a sua como , compositor, cantor, actor e apresentador televisivo era largamente apreciada pelo polaco.



Nascido na cidade do de Wawel () em 6 de Maio de 1950, viria a falecer, sucumbindo a derivadas de enfisema , no Hospital Central da capital polaca, Varsóvia, no passado dia 22 de Maio.

Perde-se uma parte do mundo da e da História polaca, um talento indubitavel; nasce um do XX na Polónia.

*Zbigniew Wodecki - Lubię wracać tam, gdzie byłem

* Gosto de regressar, onde estive




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Caleidoscópio Polónia 2016


Mais um ciclo se encerra e outro se inicia e não há nada como um novo ano para reflectir nas escolhas, caminhos traçados, objectivos e obstáculos que nos foram aparecendo, sentimentos reflectidos com mestria por o grande poeta português Fernando Pessoa neste lindíssimo poema;

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
Mas não esqueço de que minha vida
É a maior empresa do mundo…
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
Se tornar um autor da própria história…
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
Um oásis no recôndito da sua alma…
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “Não”!!!
É ter segurança para receber uma crítica,
Mesmo que injusta…

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…

Caleidoscópio

Dizem os sábios em astrologia que 2016 foi a um <<nível cósmico>> um ano com alinhamentos planetários desfavoráveis à harmonia e paz no nosso planeta e Mercúrio Retrogrado presente em inúmeras ocasiões ao longo dos doze meses do calendário. Astrologia à parte, e pessoalmente (está a ser sobretudo a nível profissional) uma verdadeira montanha-russa que ainda não chegou ao fim...

Em 2016 o mundo viu alterações profundas no panorama politico internacional sobretudo com a surpreendente (ou não) eleição de Donald Trump para Presidente da nação mais poderosa do planeta - com todas as consequências possíveis que isso trará nos próximos quatro anos - e uma Europa que viu o Reino Unido a recusar a chamada <<família europeia>> com o Brexit favorável a um não à UE ao fim de mais de quarenta anos de casamento, segue-se o divórcio - aparentemente litigioso...

Um dos cartoons mais significativos de 2016 relativamente à UE.

Estamos numa Europa cada vez mais dividida com uma União Europeia desgovernada, pesada e gorda, centralizada em instituições financeiras e agora descaradamente alemã (as decisões parecem vir dos bancos alemães e do Chanceler e não mais de Bruxelas), sem um controlo efectivo das suas fronteiras perante as crises migratórias de países vitimas das <<guerras energéticas>>, estupidamente politicamente correcta, com os media controlados ad nausea por a mesma mentalidade frouxa e hipócrita.

Cenários de guerra ainda que ninguém preste muita atenção...

Estar e continuar a viver na Polónia ou na Europa Central (exceptuando a Áustria eventualmente) parece ser cada vez mais um jogo de tabuleiro onde ninguém sabe ao certo quem será o vencedor, que cartas podem sair ou qual o resultado dos dados assim que parem de rolar.


Tropas americanas treinam na Polónia em Konotop. Fonte

Enquanto assistíamos à nossa histórica vitoria no Euro 2016 e gozávamos o Verão europeu a NATO organizava em Varsóvia uma das mais importantes cimeiras desde o final da Guerra-Fria. Países outrora parte do Pacto de Varsóvia mostram-se claramente contra a sempre poderosa e por vezes imprevisível Rússia.



Vladimir Putin e o poderio militar russo mostram-se visivelmente agastados, fazem peito e mostram os punhos à NATO e aos EUA. Não mostram medo, a Crimeia é parte da Federação e não há discussão e envolvem-se no conflito sírio, ao lado de Assad que o Ocidente e a sua bem oleada máquina de propaganda (o mainstream media) consideram alvo a abater a qualquer custo, como fizeram com Gadafi libertando o conteúdo da Caixa de Pandora assim que a Líbia e o Norte de África se viram sem o ditador - ironicamente um equilíbrio à paz naquela zona.

