sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Inspecção Periodica Obrigatória e mecânico honesto




Podia ter dado o titulo do tópico "coisas de carros" mas decidi cortar um pouco com a rotina. Como já tinha dito no tópico anterior o Rui Vilela indicou-me um mecânico da sua confiança após andar desesperado à procura de um que fosse apenas uma pessoa correcta e sincera.

Em Famalicão costumava ir com os carros a uma oficina na qual os mecânicos conheciam-me desde criança, vi-os envelhecer, lamentei a morte de um deles - o Sr. Adão - e continuo a desejar que pudesse levar os meus carros ao Sr. Mesquita. Mas aqui na Polónia não há Sr. Mesquita, nem Chico, nem nenhum dos seus mecânicos.

Para mal dos meus pecados não posso pagar reparações a "um bocadinho de cada vez" e nem sequer ter um electricista como o Sr. Jorge que por vezes - em coisas ridículas - nem sequer cobrava. Quando era miúdo era um momento de grande emotividade ver o Sr. Adão a conduzir o nosso Fiat 128 vermelho, havia sempre algo que se estragava ou desafinava e então o meu pai, que de carros apenas os conduzia, levava a máquina à oficina Adão&Mesquita. Nessas voltinhas do "vamos ver o que o carro tem", o Sr. Adão conduzia aquele Sport Coupé como devia ser, a fazerem-se ouvir as duas borboletas do carburador duplo Webber a cantarem alegremente pelas ruas de Famalicão! O carro parecia voar naquelas ruas que ainda eram na sua maioria em paralelo.

Mas ver os dois nos bancos da frente daquele carro é uma memória cada vez mais envolta numa bruma, só eu ainda cá ando. O meu pai deixou-nos há sete anos e o Sr. Adão há seis, o Fiat, depois de ter emigrado, ficou abandonado atrás do prédio onde morava e, de tão enferrujado que estava, foi enfardado numa prensa hidráulica em 2005.

Voltei aos carros italianos, tinha saudades deles, do design diferente, dos manómetros Veglia Borletti, dos espelhos Vitaloni, das jantes Cromadora, da Magnetti Marelli... Durante anos jurei nunca mais comprar um, o 128 havia causado uma relação amor-ódio, eram emoções misturadas com baldes de ferrugem, o inconfundível ronco do motor a par com avarias no distribuidor e nos gigleurs, piões e arranques que acabavam sempre por estragar algo nos tambores ou nos cardans.

 Depois de um carro alemão voltei a um italiano. Devia ter comprado uma Alfa Romeo 156 SW a GPL (se há uns anos me dissessem que um dia gostaria de ter um Alfa ria-me na cara dessa pessoa) mas foi uma Lancia Lybra SW, um carro que usado tem um preço óptimo e que oferece muitas tralhas que em outros carros são extras caríssimos.


 As estradas polacas tomaram conta dos elementos de suspensão, não há hipóteses de evitar o desgaste prematuro dos silent blocks, dos casquilhos e das ponteiras de direcção. 

A oficina do Sr. Marek é muito simples, a típica oficina com quatro paredes e telhado recheada de ferramentas, peças de automóvel, uma VW pão-de-forma a ser restaurada atirada a um canto e calendários com meninas de mamas ao leu e stilletos. Cheira a óleo, a gasolina queimada e a pó mas ali fazem-se milagres e vemos o tal dizer polak potrafi (um polaco consegue) em todo o seu esplendor.

Se falassem português, tivessem cabelos escuros e sobrancelhas grossas diria estar em Portugal mas na conversa que vou tendo há palavras que não entendo e outras frases compreendo-as tirando-as do contexto, dizem-me uma piada mas sorrio pois não entendi o que queriam dizer, tinha a ver com carros mas não apanhei tudo, por vezes sinto-me como num filme em que de repente se esquecem de colocar as legendas.


 Um Mazda acidentado é desempenado com umas correias atadas a um pilar, meia-dúzia de arranques em marcha-atrás e a longarina volta ao lugar, ali não há lugar para medições a paquímetro, tudo a "olhómetro", o farol e o pára-choques encaixam e não há folgas, está arranjado e pronto para a pintura. 

O meu Lybra está pronto mas graças ao Mazda sinto as minhas roupas e cabelos impregnados do cheiro a gasolina queimada e borracha. Posso dizer que tenho finalmente um mecânico de confiança na Polónia!

Hoje fui com o carro fazer o przegląd techniczny ou seja o IPO. Passou. Apenas um escorrimento de óleo incomoda o inspector, diz-me que devia arranjar pois a polícia pode mandar-me parar e colocar um espelho por baixo do motor para ver se há fugas de óleo. Pode ser mas duvido que o façam amiúde em carros particulares.


