sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Caleidoscópio - Polónia 2018



2018 chega ao fim e, a passos largos, caminhamos para o fim de mais  uma década, os anos 20 estão aí à porta, sem a revolução do Jazz como no século passado mas certamente atribulados. Na Polónia o ano foi abundante em batalhas políticas e na continuidade da "PiSificação" do país no ano em que se celebrou o centenário da independência no final da I Grande Guerra em 1918, uma data "redonda", celebrada com pompa e circunstância mas onde faltou a presença de uma conhecida figura da Polónia moderna, Lech Wałęsa, o arqui-rival de um dos homens mais odiados (mas também amado por alguns) da Polónia, Jarosław Kaczyński. Resta pois um ano para as eleições do "Sejm" polaco em Novembro de 2019 que se prevêm serem pouco favoráveis aos conservadores depois da derrota do PiS nas autárquicas, sobretudo nas grandes áreas urbanas.


Campos de concentração polacos é algo que não se deve dizer na Polónia sem consequências legais depois de aprovada uma lei para penalizar - e alegadamente repor a verdade histórica - a quem não menciona que os ditos foram alemães, construídos durante a ocupação do território pelas forças do Terceiro Reich. A lei e a interpretação toca também todos os que insinuarem ou afirmarem que os polacos tiveram cumplicidade ou participação ativa no extermínio dos judeus durante os anos da guerra o que obviamente se reveste de uma grande polémica pela questão dos "Pogrom" ou "caça aos judeus" que envolveu não apenas os invasores mas também os nativos da Polónia e da Ucrânia, na altura URSS. Uma questão abordada pelo autor português João Pinto Coelho no romance Os Loucos da Rua Mazur, o qual foi criticado veementemente  nalguns círculos polacos inclusivamente pelo embaixador da Polónia em Portugal.

O calendário de "proibição" ao comércio aos domingos - com a cruz os dias em que o mesmo está encerrado.


Na senda da "PiSificação" do país e da cada vez mais etérea separação dos poderes do Estado e da Igreja, o comércio passou a ser proibido (dizem regulado) aos Domingos. Num mês abre uma ou duas vezes consoante o calendário estabelecido ainda que as lojas de venda de álcool e algumas cadeias de lojas de conveniência - como o Żabka - abram nesses dias.
O domingo é dia santo e de descanso para os católicos e a Igreja parece ter ficado satisfeita com a decisão do governo - ainda que o mundo não tenha terminado, apesar dos protestos dos patrões e da maior movimentação nas grandes superfícies e supermercados ao sábado nas vésperas dos domingos de encerramento do comércio.
Pessoalmente tive de ir ao tal Żabka num domingo, numa ocasião por não  ter mais açúcar e noutra porque se me acabou o sal...

E à medida que o Inverno - pouco castigador em 2018 - chegava ao fim o governo anunciava a inauguração do monumento às vítimas do desastre de Smolensk em 2010, mesmo ao lado do túmulo ao soldado desconhecido na Praça Józef Piłsudski, no coração da capital, Varsóvia. O monumento apresenta-se como umas escadas a evocar as escadas de acesso ao Tupolev presidencial e, claro está, as que levam ao céu. Pouco depois colocaram ao lado deste uma estátua a Lech Kaczyński, falecido no desastre de Smoleńsk, o que causou, mais uma vez, polémica e o desagrado com comparações ao culto da personalidade das dinastias coreanas ou mesmo de líderes dos odiados comunistas como Nicolae Ceausescu, Estaline ou Lenine. Aliás é de assinalar a proliferação de estátuas ao falecido, que o actual presidente comparou a uma das maiores figuras da história da Polónia depois do Marechal Piłsudski (sic). Recentemente uma foi inaugurada uma no coração do Solidariedade (e cidade onde  reside Wałęsa) em Gdańsk.