A Polónia está determinada a ser um membro-chave da NATO e a fazer braço-de-ferro com a Rússia, ainda esta semana mais um contingente de tropas americanas, respectivos blindados e armamento pesado chegou à Polónia, concentram-se tropas a Leste, sobretudo na fronteira com os Estados Bálticos. Testemunho de um compatriota que recentemente esteve na Lituânia confirma o clima de escalamento militar com o receio de um repentino ataque russo. Os russos por seu lado acusam os EUA e a NATO de os provocarem, de estarem a montar uma barreira, uma cilada, ao redor das fronteiras do seu país e que apenas se defendem da agressão do Ocidente e da politica externa dos EUA.

A juntar ao caldeirão a intenção da criação de um exército da União Europeia que, se se tornar realidade, será um potencial factor de instabilidade no continente, ainda para mais com a exclusão do Reino Unido num cenário pós-Brexit.

Consta em documentos do tempo da Guerra-Fria (não encontrei ainda a fonte mas actualizarei logo que disponível) que o possível cenário em caso de guerra com a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas seria primeiramente um conflito armado no território da Polónia entre a URSS, os países do Pacto de Varsóvia e a Aliança Atlântica. Entretanto Bruxelas seria o primeiro alvo dos misseis nucleares soviéticos e a Polónia, como se se tratasse de uma arena, seria onde a maior parte das bombas (convencionais e nucleares) cairiam antes de uma guerra final ou até que uma solução diplomática servisse para evitar um cataclismo global. Cenários que todos desejam sejam apenas arquivos sinistros numa cave algures em Moscovo...

Jornada Mundial da Juventude (Cracóvia 2016)

2016 foi também o ano das Jornadas Internacionais da Juventude a terem lugar na icónica cidade de Cracóvia na "Pequena Polónia", felizmente sem ataques terroristas a ensombrarem o evento religioso que foi tido por muitos como exemplar servindo também para divulgar o país que ainda é relativamente desconhecido por muitos europeus e estrangeiros. Curiosamente fui nessa altura contactado por um amigo de longa data dos automóveis que tinha a filha a caminho da Polónia e ao qual me prontifiquei a ajudar no que fosse necessário. Pelo que fiquei a saber ela gostou do país e dos polacos, deixando-lhe uma impressão positiva da Europa Central.

O segundo ano do partido PiS (Lei e Justiça) no governo. 

O plano governamental 500+ que previa um subsidio de quinhentos PLN (110€) a partir do segundo filho foi em frente e na senda de tornar a Polónia um país exemplarmente católico apostólico romano a decisão de tornar o aborto ilegal revelou-se um tiro que saiu pela culatra...


As polacas (sobretudo elas) fizeram greve chamando-lhe Czarny Protest (protesto negro), saíram à rua na capital, nas grande urbes, protestaram e marcharam num deprimente dia de neblina e chuva, partilharam a revolta nas redes sociais, fizeram-se ouvir e meteram medo ao poder politico instalado em Varsóvia de tal modo que no final muitos dos políticos do PiS assobiaram para o lado como se não fosse nada com eles...

A publicidade do avô polaco

O site da Allegro - um dos principais leiloeiros on-line na Polónia - trouxe uma agradável surpresa no panorama publicitário polaco, nesta época pejada de spots publicitários repetitivos, amiúde bacocos alusivos ao Natal ou a medicamentos milagrosos para a gripe, constipação, fígado, intestinos, estômago, migrina, nervos, sono, micose da unha, virose (é só nomear...).



O curso de inglês para principiantes que o avo polaco compra on-line e vai aprendendo ao longo de meses em post-it's e mono-diálogos serve para, quando chega a Londres, falar em inglês com o seu netinho (um lindo mulatinho o que é particularmente significante perante certas atitudes racistas) que nunca viu e não sabe polaco. I am your grandfather... 

E pronto... o vosso escriba que até é um "gajo" nada fácil de chorar, que estudou publicidade na universidade, leu sobre manipulação psicológica, spy-ops e não perde teorias da conspiração (como aquela que o 11 de Setembro tem muito que se lhe diga), que fica comovido - mal se nota - sente aquele repentino nó na garganta, o toque no peito (plim!), o arrepio na espinha que não quer sentir (boys don't cry) e pronto... soluça uma, duas vezes retirando-se num canto para que ninguém o veja. Não verte lágrimas porque se o fizer é abrir uma comporta que vai ser difícil conter mas fica com os olhos "marejados", como escreviam os poetas...

