domingo, 29 de dezembro de 2019

Os "Anos 20" e Caleidoscópio - Polónia 2019


Chega ao fim mais uma década e a mudança do século XX para o XXI completa nada mais, nada menos que vinte anos... vinte! Números redondos que marcam eras passadas trazendo à memória a conhecida frase " a inexorável marcha do tempo" que se sente (e bem) na pele para quem, como o vosso escriba, nasceu nos princípios dos anos 70 do século passado. 

2019 foi um ano prolífico em eventos na Polónia; uma escritora polaca (Olga Tokarczuk) ganha o prémio Nobel da literatura, ano de eleições para o Sejm (Parlamento) onde, sem grandes surpresas, o partido conservador PiS continua por mais quatro anos o seu mandato com 43% das intenções de voto, apesar dos protestos e convulsões sociais como a greve dos professores, marchas diversas como a Marcha pela Igualdade organizada na cidade de Białystok pelo LGBTQ, onde se registaram episódios de violência, as contra-reações e impulso cada vez mais sentido de grupos nacionalistas associados a ideais de Extrema-Direita e também o Mundial de Futebol U-20 FIFA que teve lugar neste país. 



Creio que a memória mais recuada que tenho será do ano 1976 ou 1977, em São João do Estoril. A tecnologia mais avançada nessa época seria os então relativamente recentes, gravadores de cassette audio com microfone. Frente ao Rés-do-Chão onde moravamos os carros estacionados tinham quase todos (excepto os Renault 5) para-choques cromados com escudetes - uns elementos em borracha que teoricamente protegiam os carros de pequenos impactos, o telefone era o clássico modelo de discar com um toque de campainha capaz de despertar o prédio inteiro.



As calças boca-de-sino, camisolas de gola-alta em lycra, golas de camisa e gravatas largas e berrantes, a moda das patilhas, cabeleira farta e óculos de massa em tamanho XL eram a moda. A televisão ainda era a preto-e-branco e havia apenas um canal, a RTP 1 que fechava cedo, pouco depois do jantar, emitindo durante algumas horas a mira-técnica e um "piiiiip" contínuo e perturbador que, alegadamente, servia para acordar alguém caso adormecesse deixando o televisor ligado. Foram tempos complicados com o êxodo dos pais de Angola, o reiniciar uma vida nova em Portugal e toda a instabilidade política pós-25 de Abril. 

Entramos sem dar conta na década de 80, já em Vila Nova de Famalicão onde viria a crescer, sou por isso um famalicense adoptado mas convicto, afinal quando me perguntam "de que parte de Portugal é" (se não me apanharem por alguma entoação nortenha) a resposta é,  invariavelmente, "Minho, Vila Nova de Famalicão". Nasci em Lisboa mas foi apenas isso...

Mário Soares assina a entrada de Portugal na então CEE em 1985. A Península Ibérica passa a fazer parte do mapa da comunidade europeia.

Os anos 80 trouxeram outras modas, cores berrantes nos tons rosa, amarelo, azul bebé e púrpura substituindo a "piroseira" da década anterior por outra... Os carros passam a ser mais plastificados, pensados em economia e praticalidade como o Fiat Uno ou o Peugeot 205. Portugal desenvolvia-se no torvelinho deixado pela revolução dos cravos e o vácuo da perda dos terrenos ultramarinos, enfrentando a morte de um Primeiro-Ministro e comitiva num mal explicado "acidente de aviação" - que ocorreu no dia do meu aniversário a 4 de Dezembro de 1980. Bastariam apenas mais cinco anos para Portugal aderiar à entao CEE (Comunidade Económica Europeia).

O panorama musical melhorou (e muito!) com canções que ainda hoje são populares, cantores e bandas como Michael Jackson, Madonna, Tina Turner, Freddy Mercury e os The Queen, Duran Duran, Frankie Goes to Hollywood, Europe e tantos, tantos outros que se reúnem num evento musical apenas comparável ao de Woodstock em 1968, o concerto Live Aid em 1985.
Os computadores Atari os Apple Macintosh de Steve Jobs, os salões de jogos eletrónicos Arcade, os primeiros micro-computadores para jogos como os Timex ZX Spectrum, são prova da revolução que está a começar e que transformará a sociedade na próxima década e no próximo século para algo comparável quando muito à Revolução Industrial no século XIX.


No final da década os regimes Socialista-Comunistas em países da Europa de Leste e Central caiem um por um até à derrocada da URSS. O colapso do Muro de Berlim simboliza o fim de uma era dando lugar a uma nova ordem mundial para a década seguinte.

World Wide Web, Microsoft, Windows, Internet e email são palavras que entram no quotidiano para aqueles que vivenciaram os anos 90. Nada será como dantes e ninguém consegue imaginar como o novo século que se aproxima a passos largos trará tecnologia e novidades que transformarão a sociedade, para o bem e para o mal. Os telefones passam a ter botões e sons eletrónicos, são cada vez mais compactos e a portabilidade cada vez mais necessária, surgem os telemóveis e novo vocabulário como SMS  e MMS. O século XX chega então ao fim, 100 anos que viram duas guerras mundiais devastadoras, o advento da Era Atómica e conflitos entre nações, ideais políticos e estratégicos que dividem o mundo em duas esferas de influência, um século que não acabaria sem uma ameaça de catástrofe, o "bug do milenio" que se revelaria apenas um susto... 



O dealbar do novo século 

Século XXI. Os anos 2000 que foram tão imaginados em romances e filmes de ficção científica  chegaram sem carros voadores, robos empregada-doméstica ou mordomo, naves intergalacticas, bases lunares ou invasões de extraterrestres mal intencionados, em vez disso seria o começo do New American Century e de algo muito sinistro a ocorrer em Setembro de 2001 com o evento que ficará conhecido como 9/11 dando azo a um novo termo que nasce com a liberdade de expressão proveniente da Internet, as "teorias da conspiração" assim que muitos "internautas" (outro neologismo) analisaram e esmiuçaram os acontecimentos acusando o Pentágono de permitirem este ataque ao estilo operação de bandeira falsa.

O novo século começa com a guerra do Ocidente ao terrorismo islâmico, com a fraude das armas de destruição maciça que nunca seriam encontradas no Iraque, com a remoção de líderes do mundo árabe com Sadam Hussein (2003) e Muhamar Gadaffi (2011) na Líbia, um erro - propositado ou não - no caso do último já que seria o princípio de uma crise humanitária sem precedentes com o êxodo de migrantes económicos e refugiados de guerra para a Europa na década seguinte. 
A China mostra-se cada vez mais como um gigante conquistando  o mundo economicamente, a etiqueta Made in China impõe-se em quase todos os produtos que o mundo capitalista produz.



Steve Jobs anuncia o iPhone 1 em 2007 dando início a uma revolução não apenas tecnológica mas social.

A era dos Smartphone inicia-se com força a partir do iPhone 1 da Apple, um telemóvel que é ao mesmo tempo telefone, computador e câmara dando lugar pouco depois aos sistemas operativos rivais Android e Windows Phone.

O tempo, esse, parece cada vez mais escasso assim que aparecem as chamadas redes sociais sobretudo o Facebook em 2004 e o YouTube em 2005. Entramos na era das aplicações para tudo... para socializar, para cuscovilhar a vida alheia, para encontrar amor, sexo, amizade, grupos de suporte, grupos políticos, de interesse, grupos de ódio, religiosos, ateístas, homossexuais, místicos, ocultos e tudo o mais que fica ao resto da imaginação. A noção de privacidade é discutível enquanto se partilham fotos de momentos na vida, de ideias e opiniões. Tudo identificado, rotulado e compartimentalizado, tornamo-nos uma espécie de ciber-criaturas no dito mundo civilizado enquanto os contrastes entre quem tem tudo e quem nada tem são cada vez maiores. 

