segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Morreu o cineasta Andrzej Wajda

A cultura e o mundo cinéfilo polaco e mundial ficou ontem mais pobre. Morreu o <<Manoel de Oliveira>> polaco, Andrzej Wajda, uma longa vida de 90 anos e obra que perpétua momentos históricos significativos da Polónia, da sua rica e dramática história mas não só... Cinzas e Diamantes, Pan Tadeusz, Homem de Mármore, Homem de Ferro, Terra Prometida, Kanal e o impressionante Katyń (2007) são apenas alguns dos títulos mais conhecidos deste prolífico realizador polaco.


A vida de Andrzej Wajda daria per se um filme... Vivendo a tragédia da invasão da Polónia pela Alemanha Nazi e pela URSS em 1939 e em idade militar foi profundamente marcado pela morte do seu pai no Massacre de Katyń vindo a combater na Resistência e posteriormente no Exército Nacional no pico do conflito. No pós-guerra regressa a Cracóvia onde estuda na Academia de Belas-Artes e posteriormente na Escola de Cinema de Łódź.

Descreveu com grande profundidade momentos dramáticos, senão trágicos, na história e vida dos polacos nomeadamente o pós-guerra em filmes como Pokolenie, Cinzas e Diamantes e Canal, considerados como uma Trilogia, sobre o regresso (possível) à normalidade depois de um conflito que praticamente dizimou a Polónia e tentou, debalde, a aniquilação total da nação polaca e sua identidade.

Outro dos ícones da sua obra é o filme Ziemia Obiecana (Terra Prometida) sobre o período da Revolução Industrial na Polónia e o centro industrial têxtil que era na altura a cidade de Łódź. A falta de empatia dos patrões com os empregados, as condições inenarráveis de higiene e segurança no trabalho, o sub-mundo dos semi-escravos nas gigantescas fábricas, as intrigas e lutas intestinas entre a elite de Łódż e o brutal contraste entre ricos e pobres numa cidade em que a industria até os rios enterrou, culmina com o inicio dos movimentos socialistas que iriam mudar a face do país no século seguinte.

Desiludido com o rumo que o sistema comunista-socialista seguia, estando a Polónia reduzida a um dos países-satélite da URSS (ainda hoje um estigma bem presente na sua história) foi critico dos soviéticos e do governo pró-URSS, a sua visão bem explicita nos aclamados filmes Homem de Mármore em 1977 e Homem de Ferro em 1981 - ano do Estado de Sitio declarado pelo General Jaruzelski. Ano esse em que adere ao Sindicato Livre Solidariedade (Solidarność) passando a fazer parte do movimento de libertação dos grilhões pró-URSS, liderado por o sindicalista de Gdańsk, Lech Wałęsa.



Em 2007 estreia o filme Katyń que demonstra de modo impressionante os eventos que levaram ao Massacre de Katyń, considerado durante décadas como autoria dos Nazis (ainda que negado por os mesmos) e como <<teoria da conspiração>> por aqueles que afirmavam a pés juntos ser uma orquestração dos russos para eliminar a elite intelectual, militar e politica da Polónia, parte do plano de limpeza étnica conveniente quer aos nacional-socialistas alemães quer aos Estalinistas soviéticos...

Fica a sua obra para a posteridade e uma Polónia que vê partir um dos seus grandes intelectuais, um homem de cultura e pedra de toque no mundo do cinema polaco e europeu.

Que descanse em paz, Andrzej Wajda (1926-2016)




terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Segunda-Feira negra

Ontem, dia 3 de Outubro de 2016, confirmou-se que a Polónia é cada vez mais um país dividido. O partido conservador no poder, o PiS de Jarosław Kaczyńsky, na sua caminhada pela preservação dos ditos valores tradicionais polacos - sobretudo aqueles ligados ao catolicismo - viu as ruas da capital Varsóvia e as grandes urbes como Cracóvia, Łódź, Wrocław, Poznań e Gdańsk em protesto pelos direito das mulheres relativamente à polémica questão do aborto. Chamaram-lhe de Segunda-Feira negra, Protesto Negro e Greve das Mulheres, os movimentos pró-vida prometem retaliar, vestidos de branco, ao estilo Senhor dos Anéis de Tolkien...




Não vale a pena esmiuçar os detalhes que se encontram em pormenor nos media portugueses aqui e brasileiros aqui. O protesto público, difundido nas redes sociais com o ashtag #czarnyprotest (protesto negro), surge face ao plano de completa modificação da lei do aborto e por consequência de qualquer método anticoncepcional não aceite pela religião católica no território polaco. 


Mulheres de todas as idades e estratos sociais em uníssono pelos seus direitos. No cartaz, <<Meu corpo, minha decisão>> e PiSoff uma junção do acrónimo para o partido Lei & Justiça, PiS,  com o inglês piss-off = vão-se lixar;. Fonte: Gazeta Wyborcza

O pacote de medidas do PiS relativamente a este assunto criminalizará qualquer excepção à interrupção voluntária da gravidez inclusivamente má-formação do feto, violação e incesto prevendo penas até aos cinco anos para as mulheres, médicos ou parteiras. Na realidade a nova lei é de tal modo intrusiva que inclusivamente situações de aborto de espontâneo podem passar pelo crivo das autoridades. Do mesmo modo testes pré-natais podem vir a ser recusados por especialistas pelo simples facto de estes temerem represálias.

No coração de Cracóvia, no Palácio de Wawel as ruas apinhadas de manifestantes num dia particularmente chuvoso e triste.

Depois de um ano politicamente agitado o <<czarnyprotest>> é visto pela oposição como um claro sinal do descontentamento relativamente ao PiS e observado com sobranceria por alguns membros do governo onde tiradas como aquelas ditas por o ministro dos negócios estrangeiros, Witold Waszczykowski; <<Eles (os manifestantes) que se divirtam [...] Avante se pensam que não há problemas mais importantes na Polónia>>. Comentário este já rechaçado pelos seus pares que entenderam a mensagem... 

Entre palavras como <<Queremos médicos, não missionários!>>, <<Rua Jarosław!>> <<PiSoff>>, <<No woman no Kraj (Kraj = País)>> foi visível a quantidade de cidadãos vestidos de negro, por vezes totalmente, outras parcialmente, nas ruas, transportes públicos, nos locais de trabalho, nas escolas e universidades... Apenas em Poznań o lançamento de flares provocou desacatos e a acção pronta da policia de intervenção que a dada altura carregou nos manifestantes.

O PiS terá porventura cometido um dos maiores erros desde que está no poder, meteu-se com elas, numa sociedade ocidental onde o feminismo desenvolve-se a cada ano que passa e, como já foi visto inúmeras vezes na História, enquanto o assunto é com homens resolve-se de alguma maneira - nem que seja à porrada - mas com mulheres e especialmente com as polacas, que gostam de expressar a sua opinião e muitas delas são activistas, compraram uma guerra onde ninguém se vai render e  onde certamente elas sairão vitoriosas, mais tarde ou mais cedo...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O feriado de 15 de Agosto - Dia das Forças Armadas (Święto Wojska Polskiego)


O feriado católico da Assunção de Maria é celebrado na Polónia com um duplo significado, religioso e militar. É o aniversário de um grande feito histórico na violenta e dolorosa História deste país da Europa Central; a Batalha de Varsóvia no Verão de 1920 que assinala uma vitoria memorável das forças polacas, com o herói Marechal Piłsudski no comando das tropas polacas, e uma derrota humilhante para o Exército Vermelho, liderado por uma conhecida personagem política, Leon Trotski. 

Com uma História tão conturbada onde a identidade de uma nação foi sucessivamente desejada ser destruída por os seus vizinhos a Leste e a Oeste não é portanto de admirar a observação deste feriado com direito a parada militar em Varsóvia, cerimónia de agradecimento às forças armadas e homenagem ao soldado desconhecido.