Lech Kaczyński e a primeira-dama da Polónia jazem em Wawel - correspondente ao Panteão Nacional português ou Panteão da Pátria no Brasil - o que causou indignação em muitos círculos intelectuais e da oposição e, a adicionar a esta tensão,  dois novos monumentos são erigidos mesmo ao lado do memorial ao soldado desconhecido, um ao desastre de Smolensk em 2010 e outro, mais recente, ao falecido presidente que, de mão no peito comtempla o memorial dedicado ao evento que o partido PiS considera como um complô da Rússia para liquidar a liderança da Polónia enquanto para outros terá sido a atitude do próprio Kaczyński a contribuir para o trágico desfecho do que seria um dia de celebração e homenagem às vítimas das execuções de Smolenk durante a II Grande Guerra. 


Em Abril o novo Acordo do Supremo Tribunal entra em vigor estabelecendo que sob decisão presidencial os juízes passam automaticamente à reforma (aos 65 anos) excepto aqueles apontados pelo presidente eleito. Uma medida que em quase trinta anos de Democracia não tinha sido tomada.
O Supremo Tribunal de Justiça é um dos pilares do sistema democrático polaco no entanto, Kaczyński e o seu partido, estavam determinados em mudar o rumo da História e ficarem na mesma ao "limparem" o sistema de alegados resquícios perniciosos dos tempos da República Popular da Polónia ou PRL (Polska Rzeczpospolita Ludowa) nem que para isso tivessem de modificar a constituição o que foi considerado pela oposição como anti-democrático, caça às bruxas e paranóia do cabecilha do partido cuja reputação parece andar pelas ruas da amargura e sofrer de alegada oposição interna apesar de nos média estatais a imagem deste e do seu falecido irmão serem frequentemente exaltadas quer na sua influência para o colapso do comunismo e fundação do Sindicato Livre Solidariedade quer na modernização e futuro da Polónia na UE e no mundo, nas noticias, em debates políticos e em documentários "à la carte" nos meios de comunicação estatais e naqueles filiados aos conservadores e religiosos...

O símbolo da defesa da constituição (Konstytucja) que Wałęsa mostrou numa t-shirt durante o mediático e algo patético processo judicial levantado por Jarosław Kaczyński contra o mítico e nobelizado sindicalista.



Tal como mencionado no post anterior deste blogue celebraram-se os 100 anos da independência da Polónia depois de 123 anos onde literalmente desapareceu do mapa da Europa. A ocasião foi celebrada com pompa e circunstância e o evento organizado em Varsóvia, no Estádio Nacional, entre símbolos patrióticos, canções da guerra e de independência, o hino nacional e menções a figuras de craveira da mesma como o Marechal Piłsudski e a importância do Exército Nacional (Armia Błękitna ou Armada Cerúlea) na libertação dos polacos do jugo Soviético, Austro-Húngaro e Alemão. Entre as centenas de convidados ao evento faltou o legendário líder do Sindicato Livre Solidariedade, Lech Walesa, já com idade avançada (75 anos) mas sem deixar de manifestar a sua opinião - nos média da oposição - contra o PiS e Kaczyński ao ponto de ser inclusivamente levado a tribunal por este...

Wałęsa e Kaczyński em tribunal depois de sucessivos adiamentos




Wałęsa, o electricista de Gdańsk como ele próprio se intitula, nunca foi diplomático, suave ou até consequente quando toca a dizer aquilo que pensa, não é malcriado no sentido de usar o abundante vernáculo polaco - não temos chance de competir com eles no nosso idioma - mas está-se literalmente nas tintas para o politicamente correto e tem mesmo prazer em "partir a loiça"...

E assim foi quando compareceu no tribunal de Gdańsk para responder a Kaczyński pelas alegadas ofensas à memória do seu falecido irmão. Wałęsa afirmou publicamente, no Facebook, aquilo que pensava (e que muitos pensam) sobre os acontecimentos de Smolensk e das responsabilidades na queda da aeronave em território russo. Para ele (Wałęsa) o acidente foi provocado pela atitude petulante dos irmãos gémeos - Lech  teria sido instigado pelo irmão Jarosław - em aterrar o avião e a comitiva a qualquer custo em condições atmosféricas precárias; afirmando ainda que Jarosław Kaczyński é mentalmente desequilibrado e que teve papel fundamental na alegada insinuação que Wałęsa, no cárcere, durante os anos do comunismo, foi forçado a assinar um papel no qual passaria a ter cooperação - ser bufo - com as autoridades da República Popular da Polónia e que alegadamente Kaczyński estaria por trás disto para tramar o sindicalista e afastá-lo dos destinos do Solidarność ou Solidariedade.