Entraremos numa nova década, nos anos 20 que prometem ainda mais tecnologia e evolução nas tecnologias de informação com o desenvolvimento de algoritmos de Inteligencia Artificial, uma mais que provável Espada de Damocles que ameaça eminentemente muitos empregos hoje em dia feitos por humanos. Os carros não voam como se previa em filmes populares como Back to the Future mas passam a ter condução autónoma e o motor a explosão gradualmente é substituído por o motor elétrico. Uma nova Era Espacial parece aproximar-se no horizonte com missões planeadas à lua e a Marte. 
Entretanto o nosso habitat natural degrada-se com níveis de poluição gritantes, no ar, no mar, na terra entre discussões maioritariamente infrutiferas sobre a plausabilidade de existir aquecimento global ou não.


Caleidoscópio - Polónia 2019

Odiado por uns, amado por outros o líder do PiS teve um bom ano de 2019 somando vitórias e membros do seu partido no Sejm polaco depois de umas eleições rodeadas de tensão - e expectactivas.

Já muito foi dito aqui sobre a vitória do PiS e sobre o controle que o partido conservador exerce na Polónia, seria portanto redundante mencionar ad nausea tópicos passados. No entanto é de assinalar a declaração de 7 de Dezembro do Supremo Tribunal da Polónia: 

"Contradições entre a lei polaca e da UE [...] irão muito provavelmente levar a uma intervenção por parte das instituições da UE naquilo que diz respeito ao infrigimento dos tratados da UE e (levará) a longo-prazo à necessidade de deixar a União Europeia"

As possiveis consequências da arrogante agenda de Jarosław Kaczyński em alterar a constituição e a organização judicial parecem direcionar este país rumo a um futuro incerto onde a eventual expulsão da UE teria consequências gravíssimas para a estabilidade económica e política deste pais da Europa Central. Tal como o Feiticeiro de Oz por trás da máquina, do poder está um homunculo, covarde, com pouca argumentação. 

Olga Tokarczuk



A escritora, intelectual e ativista polaca recebeu em 2019 o prémio Nobel da Literatura de 2018 em reconhecimento pela "imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o atravessar de limites como forma de vida".

Tokarczuk junta-se assim a outros laureados polacos como Henryk Sienkiewicz (1905), Władyslaw Reymont (1924), Isaac Bashevus Singer (1978), Czesław Miłosz (1980) e Wisława Szymborska (1996).
Rodeada de controvérsia no seu próprio país fruto do seu ativismo pela causa ecológica e feminista a autora enfrentou sempre com serenidade os seus antagonistas sobretudo os que a acusam de não ser patriota e manifestar-se anti-cristã ou seja, não fazer apologia dos valores que a Igreja Católica e o PiS consideram como fundação da nação polaca e a essência de se ser polaco.

Em Portugal podemos encontrar em língua portuguesa títulos como "Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos" e "Viagens". Boas leituras!


A greve dos professores em 2019



Um protesto forte por parte dos sindicatos de professores polacos parou o ensino no princípio de Abril, duas semanas em que as escolas fecharam em protesto por um aumento de 250€ (1000 PLN) nos salários (um professor em início de carreira pode receber limpos de impostos 550€ o que atualmente não fica muito longe do salário auferido por um caixa no Biedronka ou no Lidl).

O governo não cedeu e a greve não surtiu o efeito desejado. Entre acusações por parte de membros do governo em que literalmente acusaram os sindicatos de usarem "táticas  Nazi", de (mais uma vez o discurso insuportável e gasto) importarem ideias do estrangeiro, ideias anti-cristãs trazidas pela comunidade LGBTQ, de serem contra os valores de família, cristãos sugerindo arrogantemente que os professores podem, eles também, ter filhos e pedirem o subsídio 500+. Entretanto os sindicatos faziam o possível para que o governo entendesse que se há dinheiro para subsídios para os pais de crianças em idade escolar, para os agricultores e pensionistas (receberam quantias substanciais do governo em ano de eleições que somaram 2,5 bilhões de Euros) também haveria margem para aumentar os professores. A luta ficou adiada e a re-eleição do PiS promete mais luta em 2020.

FIFA Sub20 na Polónia 23 de Maio - 15 de Junho

Provérbio português: "de boas intenções o inferno está cheio" o que significa que se pode prometer muito e não dar nada acabando assim com o Diabo a picar-nos as nádegas com o garfo deixndo-nos, entre outros, em companhia de imensos membros do clero para toda a eternidade... 
Isto para dizer que não posso falar sobre o Sub20 na Polónia; por vários motivos... Porque sou uma exceção à regra dos portugueses pois nao costumo seguir futebol - fora o Europeu e Mundial - e porque de facto mal me recordo deste evento ao ponto de ter ido ao Google ver quem foi o vencedor (parece que foi a Ucrânia). 

Mais informação no site da FIFA: 

E assim me despeco desejando a todos os meus leitores um feliz e próspero ano novo e que a próxima década seja uma de realizações e progresso seja em que campo ou vertente da vida for.

Um grande bem-hajam!

















segunda-feira, 14 de outubro de 2019

4+ Cztery Plus (mais quatro) - Vitória indiscutível do PiS de Jarosław Kaczyński


A Democracia polaca ganhou as eleições parlamentares de ontem, 13 de Outubro, com uma frequência de 61,74%, mais uma vez com a vitória do PiS de Jarosław Kaczyński - este foi o grande vencedor na noite de eleições - com 43,6% das intenções de voto seguido do KO (Coligação do Cidadão) com 27,4%.

As reacções não se fizeram esperar por parte da oposição com promessas de combaterem por todos os meios o partido que agora estende por mais quatro anos o seu poder e agenda política. Os resultados diferem radicalmente dos grandes centros urbanos para a Polónia rural onde o PiS capta o seu eleitorado. 

O discurso da vitória foi dado por a figura de proa do partido Verdade & Justiça, o irmão gémeo sobrevivente e arqui-rival de outra figura de craveira na história contemporânea polaca, Lech Wałęsa com o qual pretende disputar um lugar na história deste país ainda que saiba que nunca terá o Nobel da Paz. Kaczyński afirmou que "mereciam mais" mas que "ganharam apesar de uma forte oposição".

Nas ruas polacas não se sentiu nenhuma particular manifestação de alegria mas sim a conformidade, o que parece revelar uma aceitação da decisão pública.




Ser democrata é aceitar que a escolha não é sempre aquela que desejamos e que nesse caso fazer oposição é claramente a única saída possível, ou isso ou deixar o país para outras paragens...




domingo, 13 de outubro de 2019

A importância fulcral das eleições de 13 de Outubro na Polónia

13 de Outubro de 2019, um Domingo solarengo de Outono, 14 graus e um vento fresco que tenta arrancar as folhas amarelas e ruivas das árvores que, teimosamente, ainda estão agarradas aos ramos mas que não vão ganhar a batalha com o Inverno que se aproxima a passos largos.
 É dia de eleições para o Sejm polaco (parlamento), provavelmente as eleições mais significativas desde aquelas que deram a este país na Europa Central a Democracia em 1989.

 Mais do que uma eleição este dia é uma batalha eleitoral não pela derrota do PiS (Verdade & Justiça) de Kaczyński que praticamente é inevitável mas para impedir o partido no poder de obter maioria absoluta.



A oposição mais forte vem do PO (Plataforma do Cidadão) de Donald Tusk seguido do partido de Esquerda SLD (Aliança Democrática de Esquerda), disputam também estas eleições o partido dos Verdes com a possibilidade de elegerem pela primeira vez um deputado numa Polónia onde o carvão  - e o seu loby - é Rei e ainda partidos de cariz  nacionalista e xenófobo como o de KORWiN (Coligação para a Renovação da República).

As sondagens dão o PiS como o grande vencedor com uma forte possibilidade de obter maioria absoluta enquanto a oposição, nomeadamente o PO, se situa entre os 22 a 24% das intenções de voto. 