Fonte: http://www.prezydent.pl/

É por vezes difícil, sobretudo para alguns estrangeiros mal informados, compreender o real significado deste dia. Pode parecer um exercício exacerbado de patriotismo com direito a presença do Presidente da Polónia, do Primeiro-Ministro e da maioria dos ministros do Sejm (Parlamento polaco), os quais observam do palanque o desfile de todos os ramos das Forças Armadas da Polónia, um espectáculo visualmente deslumbrante e impressionante da quinta maior força militar da UE. Com 42 caças F-16, outras centenas de aviões, helicópteros e mais de mil tanques entre outros milhares de blindados (incluindo o avançado PL-1) e um contingente de aproximadamente 100.000 militares treinados incluindo os temíveis operacionais do GROM.

Num discurso claramente anti-comunista, anti-soviético e pró-NATO o Presidente da República da Polónia, Andrzej Duda, sublinhou a importância deste na Aliança Atlântica e na defesa da Europa onde recordou a Batalha de Viena e outras tantas vitórias decisivas para a estabilidade no velho continente. Agradecendo ao militares em serviço e àqueles que deram a sua vida pela independência da Polónia o discurso mencionou ainda as Jornadas Internacionais da Juventude onde, de acordo com Andrzej Duda, a Polónia foi reconhecida pelos estrangeiros como um belo país [sic], e a Cimeira da NATO que assinala a consolidação da Polónia na sua ligação ao Ocidente e o distanciamento com o passado, não tão longínquo, com a Rússia e o sistema comunista-socialista do bloco-soviético que durou até 1989. 



Na parada militar, onde "chuva de civil não molha militar", foram convidados operacionais aliados da Polónia e parte integrante do continente da NATO no território. Militares dos EUA, Roménia, Alemanha, Ucrânia e uma representação portuguesa (de acordo com a TVN) juntaram-se aos militares polacos perfazendo um total de cerca de 200 países.

Para completar - e finalizar - o evento o desfile "histórico" marcharam figurantes a cavalo com uniformes de outros séculos e no final uma reconstrução da força civil de reconstrução do país que basicamente erigiu Varsóvia das ruínas e do autentico cenário "lunar" do pós-guerra uma homenagem aos que pereceram no protesto de trabalhadores da fabrica H. Ciegelski em Poznań, corria o ano de 1956. Um dos primeiros protestos contra o governo-fantoche pró-sovietico. Ainda hoje não e possivel determinar o numero de vitimas - entre meia-centena a centena - incluindo um rapaz de 13 anos. Ler mais no Wikipedia

Uma História distinta da nossa portuguesa, feita de grandes feitos como as descobertas (ainda que tenhamos o estigma da escravatura e colonização) e de batalhas de conquista com os sarracenos e castelhanos e mais recentemente a guerra colonial portuguesa ainda presente na memória colectiva. 

Jeszcze Polska nie zgineła, Kiedy my żyjemy "A Polónia não desaparecerá, Enquanto nós vivermos", a primeira estrofe do hino nacional da Polónia neste dia festivo reveste-se de particular simbolismo. Os seus inimigos tentaram destruí-la mas nunca conseguiram, um mais do que razoável motivo para celebrar!











segunda-feira, 11 de julho de 2016

Portugal - Campeão da Europa 2016

Prova de que o futebol é de facto o desporto-rei reflecte-se no facto de que até um leigo na "bola" como o vosso escriba viveu este evento desportivo do Euro 2016 com uma enorme e crescente intensidade que culminou ontem, no histórico dia 10 de Julho, em Paris. Longe da pátria, a mais de 3500 quilómetros da família mas perto de todos os portugueses em Portugal, daqueles espalhados pelo mundo e de todos os apoiantes da nossa selecção nacional independentemente da sua nacionalidade.

Os media polacos noticiaram a vitória portuguesa de um modo algo morno criticando a actuação nacional como inferior aos bleus. Destaque na imprensa especializada para a saída inesperada de Cristiano Ronaldo, a nossa super-estrela, no jogo mais importante da sua carreira e o épico golo de Eder. Mal ou bem o "caneco" é nosso, ó...

O vendaval de emoções no Stade de France, desde a lesão e retirada de Cristiano Ronaldo até ao final "Hitchcockiano" com prolongamento e carga dos franceses no seu ultimo estertor  provam que cinco minutos podem parecer uma eternidade mas essa eternidade deu lugar a uma alegria imensurável, um momento histórico que já ninguém nos tira e que será recordado por décadas. Finalmente somos campeões da Europa em futebol!

Um momento histórico que tivemos oportunidade de viver. Pela primeira vez o nosso pequeno cantinho de Europa ganha o titulo de Campeão Europeu. 
Inevitavelmente, enquanto Cristiano Ronaldo levantava a taça e todos os apoiantes celebravam a vitoria, recordei com saudade o meu pai, Manuel Taipa, que partiu em 2003 - um verdadeiro fã de futebol e genuíno "connaiseur". Homem que recordava com extraordinário pormenor e exactidão jogos de outras décadas, resultados, tácticas, nomes de jogadores, treinadores e dirigentes.
Quem o conheceu e era também apaixonado por futebol era capaz de o ouvir horas a fio. Chegou a jogar futebol no Atlético de Luanda, onde o seu pai o meu avo Adriano Taipa) jogou também. Nascido em Amarante e levado para Angola com  apenas quatro anos foi convicto apoiante do F.C. Porto numa altura em que o clube não ganhava mas nunca desistiu dele. O seu descendente, pelo contrário, nasceu com uma "árvore-de-cames à cabeça", saiu a gostar de tudo o que tem a ver com carros (desde a infância quando estes ainda tinham para-choques cromados) o que não me impede de vibrar com o futebol nestes momentos. Ontem, na Polónia, rodeado da minha família luso-polaca, com um outro Manuel de dez anos o mano de sete e a mãe polaca, pensava como gostaria de o ter ao nosso lado e como ele reagiria a tamanha alegria que nunca chegou a ter. 

Que momento inesquecível! Obrigado aos nossos rapazes, bem hajam!






sábado, 21 de maio de 2016

A Polónia é um país racista? Não, mas tem racistas...



Recentemente na imprensa portuguesa veio à tona um incidente entre estudantes de intercâmbio portugueses e um cidadão polaco na cidade de Rzeszów (leia-se Jé-chuv) no Leste da Polónia, a aproximadamente 80  km da fronteira com a Bielorrússia. A agressão aconteceu sem motivo aparente e alegadamente por terem sido confundidos com... árabes. O caso foi motivo suficiente para muitos portugueses emigrados na Polónia serem contactados por jornalistas nacionais. Nas redes sociais e nas páginas dedicadas aos portugueses e à comunidade portuguesa neste país o tema revelou-se fonte de polémica e desacordo entre aqueles que nada têm a dizer de relevante contra os polacos e outros que já sentiram na pele confrontos e agressões verbais, sobretudo pela sua cor de pele.



Os jornalistas queriam saber se os que aqui residem se sentem ameaçados e se conseguem viver normalmente o seu dia-a-dia. As respostas dividiram-se entre aqueles que nunca passaram por tal e outros que já tiveram situações desagradáveis com comentários claramente racistas e ameaças veladas à sua integridade física por cidadãos polacos.

Ponto comum - e aqui também contam exemplos que conheço nos quase treze anos de emigração - é a cor da pele sobretudo com negros e mulatos mais do que a nacionalidade per se, no entanto desde a crise dos refugiados e consequente irresponsabilidade de Angela Merkel e da UE na organização e logística para recepção de refugiados de guerra e migrantes económicos (com os migrantes já ocorria há mais de uma década em Calais, França, e Dover, Reino Unido, mas a UE fez sempre vista grossa) os movimentos patriotas e nacionalistas, um pouco por toda a Europa, reaparecem com mais força e com maior número de apoiantes - vide exemplo da FN  de Marie Le Pen na França ou o UKIP e BNP (British National Party) no Reino Unido. Na pacifica e tolerante Suécia os partidos que se manifestam contra a emigração descontrolada e contra o politicamente correcto ganham mais notoriedade. Geert Wilders na Holanda foi inclusivamente processado por alegados comentários racistas contra a imensa e crescente comunidade marroquina e islâmica nos Países Baixos. E ainda temos do lado de lá do Atlântico a crescente popularidade de Donald Trump...