30,000 PLN ou 7,000€ foi o montante pedido pelas ofensas pessoais ao que Wałęsa respondeu na entrada do tribunal,  no seu típico estilo bonacheirão, sorrindo e envergando uma t-shirt onde se lia "Konstytucja" (Constituição), claramente provocando o líder do PiS, apoiado por seguidores que vociveravam "Lech Wałęsa! Lech Wałęsa! Lech Wałęsa!" enquanto Jarosław, visivelmente agastado, pedia à polícia para levar dali para fora os "arruaceiros que ali estavam para perturbar os trabalhos do tribunal". 

A decisão foi finalmente tomada em Dezembro: Wałęsa não tem de pagar os 30,000 Złoty (seriam dados à caridade) mas terá de pedir desculpas a Kaczyński, oficialmente, na página do Facebook, afixado durante 7 dias em negrito com fundo uniforme (sic), no Newsweek Polska e no Gazeta Wyborcza - média da oposição - numa página afastada de qualquer outra publicação e lido por Wałęsa na Radio TOK FM.

Kaczyński pode esperar sentado...

O presidente da Polónia, Andrzej Duda, visita a Casa Branca 

2 biliões de dólares para assegurar a presença norte-americana em território da Polónia ou na fronteira Leste da NATO, e uma base militar a ser construida brevemente com o nome "Fort Trump", sim, leu bem, Forte Trump!, foi a oferta de Andrzej Duda, na sua visita aos EUA. Esta decisão, impopular na Polónia, onde este valor é absolutamente escandaloso num país ainda com carências enormes nas áreas da saúde, do meio-ambiente, de infraestruturas (apesar de grandes progressos nos últimos dez anos) e onde o salário mínimo são 480 euros. 

Com a Rússia a modernizar o seu exército ultrapassando a tecnologia norte-americana na questão dos mísseis nucleares inter-continentais, afirmando-se como o grande  opositor destemido dos EUA e da NATO, a China com um exército imenso e bem preparado e uma forte importância e influência política e militar na Ásia e a liga-árabe a mostrar claros sinais de descontentamento com os EUA depois destes aprovarem a mudança da sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém a Polónia tenciona também ter um papel fundamental na NATO e não estar sozinha na defesa das suas fronteiras e dos limites da Aliança Atlântica a Leste do continente europeu. O enclave de Kaliningrad - a Norte da Polónia e a Oeste da Lituânia - é território da Federação Russa e ali, no mar Báltico, as tensões são crescentes com manobras militares de parte a parte, demonstrações de poderio e acusações mútuas de provocação e necessidade de defesa perante um potencial ataque.
Uma nova Guerra-Fria avizinha-se com a nuance de, desta vez, termos no tabuleiro a China que se mostra mais próxima da política da Federação Russa e como moderador privilegiado nos potenciais conflitos na Península Coreana e região Ásia-Pacífico. 


A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas em Katowice

Estranhamente, ou não, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas teve no lugar na capital do carvão e capital da região da Silésia, a poucas centenas de quilómetros da República Checa e da Eslováquia. A Polónia é um dos maiores extratores de carvão da Europa e grande parte do aquecimento doméstico e da água quente que corre nas torneiras dos lares polacos, cerca de 80%, provem de centrais hidroeléctricas que consumem este recurso energético para o seu funcionamento. É um lobby poderosíssimo, praticamente intocável, que não pode, por motivos óbvios, ceder às pretendidas e mais do que necessárias, transições para novas formas de energia. O carvão polui o ambiente e o país tem uma qualidade do ar muito baixa em comparação com outros países europeus, um assunto quase tabu mas cada vez mais discutido levando à consciencialização deste problema em partes da população que até há bem pouco tempo nem se tinham apercebido da gravidade da situação apesar do governo atual não manifestar interesse em mudar as mentalidades por questões políticas. 