Os benefícios atribuídos pelo PiS, nos últimos quatro anos, como o programa de subsídio para crianças - 500+, o 300+ ou Dobry Start de apoio financeiro para o início do ano escolar para todas as famílias e estudantes, livros escolares gratuitos e isenção de impostos para jovens até aos 23 anos têm um peso importante nesta vitória aliado ao discurso - apelidado de populista pela oposição e imprensa estrangeira - a apelar aos valores enraizados em grande parte dos polacos como aqueles defendidos pela Igreja Católica, a preservação das famílias cristãs, o patrotismo e a luta pela identidade nacional contra uma União Europeia manifestamente desagradada com o rumo político do PiS (comandada pela Alemanha) e ideias tidas por este partido conservador como progressistas estrangeiras que defendem a diversidade e a inclusão de grupos como a comunidade LGBT+ e a aceitação de refugiados de fé islâmica provenientes de zonas de guerra no Oriente Médio. 

A contagem dos votos termina hoje às 21 horas (20 horas em Portugal) sendo o apuro final contabilizado na Segunda-Feira. 




quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A morte de Paweł Adamowicz expõe o canal estatal polaco TVP como uma espécie de KCNA

O assassinato a sangue frio do autarca de Gdańsk, Paweł Adamowicz, a 14 de Janeiro de 2019, na final do espetáculo da WOŚP (Grande Orquestra de Caridade Natalícia) expõe claramente o que tem vindo a ser observado, escrito, reportado, divulgado e inclusivamente repreendido (pela Comissão Europeia); Os média estatais polacos estão sob absoluto controlo do partido no poder, o PiS (Lei e Justiça), numa cavalgante censura, mascarada de informação, num nível nunca antes visto, a relembrar - dizem muitos polacos - os tempos obscuros e deprimentes da PRL ou República Popular da Polónia, onde o sistema Socialista-Comunista procurava controlar todos os aspectos da vida dos seus cidadãos.

Paweł Adamowicz, Presidente de Gdańsk de 1997 até 2019; vítima de um brutal e completamente injustificado ataque à integridade física, não sobreviveu aos ferimentos apesar dos esforços médicos. Viveu 53 anos, deixa viúva Magdalena Abramska e duas filhas menores, Antonina com 15 anos e Teresa com 9.

Já muito se escreveu e noticiou sobre a morte do Presidente da Câmara da cidade costeira que viu nascer o sindicato livre Solidariedade. O assassinato brutal e despropositado de Paweł Adamowicz foi notícia por todo o mundo e teve repercussões muito além das fronteiras da Polónia, portanto acerca disto não há muito mais a acrescentar. Porém tudo o que ocorreu entre o fatídico dia e o funeral de Adamowicz - um evento nacional com direito a três dias de luto - foi noticiado de modo completamente distinto no que diz respeito aos média deste país na Europa Central.

É certo e sabido que todos os meios de informação sob a alçada de qualquer Estado estão inevitavelmente sujeitos a serem instrumentalizados, como é o caso de Portugal e da RTP que foi fundada pelo Estado-Novo de Salazar e posteriormente administrada numa autêntica "dança de cadeiras" entre os partidos que foram intercaladamente formando governo desde 1974. Igual situação ocorre na BBC, TV Globo,  TVE em Espanha, France TV etc.
A Polónia não é excepção e o canal estatal TVP (Telewizja Polska) com todos os seus estúdios nas grandes urbes, como a TVP3 Warszawa, TVP3 Łódź, TVP3 Gdańsk, TVP3 Wrocław, TVP3 Poznań, TVP3 Białystok etc, emite diariamente em três canais: o TVP1, TVP2 e os já mencionados TVP3, mais os canais de especialidade como os de desporto, história, cultura, infantil entre outros. 

As jocosas comparações entre o canal TVP e a estação televisava norte-coreana KCNA. A actual pivot do noticiário estatal Danuta Olecka semelhante à apresentadora da Coreia do Norte, Ri Chun Hui.


O canal TVP Info (de notícias) emite 24/7 sendo o principal serviço noticioso, desde 1989, quando a Polónia se tornou uma Democracia. É denominado de "Wiadomości" ou seja, Noticias. É aqui que mais se nota a carga da agenda política do PiS. A perda galopante de qualidade jornalística, de imparcialidade é tal que surgem inúmeros memes comparando a TVP ao canal Norte Coreano KCNA, como estando a imitar as táticas do Ministro da Propaganda Nazi, Joseph Goebbels ou simplesmente como uma enorme palhaçada. Um canal televisivo que cada vez mais se aproxima dos pilares ideológicos do partido de Kaczyński, uma quase-réplica do tão salazarista Deus, Pátria e Família que foi derrubado pela Revolução dos Cravos há quase 50 anos. 

Um filme que não passa na televisão há muito tempo; O Dwóch Takich, co Ukradli Księżyc (Os dois que roubaram a Lua) com os irmãos gémeos como principais personagens, um filme de 1962 realizado por Jan Batory.

A agenda política do PiS, onde a cabeça do polvo são os fundadores, os irmãos Kaczyński, de braço dado com certas figuras proeminentes e influentes da Igreja Católica polaca (note-se que muitos católicos polacos e clero não apoiam este partido) e da Polónia conservadora da Direita cristã, espalha-se assim, ao sete-ventos, diariamente, cortanto a eito tudo o que não lhes convém noticiar ou simplesmente não faz parte das suas ideologias. Quaisquer referências ou acontecimentos respeitantes a minorias, emigração, comunidade gay, laicismo, União Europeia, instituições ecológicas independentes, racismo e intolerância - crescente na Polónia - e diversidade passam a ser não-notícia, são distorcidos ou passam como nota de rodapé. Os próprios programas televisivos, desde as novelas, passando pela escolha de filmes, séries televisivas, debates e documentários são escolhidos a dedo, havendo uma cada vez maior divulgação, por vezes ad nausea, de programas sobre a história da Polónia relembrando os horrores que a nação polaca sofreu ao longo da sua vasta e trágica linha temporal.

O cortejo fúnebre nos históricos estaleiros de Gdańsk

O funeral de Paweł Adamowicz foi um evento histórico para todos os efeitos, juntou milhares em  Gdańsk - perto de 50.000 almas - desde populares até figuras públicas, políticos de todos os quadrantes, celebridades e representantes de Estado e da União Europeia. Já não se via tal desde os funerais das vítimas do desastre de Smolensk em 2010. 

As exéquias fúnebres, desde a missa celebrada em câmara-ardente até ao funeral propriamente dito foram transmitidas pelos principais canais televisivos, especialmente o rival TVN24, em direto. Numa inusitada, mas não surpreendente transmissão, o canal estatal TVP, cortou propositadamente os momentos vividos dentro da histórica basílica medieval de Santa Maria onde, entre muitos, estavam inúmeros líderes e membros da oposição e do Senado mas também arqui-inimigos de Kaczyński, como Lech Wałęsa (onde escandalizou mais uma vez ao usar uma t-shirt onde se lia Konstytucja), Donald Tusk e o ex-Presidente Aleksander Kwasniewcki. O descalabro foi tal que a filmagem só era retomada quando algum político do PiS, o Primeiro-Ministro Mateusz Morawiecki ou o Presidente Andrzej Duda cumprimentavam a viúva, as filhas do falecido ou membros do clero. 

O canal televisivo tem um novo logótipo de acordo com os internautas polacos... 


Como os tempos são outros, apesar de alguns indivíduos cristalizados e obedientes na TVP pensarem à antiga, a Internet polaca foi rápida e eficaz em captar e divulgar nas redes sociais o "contraste". Vídeos no YouTube mostram claramente a homenagem prestada na basílica, transmitida por canais privados, enquanto a TVP mostrava grandes planos de Gdańsk ou um conveniente close-up da multidão em frente do edifício religioso na tentativa de demonstrar que o acontecimento foi de menor importância...