 Mais um ano de circulação, apesar de tudo, viva l'Italia!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Coisas da guerra...


A evocar os crematórios. Radegast ou Radogoscz foi uma estação de caminhos de ferro que tinha uma linha que acabava em Auschwitz e em outros campos de concentração da "solução final". 

Hesitei antes de colocar este novo post mas afinal viver na Polónia tem destas coisas. Ora num dia estamos em pleno dia de Finados ora noutro damos por nós em locais históricos relacionados com o conflito de 1939-1945.

O dia estava solarengo e a convidar a um passeio, apesar do vento gélido que soprava. Peguei no carro e fui ter com o Rui, demorando apenas dez minutos a chegar  à larga e movimentada avenida onde ele mora. O motivo da visita desta vez prendia-se com um mecânico que ele me recomendou e que fica mesmo ao lado da casa dele.

Conduzir na Polónia implica habituarmos-nos a estradas de asfalto irregular, a uns buracos de vez em quando, umas "lacadas", umas tampas de saneamento que parecem cápsulas de garrafas a saírem da estrada e, volta e meia, um pneu furado e substituição regular dos casquilhos de suspensão - aprendemos rapidamente a palavra wahacze (braço de suspensão) e uszkodzone (estragado).

A visita à oficina quase merecia um outro post mas tendo em conta que a reparação vai custar caro e neste momento é totalmente inconveniente para a situação financeira da família, prefiro nem mencionar mais nada...

Como o assunto foi tratado com celeridade e não havia muito mais a fazer senão combinar o dia e saber o preço do material e mão-de-obra acabei por ir com o Rui na spacer (palavra polaca que significa ir passear).
Moramos na zona de Radogoszcz em Bałuty, trata-se de uma imensa freguesia dentro da cidade de Łódź que, a bem dizer, são sobretudo zonas-dormitório e floresta, mais do que outra coisa qualquer.

A pouco mais de 300 ou 400 metros da casa do Rui fica a estação de caminhos de ferro de "Radagast", o nome dado pelos Nazis durante a ocupação de Litzmannstad (Łódź).


No pequeno museu da estação de Radegast podemos consultar as listas com os nomes dos deportados. Tudo está perfeitamente bem conservado, dactilografado em alemão em folhas A4 e organizado em cadernos. Os que foram levados para a morte têm um visto escrito a lápis ao lado do apelido. 

Radegast foi palco do início da tragédia de milhares de famílias judaico-polacas. Łódź foi até ao final do conflito a cidade polaca com maior comunidade de judeus mas bastaram pouco menos de cinco anos para que isso mudasse radicalmente. Os grandes campos de concentração, ou de extermínio, ficavam a Sul de Łódź, perto de Cracóvia e Częstochowa e são tristemente célebres pelo seu nome de ocupação: Auschwitz-Berkinau (Oswięcim) e Treblinka (Brzezinka).

Em Łódź o gueto judaico foi isolado pelas tropas do III Reich e totalmente aniquilado ao longo da década de 40. Gradualmente os judeus-polacos foram separados e levados de comboio em vagões de gado, sem condições nenhumas, empilhados e sofrendo horrores que nem vale a pena escalpelizar. O processo de deportação da comunidade judaica e "limpeza" da cidade dessa minoria étnica chamava-se de Judenrein.


Este museu e os monumentos simbolizando o destino final e as mãos - a lembrarem-me as mãos que batiam nas portas das câmaras de gás, quando libertavam o Zyklon B - foi palco de alguma celeuma pelo seu custo elevado numa cidade que precisa manifestamente de obras. Polémicas à parte ninguém fica indiferente à simbologia presente neste local que foi inaugurado por o Presidente Kaczyński

O gueto, construído rapidamente pelos Nazis, era no fundo um conglomerado industrial, alimentado pelas centenas de manufacturas e fábricas dos judeus-polacos, os detentores de grande parte do capital e grandes empreendedores da altura. Na nossa História de Portugal também não nos livramos das "judiarias", ou seja, do saque e violência contra os judeus sempre que o Rei precisava de "ouro". Assim o fizeram os Nazis com grande parte das riquezas da comunidade hebraica e bens que se encontravam no gueto, incluindo obviamente a mão-de-obra dos residentes.