Na conferência quatro países não alinharam com a agenda para a transição energética, os Estados Unidos, a Federação Russa, a Arábia Saudita e o Kuwait. Mais poderia escrever sobre este assunto mas finalizo com o discurso de Greta Thunberg, uma ativista sueca de 15 anos, que restaura a fé na humanidade num momento em que parece perdida e que nos faz refletir sob se realmente não chegou o momento de puxar o freio de emergência...











sábado, 10 de novembro de 2018

Os 100 anos de independência da Polónia 1918 - 2018

Cento e Vinte e Três anos roubados à nação polaca; prostrada sob o jugo do Império Austríaco, Prússia e Rússia. Mais de um século de luta, violência, submissão, resistência e finalmente a libertação em Novembro de 1918. Figura fulcral desta data é o Marechal Józef Piłsudski e as Legiões Polacas que restauraram a independência formando a Segunda República da Polónia, entre o caos do final da I Grande Guerra e o prelúdio de um conflito ainda mais destruidor a ter lugar em apenas duas décadas. 



Celebram-se no Domingo, 11 de Novembro de 2018, os cem anos da independência da Polónia depois de mais de um século onde literalmente desapareceu do mapa e até dos documentos oficias e enciclopédias de três poderes europeus que pretendiam enterrar para sempre a soberania desta nação. 
A Europa do século XVIII era um barril de pólvora, dividida entre monarquias decrépitas, lutas intestinas por territórios, fronteiras e valores patrióticos exacerbados, baseados no militarismo. Em 1795 a Polónia-Lituânia - dois reinos formando um imenso território que, no seu pico, se extendeu até onde hoje temos a Estónia, Letónia. Ucrânia, Bielorrússia, Hungria, Roménia, Rússia, Eslováquia e Moldavia. Um país originalmente mais a Leste, ao contrário da atualidade onde claramente está posicionado (movido) mais a Ocidente depois dos Acordos de Potsdam em 1945.

É neste barril de pólvora, entre uma Polónia-Lituânia fragmentada depois de negociações territoriais em troca por alianças militares, pejada de conflitos internos fruto de uma monarquia fraca, uma burguesia sem lealdade, despojada de privilégios e inúmeros levantamentos  despoletados por anos de instabilidade e perdas territoriais que os três grandes poderes europeus da época se reúnem com a intenção de suprimir a Polónia para sempre. Rússia, Áustria e Prússia dividem entre si um país  derrotado, como se de um bolo se tratasse... As três fatias divididas entre os respetivos impérios de 1795 até 1918. Uma dissolução territorial, cultural e de soberania que literalmente roubou todo o século XIX aos polacos, gerações inteiras que não souberam o que é viver numa Polónia livre, outros que morreram com o sabor da derrota e eventualmente apenas na esperança do renascimento da nação polaca - relembremos que a esperanca média de vida no seculo XIX situava-se entre os 40 a 50 anos de idade.

O Armistício, finalizando oficialmente a I Grande Guerra é também a data do fim desta tentativa de destruição de uma nação por países terceiros. O Marechal Józef Piłsudski, no cárcere em Magdeburg, é libertado pelos alemães - um estratégia pensada como favorável à derrota da Rússia que ameaçava as ambições germânicas - é colocado num comboio em direção a Varsóvia, três dias antes da assinatura do Armistício. Com as Legiões Polacas reorganizadas o processo de restauração da independência toma forma entre uma Rússia Imperial derrotada - a Revolução Russa tinha ocorrido no ano anterior - uma Prússia reduzida a escombros, tal como a Áustria, permitem o início da Segunda República da Polónia que seria brutalmente desmantelada em Novembro de 1939 com a invasão pelas forças do III Reich.


Piłsudski torna-se assim uma figura de craveira da História da Polónia, um estadista respeitado até hoje pela nação polaca - em inúmeros lares polacos, especialmente de idosos, o retrato do Marechal faz parte integrante da decoração junto com a cruz de Cristo e a imagem de Nossa Senhora de Jasna Góra em Częstochowa.