A Orquestra de Caridade e o PiS

A decisão política, desde sempre, do PiS em não apoiar a Grande Orquestra de Caridade Natalícia, devido sobretudo ao facto desta instituição ser privada, laica e independente do Estado, baseada na idéia e trabalho árduo de Jerzy Owsiak, o homem dos óculos vermelhos, está alinhada com os sectores e círculos mais conservadores da Igreja Católica, que suportam instituições como a Caritas e outras afiliadas ao catolicismo. Nesse sentido toda a organização do evento (abreviado como WOŚP) a nível de segurança é baseada em contratos com firmas privadas e não com a polícia que, nos dias de recolha de contribuições, praticamente não se vê, apesar da aglomeração de pessoas nas ruas, centros comerciais e concertos musicais onde cada cidade vai contar a quantia recolhida ao fim do dia. 
Foi nesse ambiente de festa onde a segurança é mínima que o assassino de Paweł Adamowicz, um agressivo cadastrado e assaltante, teve a oportunidade de se dirigir na direção do presidente, empunhar, entre a multidão, uma faca, subir ao palco e desferir inúmeros golpes para ainda ter tempo de agarrar no microfone justificando o seu acto como vingança por alegadas torturas que o partido PO (Plataforma do Cidadão) lhe impôs, partido esse que foi em tempos o de Adamowicz, antes de este se tornar independente. O Po é por excelência o principal opositor dos conservadores cristãos. 

Voluntárias e voluntários do WOŚP com as tradicionas latas para recolha de fundos onde cada contribuição dá direito a um autocolante em forma de coração com os dizeres Wielka Orkiestra Świątecznej Pomocy.



Neste vendaval e sob enorme pressão o fundador do WOŚP e celebridade polaca, Jerzy Owczak, demite-se do seu cargo provocando uma enorme onda de solidariedade que o levou a aceitar novamente os comandos da instituição, volvida uma semana, enquanto, a pedido da viúva do presidente falecido e alegadamente do próprio antes de falecer, uma recolha de fundos intitulada "vamos ajudar a encher a última latinha do presidente para o WOŚP" para a causa da Grande Orquestra tendo atingido hoje, dia 23 de Janeiro, quase 16 milhões de Złoty (3 milhões e 700 mil Euro) que se vão juntar aos quase 100 milhões de Złoty (23 milhões de Euro) recolhidos pelos voluntários.

Foram, no entanto, as palavras de um amigo pessoal de Adamowicz, o Frei Ludwik Wisniewski, que mais impressionaram:

"Não podemos ficar indiferentes ao espalhar do veneno do ódio nas ruas, nos meios de comunicação social, na Internet, nas escolas, no parlamento e também nas igrejas", relembrando aos presentes a notória ausência de Jarosław Kaczyński "Uma pessoa cheia de ódio, que construiu a sua carreira baseada na mentira, não pode sustentar posições destas no nosso país e vamos certificar-nos disso".

A ovação foi longa mas todos os apelos na missa a pedirem o fim do discurso do ódio e manipulação dos média não passaram na TVP... 



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Caleidoscópio - Polónia 2018



2018 chega ao fim e, a passos largos, caminhamos para o fim de mais  uma década, os anos 20 estão aí à porta, sem a revolução do Jazz como no século passado mas certamente atribulados. Na Polónia o ano foi abundante em batalhas políticas e na continuidade da "PiSificação" do país no ano em que se celebrou o centenário da independência no final da I Grande Guerra em 1918, uma data "redonda", celebrada com pompa e circunstância mas onde faltou a presença de uma conhecida figura da Polónia moderna, Lech Wałęsa, o arqui-rival de um dos homens mais odiados (mas também amado por alguns) da Polónia, Jarosław Kaczyński. Resta pois um ano para as eleições do "Sejm" polaco em Novembro de 2019 que se prevêm serem pouco favoráveis aos conservadores depois da derrota do PiS nas autárquicas, sobretudo nas grandes áreas urbanas.


Campos de concentração polacos é algo que não se deve dizer na Polónia sem consequências legais depois de aprovada uma lei para penalizar - e alegadamente repor a verdade histórica - a quem não menciona que os ditos foram alemães, construídos durante a ocupação do território pelas forças do Terceiro Reich. A lei e a interpretação toca também todos os que insinuarem ou afirmarem que os polacos tiveram cumplicidade ou participação ativa no extermínio dos judeus durante os anos da guerra o que obviamente se reveste de uma grande polémica pela questão dos "Pogrom" ou "caça aos judeus" que envolveu não apenas os invasores mas também os nativos da Polónia e da Ucrânia, na altura URSS. Uma questão abordada pelo autor português João Pinto Coelho no romance Os Loucos da Rua Mazur, o qual foi criticado veementemente  nalguns círculos polacos inclusivamente pelo embaixador da Polónia em Portugal.

O calendário de "proibição" ao comércio aos domingos - com a cruz os dias em que o mesmo está encerrado.


Na senda da "PiSificação" do país e da cada vez mais etérea separação dos poderes do Estado e da Igreja, o comércio passou a ser proibido (dizem regulado) aos Domingos. Num mês abre uma ou duas vezes consoante o calendário estabelecido ainda que as lojas de venda de álcool e algumas cadeias de lojas de conveniência - como o Żabka - abram nesses dias.
O domingo é dia santo e de descanso para os católicos e a Igreja parece ter ficado satisfeita com a decisão do governo - ainda que o mundo não tenha terminado, apesar dos protestos dos patrões e da maior movimentação nas grandes superfícies e supermercados ao sábado nas vésperas dos domingos de encerramento do comércio.
Pessoalmente tive de ir ao tal Żabka num domingo, numa ocasião por não  ter mais açúcar e noutra porque se me acabou o sal...

E à medida que o Inverno - pouco castigador em 2018 - chegava ao fim o governo anunciava a inauguração do monumento às vítimas do desastre de Smolensk em 2010, mesmo ao lado do túmulo ao soldado desconhecido na Praça Józef Piłsudski, no coração da capital, Varsóvia. O monumento apresenta-se como umas escadas a evocar as escadas de acesso ao Tupolev presidencial e, claro está, as que levam ao céu. Pouco depois colocaram ao lado deste uma estátua a Lech Kaczyński, falecido no desastre de Smoleńsk, o que causou, mais uma vez, polémica e o desagrado com comparações ao culto da personalidade das dinastias coreanas ou mesmo de líderes dos odiados comunistas como Nicolae Ceausescu, Estaline ou Lenine. Aliás é de assinalar a proliferação de estátuas ao falecido, que o actual presidente comparou a uma das maiores figuras da história da Polónia depois do Marechal Piłsudski (sic). Recentemente uma foi inaugurada uma no coração do Solidariedade (e cidade onde  reside Wałęsa) em Gdańsk.


Lech Kaczyński e a primeira-dama da Polónia jazem em Wawel - correspondente ao Panteão Nacional português ou Panteão da Pátria no Brasil - o que causou indignação em muitos círculos intelectuais e da oposição e, a adicionar a esta tensão,  dois novos monumentos são erigidos mesmo ao lado do memorial ao soldado desconhecido, um ao desastre de Smolensk em 2010 e outro, mais recente, ao falecido presidente que, de mão no peito comtempla o memorial dedicado ao evento que o partido PiS considera como um complô da Rússia para liquidar a liderança da Polónia enquanto para outros terá sido a atitude do próprio Kaczyński a contribuir para o trágico desfecho do que seria um dia de celebração e homenagem às vítimas das execuções de Smolenk durante a II Grande Guerra. 