Hoje em dia a estação de Radegast é um memorial dos mais de 230.000 judeus de Łódź que foram desalojados da cidade, a maioria deles não sobreviveu a guerra e passaram por aquela estação de comboios. Calcorrear aquele chão em pedra, aquela plataforma, ver a locomotiva a vapor com frases em alemão e dois vagões de gado, onde podemos entrar, é como viver um filme, sentir por um momento a inenarrável crueldade do ser humano para com o seu semelhante. Ocorre-nos no pensamento a pergunta - mas porquê? Como foi possível tanta crueldade? Foi possível.


 Foto tirada com o telemóvel a um dos vagões de transporte. Os olhais para fixar as cordas aos animais e as pequenas janelas com arame farpado. Depois da guerra os comunistas iriam usar sistema semelhante com a diferença de levarem as vitimas para a Sibéria (opositores ao regime, intelectuais) abrindo as portas e deixando-as morrer de frio. 


Tirou-se uma foto dentro do vagão. Os nossos rostos dizem tudo. 


Uma das locomotivas que levavam as composições. Fiquei na dúvida se teria esta cor nos anos 40. 

 
Vista de Radegast a partir do miradouro construído de propósito há pouco tempo  

domingo, 1 de novembro de 2009

Coisas de cemitérios

Quando nascemos em países cuja religião predominante é o catolicismo não podemos evitar que certas tradições da Igreja nos passem ao lado, como se diz em inglês you can run but you can't hide*, e no fundo são tradições que nos fazem sair um pouco do frenesim, banalidades, rotina e preocupações diárias para recordar aqueles que já não se encontram entre nós e nos fazem falta.

Tal como escrevi há um ano atrás este dia de Finados é vivido com grande frenesim em toda a Polónia especialmente junto aos cemitérios - na sua maior parte verdadeiras necrópoles - podemos ver uma autêntica maré humana com o preto como cor predominante. Junto aos muros estão as bancas dos vendedores de flores e de velas mas também os que vendem balões, pipocas, algodão doce, kiełbasa e afins.

Só na passada sexta-feira morreram nas estradas da Polónia mais de 20 pessoas em acidentes de viação, uma prova do movimento que este feriado religioso gera.  Em Portugal, apesar da grande agitação nos cemitérios, nunca vi nada que se comparasse a isto que observo na Polónia; são dias em que a polícia tem especial trabalho em ordenar o trânsito e manter a ordem pública. Se por um lado grande parte dos polacos se desloca de automóvel por outro o transporte público é ainda o meio privilegiado de se alcançarem os cemitérios. Nestes dias organizam-se inclusivamente linhas especiais e fecham-se ou abrem-se determinadas artérias para que o tráfego flua e os autocarros circulem mais rapidamente e sem atrasos.

Já é o quinto Dia de Todos os Santos que passo na Polónia, em todos eles o sol brilhou mas faz frio, aquele frio que nos faz arrefecer rapidamente o rosto e as mãos, um frio que me recorda outros finados, passados em Portugal, as idas a Amarante para por umas velas na campa da avó Rosalina - a mãe do meu pai - e visitar a campa de um bisavô que havia nascido no século XIX e tinha uns grandes bigodes farfalhudos.



O cemitério "Cmentarz Komunalny "Szczecińska"‎ tem aproximadamente um quilómetro de uma ponta a outra, não só é fácil perdermos-nos lá dentro como também não encontrarmos determinadas campas.



Leio os seus poemas e trechos de alguns dos seus livros, infelizmente não entendo grande parte do que escreveu mas são as palavras dele que ecoam na minha mente, ler algo que o meu sogro escreveu é em parte ouvir-lhe a voz e o pensamento.  Um sogro que nunca conheci, um avo que não conheceu os seus netos, como o outro avo que está noutro cemitério, a 3500 quilómetros deste. 

 O cemitério onde está enterrado o meu sogro Mieczesław Kucner - que nunca conheci pois morreu em 1992 - fica a cerca de três quilómetros de casa, trata-se de uma gigantesca necrópole na qual podemos sem grandes problemas fazer um ou dois quilómetros a pé, dentro do cemitério.
Das vezes que lá fui foram-me contando histórias de algumas das campas, numa está enterrado um serial killer que nos anos 80 violou e matou algumas raparigas de Łódź, a sua fotografia está com os olhos furados e riscada, noutro a campa de um jovem que morreu na passagem de ano em consequência de uma briga estúpida entre adolescentes bêbados e também vou lendo centenas de apelidos polacos, alguns inevitavelmente fazem-nos sorrir, como a campa da família Puta, ou da família Śmietana (creme).