Recordei-me daquele dia, semanas depois do meu pai falecer em 2002, quando ao sentar no sofá ao lado da sua impecavelmente organizada mesinha de cabeceira  notei que ele andava a estudar inglês, num livro - talvez dos anos sessenta - que ali estava em casa há décadas. O francês e o português (ainda era cedo demais) não servia com aquela polaca que eu lhe tinha dito (jurado) ser a mulher com quem havia casar (eu casar... devia estar doido ou a ver romantic commedies em demasia) e ele dedicou-se ao inglês para poder comunicar com ela e duas semanas antes de eu a ir buscar ao aeroporto Sá Carneiro ele deixou este mundo, porra... 

Como teria sido?

Ano Novo telenovela nova...



Os turcos foram finalmente destronados no prime-time da TVP1... Acabou a novela turca "Rainha por uma Noite" ou Krolówa Jednej Nocy, acabou a cultura turca às 18:40 - para muitos polacos fãs das novelas turcas foi uma ofensa - agora aparecem uns outros morenos e morenas (com algumas excepções) a falarem um idioma estranho, mas é Europa e parece ser no Sul... Espanha? Itália? Grécia? Roménia? Não... Portugalia ou Portugal, aquele pequeno país na Península Ibérica quase como a aldeia de Obélix e Astérix.

Coração d'Ouro ou Złote Serce aparece dobrado em polaco - uma voz monocórdica - que literalmente abafa o português excepto nas canções - ouvir o "Bamos lá Cambada" do Herman José na TV polaca é surreal -  ou quando a dobragem é mais curta que o dialogo original.

Vemos o Porto (saudades!), o Douro Vinhateiro (fez-me lembrar os vídeos do Facebook do nosso compatriota varsoviano Nuno Bernardes no Algarve a fazer de conta que estava nos famosos socalcos), os Açores e de certo modo outras atracções do nosso belo país - sim é que é mesmo um lindíssimo país.

A verdade é que parte da opinião pública e alguns opinion makers estavam pouco felizes com a ideia de uma cultura tão distinta da polaca, sobretudo pela questão do Islão, ser promovida na televisão publica mesmo que o produto em si seja de qualidade - dizem que é (não sei porque não vi apesar de não ter nada contra series televisivas ou telenovelas). Uma novela portuguesa está inevitavelmente mais próxima do mundo polaco e oferece o nível de exotismo necessário - sim somos um país exótico para os polacos em geral - a par com paisagens deslumbrantes e, espera-se, um enredo convincente...

Talvez veja alguns episódios mas tentar ouvir português e polaco ao mesmo tempo é tarefa árdua!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Morreu o cineasta Andrzej Wajda

A cultura e o mundo cinéfilo polaco e mundial ficou ontem mais pobre. Morreu o <<Manoel de Oliveira>> polaco, Andrzej Wajda, uma longa vida de 90 anos e obra que perpétua momentos históricos significativos da Polónia, da sua rica e dramática história mas não só... Cinzas e Diamantes, Pan Tadeusz, Homem de Mármore, Homem de Ferro, Terra Prometida, Kanal e o impressionante Katyń (2007) são apenas alguns dos títulos mais conhecidos deste prolífico realizador polaco.


A vida de Andrzej Wajda daria per se um filme... Vivendo a tragédia da invasão da Polónia pela Alemanha Nazi e pela URSS em 1939 e em idade militar foi profundamente marcado pela morte do seu pai no Massacre de Katyń vindo a combater na Resistência e posteriormente no Exército Nacional no pico do conflito. No pós-guerra regressa a Cracóvia onde estuda na Academia de Belas-Artes e posteriormente na Escola de Cinema de Łódź.

Descreveu com grande profundidade momentos dramáticos, senão trágicos, na história e vida dos polacos nomeadamente o pós-guerra em filmes como Pokolenie, Cinzas e Diamantes e Canal, considerados como uma Trilogia, sobre o regresso (possível) à normalidade depois de um conflito que praticamente dizimou a Polónia e tentou, debalde, a aniquilação total da nação polaca e sua identidade.