Este feriado do 11 de Novembro (11 Listopada Narodowe Święto Niepodległości) foi suprimido logo em 1947 quando a Polónia, em consequência dos acordos do Pacto de Varsóvia, emerge como um país Comunista na esfera de influência da então URSS, passando a celebrar-se livremente, com pompa e circunstância depois de 1989 com o colapso da República Popular da Polónia (PRL) e o inicio da Terceira República. 

Polónia 2018

Como é viver na Polónia de Kaczyński e do PiS? 

As recentes eleições municipais em Outubro demonstraram claramente onde reside o poder do partido conservador; no Leste da Polónia, nas zonas rurais e fronteiriças com a Bielorrússia e Ucrânia o PiS mostra-se forte mas na Polónia urbana, e nas regiões mais a Oeste e a Norte a mensagem foi clara onde em cidades como Łódź e Varsóvia, Cracóvia e Poznań os vencedores não estavam associados ao partido no poder ainda que na generalidade o PiS venceu as eleições com uma margem de 7% contra a Coligação do Cidadão (ex-Plataforma do Cidadão). 

Sente-se claramente um controlo dos medias estatais especialmente o canal televisivo nacional TVP agora jocosamente apelidado de TVPiS e outros meios de comunicação empenhados em ventilar propaganda favorável à Polónia de Direita, conservadora, católica e patriótica, no sistema de ensino básico é notório a agenda nacionalista com um forte reforço nas disciplinas de Língua Polaca, e História. 

Entre este turbilhão do ensejo dos conservadores em moldarem uma Polónia ao seu gosto, tentando modificar a constituição, remodelando o Tribunal Constitucional, alegadamente para a purga de elementos relacionados com o "ancien régime", e protestos de rua contra as proibições e imposições governamentais o Dia da Independencia pretende-se celebrar com a alegria que certamente tomou as ruas, casas e os corações dos polacos de há
100 anos. 

O Presidente Andrzej Duda demonstrou claramente que o dia será de festa proibindo manifestações por parte de elementos da Extrema-Direita polaca (intitulam-se nacionalistas) na Marcha da Independência na capital, Varsóvia. Apenas as bandeiras brancas e vermelhas serão aceites sendo os slogans vistos no ano passado, como "Polónia para os polacos, Polacos para a Polónia", e outros de caráter rácico e de exclusão banidos sob pena de intervenção policial. 
Cem anos passaram num país que viu as suas fronteiras expadirem-se, contrairem-se, desaparecerem e reaparecerem, serem deslocadas para Oeste, suprimidas e reajustadas a Leste, uma nação que seria novamente dizimada e posteriormente oprimida durante quarenta anos num mundo dividido entre duas grandes potências. Nação que, sempre em luta, veria em 1979 o mundo eleger o sumo pontífice dos católicos um cidadão polaco, Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, que daria ânimo e esperança em dias melhores e no fim do comunismo pró-soviético. 

Com quase 30 anos de Democracia a Terceira República passa uma prova de fogo numa Europa em convulsão com o resurgir do populismo - provavelmente em consequência dos exageros do Politicamente Correcto do principio do século - e de uma União Europeia desconectada da realidade, abalada com o descontetamento e cepticismo dos europeus revelada no Brexit, ascensão da Direita anti-Europa na França, Itália, Hungria, Polónia e na Áustria.

O espírito da liberdade, do direito à auto-determinação e soberania do Estado permanece inabalável independentemente dos partidos políticos e das personagens que passam pelo panorama político. Os polacos, melhor do que ninguém, sabem o valor que a mesma tem e nunca vão abdicar porque a Polónia existirá enquanto existirem polacos.



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Caleidoscópio - Polónia 2017




O Natal está aí à porta e com ele aproxima-se a passos largos o fim de mais um ano, e que ano este! Quer a nível mundial quer para a Polónia e para Portugal. 

Caminhamos em 2017 para um mundo instável e um potencial conflito na Coreia do Norte - com consequências imprevisíveis - terrorismo galopante e sem fim à vista, os EUA a fazerem marcha-atrás em assuntos prementes como o ambiente e o aquecimento global, a visível ascensão de ideais e partidos de extrema-direita em países onde, até então, reinava o politicamente correcto e a "estratégia da paciência" e recentemente a aceitação da administração Trump em reconhecer Jerusalém como a capital (de facto) de Israel, tudo indica que tempos de mudança aproximam-se e a próxima década será inevitalmente distinta dos "anos 10"...