Em Abril o novo Acordo do Supremo Tribunal entra em vigor estabelecendo que sob decisão presidencial os juízes passam automaticamente à reforma (aos 65 anos) excepto aqueles apontados pelo presidente eleito. Uma medida que em quase trinta anos de Democracia não tinha sido tomada.
O Supremo Tribunal de Justiça é um dos pilares do sistema democrático polaco no entanto, Kaczyński e o seu partido, estavam determinados em mudar o rumo da História e ficarem na mesma ao "limparem" o sistema de alegados resquícios perniciosos dos tempos da República Popular da Polónia ou PRL (Polska Rzeczpospolita Ludowa) nem que para isso tivessem de modificar a constituição o que foi considerado pela oposição como anti-democrático, caça às bruxas e paranóia do cabecilha do partido cuja reputação parece andar pelas ruas da amargura e sofrer de alegada oposição interna apesar de nos média estatais a imagem deste e do seu falecido irmão serem frequentemente exaltadas quer na sua influência para o colapso do comunismo e fundação do Sindicato Livre Solidariedade quer na modernização e futuro da Polónia na UE e no mundo, nas noticias, em debates políticos e em documentários "à la carte" nos meios de comunicação estatais e naqueles filiados aos conservadores e religiosos...

O símbolo da defesa da constituição (Konstytucja) que Wałęsa mostrou numa t-shirt durante o mediático e algo patético processo judicial levantado por Jarosław Kaczyński contra o mítico e nobelizado sindicalista.



Tal como mencionado no post anterior deste blogue celebraram-se os 100 anos da independência da Polónia depois de 123 anos onde literalmente desapareceu do mapa da Europa. A ocasião foi celebrada com pompa e circunstância e o evento organizado em Varsóvia, no Estádio Nacional, entre símbolos patrióticos, canções da guerra e de independência, o hino nacional e menções a figuras de craveira da mesma como o Marechal Piłsudski e a importância do Exército Nacional (Armia Błękitna ou Armada Cerúlea) na libertação dos polacos do jugo Soviético, Austro-Húngaro e Alemão. Entre as centenas de convidados ao evento faltou o legendário líder do Sindicato Livre Solidariedade, Lech Walesa, já com idade avançada (75 anos) mas sem deixar de manifestar a sua opinião - nos média da oposição - contra o PiS e Kaczyński ao ponto de ser inclusivamente levado a tribunal por este...

Wałęsa e Kaczyński em tribunal depois de sucessivos adiamentos




Wałęsa, o electricista de Gdańsk como ele próprio se intitula, nunca foi diplomático, suave ou até consequente quando toca a dizer aquilo que pensa, não é malcriado no sentido de usar o abundante vernáculo polaco - não temos chance de competir com eles no nosso idioma - mas está-se literalmente nas tintas para o politicamente correto e tem mesmo prazer em "partir a loiça"...

E assim foi quando compareceu no tribunal de Gdańsk para responder a Kaczyński pelas alegadas ofensas à memória do seu falecido irmão. Wałęsa afirmou publicamente, no Facebook, aquilo que pensava (e que muitos pensam) sobre os acontecimentos de Smolensk e das responsabilidades na queda da aeronave em território russo. Para ele (Wałęsa) o acidente foi provocado pela atitude petulante dos irmãos gémeos - Lech  teria sido instigado pelo irmão Jarosław - em aterrar o avião e a comitiva a qualquer custo em condições atmosféricas precárias; afirmando ainda que Jarosław Kaczyński é mentalmente desequilibrado e que teve papel fundamental na alegada insinuação que Wałęsa, no cárcere, durante os anos do comunismo, foi forçado a assinar um papel no qual passaria a ter cooperação - ser bufo - com as autoridades da República Popular da Polónia e que alegadamente Kaczyński estaria por trás disto para tramar o sindicalista e afastá-lo dos destinos do Solidarność ou Solidariedade.

30,000 PLN ou 7,000€ foi o montante pedido pelas ofensas pessoais ao que Wałęsa respondeu na entrada do tribunal,  no seu típico estilo bonacheirão, sorrindo e envergando uma t-shirt onde se lia "Konstytucja" (Constituição), claramente provocando o líder do PiS, apoiado por seguidores que vociveravam "Lech Wałęsa! Lech Wałęsa! Lech Wałęsa!" enquanto Jarosław, visivelmente agastado, pedia à polícia para levar dali para fora os "arruaceiros que ali estavam para perturbar os trabalhos do tribunal". 

A decisão foi finalmente tomada em Dezembro: Wałęsa não tem de pagar os 30,000 Złoty (seriam dados à caridade) mas terá de pedir desculpas a Kaczyński, oficialmente, na página do Facebook, afixado durante 7 dias em negrito com fundo uniforme (sic), no Newsweek Polska e no Gazeta Wyborcza - média da oposição - numa página afastada de qualquer outra publicação e lido por Wałęsa na Radio TOK FM.

Kaczyński pode esperar sentado...

O presidente da Polónia, Andrzej Duda, visita a Casa Branca 

2 biliões de dólares para assegurar a presença norte-americana em território da Polónia ou na fronteira Leste da NATO, e uma base militar a ser construida brevemente com o nome "Fort Trump", sim, leu bem, Forte Trump!, foi a oferta de Andrzej Duda, na sua visita aos EUA. Esta decisão, impopular na Polónia, onde este valor é absolutamente escandaloso num país ainda com carências enormes nas áreas da saúde, do meio-ambiente, de infraestruturas (apesar de grandes progressos nos últimos dez anos) e onde o salário mínimo são 480 euros. 

Com a Rússia a modernizar o seu exército ultrapassando a tecnologia norte-americana na questão dos mísseis nucleares inter-continentais, afirmando-se como o grande  opositor destemido dos EUA e da NATO, a China com um exército imenso e bem preparado e uma forte importância e influência política e militar na Ásia e a liga-árabe a mostrar claros sinais de descontentamento com os EUA depois destes aprovarem a mudança da sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém a Polónia tenciona também ter um papel fundamental na NATO e não estar sozinha na defesa das suas fronteiras e dos limites da Aliança Atlântica a Leste do continente europeu. O enclave de Kaliningrad - a Norte da Polónia e a Oeste da Lituânia - é território da Federação Russa e ali, no mar Báltico, as tensões são crescentes com manobras militares de parte a parte, demonstrações de poderio e acusações mútuas de provocação e necessidade de defesa perante um potencial ataque.
Uma nova Guerra-Fria avizinha-se com a nuance de, desta vez, termos no tabuleiro a China que se mostra mais próxima da política da Federação Russa e como moderador privilegiado nos potenciais conflitos na Península Coreana e região Ásia-Pacífico. 


A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas em Katowice

Estranhamente, ou não, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas teve no lugar na capital do carvão e capital da região da Silésia, a poucas centenas de quilómetros da República Checa e da Eslováquia. A Polónia é um dos maiores extratores de carvão da Europa e grande parte do aquecimento doméstico e da água quente que corre nas torneiras dos lares polacos, cerca de 80%, provem de centrais hidroeléctricas que consumem este recurso energético para o seu funcionamento. É um lobby poderosíssimo, praticamente intocável, que não pode, por motivos óbvios, ceder às pretendidas e mais do que necessárias, transições para novas formas de energia. O carvão polui o ambiente e o país tem uma qualidade do ar muito baixa em comparação com outros países europeus, um assunto quase tabu mas cada vez mais discutido levando à consciencialização deste problema em partes da população que até há bem pouco tempo nem se tinham apercebido da gravidade da situação apesar do governo atual não manifestar interesse em mudar as mentalidades por questões políticas. 