 A campa de Paweł Ogaza fica ao lado da campa do meu sogro e deixa-me sempre triste. Não só partiu cedo desta vida como nem na morte se lembram dele. As flores são plásticas e as velas que vão sendo colocadas à sua memória são oferecidas por anónimos. Paweł morreu esfaqueado na passagem de ano de 1992 para 1993, uma agressão escusada tirou-lhe a vida aos 15 anos. Quando passarem 20 anos sobre a sua morte (Janeiro de 2013) e tendo em conta que ninguém da família mantém o local, a campa vai ser utilizada para outro defunto, Paweł Ogaza desaparecerá completamente. Coisas de cemitérios...





* Podes correr mas não podes esconder-te 

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Meninice - hoje e antigamente


 
 
Apercebemos-nos que os anos passaram a galope quando observamos os nossos filhos e as gerações mais novas. O meu filho mais velho (três anos e meio) tem uma verdadeira fixação por telemóveis e botões, quando não está a passar no Baby TV ou no Mini Mini os seus desenhos animados favoritos  e se avizinha uma crise existencial infantil basta procurar no Youtube ou na Internet e carregá-los. Para ele um computador é algo natural, mais um dos electrodomésticos da casa, tão natural como foi para mim o televisor Grundig Sensotronic a preto e branco que estava no apartamento em São João do Estoril ou o rádio para os meus pais e o automóvel, para os meus avós. 
 
 A station do pai e da mãe do Manuel e do Marcel tem uma cadeira especial para ele se sentar e tem de estar sempre com o cinto de segurança colocado, como os pais. O mais pequenino (9 meses) também tem o seu "ovo" e os respectivos cintos de segurança. Os bancos têm encostos de cabeça que tiram a visibilidade e o tablier tem muitos botões e luzinhas acessas.
O carro do meu pai era um Fiat 128 Sport de cor vermelha, com duas portas e as únicas luzes no interior provinham do conta-quilómetros, conta-rotações, indicador do nível de combustível e temperatura do motor, mesmo assim eram um verde desmaiado que só de vez em quando mostravam um quadradinho verde e outro azul forte. Não haviam cintos de segurança atrás, nem sequer se usavam na frente - apesar de ter uns instalados que nunca eram usados. Percorremos milhares de quilómetros nessa Fiat, a maior parte em Portugal e alguns em Angola - mas nao me lembro desses.
 
 Uma vez o meu pai bateu com o Fiat, quando vínhamos do Algarve e ao chegarmos ao Porto. Um autocarro dos STCP passou uma razia ao nosso carro e o veemente protesto do meu pai acabou por fazer-nos chocar com a traseira de um Fiat 124 Special T, cor de galão. A tampa da bagageira do 124 abriu de imediato e os farolins estilhaçaram. O nosso Fiat torceu o para-choques - daqueles cromados com escudetes - e fez uma pequena mossa no guarda-lamas. Apenas me lembro que paramos de repente com um estrondo mas nem sequer nos preocupamos se íamos sair disparados pelo para-brisas ou muito menos (obviamente) se os airbag iam amparar o choque, isso nem nos filmes de ficção-cientifica se via, apesar do airbag ter sido inventado no ano em que nasci, 1973, mas nunca comercializado por razões de custos de fabrico. 
 
Telemóveis nem sequer sonhávamos, quando muito poderíamos ambicionar vir a ter um dia um daqueles intercomunicadores como na série Espaço 1999. Mesmo ter um mero telefone de rede fixa era caro, muitas famílias portuguesas iam ao café da esquina, ao restaurante ou aos CTT telefonar a "impulsos" que eram contados numa caixinha ao lado do guiché e pagos em escudos. E pensar que hoje em dia damos telemóveis velhos para os miúdos brincarem.

Mas o que continuo a considerar um verdadeiro privilégio foi o facto de ter passado a infância num meio pacato, sem violência, sem narcóticos, gangs ou poluição. Vila Nova de Famalicão, há mais de 20 anos ,era uma simples vila com uma igreja matriz, um campo da feira e meia-dúzia de edifícios nos quais se destacava o da Fundação Cupertino de Miranda e o da Câmara Municipal. Pouco havia para além disso, as ruas ainda eram em paralelo e a partir das 20 horas praticamente não via vivalma nas ruas! Eram realmente tempos em que se tinha mesmo de sair para a rua para não se morrer de tédio!

Joguei ao pião, com caricas, com uns aviões com elástico (Mirage?) e uns para-quedistas que eram muito populares na década de setenta, ao berlinde, ao quarto-escuro , às escondidas, à bola partindo vidros de vez em quando, fazíamos espingardas com elásticos de roupa, carrinhos de rolamentos, corridas com os carrinhos da Majorette e da Matchbox pondo azeite nos eixos para rolarem melhor  - quantos deles não meti debaixo da linha do comboio junto com moedinhas de 2$50 e de 1 escudo?