Portugal passou um ano muito complicado, duro, especialmente durante o Verão com o inenarrável cenário dos incêndios que, desta vez, causaram um rasto de destruição e de morte (mais de uma centena de vítimas mortais - como é possível) como nunca se viu em tempos modernos incluindo algo inimaginável como o desaparecimento total do histórico Pinhal de Leiria. A recuperação económica no entanto parece surgir entre sinais das agências de rating terem retirado Portugal da "zona lixo", diminuição do desemprego e emigração e no sector do turismo - ainda que com impacte nas populações residentes - temos resultados impressionantes, Portugal parece estar na moda e que o diga Madonna que agora vive também em Portugal, cavalgando qual Cowboy, nas praias da Península de Tróia (ó saudade!), no Alentejo e de lambreta pelas vielas e ruas do Bairro Alto.

A Polónia vive igualmente tempos agitados e de incerteza. O partido de Jarosław Kaczyński, Prawo i Sprawiedliwość (PiS) no poder, com maioria absoluta, desde 2015, parece estar de pedra-e-cal perante uma oposição audível mas ainda sem músculo (ou uma alternativa credível) para o braço-de-ferro com os conservadores que parecem continuar na preferência de uma importante parte da população para as eleições legislativas em 2018.


Beata Szydło, a Primeiro-Ministro conhecida por ter retirado a bandeira da União Europeia da sala de Conferência de Imprensa e substituído um velho relógio por a cruz de Cristo, além de uma série de acidentes de viação - um deles uma colisão com um pequeno Fiat Seicento causando inúmeros comentários e memes jocosos na Internet polaca - foi recentemente substituída por Mateusz Morawiecki até então Deputado e Ministro do Desenvolvimento e Finanças do executivo de Szydło. 

Mateusz Morawiecki o novo Primeiro-Ministro da Polónia

Morawiecki é  um homem de finanças, um cérebro analítico e numérico e ao contrário de Szydło, que apenas fala polaco, o novo Primeiro-Ministro é fluente em inglês e alemão. Foi o responsável pela implementação do Plano 500+ ou subsídio de criança para todas as famílias polacas com mais de um filho e antes da sua caminhada política com o PiS foi Presidente do Bank Zachodni WBK. O seu curriculum e carreira profissional é mais impressionante do que o do seu predecessor mas parece não ser permeável às críticas da oposição especialmente depois de uma tirada sobre os seus objectivos...

[..]re-Cristianizar a Europa, esse é o meu sonho, porque em muitos lugares já não se ouvem canções de Natal, as igrejas estão vazias, transformadas em museus. Isso é lamentável.[..]

A sua ascendência judaica (duas das suas tias eram judias e uma foi mesmo sobrevivente dos campos de concentração) causou, nos círculos das "teorias da conspiração" alguns rumores ainda que, na Polónia, ninguém pode estar certo de não ter sangue judeu tal como qualquer português sabe - ou deveria saber - que um dos resultados do Império Colonial foi a miscigenação dos portugueses com outras raças alterando para sempre o nosso povo e identidade cultural.

Este jogo de cadeiras está a ser visto como apenas isso, um jogo de cadeiras...
O Cardeal de Richelieu, a Eminência Parda, Jarosław Kaczyński, continua a manipular os cordéis dos seus elegidos enquanto lê  ("à boca podre" como se diz em Portugal) livros sobre gatos nas sessões do Sejm ou Parlamento...

Sim, leu bem. Kaczyński leu o "Atlas dos Gatos. Selvagens e Domésticos" em plena sessão parlamentar o que foi prontamente justificado, pela porta-voz do governo, como uma leitura importante e fonte de inspiração para a adoção de animais. Kaczyński, um conhecido "cat-lover", diz-se, adoptou vários gatos vadios, ficando um deles conhecido em fotografia durante os recentes protestos contra as mudanças no poder judicial polaco. 