Na conferência quatro países não alinharam com a agenda para a transição energética, os Estados Unidos, a Federação Russa, a Arábia Saudita e o Kuwait. Mais poderia escrever sobre este assunto mas finalizo com o discurso de Greta Thunberg, uma ativista sueca de 15 anos, que restaura a fé na humanidade num momento em que parece perdida e que nos faz refletir sob se realmente não chegou o momento de puxar o freio de emergência...











sábado, 10 de novembro de 2018

Os 100 anos de independência da Polónia 1918 - 2018

Cento e Vinte e Três anos roubados à nação polaca; prostrada sob o jugo do Império Austríaco, Prússia e Rússia. Mais de um século de luta, violência, submissão, resistência e finalmente a libertação em Novembro de 1918. Figura fulcral desta data é o Marechal Józef Piłsudski e as Legiões Polacas que restauraram a independência formando a Segunda República da Polónia, entre o caos do final da I Grande Guerra e o prelúdio de um conflito ainda mais destruidor a ter lugar em apenas duas décadas. 



Celebram-se no Domingo, 11 de Novembro de 2018, os cem anos da independência da Polónia depois de mais de um século onde literalmente desapareceu do mapa e até dos documentos oficias e enciclopédias de três poderes europeus que pretendiam enterrar para sempre a soberania desta nação. 
A Europa do século XVIII era um barril de pólvora, dividida entre monarquias decrépitas, lutas intestinas por territórios, fronteiras e valores patrióticos exacerbados, baseados no militarismo. Em 1795 a Polónia-Lituânia - dois reinos formando um imenso território que, no seu pico, se extendeu até onde hoje temos a Estónia, Letónia. Ucrânia, Bielorrússia, Hungria, Roménia, Rússia, Eslováquia e Moldavia. Um país originalmente mais a Leste, ao contrário da atualidade onde claramente está posicionado (movido) mais a Ocidente depois dos Acordos de Potsdam em 1945.

É neste barril de pólvora, entre uma Polónia-Lituânia fragmentada depois de negociações territoriais em troca por alianças militares, pejada de conflitos internos fruto de uma monarquia fraca, uma burguesia sem lealdade, despojada de privilégios e inúmeros levantamentos  despoletados por anos de instabilidade e perdas territoriais que os três grandes poderes europeus da época se reúnem com a intenção de suprimir a Polónia para sempre. Rússia, Áustria e Prússia dividem entre si um país  derrotado, como se de um bolo se tratasse... As três fatias divididas entre os respetivos impérios de 1795 até 1918. Uma dissolução territorial, cultural e de soberania que literalmente roubou todo o século XIX aos polacos, gerações inteiras que não souberam o que é viver numa Polónia livre, outros que morreram com o sabor da derrota e eventualmente apenas na esperança do renascimento da nação polaca - relembremos que a esperanca média de vida no seculo XIX situava-se entre os 40 a 50 anos de idade.

O Armistício, finalizando oficialmente a I Grande Guerra é também a data do fim desta tentativa de destruição de uma nação por países terceiros. O Marechal Józef Piłsudski, no cárcere em Magdeburg, é libertado pelos alemães - um estratégia pensada como favorável à derrota da Rússia que ameaçava as ambições germânicas - é colocado num comboio em direção a Varsóvia, três dias antes da assinatura do Armistício. Com as Legiões Polacas reorganizadas o processo de restauração da independência toma forma entre uma Rússia Imperial derrotada - a Revolução Russa tinha ocorrido no ano anterior - uma Prússia reduzida a escombros, tal como a Áustria, permitem o início da Segunda República da Polónia que seria brutalmente desmantelada em Novembro de 1939 com a invasão pelas forças do III Reich.


Piłsudski torna-se assim uma figura de craveira da História da Polónia, um estadista respeitado até hoje pela nação polaca - em inúmeros lares polacos, especialmente de idosos, o retrato do Marechal faz parte integrante da decoração junto com a cruz de Cristo e a imagem de Nossa Senhora de Jasna Góra em Częstochowa.

Este feriado do 11 de Novembro (11 Listopada Narodowe Święto Niepodległości) foi suprimido logo em 1947 quando a Polónia, em consequência dos acordos do Pacto de Varsóvia, emerge como um país Comunista na esfera de influência da então URSS, passando a celebrar-se livremente, com pompa e circunstância depois de 1989 com o colapso da República Popular da Polónia (PRL) e o inicio da Terceira República. 

Polónia 2018

Como é viver na Polónia de Kaczyński e do PiS? 

As recentes eleições municipais em Outubro demonstraram claramente onde reside o poder do partido conservador; no Leste da Polónia, nas zonas rurais e fronteiriças com a Bielorrússia e Ucrânia o PiS mostra-se forte mas na Polónia urbana, e nas regiões mais a Oeste e a Norte a mensagem foi clara onde em cidades como Łódź e Varsóvia, Cracóvia e Poznań os vencedores não estavam associados ao partido no poder ainda que na generalidade o PiS venceu as eleições com uma margem de 7% contra a Coligação do Cidadão (ex-Plataforma do Cidadão). 

Sente-se claramente um controlo dos medias estatais especialmente o canal televisivo nacional TVP agora jocosamente apelidado de TVPiS e outros meios de comunicação empenhados em ventilar propaganda favorável à Polónia de Direita, conservadora, católica e patriótica, no sistema de ensino básico é notório a agenda nacionalista com um forte reforço nas disciplinas de Língua Polaca, e História. 

Entre este turbilhão do ensejo dos conservadores em moldarem uma Polónia ao seu gosto, tentando modificar a constituição, remodelando o Tribunal Constitucional, alegadamente para a purga de elementos relacionados com o "ancien régime", e protestos de rua contra as proibições e imposições governamentais o Dia da Independencia pretende-se celebrar com a alegria que certamente tomou as ruas, casas e os corações dos polacos de há
100 anos. 

O Presidente Andrzej Duda demonstrou claramente que o dia será de festa proibindo manifestações por parte de elementos da Extrema-Direita polaca (intitulam-se nacionalistas) na Marcha da Independência na capital, Varsóvia. Apenas as bandeiras brancas e vermelhas serão aceites sendo os slogans vistos no ano passado, como "Polónia para os polacos, Polacos para a Polónia", e outros de caráter rácico e de exclusão banidos sob pena de intervenção policial. 
Cem anos passaram num país que viu as suas fronteiras expadirem-se, contrairem-se, desaparecerem e reaparecerem, serem deslocadas para Oeste, suprimidas e reajustadas a Leste, uma nação que seria novamente dizimada e posteriormente oprimida durante quarenta anos num mundo dividido entre duas grandes potências. Nação que, sempre em luta, veria em 1979 o mundo eleger o sumo pontífice dos católicos um cidadão polaco, Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, que daria ânimo e esperança em dias melhores e no fim do comunismo pró-soviético. 

Com quase 30 anos de Democracia a Terceira República passa uma prova de fogo numa Europa em convulsão com o resurgir do populismo - provavelmente em consequência dos exageros do Politicamente Correcto do principio do século - e de uma União Europeia desconectada da realidade, abalada com o descontetamento e cepticismo dos europeus revelada no Brexit, ascensão da Direita anti-Europa na França, Itália, Hungria, Polónia e na Áustria.

O espírito da liberdade, do direito à auto-determinação e soberania do Estado permanece inabalável independentemente dos partidos políticos e das personagens que passam pelo panorama político. Os polacos, melhor do que ninguém, sabem o valor que a mesma tem e nunca vão abdicar porque a Polónia existirá enquanto existirem polacos.



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Caleidoscópio - Polónia 2017




O Natal está aí à porta e com ele aproxima-se a passos largos o fim de mais um ano, e que ano este! Quer a nível mundial quer para a Polónia e para Portugal. 

Caminhamos em 2017 para um mundo instável e um potencial conflito na Coreia do Norte - com consequências imprevisíveis - terrorismo galopante e sem fim à vista, os EUA a fazerem marcha-atrás em assuntos prementes como o ambiente e o aquecimento global, a visível ascensão de ideais e partidos de extrema-direita em países onde, até então, reinava o politicamente correcto e a "estratégia da paciência" e recentemente a aceitação da administração Trump em reconhecer Jerusalém como a capital (de facto) de Israel, tudo indica que tempos de mudança aproximam-se e a próxima década será inevitalmente distinta dos "anos 10"...