Outro dos ícones da sua obra é o filme Ziemia Obiecana (Terra Prometida) sobre o período da Revolução Industrial na Polónia e o centro industrial têxtil que era na altura a cidade de Łódź. A falta de empatia dos patrões com os empregados, as condições inenarráveis de higiene e segurança no trabalho, o sub-mundo dos semi-escravos nas gigantescas fábricas, as intrigas e lutas intestinas entre a elite de Łódż e o brutal contraste entre ricos e pobres numa cidade em que a industria até os rios enterrou, culmina com o inicio dos movimentos socialistas que iriam mudar a face do país no século seguinte.

Desiludido com o rumo que o sistema comunista-socialista seguia, estando a Polónia reduzida a um dos países-satélite da URSS (ainda hoje um estigma bem presente na sua história) foi critico dos soviéticos e do governo pró-URSS, a sua visão bem explicita nos aclamados filmes Homem de Mármore em 1977 e Homem de Ferro em 1981 - ano do Estado de Sitio declarado pelo General Jaruzelski. Ano esse em que adere ao Sindicato Livre Solidariedade (Solidarność) passando a fazer parte do movimento de libertação dos grilhões pró-URSS, liderado por o sindicalista de Gdańsk, Lech Wałęsa.



Em 2007 estreia o filme Katyń que demonstra de modo impressionante os eventos que levaram ao Massacre de Katyń, considerado durante décadas como autoria dos Nazis (ainda que negado por os mesmos) e como <<teoria da conspiração>> por aqueles que afirmavam a pés juntos ser uma orquestração dos russos para eliminar a elite intelectual, militar e politica da Polónia, parte do plano de limpeza étnica conveniente quer aos nacional-socialistas alemães quer aos Estalinistas soviéticos...

Fica a sua obra para a posteridade e uma Polónia que vê partir um dos seus grandes intelectuais, um homem de cultura e pedra de toque no mundo do cinema polaco e europeu.

Que descanse em paz, Andrzej Wajda (1926-2016)




terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Segunda-Feira negra

Ontem, dia 3 de Outubro de 2016, confirmou-se que a Polónia é cada vez mais um país dividido. O partido conservador no poder, o PiS de Jarosław Kaczyńsky, na sua caminhada pela preservação dos ditos valores tradicionais polacos - sobretudo aqueles ligados ao catolicismo - viu as ruas da capital Varsóvia e as grandes urbes como Cracóvia, Łódź, Wrocław, Poznań e Gdańsk em protesto pelos direito das mulheres relativamente à polémica questão do aborto. Chamaram-lhe de Segunda-Feira negra, Protesto Negro e Greve das Mulheres, os movimentos pró-vida prometem retaliar, vestidos de branco, ao estilo Senhor dos Anéis de Tolkien...




Não vale a pena esmiuçar os detalhes que se encontram em pormenor nos media portugueses aqui e brasileiros aqui. O protesto público, difundido nas redes sociais com o ashtag #czarnyprotest (protesto negro), surge face ao plano de completa modificação da lei do aborto e por consequência de qualquer método anticoncepcional não aceite pela religião católica no território polaco. 


Mulheres de todas as idades e estratos sociais em uníssono pelos seus direitos. No cartaz, <<Meu corpo, minha decisão>> e PiSoff uma junção do acrónimo para o partido Lei & Justiça, PiS,  com o inglês piss-off = vão-se lixar;. Fonte: Gazeta Wyborcza

O pacote de medidas do PiS relativamente a este assunto criminalizará qualquer excepção à interrupção voluntária da gravidez inclusivamente má-formação do feto, violação e incesto prevendo penas até aos cinco anos para as mulheres, médicos ou parteiras. Na realidade a nova lei é de tal modo intrusiva que inclusivamente situações de aborto de espontâneo podem passar pelo crivo das autoridades. Do mesmo modo testes pré-natais podem vir a ser recusados por especialistas pelo simples facto de estes temerem represálias.

No coração de Cracóvia, no Palácio de Wawel as ruas apinhadas de manifestantes num dia particularmente chuvoso e triste.