Os miúdos "rachavam" frequentemente a cabeça ao correr desalmadamente pela colina que ia da escola primária (aquelas de modelo Salazar) até casa escorregando na areia da estrada e aterrando de testa no passeio. Joelhos esfolados, crostas, pensos rápidos e galos na cabeça eram frequentes.

E fazer cabanas com madeiras, paus e folhas? Foi uma das vantagens de morar numa cidade do interior como Famalicão. Havia muito espaço e muitas bouças (terrenos baldios) para brincar e fazer cabanas. Tínhamos uma serração do século XIX abandonada onde fazíamos cabanas com galerias! Uma verdadeira cidadela.

De vez em quando jogávamos à porrada com os putos do outro lado da linha do comboio (a linha separava as zonas) que queriam invadir o nosso território, essas cabanas na serração tinham uma cúpula de vigilância feita com o topo de um silo e uma saída de emergência que dava para a parte de trás dos prédios onde morávamos. Quando acabavam as ferias grandes era regra geral incendiar ou destruir tudo o que havíamos feito. Obviamente que os Lego foram parte fundamental das brincadeiras mas já me estou a alongar demais e isso dava para falar horas a fio.

Hoje em dia ganhou-se muito, sobretudo com as tecnologias da informação mas perdeu-se porventura muito mais. E a neve? As crianças polacas podem sempre brincar à pelota, nos trenós e até esquiarem e fazerem patinagem no gelo mas em Portugal só me recordo de ter brincado na neve apenas duas vezes, em nevões completamente inusitados que apareceram tão rápido como desapareceram.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

25 anos da morte de Jerzey Popiełuszko

Há precisamente um quarto de século um conhecido e acarinhado padre polaco de nome Jerzy Popiełuszko desaparecia misteriosamente. Popiełuszko era persona non grata para o regime comunista, já havia recebido sinais do descontentamento das altas esferas polacas e sobrevivera um acidente de automóvel que havia sido planeado para o liquidarem mas mesmo assim não teve medo, meteu sempre o pé na porta para que esta não se fechasse. Foi encontrado sem vida, num reservatório de água do Vístula, passados 11 dias do seu desaparecimento.



A edição de 19 de Outubro do jornal Gazeta Wyborcza relembra Jerzey Popiełuszko e o seu processo de beatificação. Ao lado da fotografia do padre uma promoção do McDonald's, com um cupão para os leitores do Gazeta poderem beber gratuitamente um café 100% arabica, sinais dos tempos...


O cadáver de Popiełuszko seria encontrado por uma equipa de mergulhadores, as buscas demoraram mais de 48 horas, o seu corpo de 37 anos apresentava marcas de espancamento, estava dilacerado e manietado, mais tarde veio-se a saber que fora torturado.

A noticia seria recebida com choque em toda a Polónia e no estrangeiro, na sua paróquia foi recebida com silencio seguido de choro e pranto dos seus fieis. O "padre do Solidariedade" tinha pago com a sua própria vida a ousadia de desafiar o sistema. Nas suas homilias e intervenções o padre teve um importante papel politico e unificador, recordemos que no inicio dos anos oitenta a Polónia esteve três anos sob Lei Marcial e os únicos ajuntamentos autorizados faziam-se nas igrejas e nas paróquias. Popiełuszko havia atingindo notoriedade graças aos seus discursos frontais, anti-comunistas e as suas criticas abertas e ousadas ao comunismo, por se opor a todas as formas de laicismo ou a separação dos poderes do Estado e da Igreja como, por exemplo, a proibição de crucifixos nas escolas.

Por vezes há quem não entenda o fervor religioso da maior parte dos polacos, um povo profundamente devoto e católico, mas o comunismo foi a alavanca do catolicismo mais do que um meio de o conter.

Nesse inicio de Outono o líder do partido comunista, o General Jaruzelski, avisava os polacos que quaisquer desordens públicas seriam reprimidas, o funeral de Popiełuszko deveria decorrer sem violência e sem manifestações contra o regime vigente mas os sinais de que o pulso estava fraco eram cada vez mais evidentes. Desde a nomeação de Karol Wojtyła, para Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana, que o partido comunista polaco e a URSS estavam fragilizados e foi uma questão de tempo para tudo se esfumar quase naturalmente, em 1989, cinco (longos) anos depois da morte de Popiełuszko. Segue-se agora o desejo dos católicos polacos que Popiełuszko se torne santo.