A Polónia, um dos países mais cristãos e católicos do continente Europeu, senão de todo o planeta, não é excepção e o núcleo da  sua identidade está intrinsecamente ligado a esta religião. Relembremos que a Polónia é um país maioritariamente católico e praticante situado entre outros países luteranos e ortodoxos e ainda aqueles onde a religião cada vez  mais é relegada para segundo plano como na Escandinávia e Federação Russa.

A ascensão do partido PiS (Verdade e Justiça) ao poder (executivo e presidencial) arrasta consigo toda esta "artilharia" religiosa e a Polónia conservadora onde Jesus, Maria, a cruz de Cristo, a missa e uma fervorosa fé católica se junta aos media religiosos como a Radio Maryja e o canal televisivo TRWAM de Tadeusz Rydzyk. Como medida populista a promessa de "subsídio de criança" aos pais com mais do que um filho (500 PLN mês ou 120 EUR por criança) revelou-se genial, consolidando em certos meios o garante do apoio popular a este partido por muitos anos - pelo menos se conseguirem cumprir (pagar) a promessa...

Com esta conjuntura politica e sem uma palavra critica do governo contra aqueles que se manifestam de modo xenófobo e racista - o instituto governamental responsável pelo tratamento destes casos foi recentemente fechado do dia para a noite - os movimentos de extrema-direita, amiúde ligados a claques de futebol agressivas, a apoiantes de ideais de pureza racial ariana ao estilo Nazista, e à intolerância contra a diferença, seja ela  religiosa ou não, crescem a  olhos vistos sobretudo contra a ideia da "Islamização da Europa". 

Este conceito de Islamização da Europa tornou-se extremamente popular há alguns anos atrás com vídeos virais sobre o possível futuro do nosso continente em 2050. Nesses vídeos é explicado que a actual taxa de fertilidade na Europa será resolvida por esses emigrantes que, ao contrário dos autóctones, se  reproduzem num modo incomparável.
Cidades como Marselha e Malmo na Suécia serão  maioritariamente muçulmanas tal como outras  no Reino Unido, Holanda, Bélgica e Alemanha, no espaço de duas ou três décadas. Assim pretendem passar a mensagem os autores do vídeo.

Capa da revista polaca w Sieci que gerou grande controvérsia. Braços peludos e pele morena violam a Europa, simbolizada pela mulher branca vestida com a bandeira da UE. Coitados dos "tugas" peludos (como o vosso escriba) e os morenos com barbas e eventual "monochelha"...

Os polacos, que vivem no Reino Unido e na Escandinávia, contam histórias dos efeitos do politicamente correcto, do multi-culturalismo onde a integração é frequentemente mínima com exigências de respeito absoluto por razões religiosas como, por exemplo, exigência de carne Halal em escolas públicas, proibição de vestimenta ocidental para evitar "provocar" a tentação nos homens de fé islâmica, a crescente insistência da aplicação da Lei da Sharia no Ocidente e a proibição de imagens religiosas cristãs mesmo durante o Natal e Páscoa. 



Este é um dos principais motivos  para esta crescente onda de anti-islamismo na Polónia aliado a um facto histórico que enche os polacos de orgulho e que ocorreu em 1683, a Batalha de Viena, quando o rei polaco Jan Sobieski III - durante a fase histórica da República das Duas Nações (Polónia-Lituânia) - derrotou os Turcos-Otomanos, protegendo a Europa de uma longa e violenta guerra religiosa, alterando para os séculos seguintes a história do nosso continente. 

Na Polónia moderna a comunidade árabe não cria conflitos e está bem integrada na vida polaca; trabalham, têm os seus próprios negócios e actividades, muitos concluíram aqui os seus estudos superiores e a maioria casou com cidadãos polacos formando família. Conheço alguns deles; sírios, marroquinos, argelinos, iranianos, egípcios e tunisinos. Gente boa que, ao contrário daquilo que muitos  pensam, conseguem facilmente ser nossos amigos e nós deles, alguns são mais restritos no consumo de álcool ou carne de porco pela sua fé no Islão mas outros vivem perfeitamente bem e adaptados ao nosso modo europeu, ocidental.

E onde reside a Polónia racista? Reside na intolerância de alguns cidadãos polacos que não são o orgulho desta nação, são provocadores, são de mente fechada ao estilo Mississipiano dos  séculos precedentes e das comunidades herméticas onde o Ku Klux Klan ainda hoje congrega, são aqueles que fazem sons de símio quando um jogador negro toma a posse da bola ou quando compra bananas no mercado, aqueles que chamam negro sujo quando o vêem com uma mulher branca ou que ameaçam "limpar o país" de pretos, de indianos, de  árabes e judeus, dos homossexuais, das lésbicas, dos ateus, dos que são ecologistas e vegetarianos, daqueles que preferem a bicicleta ao automóvel ou que pura e simplesmente recorrem a métodos anticoncepcionais que ficam fora daqueles recomendados pela Igreja Católica...

Os polacos que assim não pensam e agem foram denominados de Najgorszy Sort Polaków (o pior tipo de polaco) por, o agora comparado a Viktor Orban, Jarosław Kaczyński. Tal como os nossos compatriotas que já foram vitimas de xenofobia e racismo há milhares de polacos e estrangeiros nacionais da UE e não só no mesmo cesto... O problema é cultural e está longe de ser resolvido nas próximas décadas. É acima de tudo um problema polaco e entre polacos.

Uma coisa é certa, a Polónia não é partidária do politicamente correcto e como típica nação eslava tem poucas contemplações e paciência com interferências externas ao seu modo de vida e organização. Há-de ser sempre uma tarefa hercúlea pretender de nações eslavas comportamentos similares aqueles dos europeus do Norte, se ao longo dos seus mais de mil anos de história com invasões, divisões e tentativas de aniquilação a nação polaca  nunca desapareceu e foi incrivelmente teimosa na manutenção do seu idioma (não há cá acordos ortográficos  há séculos) e cultura então há que esperar sentado por uma "revolução-cultural", na realidade as coisas aqui mudam com o tempo mas demora e resolvem-se entre os que aqui nasceram...



domingo, 24 de abril de 2016

Sauron e Mordor


O ano começa polémico entre acusações internas e externas ao executivo polaco de estarem a contribuir para o desmantelar da Democracia em consequência do despedimento de três juízes do Tribunal Constitucional - alegadamente em favor de magistrados que favorecem o PiS - do pagamento de mais de 26 milhões de złoty (aproximadamente 6 milhões de €) em compensação por danos à fundação Lux Veritatis pela parte do Narodowym Funduszem Ochrony Srodowiska i Gospodarki Wodnej (Fundo Nacional de Protecção ao Ambiente e  Gestão de Água) entre outras polémicas que prometem um 2016 agitado...

Considerado com Eminência Parda do PiS, Kacyński não está oficialmente no poder mas o Presidente e Primeiro-Ministro (Duda e Szydło) são eleitos pelo seu partido Prawo i Sprawiedliwość. 

 No Parlamento Europeu, em Janeiro, a Primeiro-Ministro da República da Polónia, Beata Szydło, eleita pelo PiS, respondeu a questões sobre a situação da Democracia no seu país, defendendo a sua causa patriótica como o reforço dos valores europeus e o papel deste país (Polónia) na História do continente enquanto, sublinhou, tudo não passa de um mal-entendido, os tribunais e os media públicos estão bem e recomendam-se... Este discurso, contudo, não impediu certas falácias como a afirmação de terem acolhido 1 milhão de refugiados da Ucrânia em território polaco em consequência do conflito iniciado pela invasão da Crimeia. Números difíceis de provar apesar da evidente emigração dos vizinhos de Leste na Polónia que, segundo as estatísticas, serão a maior comunidade de emigrantes no território.

Reflexo da inacção da União Europeia perante os atentados em Paris e Bruxelas, a crise resultante do conflito sírio e a ineficácia no controlo das entradas de refugiados e migrantes económicos no continente europeu - é agora sabido e oficialmente admitido que de facto entraram indivíduos radicalizados entre os que chegam ao continente fugindo da guerra - a Polónia em consequência recusou oficialmente a aceitação de mais refugiados havendo inclusivamente manifestações anti-Islão e anti-emigração (sobretudo contra os refugiados muçulmanos) e contra-manifestações nas grandes cidades polacas. Os movimentos patriótico-nacionalistas estão agora a ter mais aceitação do que nunca, não só na Polónia mas em todo o continente, o liberalismo, os movimentos e partidos humanitários, conotados sobretudo com a Esquerda e com o "Politicamente Correcto" estão debaixo de fogo.