Depois de um ano politicamente agitado o <<czarnyprotest>> é visto pela oposição como um claro sinal do descontentamento relativamente ao PiS e observado com sobranceria por alguns membros do governo onde tiradas como aquelas ditas por o ministro dos negócios estrangeiros, Witold Waszczykowski; <<Eles (os manifestantes) que se divirtam [...] Avante se pensam que não há problemas mais importantes na Polónia>>. Comentário este já rechaçado pelos seus pares que entenderam a mensagem... 

Entre palavras como <<Queremos médicos, não missionários!>>, <<Rua Jarosław!>> <<PiSoff>>, <<No woman no Kraj (Kraj = País)>> foi visível a quantidade de cidadãos vestidos de negro, por vezes totalmente, outras parcialmente, nas ruas, transportes públicos, nos locais de trabalho, nas escolas e universidades... Apenas em Poznań o lançamento de flares provocou desacatos e a acção pronta da policia de intervenção que a dada altura carregou nos manifestantes.

O PiS terá porventura cometido um dos maiores erros desde que está no poder, meteu-se com elas, numa sociedade ocidental onde o feminismo desenvolve-se a cada ano que passa e, como já foi visto inúmeras vezes na História, enquanto o assunto é com homens resolve-se de alguma maneira - nem que seja à porrada - mas com mulheres e especialmente com as polacas, que gostam de expressar a sua opinião e muitas delas são activistas, compraram uma guerra onde ninguém se vai render e  onde certamente elas sairão vitoriosas, mais tarde ou mais cedo...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O feriado de 15 de Agosto - Dia das Forças Armadas (Święto Wojska Polskiego)


O feriado católico da Assunção de Maria é celebrado na Polónia com um duplo significado, religioso e militar. É o aniversário de um grande feito histórico na violenta e dolorosa História deste país da Europa Central; a Batalha de Varsóvia no Verão de 1920 que assinala uma vitoria memorável das forças polacas, com o herói Marechal Piłsudski no comando das tropas polacas, e uma derrota humilhante para o Exército Vermelho, liderado por uma conhecida personagem política, Leon Trotski. 

Com uma História tão conturbada onde a identidade de uma nação foi sucessivamente desejada ser destruída por os seus vizinhos a Leste e a Oeste não é portanto de admirar a observação deste feriado com direito a parada militar em Varsóvia, cerimónia de agradecimento às forças armadas e homenagem ao soldado desconhecido.

Fonte: http://www.prezydent.pl/

É por vezes difícil, sobretudo para alguns estrangeiros mal informados, compreender o real significado deste dia. Pode parecer um exercício exacerbado de patriotismo com direito a presença do Presidente da Polónia, do Primeiro-Ministro e da maioria dos ministros do Sejm (Parlamento polaco), os quais observam do palanque o desfile de todos os ramos das Forças Armadas da Polónia, um espectáculo visualmente deslumbrante e impressionante da quinta maior força militar da UE. Com 42 caças F-16, outras centenas de aviões, helicópteros e mais de mil tanques entre outros milhares de blindados (incluindo o avançado PL-1) e um contingente de aproximadamente 100.000 militares treinados incluindo os temíveis operacionais do GROM.

Num discurso claramente anti-comunista, anti-soviético e pró-NATO o Presidente da República da Polónia, Andrzej Duda, sublinhou a importância deste na Aliança Atlântica e na defesa da Europa onde recordou a Batalha de Viena e outras tantas vitórias decisivas para a estabilidade no velho continente. Agradecendo ao militares em serviço e àqueles que deram a sua vida pela independência da Polónia o discurso mencionou ainda as Jornadas Internacionais da Juventude onde, de acordo com Andrzej Duda, a Polónia foi reconhecida pelos estrangeiros como um belo país [sic], e a Cimeira da NATO que assinala a consolidação da Polónia na sua ligação ao Ocidente e o distanciamento com o passado, não tão longínquo, com a Rússia e o sistema comunista-socialista do bloco-soviético que durou até 1989. 



Na parada militar, onde "chuva de civil não molha militar", foram convidados operacionais aliados da Polónia e parte integrante do continente da NATO no território. Militares dos EUA, Roménia, Alemanha, Ucrânia e uma representação portuguesa (de acordo com a TVN) juntaram-se aos militares polacos perfazendo um total de cerca de 200 países.