Portugal passou um ano muito complicado, duro, especialmente durante o Verão com o inenarrável cenário dos incêndios que, desta vez, causaram um rasto de destruição e de morte (mais de uma centena de vítimas mortais - como é possível) como nunca se viu em tempos modernos incluindo algo inimaginável como o desaparecimento total do histórico Pinhal de Leiria. A recuperação económica no entanto parece surgir entre sinais das agências de rating terem retirado Portugal da "zona lixo", diminuição do desemprego e emigração e no sector do turismo - ainda que com impacte nas populações residentes - temos resultados impressionantes, Portugal parece estar na moda e que o diga Madonna que agora vive também em Portugal, cavalgando qual Cowboy, nas praias da Península de Tróia (ó saudade!), no Alentejo e de lambreta pelas vielas e ruas do Bairro Alto.

A Polónia vive igualmente tempos agitados e de incerteza. O partido de Jarosław Kaczyński, Prawo i Sprawiedliwość (PiS) no poder, com maioria absoluta, desde 2015, parece estar de pedra-e-cal perante uma oposição audível mas ainda sem músculo (ou uma alternativa credível) para o braço-de-ferro com os conservadores que parecem continuar na preferência de uma importante parte da população para as eleições legislativas em 2018.


Beata Szydło, a Primeiro-Ministro conhecida por ter retirado a bandeira da União Europeia da sala de Conferência de Imprensa e substituído um velho relógio por a cruz de Cristo, além de uma série de acidentes de viação - um deles uma colisão com um pequeno Fiat Seicento causando inúmeros comentários e memes jocosos na Internet polaca - foi recentemente substituída por Mateusz Morawiecki até então Deputado e Ministro do Desenvolvimento e Finanças do executivo de Szydło. 

Mateusz Morawiecki o novo Primeiro-Ministro da Polónia

Morawiecki é  um homem de finanças, um cérebro analítico e numérico e ao contrário de Szydło, que apenas fala polaco, o novo Primeiro-Ministro é fluente em inglês e alemão. Foi o responsável pela implementação do Plano 500+ ou subsídio de criança para todas as famílias polacas com mais de um filho e antes da sua caminhada política com o PiS foi Presidente do Bank Zachodni WBK. O seu curriculum e carreira profissional é mais impressionante do que o do seu predecessor mas parece não ser permeável às críticas da oposição especialmente depois de uma tirada sobre os seus objectivos...

[..]re-Cristianizar a Europa, esse é o meu sonho, porque em muitos lugares já não se ouvem canções de Natal, as igrejas estão vazias, transformadas em museus. Isso é lamentável.[..]

A sua ascendência judaica (duas das suas tias eram judias e uma foi mesmo sobrevivente dos campos de concentração) causou, nos círculos das "teorias da conspiração" alguns rumores ainda que, na Polónia, ninguém pode estar certo de não ter sangue judeu tal como qualquer português sabe - ou deveria saber - que um dos resultados do Império Colonial foi a miscigenação dos portugueses com outras raças alterando para sempre o nosso povo e identidade cultural.

Este jogo de cadeiras está a ser visto como apenas isso, um jogo de cadeiras...
O Cardeal de Richelieu, a Eminência Parda, Jarosław Kaczyński, continua a manipular os cordéis dos seus elegidos enquanto lê  ("à boca podre" como se diz em Portugal) livros sobre gatos nas sessões do Sejm ou Parlamento...

Sim, leu bem. Kaczyński leu o "Atlas dos Gatos. Selvagens e Domésticos" em plena sessão parlamentar o que foi prontamente justificado, pela porta-voz do governo, como uma leitura importante e fonte de inspiração para a adoção de animais. Kaczyński, um conhecido "cat-lover", diz-se, adoptou vários gatos vadios, ficando um deles conhecido em fotografia durante os recentes protestos contra as mudanças no poder judicial polaco. 


O Dia da Independência (11 Novembro) e a marcha dos patriotas

Uma marcha que certamente impressionou numa Europa que pretende agradar a Gregos e a Troianos naquilo que se designa por politicamente correcto. A Polónia rejeita esta abordagem e demonstrou-o no dia 11 de Novembro.


No passado dia 11 de Novembro, o dia da Independência após 123 anos - cento e vinte e três - de inexistência da Polónia como país, ocupada e dividida pelo império alemão, austríaco e russo desde o século XVIII, a marcha patriota em Varsóvia foi amplamente noticiada pelos media como uma galopante ascensão da extrema-direita na Polónia e na Europa.

Mas terá sido mesmo assim? Este feriado tem inúmeras razões para ser festejado, não apenas pelo simples facto de ser uma celebração de independência depois de mais de um século de ocupação e tirania das forças ocupantes mas também como recordação dos tempos em que o mesmo foi proibido e banido durante e após a Segunda Grande Guerra.
Afinal o Grande Irmão Soviético não iria compactuar com celebrações que envolvem a Rússia oprimindo outros povos, para a URSS e para o sistema socialista-comunista que vigorou até 1989 e seus esbirros pró-Moscovo este assunto era, como tantos outros, tabu.

Desde a ascensão do PiS ao poder que se tem verificado um crescente ênfase no sentimento patriota e nacionalista. A nível do sistema educativo as directrizes são claras, mais exigência em História e Língua Polaca (como encarregado de educação verifico isto) para as novas gerações.

A postura anti-UE, anti-Rússia, anti-Emigração, anti-Islão, pró-América, Cristã, Católica Apostólica Romana e quase "orgulhosamente sós" do PiS não tardou a servir como fonte de ignição para a extrema-direita e para os já existentes, mas na sombra, partidos nacionalistas polacos que até então não se identificavam com o SLD e o PO de Donald Tusk e de todos os predecessores. Aumentam os ataques racistas - mais adiante descrevo o meu - e os patriotas que a título de defenderem os valores cristãos europeus manifestamente se mostram tudo menos politicamente correctos. Eles não querem saber do politicamente correcto para nada, desprezam-no, odeiam-no e querem vê-lo no chão, estendido. 

Quem não está do seu lado da barricada não é  bom polaco (como disse Kaczyński) é  um peão da UE, da Esquerda, dos Liberais, dos gays. dos "comunas" e até do Islão que, no seu ponto de vista, estão a invadir a Europa. Nesta onda de paranóia quem não se assemelha ao tipico genótipo e fenótipo local pode ser confundido com o "inimigo" com o invasor. E desengane-se quem pensa que isto só acontece a estrangeiros, mesmo polacos com pele e olhos mais escuros ou com descendência estrangeira ja ouvirem comentários desprezíveis do tipo "volta para casa", "Ahmed!" e "o que estás a fazer na Polónia".

Em Łódź por exemplo registaram-se ataques de carácter racista a duas mulheres argelinas com véu islâmico (pontapeadas num autocarro), um indiano espancado no eléctrico sem que a polícia o ajudasse, dois alemães e um polaco espancados à porta de um clube por falarem em alemão, um cidadão chinês esmurrado no autocarro, um restaurante de Kebab vandalizado e o proprietário espancado e de acordo com os relatos de colegas de trabalho africanos comentários muito racistas e até empurrões na rua, em plena luz do dia. Tudo isto daria um tópico per se...