No cartaz: zakaz pedalowania pode-se ler  como "proibida a paneleiragem" ou "viadagem" numa manifestação da extrema-direita polaca. 

Os tempos mudam e este ano parece que desperta um monstro que ninguém quer realmente incomodar. Enterrado na lama desde 1945, os movimentos nacionalistas e fascistas beneficiam do medo, do caos e da raiva que as injustiças despertam nas pessoas, cresce e ganha força perante uma UE gorda, tecnocrata, acomodada, burocrática e demasiado preocupada com o já referido politicamente correcto. Nos EUA, Donald Trump, o candidato mais ignorante, boçal e bacoco dos últimos anos ganha um suporte inusitado o que não é um problema directamente europeu mas e pode vir a ser ou não fossem os EUA nossos aliados.

O "estouro" de Andrzej Duda e o desastre de Smoleńsk

Fonte: http://bi.gazeta.pl/im/c3/ce/12/z19720131Q,Wypadek-Andrzeja-Dudy--Limuzyna--ktora-jechal-prez.jpg



O presidente da República da Polónia "esbarrou-se" (como dizem lá no Norte) na Auto-Estrada A2 quando seguia no BMW presidencial, um série 7 blindado. Alegadamente um pneu traseiro rebentou fazendo o veiculo sair repentinamente fora da estrada, quase capotando na berma. Mas foi só o susto ainda que, ou não fosse típico da politica e dos media polacos, um acontecimento esmiuçado e debatido com direito a comissão de investigação não fosse o caso de ser um potencial atentado à vida do chefe-de-estado como, assim acreditam o PiS e Kaczyński, o desastre de aviação em Smoleńsk na Rússia em 2010 que ainda hoje é fonte de polémica e de inúmeras comissões de investigação (e teorias da conspiração) semelhantes às do acidente de aviação do Primeiro-Ministro português Sá Carneiro, restantes passageiros e tripulação em Camarate.

Ao que consta os novos pneus estariam disponíveis em armazém mas não foram mudados a tempo o que porventura teria evitado o rebentamento e o acidente com a principal figura de Estado da Polónia.


O aborto e o cárcere para quem aborta e ajuda a abortar e o fim da comparticipação para a fertilização in vitro.




Na Polónia, por exemplo, não se compra a pílula de contracepção sem receita médica e o ponto de vista da Igreja Católica no que diz respeito ao aborto e a métodos contraceptivos é seguido à letra pelos conservadores e pela grande parte dos partidos políticos mais à direita. Com o PiS no poder o movimento "pro-vida" ganha força e está para ser aprovado em parlamento a lei que prevê a detenção da mulher que decide pelo aborto (e quem a suportou directa ou indirectamente) com pena efectiva até cinco anos. Inúmeras manifestações pacificas contra esta medida ocorrem um pouco por toda a Polónia não se registando confrontos ou necessidade de intervenção policial.

Do mesmo modo a fertilização in vitro pode ser penalizada a nível da comparticipação do Estado polaco o que acaba por ser um contra-senso num dos países com a mais baixa taxa de fertilidade da UE. Prevendo poupanças na ordem dos 110 milhões de złoty (27 milhões de €) o executivo terá assim menos problemas em realizar os pagamentos do novo e prometido plano "500+" que atribui o pagamento mensal de 500 PLN (116€) a casais com mais do que um filho.

2016 promete ser um ano de grandes polémicas e divisões, não apenas na Polónia mas também no mundo ocidental, um ano que parece ser o encetar da ascensão de forças malignas ao estilo Sauron do Senhor dos Anéis ou pura e simplesmente o resultado de décadas do "Politicamente Correcto", do laxismo de Bruxelas e do tão apregoado multi-culturalismo que, à medida que o nevoeiro se dissipa, revela debilidades num modelo porventura demasiado permissivo e mais unilateral do que outra coisa.

Para todos os efeitos a "procissão ainda vai no adro" quando consideramos que mais de três milhões de refugiados se acumulam na fronteira entre a Síria e a Turquia, outros milhares continuam a cruzar o mediterrâneo, os britânicos em Junho votam pelo sim ou não a permanecerem na UE (o sim parece estar a ganhar terreno) e na Sicília a Cosa Nostra declara guerra aos gangs africanos de tráfico de humanos que trazem consigo, em média, mil refugiados por dia àquela ilha.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os ciclos da vida...


Nascer, viver e morrer. Tudo tem um principio e um fim, chamam-lhe os ciclos da vida e vivemos com consciência deles. O blogue 'Um Português na Polónia' não é excepção e já não era actualizado desde o Natal de 2015 o que revela o principio de um fim ou pelo menos um abrandamento significativo de artigos, fruto da longa estadia na Polónia e de já me sentir estrangeiro no meu próprio país mas também mudanças a nível pessoal e pouca disponibilidade entre o 'school-run' e cansaço acumulado de trabalhar por turnos. 




O factor novidade e o ver a Polónia com olhos de estrangeiro é tarefa difícil perante os mais de doze anos de emigração neste país da Europa Central - ou de Leste se preferirem - e a construção de uma vida tão distante de Portugal inevitavelmente traz consigo um distanciamento cada vez maior das experiências descritas pelos neófitos. Em consequência este espaço de escrita passa a ser mais uma voz polaca escrita em português do que uma voz portuguesa na Polónia.

Porque a escrita deve ser fluída peço desculpa pela decisão de 'postar' quando assim houver vontade ou um acontecimento que inspire a escrita informando aqueles que de algum modo estão interessados no que se passa nestas terras e que me têm acompanhado ao longo de quase dez anos.


Dentro dos 'ciclos da vida' aproveito a ocasião para homenagear a minha tia Odete, a quarta irmã da minha mãe - eram cinco - que recentemente nos deixou. À medida que os anos vão passando - e como passam rápido - vemos desaparecer da nossa vida pessoas que fizeram parte da nossa infância, adolescência e idade adulta e são essas perdas, esses desgostos que nos vão vincando marcas no rosto e no espírito, especialmente aqueles que partem cedo demais. 

Como num filme, daqueles projectados em película com bobines, recordo a minha tia naquelas férias no Algarve corria o Verão de 1986, na viagem para Quarteira com o meu tio ao volante do 'épico' Fiat 127 900/C e os primos comigo no banco de trás a ouvirmos no rádio a Lena d'Água, todos a cantarolar felizes e ela a sorrir. É assim que a recordarei.  




segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Vê-sau-eh Sh-viont Jetche ou Wesołych Świąt Życzy - Bom Natal


A todos os leitores, amigos e familiares os votos de um Feliz Natal de 2015.




Divididos entre Portugal e a Polónia, entre o bacalhau e o śledz (arenque) e numa mesa natalícia onde convivem duas culturas distintas muitos dos nossos emigrantes por terras polacas optam por passar o Natal à sua maneira, se por aqui ficam, ou matam saudades dos seus familiares e amigos nos inúmeros e apinhados voos que os levam de volta ao grande terraço com vista para o Atlântico, que é o nosso Portugal. 


Para os que trabalham por turnos um especial desejo de boas festas (este ano calha-me o turno das 14 às 22 no dia 24) e que tenham dias de descanso depois dos dias de labuta longe dos queridos.

Os que passam a quadra natalícia na Polónia aproveitem e deliciem-se (isto é altamente controverso), se passarem o Natal em casa polaca, com o arenque, carpa, o chucrute (kapusta kiszona), o barszcz (leia-se barsh-tch) ou em vez disso a tradicional sopa de cogumelos com natas, os croquetes ou krokiety de cogumelo, as gelatinas com arenque e o Bigos.