Para completar - e finalizar - o evento o desfile "histórico" marcharam figurantes a cavalo com uniformes de outros séculos e no final uma reconstrução da força civil de reconstrução do país que basicamente erigiu Varsóvia das ruínas e do autentico cenário "lunar" do pós-guerra uma homenagem aos que pereceram no protesto de trabalhadores da fabrica H. Ciegelski em Poznań, corria o ano de 1956. Um dos primeiros protestos contra o governo-fantoche pró-sovietico. Ainda hoje não e possivel determinar o numero de vitimas - entre meia-centena a centena - incluindo um rapaz de 13 anos. Ler mais no Wikipedia

Uma História distinta da nossa portuguesa, feita de grandes feitos como as descobertas (ainda que tenhamos o estigma da escravatura e colonização) e de batalhas de conquista com os sarracenos e castelhanos e mais recentemente a guerra colonial portuguesa ainda presente na memória colectiva. 

Jeszcze Polska nie zgineła, Kiedy my żyjemy "A Polónia não desaparecerá, Enquanto nós vivermos", a primeira estrofe do hino nacional da Polónia neste dia festivo reveste-se de particular simbolismo. Os seus inimigos tentaram destruí-la mas nunca conseguiram, um mais do que razoável motivo para celebrar!











segunda-feira, 11 de julho de 2016

Portugal - Campeão da Europa 2016

Prova de que o futebol é de facto o desporto-rei reflecte-se no facto de que até um leigo na "bola" como o vosso escriba viveu este evento desportivo do Euro 2016 com uma enorme e crescente intensidade que culminou ontem, no histórico dia 10 de Julho, em Paris. Longe da pátria, a mais de 3500 quilómetros da família mas perto de todos os portugueses em Portugal, daqueles espalhados pelo mundo e de todos os apoiantes da nossa selecção nacional independentemente da sua nacionalidade.

Os media polacos noticiaram a vitória portuguesa de um modo algo morno criticando a actuação nacional como inferior aos bleus. Destaque na imprensa especializada para a saída inesperada de Cristiano Ronaldo, a nossa super-estrela, no jogo mais importante da sua carreira e o épico golo de Eder. Mal ou bem o "caneco" é nosso, ó...

O vendaval de emoções no Stade de France, desde a lesão e retirada de Cristiano Ronaldo até ao final "Hitchcockiano" com prolongamento e carga dos franceses no seu ultimo estertor  provam que cinco minutos podem parecer uma eternidade mas essa eternidade deu lugar a uma alegria imensurável, um momento histórico que já ninguém nos tira e que será recordado por décadas. Finalmente somos campeões da Europa em futebol!

Um momento histórico que tivemos oportunidade de viver. Pela primeira vez o nosso pequeno cantinho de Europa ganha o titulo de Campeão Europeu. 
Inevitavelmente, enquanto Cristiano Ronaldo levantava a taça e todos os apoiantes celebravam a vitoria, recordei com saudade o meu pai, Manuel Taipa, que partiu em 2003 - um verdadeiro fã de futebol e genuíno "connaiseur". Homem que recordava com extraordinário pormenor e exactidão jogos de outras décadas, resultados, tácticas, nomes de jogadores, treinadores e dirigentes.
Quem o conheceu e era também apaixonado por futebol era capaz de o ouvir horas a fio. Chegou a jogar futebol no Atlético de Luanda, onde o seu pai o meu avo Adriano Taipa) jogou também. Nascido em Amarante e levado para Angola com  apenas quatro anos foi convicto apoiante do F.C. Porto numa altura em que o clube não ganhava mas nunca desistiu dele. O seu descendente, pelo contrário, nasceu com uma "árvore-de-cames à cabeça", saiu a gostar de tudo o que tem a ver com carros (desde a infância quando estes ainda tinham para-choques cromados) o que não me impede de vibrar com o futebol nestes momentos. Ontem, na Polónia, rodeado da minha família luso-polaca, com um outro Manuel de dez anos o mano de sete e a mãe polaca, pensava como gostaria de o ter ao nosso lado e como ele reagiria a tamanha alegria que nunca chegou a ter. 

Que momento inesquecível! Obrigado aos nossos rapazes, bem hajam!






sábado, 21 de maio de 2016

A Polónia é um país racista? Não, mas tem racistas...