Recentemente, ao fim de treze anos na Polónia, tocou-me um incidente racista, ainda que envolva um homem alcoolizado (notório pelo cheiro a alcool que emanava quando falava). Estavamos em Setembro, fazia compras rotineiras  num conhecido franchising de lojas de artigos de higiene e beleza presente na Polónia, as lojas Rossmann, quando reparei num indivíduo relativamente alto, cabelos claros e olhos azuis que me fitava. Pensei que fosse alguem que conheço de um emprego prévio, de uma loja ou da vizinhança quando, de repente, perguntou-me se eu tinha comigo bombas... Como não entendi a absurda questão perguntei-lhe o que queria ao que me respondeu; - Deves ser árabe, tens aspecto de árabe, tens bombas? Isto levou a uma troca amarga de palavras onde ficou a saber que sou português indicando-lhe onde podia colocar a bomba e que mesmo se fosse árabe não era problema dele...
O individuo tornou-se repentinamente apologético, claramente envergonhado e tentou explicar que pelo facto de ter olhos escuros me confundiu e que até trabalhou em tempos com portugueses e espanhóis e são boa gente... A discussão terá tomado proporções mais sérias pois entretanto um casal polaco pediu satisfações ao homem pela atitude degradante. 

Como em tudo na vida há a um tempo para tudo e esta experiência (amarga) levou-me a pensar que realmente se começa a sentir uma certa histeria, alimentada por a poderosa máquina de propaganda do PiS (o canal estatal TVP - jocasamente apelidado de TVPiS) e os canais de rádio e televisão aliados dos conservadores, o canal TRWAM, Radio Marija e as revistas WPROST e do Rzeczy.

Os partidos de direita conservadores, patrióticos como o ONR, Restauração Nacional da Polónia ou NOP Narodowe Odrodzenie Polski estiveram presentes na marcha de 11 de Novembro e fizeram-se ouvir e ver. Não foram banidos ou proibidos de participar apesar dos protestos da Esquerda e da destemida comunidade LGBT que apresentou-se numa contra-manifestação tida como a maior de sempre...

Patriotas mascarados marcham nas ruas de Varsóvia no 11 de Novembro, o Dia da Independência.


Os ultra-nacionalistas pretendiam intimar... Estavam mascarados com lenços que os faziam parecer caveiras, outros com passa-montanhas, empunhavam a bandeira branca e vermelha queimando fogos que emanavam fumo vermelho e branco. Os canticos nacionalistas, frases claramente racistas e outros relacionados com a História dos Cruzados preocupou judeus e muçulmanos. Slogans como "Polónia branca, Polónia pura" e "A Europa terá de ser branca ou inabitada" foram alvo de críticas mas também de complacência por os partidos de direita nacionalistas e conservadores que viram a marcha tão só e apenas como uma bela celebração de patriotismo polaco...

A questão é que os polacos são, regra geral, patriotas. Sabem o que lhes custou a liberdade e a independência. Foi ganha com luta, morte, sangue e sofrimento. Perderam o país e recuperaram-no tal como a sua identidade. Não se espere portanto que não se celebre este dia em particular com alarido e formalidade (o povo polaco é particularmente formal e de arraigadas tradições), e note-se que se esta marcha foi notória e mediática outras houve que sem a cobertura dos media, sem lenços com caveira e slogans também acontecem por toda a Polónia mas não serão mostradas ou discutidas como esta porque os media noticiam sobretudo o que choca e chama a atenção e nesse aspeto tornaram a marcha num verdadeiro sucesso...


O fantástico Parque Nacional de Białowieza e o grave problema ambiental na Polónia


Um tesouro na Polónia, o Parque Nacional de Bialowieża.

A Polónia é  um dos países mais poluídos da União Europeia, é um facto incontornável ainda que relegado para segundo plano pela imprensa estatal que o considera como exagero dos media de Esquerda e estrangeiros ou como interferência da UE em assuntos soberanos da Polónia. 
Muitos polacos não querem mesmo saber do impacto ambiental da queima do carvão por centrais hidroelétricas e a nível doméstico pois não há uma alternativa económica para enfrentar o frio a partir Outubro até Março (por vezes Abril e Maio) sem a queima de carvão ou lenha (por vezes lixo). 

A maior parte dos blocos de apartamentos nas grandes cidades e centros urbanos são aquecidos por um sistema de água quente que circula desde as centrais (denominadas de Elektrociepłowia) queimando carvão (ou carvão e biomassa ou gás) para aquecerem gigantescas caldeiras de água que, ao evaporar, é levada em elevada pressão através de tubagens que por sua vez fazem girar turbinas fornecendo milhares de volts de electricidade. O vapor resultante é  canalizado para o aquecimento central doméstico, os conhecidos kalorifer, ou aquecedores. Esta indústria é omnipresente na Polónia e cada uma destas centrais queima milhares de toneladas de carvão anualmente com o pico nos meses gélidos.

Esquematicamente o problema reside quer na falta de alternativa económica imediata - ainda que se aventa a possibilidade de energia nuclear - no poderoso lobby do carvão (Minas de carvão estatais na Silésia e Sindicatos que grosso modo representam mais de um milhão de votantes) e obviamente falta de vontade política (pelas razões mencionadas) num país que depende desta fonte energética para mover a sua economia já que 80% provém da queima deste mineral.

O smog de Cracóvia, um problema premente na cidade do "Dragão de Wawel".


Cracóvia e as regiões de Opole, Silésia e Pequena-Polónia (Małopolskie) a par com as grandes cidades e a capital Varsóvia - sofrem niveis alarmantes de poluição chegando por vezes a igualar Pequim e Nova-Deli quando a falta de vento permite que no vale da região de Cracóvia o smog não disperse. Muitos compatriotas residentes nesta popular cidade polaca confirmam a falta de qualidade do ar que ali se respira quando, no pico do Inverno, milhares de lares e as centrais a carvão literalmente "vomitam" gases nocivos para a atmosfera. Não se prevêem a médio-prazo alterações significativas nesta indústria e de acordo com Michal Herman o CEO da PG Silesia a Polónia continuará dependente desta fonte de energia pelos próximos 15 anos...

Jóia da Coroa da Polónia (como foi em tempos o nosso Pinhal de Leiria e ainda é o Gerês) com um significante significado histórico e valor ambiental (considerado como Reserva Biosférica pela UNCESCO) o Parque Nacional de Białowieża (Białowieski Park Narodowy) com uma superfície de mais de 100 mil metros quadrados e adjacente à Bielorrússia está em risco desde a ascensão do PiS ao poder. 

O Governo reitera que a permissão para o corte de madeira na àrea florestal protegida do Parque Nacional é parte de um plano para debelar uma praga, um escaravelho (Ips Typographus) que destrói abetos e que só com o corte substancial de certas áreas da reserva se poderá debelar...

Białowieża não foi considerado à toa como reserva biosférica pela UNESCO. É considerado como o ultimo reduto da extinta floresta europeia (basicamente o que era a Europa antes da agricultura massiva) e um local magnífico - alguns dizem mágico - onde se encontra o bisonte europeu e centenas de outras espécies (mamíferos, aves e insectos) como lobos, raposas, linces, texugos, veados, alces, esquilos, castores, coelhos, lebres, corujas, a águia prateada e dourada, cegonhas, corvos, patos, pica-pau, gansos etc...

O Greenpeace e inúmeras associações ambientalistas estrangeiras e na Polónia protestam veementemente contra esta decisão do governo alegando que se verificam irregularidades na gerência e supervisão dos madeireiros. A situação escalou de tal modo que chegou ao Tribunal de Justiça Europeu e a sentença foi clara; ou a Polónia pára com o corte florestal ou arrisca-se a ter de pagar uma multa diária de 100.000 €. O governo protesta, acusa, mais uma vez, a UE de interferência com decisões internas da Polónia, justifica com estudos científicos (estatais) que provam a necessidade de cortar árvores para debalar a praga do escaravelho dos abetos. Organizações ecologistas entendem que tudo isto faz parte do equilibrio biológico, dos ciclos da natureza.

A luta entre conservar o Parque Nacional pela exploração madeireira controlada - versão governamental - e a não-interferência - versao ambientalista - mantém-se e avizinha-se difícil nos próximos tempos tal como outras lutas numa Polónia que parece seguir os passos do Húngaro Viktor Urban.