Quanto a beberem, bem... depende. Se passarem a Consoada em casas de católicos devotos então deixem a garrafinha de tinto para o dia seguinte e vistam-se a rigor para irem à missa à meia-noite.De qualquer modo este ano não preveem neve para Dezembro e as temperaturas mesmo se negativas não passam de um digito. Boa sorte quando o padre pedir para rezarem o Pai Nosso e a Ave Maria em polaco...

Religiosos ou não, ateus, agnósticos ou de outro credo acima de tudo divirtam-se o quanto puderem.

Um Bom Natal para todos,

Ricardo Taipa


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

PiS e Kaczyński - O Despertar da Força


Entre manifestações a favor e contra o partido PiS (Lei e Justiça) de Jarosław Kaczyńki, irmão gémeo do falecido Presidente da República da Polónia, vitima de acidente de aviação (para o PiS um atentado), o país dito "mais ocidental da Europa de Leste", divide-se entre a direita conservadora e católica e os outros que, Kaczyński, diz serem uma tradição polaca, os najgorsze sort polaków (o pior tipo de polaco) que trazem nos seus genes serem traidores da pátria (sic), numa insinuação àqueles concidadãos de mente aberta, que revelam os segredos da Polónia no estrangeiro (sic), que são a favor da fertilização in-vitro, da venda livre da pílula contraceptiva, dos direitos dos homossexuais, da integração na UE entre outras "modernices". O facto é que três juízes do Tribunal Constitucional foram literalmente despedidos sendo substituídos por outros favoráveis às politicas do partido que agora está no poder Presidencial e Legislativo da Polónia. 

"Receita para um Império" - comentários jocosos e "memes" com a figura de Kaczyński surgem na Internet polaca depois da decisão de se mudarem os poderes judiciais numa alegada luta contra os resquícios deixados pela PRL (República Popular da Polónia) no sistema politico. Para o PiS ainda não acabaram os tempos de domínio do Grande Irmão Soviético que, na mais profunda convicção crêem serem os reais responsáveis pela queda do Tupolev presidencial em 2010 nos bosques de Smolensk.

Opiniões como "mini-ditadura de Kaczyński" ou a tão almejada recuperação da soberania polaca perante os ditames de Bruxelas e de Angela Merkel são alguns dos argumentos a contra ou a favor do novo poder politico polaco no xadrez nacional e internacional mas foi no passado sábado que uma manifestação da oposição contra o PiS foi verdadeiramente visível na capital da Polónia, em Varsóvia. Algumas fontes mencionam cerca de 20.000 pessoas e outras 50.000 que, entre bandeiras e cartazes, levantaram a voz contra a consolidação do "absolutismo" liderado por J. Kaczyński e pelo PiS. 

O Tribunal Constitucional, o ultimo refúgio da oposição contra o absolutismo do partido dominante, agora com representação na presidência e com maioria no Sejm (Senado) polaco, não escapou a esta "limpeza" daqueles que se mostram contra os conservadores. Foram expulsos três juízes - alegadamente da oposição - numa manobra de bastidores que revoltou aqueles polacos que não se sentem representados e não se identificam com esta força politica. Um atentado à constituição polaca dizem os opositores, um Golpe-de-Estado, uma intentona... 

Neste cenário Jarosław Kaczyński literalmente jogou gasolina ao fogo ao declarar publicamente que existe um tipo de polaco que tem nos genes ser traidor da pátria, sobretudo aqueles que vivem no estrangeiro, partilhando os segredos da Polónia (sic), que partilham das ideias consideradas neo-liberais e ocidentais como a fertilização in vitro (a Igreja Católica é abertamente contra), a liberalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, os direitos dos homossexuais e a multitude de multinacionais que, à luz do PiS não contribuem para um real desenvolvimento da economia polaca sendo necessário taxar e retirar privilégios aos investidores estrangeiros. A tirada de Kaczyński mereceu inclusive um hashtag nas redes sociais #najgorzesortpolakow.

Num fórum polaco;

Confesso publicamente, sou o pior tipo possível de polaco, deixei o país há imenso tempo e isso estragou-me. Agora, horror dos horrores - a minha noiva é síria, um dos vizinhos negro, um colega de trabalho homossexual, com ideias  liberais e de esquerda...


O ashtag virou t-shirt - por 40 złoty (9€) pode-se comprar uma via Internet


Os najgorzsortpolakow desprezam Kaczyński e os seus seguidores incluindo a jocosa e típica "Moherowa Armia" ou "Exército dos Barretes de Mohair", uns milhões de beatas e beatos reformados que se identificam facilmente pelos barretes que usam quase todo o ano, leais ao PiS e à ICAR. São eles o eleitorado do PiS e a verdadeira força motriz do partido conservador.

Trazem consigo um grande ressentimento pelas décadas de Comunismo-Socialismo, opressão pela Ex-URSS, a quase-abolição dos serviços religiosos num país onde o catolicismo é ainda levado à letra e onde o fear mongerism pela União Europeia faz com que, aos seus olhos, todos sugam os recursos da Polónia e o dinheiro dos polacos para os outros países da união. São as grandes vitimas da UE e ai de quem se opor aos seus ideais e arreigadas convicções. Nos seus modos os russos, os judeus, os alemães, os outros membros da União Europeia, os árabes, os pretos, os escuros, os paneleiros, as lésbicas, os comunistas, os ateus e os emigrantes são o alvo a abater.




Repórter da TVP agredido por católicos munidos de cruzes durante a cobertura de uma manifestação a favor do PiS e de Kaczyński. Entre apupos e acusações de ser um "propagandista", de estar a mando de Vladimir Putin e de dinheiro russo o jornalista é finalmente empurrado, insultado, convidado a sair do meio dos brancos (sic) e finalmente tocado por idosos enfurecidos que lhe arrancam os auriculares em directo, dando-lhe uma palmada na cabeça enquanto exigem censura, ainda que os organizadores tenham por todos os meios conter as emoções dos presentes.

Mapa da emigração polaca no mundo. Cerca de 20 milhões vivem no estrangeiro o que, a juntar aos que vivem na Polónia, perfaz mais de 60 milhões de almas. Os apelidos mais comuns são Nowak e Kowalski. Fonte Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Polish_diaspora

A manifestação deu azo a outras contra este tipo de fanáticos e definitivamente mostrou aos partidários do PiS que a Polónia tem em curso uma revolução silenciosa contra este tipo de atitudes lamentáveis, dignas do Kuk Klux Klan no Mississipi do século passado que estão erroneamente atribuídas aos movimentos patriotas. Ainda que há quem use e abuse deliberadamente dos símbolos nacionais da Polónia, a bandeira branca e vermelha, a águia da Polónia, a âncora com P símbolo da resistência contra os fascistas. Tudo servindo habilmente agendas partidárias e, em ultima instância, fomentando a intolerância, a violência gratuita contra o que é diferente - ou quem pensa diferente. Isto numa nação de emigrantes, numa Diáspora contínua com mais de 10 milhões de descendentes de polacos nos EUA, mais de meio milhão no Reino Unido e outros milhões por todo o mundo incluindo o Canadá, Austrália, Brasil, Israel, Irlanda, Alemanha, Escandinávia, França, Espanha e também em Portugal.

Kaczyński e o PiS demonstram estar tão só e apenas desconectados da realidade, parados no tempo e cristalizados ainda que tenham tocado pontos pertinentes como o descontrolo das politicas da UE relativamente à emigração e pedidos de asilo politico acompanhado pelo desastre que o partido PO de Donald Tusk causou nos últimos anos envolto em escândalos, uns graves e outros praticamente trágico-cómicos prontamente usados como arma politica.

E é assim que os emigrantes de um dos países da UE que ironicamente tem menor percentagem de emigrantes, vivem o seu dia-a-dia, integrados por esse "pior tipo de polaco" que os aceitaram. Assim contribuímos para a economia do vosso país, para o enriquecer com aquilo que podemos, com o nosso trabalho - ninguém vem para a Polónia para viver de benefícios da segurança social - e com pedaços do nosso país e cultura. Do mesmo modo levaremos um dia connosco a Polónia mas não essa dos energúmenos, dos bacocos ignorantes e a dos intolerantes.

Somos o #najgorszesortemigrantow...




quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Polónia - Legislativas 2015. Conservadores contra-atacam!