Os seus algozes, três agentes dos serviços secretos do Ministério da Administração Interna, foram presos e encontram-se hoje em dia em liberdade. As cúpulas não foram nunca tocadas.






Prawda jest nieśmiertelna  

A verdade é imortal

Jerzey Popiełuszko 1947-1984






segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Crónica de uma ida ao Consulado de Portugal em Varsóvia




O Bilhete de Identidade estava quase a expirar, ainda ontem tinha ido ao Registo Civil na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e hoje o tal "Validade: 20/10/2009" que me parecia tão distante havia chegado.

Tantas coisas mudaram neste ínterim de cinco anos a começar pelo seu portador que de rapaz magrinho passou a homem "robusto" e portador de uma visível barriga que, como dizia, o Pedro Rodrigues é a curva ascendente do nível de vida. Curiosamente ninguém se orgulha desta curva ascendente mas pronto sempre podemos dizer que é genético e característica dos latinos...
 Estes cinco anos compreenderam uma autentica revolução na minha vida.  A ultima alteração feita no BI foi ao estado civil onde passou a constar o famoso CAS. Entretanto mudei de país, para a improvável imigração na Polónia, e sou hoje em dia o pai babado de dois meninos luso-polacos, essa nova estirpe de portugueses resultantes da Diáspora lusitana tão bem descrita há mais de 500 anos pelo nosso poeta Camões nos Lusíadas!




Sexta-Feira passada fui a Varsóvia de comboio, já não o fazia há mais de oito anos! O automóvel foi sempre o meio de transporte utilizado e as idas a Varsóvia apenas para chegar ao Okęciem, o aeroporto internacional polaco. A estação de caminhos de ferro Łódź Fabryczna continua igual a si mesma com o seu aspecto decadente, rodeada de vagabundos e bêbedos nas entradas e com as paredes cinzentas ao bom estilo da PRL (República Popular da Polónia), vide, tempos da outra senhora.

Surpreendido fiquei ao entrar num moderno comboio e não nos "jurássicos" comboios de outrora com as locomotivas "socjalistyczny komunistyczny" e as carruagens com compartimentos e cortinas espessas que, diga-se de passagem, eram convenientes para a privacidade e para casais de namorados mais fogosos mas esses tempos já lá vão e agora entramos em carruagens com janelas panorâmicas, ar condicionado, painéis informativos e casas de banho limpas com portas automáticas. O comboio parte às 8:58 em ponto, silencioso e confortável. O bilhete de ida-e-volta, Łódź Fabryczna-Warszawa Centralna custa pouco mais de 60 złoty, em segunda classe.

Apercebemos-nos daquilo que é a verdadeira Polónia quando os muros com os graffiti dos fãs dos clubes de futebol ŁKS ou Wydzew dão lugar a floresta e a campos verdejantes a perder de vista, casarios aqui e ali, casais rurais, prados, vacas a pastarem e pequenas localidades que parecem ter apenas um passagem de nível e meia-dúzia de casas. A maior parte da Polónia é isso mesmo, campo, planícies, colinas, floresta e lagos.

Em pouco menos de uma hora e meia, com paragens em localidades mais habitadas, começo a ver de novo grafittis nos muros só que desta vez é o clube Legia Warszawa que impera, estamos em território de Varsovianos, a capital da Polónia não está tão longe de Łódź como isso mas ali não há lugar para os violentos fãs dos clubes da cidade de Łódź, nem piam.
Depois de uma breve passagem por um túnel negro como o breu, a recordar-me a entrada em Porto São Bento vindo de Famalicão,  eis-nos chegados a Warszawa Centralna, esse ícone do Comunismo polaco que é pouco mais velho do que eu.




Curioso como a nossa percepção das coisas muda. Há nove anos atrás quando vi Warszawa Centralna pela primeira vez senti um misto de fascínio e repugnância. Aquela estação tinha um aspecto verdadeiramente "Orwelliano", com as suas paredes e pilares negros, sem luz natural, com as suas galerias onde abundam os pequenos snack-bar e quiosques, mesmo ali ao lado de outro ícone do "Grande Irmão" soviético, o Palácio da Cultura.
Recordo-me do cheiro a comida invadir as minhas narinas e a dificuldade que foi arranjar alguém que falasse inglês e nos dissesse onde estava o comboio para Łódź.