Recentemente na imprensa portuguesa veio à tona um incidente entre estudantes de intercâmbio portugueses e um cidadão polaco na cidade de Rzeszów (leia-se Jé-chuv) no Leste da Polónia, a aproximadamente 80  km da fronteira com a Bielorrússia. A agressão aconteceu sem motivo aparente e alegadamente por terem sido confundidos com... árabes. O caso foi motivo suficiente para muitos portugueses emigrados na Polónia serem contactados por jornalistas nacionais. Nas redes sociais e nas páginas dedicadas aos portugueses e à comunidade portuguesa neste país o tema revelou-se fonte de polémica e desacordo entre aqueles que nada têm a dizer de relevante contra os polacos e outros que já sentiram na pele confrontos e agressões verbais, sobretudo pela sua cor de pele.



Os jornalistas queriam saber se os que aqui residem se sentem ameaçados e se conseguem viver normalmente o seu dia-a-dia. As respostas dividiram-se entre aqueles que nunca passaram por tal e outros que já tiveram situações desagradáveis com comentários claramente racistas e ameaças veladas à sua integridade física por cidadãos polacos.

Ponto comum - e aqui também contam exemplos que conheço nos quase treze anos de emigração - é a cor da pele sobretudo com negros e mulatos mais do que a nacionalidade per se, no entanto desde a crise dos refugiados e consequente irresponsabilidade de Angela Merkel e da UE na organização e logística para recepção de refugiados de guerra e migrantes económicos (com os migrantes já ocorria há mais de uma década em Calais, França, e Dover, Reino Unido, mas a UE fez sempre vista grossa) os movimentos patriotas e nacionalistas, um pouco por toda a Europa, reaparecem com mais força e com maior número de apoiantes - vide exemplo da FN  de Marie Le Pen na França ou o UKIP e BNP (British National Party) no Reino Unido. Na pacifica e tolerante Suécia os partidos que se manifestam contra a emigração descontrolada e contra o politicamente correcto ganham mais notoriedade. Geert Wilders na Holanda foi inclusivamente processado por alegados comentários racistas contra a imensa e crescente comunidade marroquina e islâmica nos Países Baixos. E ainda temos do lado de lá do Atlântico a crescente popularidade de Donald Trump...

A Polónia, um dos países mais cristãos e católicos do continente Europeu, senão de todo o planeta, não é excepção e o núcleo da  sua identidade está intrinsecamente ligado a esta religião. Relembremos que a Polónia é um país maioritariamente católico e praticante situado entre outros países luteranos e ortodoxos e ainda aqueles onde a religião cada vez  mais é relegada para segundo plano como na Escandinávia e Federação Russa.

A ascensão do partido PiS (Verdade e Justiça) ao poder (executivo e presidencial) arrasta consigo toda esta "artilharia" religiosa e a Polónia conservadora onde Jesus, Maria, a cruz de Cristo, a missa e uma fervorosa fé católica se junta aos media religiosos como a Radio Maryja e o canal televisivo TRWAM de Tadeusz Rydzyk. Como medida populista a promessa de "subsídio de criança" aos pais com mais do que um filho (500 PLN mês ou 120 EUR por criança) revelou-se genial, consolidando em certos meios o garante do apoio popular a este partido por muitos anos - pelo menos se conseguirem cumprir (pagar) a promessa...

Com esta conjuntura politica e sem uma palavra critica do governo contra aqueles que se manifestam de modo xenófobo e racista - o instituto governamental responsável pelo tratamento destes casos foi recentemente fechado do dia para a noite - os movimentos de extrema-direita, amiúde ligados a claques de futebol agressivas, a apoiantes de ideais de pureza racial ariana ao estilo Nazista, e à intolerância contra a diferença, seja ela  religiosa ou não, crescem a  olhos vistos sobretudo contra a ideia da "Islamização da Europa". 

Este conceito de Islamização da Europa tornou-se extremamente popular há alguns anos atrás com vídeos virais sobre o possível futuro do nosso continente em 2050. Nesses vídeos é explicado que a actual taxa de fertilidade na Europa será resolvida por esses emigrantes que, ao contrário dos autóctones, se  reproduzem num modo incomparável.
Cidades como Marselha e Malmo na Suécia serão  maioritariamente muçulmanas tal como outras  no Reino Unido, Holanda, Bélgica e Alemanha, no espaço de duas ou três décadas. Assim pretendem passar a mensagem os autores do vídeo.