Um momento histórico vive-se na Polónia. Pela primeira vez na democracia polaca um partido político vai governar em maioria absoluta. O PiS (Prawo e Sprawiedliwość) ou, Verdade e Justiça, dos irmãos Kaczyński saiu vitorioso numa Polónia que sobreviveu a crise económica de 2008 e que viu a sua economia crescer enquanto declinava noutros países da UE, onde se inclui Portugal. Correspondente aos conservadores "Tories" no Reino Unido o PiS vai dar que falar agora que a presidência e o poder legislativo estão nas mãos de forças políticas críticas às decisões de Bruxelas, fortemente católicas e com ódio de estimação aos russos e alemães.

A morte do presidente Lech Kaczyński em 2010, juntamente com a primeira-dama, tripulação do Tupolev presidencial, staff e figuras de craveira da política, do exército e da história recente da Polónia não foram o canto-de-cisne das ambições politicas dos gémeos que em 1962 "roubaram a lua"...



A nova cara do PiS e novo Primeiro-Ministro da Polónia, Beata Szydło (leia-se Cheduó) tem origens humildes, é filha de um mineiro de carvão da Voivodia da Pequena-Polónia. Tem dois filhos sendo um deles diácono.

Cinco anos volvidos o partido símbolo da Polónia da velha-guarda contra-ataca e literalmente humilha o rival liberal-democrata, PO ou Platforma Obywatelska (Plataforma do Cidadão), abandonado pela sua principal figura, Donald Tusk, agora na sua nova carreira em Bruxelas, sai em bicos dos pés entre escândalos, demissões, fogo-cruzado, guerras intestinas a nível interno e uma enorme pressão dos media. A verdade é que o PO se pôs a jeito de sofrer uma pesada derrota ainda que ninguém esperasse uma verdadeira tareia, como a que se verificou no passado domingo.


Jarosław Kaczyński, o irmão sobrevivente, por detrás das cortinas, qual eminência parda, certamente regogiza-se, com a estratégia eleitoral e com o regresso a uma Polónia à antiga, pouco tolerante com essas "modernices" da igualdade relativamente aos direitos dos homossexuais, da liberalização dos contraceptivos e da fertilização in-victro. Deus, Pátria e Família ou "Bóg, Honor, Ojczyzna" - Deus, Honra e Pátria são os valores mais próximos dos ideais do PiS.

Com promessas fortes, a tocarem o âmago de muitos polacos, como a redução da idade da reforma, baterem o pé a Bruxelas e apontarem o dedo em riste aos eurocratas, num regresso à soberania da Polónia, mostrando-se abertamente hostil aos ditames de Merkel, marcando uma oposição firme a Moscovo (que consideram responsável pelo acidente aéreo de Smolensk), aumento da taxação às empresas com capital estrangeiro nomeadamente supermercados e bancos - Jerónimo Martins e Eurocash vão certamente sofrer um abalo - e cancelarem medidas impopulares como o início da idade escolar aos seis anos e não sete, a par com a manifesta posição anti-emigração levaram a uma mega-vitória que, uma vez mais, demonstra uma cisão entre a Polónia urbana e rural e a diferença entre os polacos abertos à mudança e aqueles com medo da mesma.

A promessa do novo executivo em taxar empresas com capital estrangeiro poderá tocar os agora abundantes service centersglobal delivery centers e BPO's a florescer na Polónia como a IBM, Fujitsu, HCL, HP, Accenture, Infosys, Symantec, Atos, Citi e muitos outros que têm vindo a empregar grande parte dos estrangeiros e inúmeros cidadãos polacos em Varsóvia, Łódź, Cracóvia, Wrocław e outras grandes cidades polacas.  

Resultados das eleições legislativas na Polónia em 2015.


A juventude, cada vez mais alheia aos processos democráticos, apolítica em muitos casos ou simplesmente desinteressada entregou, em parte, de bandeja esta maioria. Uma resignação por parte dos perdedores é notória e a organização do Sejm (parlamento) polaco muda substancialmente.

Associado a forças políticas provenientes dos primeiros anos da Democracia pós-comunismo e também com elementos do ancient-régime de Jaruzelski o PO tem pela frente a batalha de recuperar a confiança do eleitorado e de se redimir de erros crasos como ignorar petições de referendo para a questão da gestão do património florestal não ser entegue a privados, a idade escolar e de reforma e os escândalos como as gravações debaixo da mesa num restaurante de Varsóvia comparando a política externa polaca com os EUA a fazerem-lhes o felácio, num escândalo que jocosamente ficou conhecido como "Waitergate" levando à demissão de Sikorski e outros elementos do PO.

Resta saber se estas medidas populistas não serão um tiro no pé na medida em que o problema do progresso é que o mesmo progride sempre, a Polónia não é um país católico mas sim um país com muitos católicos e os partidos de Esquerda parecem ter alguns problemas de contabilidade quando estão no poder.


domingo, 4 de outubro de 2015

Pormenores da vida na Polónia - Comprehensive Guide part 1

Da gastronomia ao código da estrada passando pelo vestuário, expressões idiomáticas e gestos típicos a vida na Polónia para os estrangeiros, nomeadamente aqueles do "jardim da Europa à beira-mar plantado", assim descrito pelo poeta Tomás Ribeiro - não da autoria de António de Oliveira Salazar como muitos pensam - reveste-se de pormenores muito particulares neste pedaço de Europa que uns dizem ser Europa Central e outros de Leste ou ainda o país mais Ocidental da Europa de Leste... 

Kawa czy herbata? Café ou chá? 

Quando convidados ou quando convidam alguém ao seu lar é a pergunta sacramental logo após sermos presenteados com um par de chinelos deixando os sapatos ou ténis na soleira da porta (nem todos os polacos o fazem mas é uma pratica comum e ninguém fica ofendido) é a pergunta kawa czy herbata? ou seja, café ou chá? 

Os polacos são fãs de chá e quem aqui trabalha está habituado a vê-los ferver água nos típicos fervedores de metal, o czajnik, ou eléctricos e andarem de chávena (xícara no Brasil) ou caneca na mão beberricando o seu chá ao longo do dia, amiúde acompanhado de fatias de pão com pepino e śmietana (uma espécie de queijo fresco).


Os copos Duralex são uma das imagens do chá na Polónia, cada lar polaco deve ter pelo menos uma dúzia deles. 


O café é também presente e temos os polacos fãs do aromático grão ainda que o preparem em cafeteiras de embolo mais do que nas cafeteiras tipo italiano que em Portugal são mais populares. 

Obviamente que ao longo dos anos que foram passando, com a influência dos estrangeiros e hábitos adquiridos pelos emigrantes polacas mas também pela globalização o café expresso tem vindo a ser cada vez mais popular e é notória uma diferença abismal entre as gerações antigas e as mais novas nas preferências e métodos de fazer e beber café. 

Regras de trânsito

Sinais específicos ou um semáforo com seta verde a permitir a viragem à direita quando em frente não se pode porque o semáforo principal está em vermelho, obrigatoriedade de faróis em médios ou luzes diurnas todos os dias do ano e durante o dia, extintor obrigatório no carro, evitar beber álcool quando se conduz (mínimo 0,2) pelas penas pesadas e visita ao prokurator (Ministério Público) e por vezes ter de conduzir em velocidade são alguns dos desafios quando estamos ao volante na Polónia. 


Sinal "você tem prioridade" muito raro em Portugal mas comum na Polónia. A partir de França já se começa a ver mais frequentemente com uma pequena placa por baixo; vous avez de la priorité


Seta verde permitindo virar à direita ainda que com muito cuidado - é como ter STOP - é um dos hábitos que se aprende e, diga-se de passagem, bastante útil para não se perder tempo. 


Travessia nas passadeiras. Ninguém parou, revoltado? A regra é simples, pezinho na estrada e os condutores têm de parar, ficar em pé, na berma, à espera que parem? Mais vale esperar sentado... Na imagem acima uma passadeira pintada com formato de teclado de piano em homenagem a Frederic Chopin - considerada ilegal pelo Ministério do Transporte foi removida posteriormente.