Agora sou outra pessoa, entendo o que está escrito nos painéis informativos, o que vão dizendo os transeuntes, pergunto algo em polaco e entendem-me sem dificuldades, o cheiro que emanam os restaurantes agrada-me, cheira a zapiekanka, sandes, pastelaria e doçaria polaca a sair do forno, cheira a pieczywo (pão) conheço-os, aprecio alguns deles. O odor já não me repugna, abre-me o apetite! Algumas miúdas que passam são giras, são tantas... conheço o estilo, aqueles olhos muito azuis ou verdes com uma forma felina, as pernas altas, já não fico deslumbrado, sorrio.  Sou um português "polonizado", não há margem para duvidas.

Graças ao fórum Portugueses na Polónia sei onde me dirigir, os meus compatriotas ajudam-me silenciosamente. No tecto sigo as placas que dizem Praga, compro dois bilhetes de eléctrico, subo as escadas e estou no exterior, o sol brilha do mesmo modo que brilhava lá em Portugal, há cinco anos atrás, mas faz mais frio, tenho de usar um casaco e arrependo-me de não ter um lenço para o pescoço, sopra um desagradável vento frio.




Lá está o Palácio da Cultura a espreitar por detrás de Warszawa Centralna, o trânsito é constante e a velocidade dos automóveis excessiva para uma zona urbana e central, os carros que passam são, regra geral, mais modernos e melhores do que aqueles que vemos em Łódź, estamos na capital, recordemos-nos.

Um eléctrico pára, consigo ler Rondo Waszyngton e sei que devo entrar nele. Encosto-me no fundo do eléctrico a contemplar o cenário, estranhamente uma teia de aranha enrola-se nos meus cabelos. Uma cigana, ou romena, entra com uma criança ao colo e com um copinho de iogurte vazio na mão. Diz em polaco dla dzieci proszę (para os meninos por favor) e vai pedindo à medida que vai avançando pela carruagem. Há quem recuse e o diga, outros ignoram-na, quando chega a mim tiro 1,50 złoty da algibeira do casaco, não os dou pela cigana mas sim pelo bebé que nem se apercebe de nada.
A paisagem urbana escorre pela janela suja do eléctrico, a luz é fraca e dá um aspecto bruxuleante ao Vístula, passo numa ponte que queria percorrer a pé e recordo-me do que o "nosso" algarvio Nuno B. tinha dito no fórum - "passar a pé na ponte do Vístula? ", vejo alguns peões nos passeios da ponte.

Antes de chegar à rotunda de Washington entra um cigano com alguns cinco ou seis anos, cabisbaixo pede dinheiro aos passageiros, repete a mesma frase vezes sem conta, sai do vagão sem uma moeda, lá fora esperam-no a mãe e mais irmãos. Finalmente chego onde queria, a imagem que tinha visto no Google Earth está em frente de mim, a três dimensões. A ulica Francuska já se vê, a Embaixada está a pouco metros.

Chegando a território português

Passando um banco vemos a Embaixada, facilmente identificada pela placa com a esfera armilar e as quinas. Toco a campainha, identifico-me e digo um bom dia, respondem-me em polaco. O segurança manda-me ir à volta, não vou portanto passar pelos Mercedes e BMW com matrícula diplomática que se encontram lá dentro. Ao lado fica o Consulado e é ai que devo tratar de documentos.

Uma senhora loira abre-me a porta e deseja-me um dzień dobry, respondo com um bom dia e com um dzień dobry. Não me choca o facto de ser uma polaca a atender-me num local público português, acredito que seja difícil arranjar um português que fale tão bem o polaco como alguns polacos falam português.
Preencho os papéis, recorto as fotografias e conversamos um pouco.  Conto-lhe sobre o fórum Portugueses na Polónia que é conhecido para aqueles lados, o Rui Vilela também é conhecido dessas lides dos fóruns e do passado 10 de Junho, fico a saber que em Varsóvia há uma loja espanhola com produtos portugueses, a Solara.

Pelos vistos causa alguma surpresa a repentina invasão de Łódź por portugueses, há alguns anos atrás não havia tal espécie mas hoje em dia são cada vez mais. A maioria são homens casados, uns com filhos outros não. Brinco com o facto de serem as polacas as culpadas disso tudo, da "colonização" da Polónia, a senhora que me atende sorri e acaba por concordar.
Deixei de ser um emigrante invisível, fiz o Registo Consular, consto para estatísticas, para celebrações e eventos especiais que celebram datas importantes do nosso país e da nossa república, em breve irei estar recenseado e poderei votar por correspondência, a minha morada no BI vai passar a ser Łódź - Polónia, quem diria?!
Ao contrário de alguns patrícios não tenho nenhuma queixa a fazer ao atendimento dos serviços consulares. Fui bem atendido e fui-me embora com tudo tratado. Cabe-nos também a nós, cidadãos portugueses sermos patriotas, sermos embaixadores de Portugal, assim alguns de nós o têm feito, seja através dos seus negócios e sucesso pessoal, blogues, fóruns, programas de intercâmbio de estudantes ou pela sua presença neste país que nos recebeu e que mostra interesse pelo nosso.