Capa da revista polaca w Sieci que gerou grande controvérsia. Braços peludos e pele morena violam a Europa, simbolizada pela mulher branca vestida com a bandeira da UE. Coitados dos "tugas" peludos (como o vosso escriba) e os morenos com barbas e eventual "monochelha"...

Os polacos, que vivem no Reino Unido e na Escandinávia, contam histórias dos efeitos do politicamente correcto, do multi-culturalismo onde a integração é frequentemente mínima com exigências de respeito absoluto por razões religiosas como, por exemplo, exigência de carne Halal em escolas públicas, proibição de vestimenta ocidental para evitar "provocar" a tentação nos homens de fé islâmica, a crescente insistência da aplicação da Lei da Sharia no Ocidente e a proibição de imagens religiosas cristãs mesmo durante o Natal e Páscoa. 



Este é um dos principais motivos  para esta crescente onda de anti-islamismo na Polónia aliado a um facto histórico que enche os polacos de orgulho e que ocorreu em 1683, a Batalha de Viena, quando o rei polaco Jan Sobieski III - durante a fase histórica da República das Duas Nações (Polónia-Lituânia) - derrotou os Turcos-Otomanos, protegendo a Europa de uma longa e violenta guerra religiosa, alterando para os séculos seguintes a história do nosso continente. 

Na Polónia moderna a comunidade árabe não cria conflitos e está bem integrada na vida polaca; trabalham, têm os seus próprios negócios e actividades, muitos concluíram aqui os seus estudos superiores e a maioria casou com cidadãos polacos formando família. Conheço alguns deles; sírios, marroquinos, argelinos, iranianos, egípcios e tunisinos. Gente boa que, ao contrário daquilo que muitos  pensam, conseguem facilmente ser nossos amigos e nós deles, alguns são mais restritos no consumo de álcool ou carne de porco pela sua fé no Islão mas outros vivem perfeitamente bem e adaptados ao nosso modo europeu, ocidental.

E onde reside a Polónia racista? Reside na intolerância de alguns cidadãos polacos que não são o orgulho desta nação, são provocadores, são de mente fechada ao estilo Mississipiano dos  séculos precedentes e das comunidades herméticas onde o Ku Klux Klan ainda hoje congrega, são aqueles que fazem sons de símio quando um jogador negro toma a posse da bola ou quando compra bananas no mercado, aqueles que chamam negro sujo quando o vêem com uma mulher branca ou que ameaçam "limpar o país" de pretos, de indianos, de  árabes e judeus, dos homossexuais, das lésbicas, dos ateus, dos que são ecologistas e vegetarianos, daqueles que preferem a bicicleta ao automóvel ou que pura e simplesmente recorrem a métodos anticoncepcionais que ficam fora daqueles recomendados pela Igreja Católica...

Os polacos que assim não pensam e agem foram denominados de Najgorszy Sort Polaków (o pior tipo de polaco) por, o agora comparado a Viktor Orban, Jarosław Kaczyński. Tal como os nossos compatriotas que já foram vitimas de xenofobia e racismo há milhares de polacos e estrangeiros nacionais da UE e não só no mesmo cesto... O problema é cultural e está longe de ser resolvido nas próximas décadas. É acima de tudo um problema polaco e entre polacos.

Uma coisa é certa, a Polónia não é partidária do politicamente correcto e como típica nação eslava tem poucas contemplações e paciência com interferências externas ao seu modo de vida e organização. Há-de ser sempre uma tarefa hercúlea pretender de nações eslavas comportamentos similares aqueles dos europeus do Norte, se ao longo dos seus mais de mil anos de história com invasões, divisões e tentativas de aniquilação a nação polaca  nunca desapareceu e foi incrivelmente teimosa na manutenção do seu idioma (não há cá acordos ortográficos  há séculos) e cultura então há que esperar sentado por uma "revolução-cultural", na realidade as coisas aqui mudam com o tempo mas demora e resolvem-se entre os que aqui nasceram...