Pneus de Inverno ou mistos (Verão/Inverno)



Pois é... há países onde se compram pneus e rolam-se neles todo o ano até ficarem carecas, outros têm de comprar pneus que sejam seguros na neve e gelo, que dêem boa tracção e travagem ou então corremos o risco de andar a "dançar" na neve como este utilizador do Youtube ZdanoG6 e o seu Fiat 126P, obviamente que o factor diversão também conta mas... 

Coisas de lençóis...



Dormir com os pés de fora ou coberto com um lençol onde se enfia um edredon é um dos "sistemas" para dormir na Polónia, já me habituei a tal ainda que tenha um cobertor extra e não consiga dormir com os "chispes" expostos ao ar... já o offspring, nascido e criado na Polónia, não consegue dormir de outra forma...

Luz, muita luz pela janela. O sol nasce a horas impensáveis e muitos dos patrícios e patrícias que conheço em terras polacas ou colocam cortinados grossos ou vendam os olhos ao estilo prisioneiro politico ou de guerra. Estores de correr em plástico é coisa que não se vê, talvez pelo frio e gelo no Inverno, e cortinas transparentes ou do tipo estores em pano são frequentes. Pela minha parte, em 12 anos de Polónia, ainda não me habituei a esta coisa do sol a acordar-me e quando vou a Portugal já não consigo dormir nas catacumbas, ou seja, com os estores totalmente fechados... 

Já diz o provérbio; em "terra estranha faz como vires fazer" mas... nem sempre é viável...

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Patriotismo polaco e as Forças Armadas


No nosso país ser patriota parece cada vez mais uma imagem do passado - ou só reaparece brevemente no Europeu e Mundial de futebol. As Forças Armadas de Portugal, por exemplo, andam há muitas décadas pelas ruas da amargura associando-as mais à revolução de Abril de 1974 e Golpe de Estado do que à importância que deveriam ter na defesa e vigilância de uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas da UE, cerca de 4 milhões de Km2. Na Polónia, pelo contrário, são ainda um dos pilares do patriotismo e orgulho da nação polaca. 



Um evento organizado pela Força Aérea da Polónia (Siła Powietrzna) no final de Setembro, intitulado de Piquenique Aéreo, na base aérea táctica de Łask a cerca de 40 quilómetros de Łódź, contou com mais de 20.000 visitantes que tiveram a oportunidade de assistir durante duas horas a arriscadas e espectaculares manobras dos pilotos polacos em alguns dos seus quarenta e seis F-16 e uma exibição de material militar incluindo caças, aviões, helicópteros, jipes e blindados. Material de camuflagem, metralhadoras pesadas e ligeiras, pistolas e artilharia estavam disponíveis ao público sendo dadas a experimentar e explicadas ao público por militares prestáveis e com sentido de humor. 

Um país que passou por duas guerras mundiais, sacrificado, dividido, ocupado, destruído mas mantendo uma forte identidade nacional que tantos inimigos tentaram em vão arrasar tem mais do que motivos para relembrar e apoiar as suas forças armadas, especialmente num momento em que a estabilidade das fronteiras da Europa sofrem importantes abalos; primeiramente e ainda com o conflito na Ucrânia e agora com a vaga de refugiados muçulmanos que desejam entram em território da UE. 

O Dia da Bandeira e da Constituição são prova dessa mostra de patriotismo onde frequentemente se exibe a bandeira branca e vermelha em janelas, varandas e mastros, os próprios prédios e instituições costumam ter um local próprio para se pendurar a bandeiras nos dias festivos da nação. 

Elementos relacionados com a extrema-direita polaca ou com hooligans usam esse orgulho na nação para mostras de força e amiúde manifestações de carácter eminentemente racista, homofóbico, anti-UE, anti-capitalista, anti-esquerda e anti-comunista. São orgulhosamente polacos, brancos e cristãos e não hesitam em usar força bruta contra aqueles que estão contra eles e os seus ideais.

Outro símbolo relacionado com o patriotismo polaco é o P com forma de ancora, conhecido como "kotwica". Criado pela resistência polaca durante a ocupação alemã na II Grande Guerra é hoje em dia um dos símbolos nacionais, representando a independência e resiliência do país e dos seus cidadãos contra os inimigos. 

Depois da queda do Comunismo na Europa Central e de Leste, deitado abaixo o Muro de Berlim e em consequência a "Cortina de Ferro" a Polónia reorganizou as suas forças armadas ajustando-as à nova realidade fora da esfera de influência da URSS, aproximando-se de Washington, e sobretudo nas grandes mudanças após a adesão à NATO e posteriormente à UE. 

Coisas de adolescentes. Os meus primos de Vila Nova de Famalicão com os quais passei a infância e adolescência foram lembrados nesta visita. Passávamos horas a ler as revistas militares do Ruca e os inúmeros "kit" de aviões da Revell e Italeri dele e do irmão mais novo, o Nuno. Particularmente nunca consegui pintar um como deve ser mas aprendi bastante nesses anos ao ponto de reconhecer as armas e manuseá-las sem grandes problemas ainda que nos meus quarenta... 

É visível o material militar antes e pós NATO. Kalashnikov, Makarov, RPG e outros oriundos da URSS substituídos gradualmente por armamento de fabrico nacional (metralhadora Beryl) ou importado (Heckler & Koch, Glock ou Walter) e os MIG e Sukhoi gradualmente descontinuados e substituídos por F-16 de fabrico norte-americano.  

Um português a fazer o possível para se sentar no cockpit de um Sukhoi SU-22 da Força Aérea da Polónia. Constatei uma manche com botões, os pedais do leme e travões hidráulicos, horizonte artificial, altitude, giroscópio, radio... Melhor "pilotar" o Citroen Picasso da família...


Aproveitando a oportunidade dada pela Força Aérea da Polónia subi as íngremes escadas entrando em vários caças e aviões onde registei em fotografia os "cinco minutos de fama" no cockpit de um Sukhoi, SU-22, de fabrico russo onde a instrumentação em caracteres cirílicos (fez-me recordar certos filmes de ficção cientifica) está ali para nos recordar de um passado relativamente recente onde os mesmos seriam, em caso de guerra, usados contra a NATO e os países da Aliança Atlântica. Do mesmo modo manuseei - obviamente sem munição - pela primeira vez uma sub-metralhadora H&K MP5, a shotgun Mossberg 500, a conhecida pistola Glock 9 mm entre outras armas usadas por snipers e elementos das forças especiais polacas. Material pesado e de precisão que o comum cidadão apenas conhece da televisão e cinema. Tudo supervisionado por militares prestáveis e com sentido de humor. Uma aproximação dos militares aos civis muito correcta e que provavelmente trará dividendos quando alguns dos miúdos que ali "brincaram" aos soldados estiverem em idade militar. 

A crise dos refugiados, a guerra no Médio-Oriente e Norte de África, a violência inenarrável, brutal e as ameaças do Estado Islâmico recordou a todos os que prezam a paz e a concórdia que estes anos de paz e prosperidade que temos, a evolução da nossa sociedade e mentalidade, os valores básicos onde assenta a civilização e a própria Humanidade são algo que para outros, vivendo a sua própria Idade-Média, deverá ser destruído como fizeram com a sua própria História em Aleppo, Raqqah, em Palmira, Bagdad, Tripoli e em tantas outras cidades e lugares destruídos e saqueados. 

Ninguém quer retrocessos civilizacionais e os militares, quer se goste deles ou não, estão ali para nos defender e proteger. 

domingo, 20 de setembro de 2015

Tempo de eleições em tempo de crise de refugiados e medo de abrir o Facebook


Depois de ter recebido na volta do correio o panfleto eleitoral do PPD/PSD CDS-PP, sendo cumprimentado a 3500 quilómetros da pátria, por Passos Coelho e Paulo Portas, recebi, poucos dias depois, do Ministério da Administração Interna (Administração Eleitoral), um envelope com taxa paga contendo outros dois envelopes, instruções e o boletim eleitoral da República Portuguesa. Foi a primeira vez desde que vivo neste pais que me dão a possibilidade de votar nas forças politicas portuguesas sem ter de me deslocar aos serviços consulares da Embaixada de Portugal na Polónia.