Não tenham duvidas que a comunidade portuguesa começa a crescer e a tomar forma, estamos a deixar de ser heterogéneos para sermos homogéneos. O nosso poeta conhecia o nosso espírito de aventura, a capacidade de adaptação na adversidade, Camões sabia-o e escreveu-o logo no início dos Lusíadas:

 As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
(...)
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte


Camões, Lusíadas, Canto I.










quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Notas de rodapé na Polónia

 O Tempora, o Mores! 

Numa visita ao PUP (Powiatowy Urząd Pracy) em Łódź - Centro de Emprego - deparo com um curioso aviso colado num dos pilares mesmo ao lado dos balcões de atendimento.






Pedimos Silêncio

Indivíduos que tenham ingerido álcool não serão atendidos 

E "mai" nada!!! Um eufemismo polaco para "não atendemos bêbados" e sublinhado no "não serão atendidos", caso para dizer O tempora! O mores!

Os quiosques plastificados da Polónia e as calçadas ondulantes




Quando moramos na Polónia passamos a não reparar em certos pormenores, passam a fazer parte do nosso dia-a-dia e escorrem pelas janelas dos nossos carros ou nas janelas dos transportes públicos, se vamos a pé consideramos-los como mais um obstáculo a contornar, refiro-me aos típicos quiosques polacos construídos com placas de zinco e PVC.
A maior parte deles são do grupo polaco Kolporter SA, uma empresa de distribuição de imprensa semelhante à portuguesa VASP.  O formato de caixote, com quatro paredes ao alto e um tecto aparafusado é comum a todos variando o tamanho, cores e janelas. Quando para aqui vim estudar faziam-me espécie, considerava-os um autentico atentado ambiental e verdadeira poluição visual, cheguei a considerar pendurar uma bandeira do Greenpeace num deles e chamar a TVN mas depressa entendi que perante os rigores do clima polaco fazia sentido o recurso a materiais que não oxidem e os quiosques são locais privilegiados para sacarmos um bilhete de autocarro ou de eléctrico, ou mesmo uma caixa de fósforos - providencial para quem fuma e fica sem gás no isqueiro.

As calçadas - ou passeios - polacos costumam estar partidos e tortos, são bons para o sapateiro ter trabalho a colocar capas e saltos-altos nos sapatos das senhoras e maus para os tornozelos de quem anda distraído ou atrasado, arriscamos-nos a ir "por ali abaixo" e acabarmos com  todo o power and the glory a mancar, contudo costumam ter uma grande vantagem sobre os dos nosso país; são mais largos e não temos de andar a fazer gincana ou a bater ombros com um  parceiro desconhecido. De qualquer modo com a glaciação no Inverno e deglaciação na Primavera não me admira que se apresentem no estado em que estão.

A Peste Negra nos Oltcit e Wartburg 

Há automóveis que marcaram uma era na Polónia. Para nós (portugueses) não nos dizem rigorosamente nada, nesses tempos circulavam nas nossas estradas carros melhores e muitos portugueses já tinham poder de compra para adquirirem um Renault 9 ou 11, um Toyota Corolla, um Golf ou um dos populares Uno, Renault Supercinco, Corsa e Ford Fiesta.
Na Polónia não era bem assim. A Citroen vendia uma espécie de Citroen Visa com duas portas que estava de longe de ser um coupe mas que pelo menos tinha um tablier digno da Guerra das Estrelas.
Onde param estes carros? Há anos que não vejo um a circular!


O Oltcit era mais do que um carro, era também um tablier digno de qualquer painel de instrumentos dos foguetões da URSS.


Haviam outras marcas do tempo da foice e do martelo, feios como o perfil de Estaline, Lenine e Marx. O Wartburg foi um deles. Fabricado na RDA teve como grande evolução a instalação, logo a seguir  à queda do muro de Berlim, do motor 1300 do VW Polo!


 Álvaro Cunhal e o meu avô materno (PCP dos sete costados) teriam considerado o Wartburg como um bom carro, apropriado para as massas populares, para o proletariado explorado pelos capitalistas selvagens sem escrúpulos... eu tampouco... 
Porque motivo é que estes carros traziam sempre um estojo de ferramentas completo?