Kit do emigrante. Boletim de voto, instruções, dois envelopes. O verde dentro do branco e enviar... 


Pela circunstância de viver na Europa Central - ou de Leste se preferirem - há mais de dez anos and counting e inevitavelmente estar cada mais afastado do mundo politico português e mais próximo do polaco foi com alguma surpresa que constatei a existência de alguns partidos como o Livre/Tempo de Avançar, Pessoas-Animais-Natureza, PTP-MAS, Juntos pelo Povo, Nós, Cidadãos, e claro os do costume onde se incluem os do Bloco Central e os da Esquerda comunista com a tradicional Foice, o Martelo e a estrela de cinco pontas, algo que na Polónia é impensável de ocorrer depois da amarga experiência de 50 anos com a URSS e a semi-ocupação desta parte da Europa depois do final da II Grande Guerra.
Afinal sob esse símbolo foram cometidos genocídios, massacres, chacinas, perseguições e opressão tal como um outro, usurpado por os nacionais socialistas alemães, no principio dos anos 30 do século passado mas como é Portugal ninguém se ofende e assim continua a ser usado...

Pela minha parte o voto irá para quem dele precisa e tem ideias mais do que manter a velha lenga-lenga, responsável pela dicotomia PS-PSD, PSD-PS, que tem caracterizado os nossos 40 anos de democracia. O dito voto-útil servirá apenas os mesmos de sempre e parece-me que só no dia em que os "suspeitos do costume" forem finalmente corridos do poder, quando deixarem de haver lugares públicos preenchidos pelos compadres ligados aos dois grandes partidos nacionais e à eminência parda maçónica, onde os bons empregos são obtidos (ou retirados) pela força de cunhas e favores mais do que por mérito próprio, sendo apenas mais uma dança de cadeiras, só então irá ocorrer alguma mudança de vulto no nosso país.


Crise de refugiados, de Jihadistas, de migrantes económicos ou crise humanitária?

De tudo um pouco. A verdade é que não parece haver um meio-termo nesta crise que veio para ficar e nem o Outono a irá abrandar mesmo que na Europa de Leste o frio rapidamente chegue a temperaturas negativas durante a noite estando provavelmente a dois meses de distância. 

Mapa da Crise. O "corredor" dos refugiados que começa na Turquia estendendo-se pela Macedónia, Grécia, Servia, Hungria, Áustria e destino a Alemanha (fonte BBC). 

E se de certo modo todos tiverem em determinado ponto razão? É visível que na multidão que tenta atravessar a Turquia em direcção à Grécia e à Hungria não estão apenas homens mas também famílias, mulheres e crianças. É também sabido que os sírios e curdos de classe-média e média-alta pagaram a traficantes para entrar ilegalmente na Europa, não apenas saírem vivos das fronteiras da Síria e Curdistão mas também do caldeirão de conflitos e constante estado de guerra que afecta todo o Médio-Oriente e grande parte do Norte de África. A Europa, sobretudo a do Norte adivinha-se como o El Dorado para milhões nas regiões mais pobres do hemisfério sul. 

É agora sabido que os braços abertos de Angela Merkel (a Mama Merkel como lhe chamam) aos refugiados da Síria, outrora um dos países islâmicos mais tolerantes do Médio-Oriente - apesar de tudo - são agora braços cruzados e assim que a Hungria e a Servia fecharam as fronteiras em efeito dominó pelo encerramento quase súbito das fronteiras da Alemanha e Áustria, os problemas graves rapidamente se revelaram e alastraram a toda a Europa com manifestações contra e a favor dos refugiados e um crescente sentimento contra o Islão. 

Espectacular filmagem de drone mostrando a fronteira entre a Hungria e a Servia. O ponto de partida para a entrada dos refugiados e migrantes na UE.

Uma nova cortina-de-ferro estende-se agora nas fronteiras da UE com a Servia e o exército húngaro, convocado pelo polémico Primeiro-Ministro húngaro Viktor Orban, simpatizante de politicas de extrema-direita, patriota e pouco interessado nos ditames de Bruxelas, patrulha as fronteiras depois da aprovação de leis (ditas draconianas) anti-emigração sobretudo com ilegais. Um braço-de-ferro entre os sérvios e os húngaros não serve para controlar os refugiados e os migrantes económicos entre eles que agora caminham centenas de quilómetros entre campos onde milhares de minas anti-pessoal do conflito de há duas décadas estão ainda por despoletar.

Antes desta crise se tornar mediática mais a Norte, em Calais na França, a policia francesa e britânica viam-se (vêem-se) em palpos de aranha para controlar a crescente vaga de ilegais a tentar atravessar o Túnel da Mancha, os ferry-boat dentro de camiões TIR, escondidos em automóveis e autocarros, provocando perdas de toda a mercadoria e multas pesadíssimas aos motoristas em infracção - muitos deles nem se apercebendo da carga extra que traziam. Neste vaga estão também imensos ilegais, migrantes económicos do Magrebe, na procura de condições de vida facilitadas pelo estado-social em países como o Reino Unido, Suécia e Alemanha. 

O politicamente correcto de pés bem assentes no Ocidente não permite que se discuta livremente, ou pelo menos sem que alguém seja acusado de xenofobia ou racismo, um facto, já confirmado pela imprensa oficial, a infiltração na Europa de Jihadistas (extremistas) ligados ao ISIS. Um monstro que cresceu na garagem assim que Saddam Hussein e Kadafi desapareceram da cena. Tal como outros grupos de guerrilha, que serviram os interesses das grandes potencias (EUA e Rússia) sobretudo no Afeganistão, o ISIS é um dos monstros alimentado pela politica externa do Ocidente e pelos interesses económicos que o Médio-Oriente proporciona. 

Há quem refira a "Maldição de Kadafi". Na realidade o ditador líbio sabia perfeitamente que a estabilidade politica do seu país e dos países circundantes seria afectada se o eliminassem, uma profecia que se está agora a realizar com uma migração sem precedentes de povos vindos de países em guerra e em conflitos de longa duração no Norte de África e Médio-Oriente no continente europeu.  
Muammar Kadafi tinha vaticinado que uma Líbia sem estabilidade causaria o caos no mediterrâneo, uma self-fulfilling profecy do ditador que, ironicamente, servia como tampão para os movimentos migratórios do Norte de África. Assad também irá ter de sair da cena ainda que aqui seja apoiado pela Federação Russa, um conflito sério entre os EUA e a Rússia que está a começar a escalar.

Não à islamização da Europa em manifestação contra o suporte aos refugiados. Teve lugar em Varsóvia e Łódź (imagem AFP - The Independent.
A Europa pouco habituada a ter guerra depois de 1945, com a excepção do conflito centrado nos Balcãs em 1999, não parece aceitar de bom grado a vaga de refugiados ainda que sejam em número muito inferior aos que se encontram nos países vizinhos da Síria e Líbia, sobretudo na Turquia e Jordânia. 

Apoio aos refugiados; "Solidariedade com os refugiados". O logótipo do Sindicato Livre Solidariedade visto numa manifestação a favor em Varsóvia (imagem Reuters - The Independent). 
O Facebook por exemplo tornou-se uma arena de opiniões entre quem apoia incondicionalmente e por razões humanitárias o apoio aos refugiados de guerra e aqueles que o vêem como uma invasão islâmica ao estilo Cavalo de Tróia ou como migração económica massiva para países com benefícios sociais e sobretudo a eterna questão religiosa do avanço do Islão numa Europa com raízes cristãs mas onde o elemento religioso tem vindo a perder importância na vida dos seus cidadãos.

Todos têm de certo modo um ponto a favor e entre aqueles que porventura se revelam ingénuos e aqueles que deixam cair a máscara do politicamente correcto para revelarem a sua natureza xenófoba e amiúde sanguinária um facto parece ser evidente. O futuro do nosso velho continente irá ter inevitavelmente o elemento islâmico presente, onde agora apenas se vêm igrejas e elementos relacionados com o cristianismo irão ser erigidos minaretes e mesquitas resta saber é quais as consequências e o preço a pagar a longo-prazo por essa aculturação.