O Dia da Independência (11 Novembro) e a marcha dos patriotas

Uma marcha que certamente impressionou numa Europa que pretende agradar a Gregos e a Troianos naquilo que se designa por politicamente correcto. A Polónia rejeita esta abordagem e demonstrou-o no dia 11 de Novembro.


No passado dia 11 de Novembro, o dia da Independência após 123 anos - cento e vinte e três - de inexistência da Polónia como país, ocupada e dividida pelo império alemão, austríaco e russo desde o século XVIII, a marcha patriota em Varsóvia foi amplamente noticiada pelos media como uma galopante ascensão da extrema-direita na Polónia e na Europa.

Mas terá sido mesmo assim? Este feriado tem inúmeras razões para ser festejado, não apenas pelo simples facto de ser uma celebração de independência depois de mais de um século de ocupação e tirania das forças ocupantes mas também como recordação dos tempos em que o mesmo foi proibido e banido durante e após a Segunda Grande Guerra.
Afinal o Grande Irmão Soviético não iria compactuar com celebrações que envolvem a Rússia oprimindo outros povos, para a URSS e para o sistema socialista-comunista que vigorou até 1989 e seus esbirros pró-Moscovo este assunto era, como tantos outros, tabu.

Desde a ascensão do PiS ao poder que se tem verificado um crescente ênfase no sentimento patriota e nacionalista. A nível do sistema educativo as directrizes são claras, mais exigência em História e Língua Polaca (como encarregado de educação verifico isto) para as novas gerações.

A postura anti-UE, anti-Rússia, anti-Emigração, anti-Islão, pró-América, Cristã, Católica Apostólica Romana e quase "orgulhosamente sós" do PiS não tardou a servir como fonte de ignição para a extrema-direita e para os já existentes, mas na sombra, partidos nacionalistas polacos que até então não se identificavam com o SLD e o PO de Donald Tusk e de todos os predecessores. Aumentam os ataques racistas - mais adiante descrevo o meu - e os patriotas que a título de defenderem os valores cristãos europeus manifestamente se mostram tudo menos politicamente correctos. Eles não querem saber do politicamente correcto para nada, desprezam-no, odeiam-no e querem vê-lo no chão, estendido. 

Quem não está do seu lado da barricada não é  bom polaco (como disse Kaczyński) é  um peão da UE, da Esquerda, dos Liberais, dos gays. dos "comunas" e até do Islão que, no seu ponto de vista, estão a invadir a Europa. Nesta onda de paranóia quem não se assemelha ao tipico genótipo e fenótipo local pode ser confundido com o "inimigo" com o invasor. E desengane-se quem pensa que isto só acontece a estrangeiros, mesmo polacos com pele e olhos mais escuros ou com descendência estrangeira ja ouvirem comentários desprezíveis do tipo "volta para casa", "Ahmed!" e "o que estás a fazer na Polónia".

Em Łódź por exemplo registaram-se ataques de carácter racista a duas mulheres argelinas com véu islâmico (pontapeadas num autocarro), um indiano espancado no eléctrico sem que a polícia o ajudasse, dois alemães e um polaco espancados à porta de um clube por falarem em alemão, um cidadão chinês esmurrado no autocarro, um restaurante de Kebab vandalizado e o proprietário espancado e de acordo com os relatos de colegas de trabalho africanos comentários muito racistas e até empurrões na rua, em plena luz do dia. Tudo isto daria um tópico per se...

Recentemente, ao fim de treze anos na Polónia, tocou-me um incidente racista, ainda que envolva um homem alcoolizado (notório pelo cheiro a alcool que emanava quando falava). Estavamos em Setembro, fazia compras rotineiras  num conhecido franchising de lojas de artigos de higiene e beleza presente na Polónia, as lojas Rossmann, quando reparei num indivíduo relativamente alto, cabelos claros e olhos azuis que me fitava. Pensei que fosse alguem que conheço de um emprego prévio, de uma loja ou da vizinhança quando, de repente, perguntou-me se eu tinha comigo bombas... Como não entendi a absurda questão perguntei-lhe o que queria ao que me respondeu; - Deves ser árabe, tens aspecto de árabe, tens bombas? Isto levou a uma troca amarga de palavras onde ficou a saber que sou português indicando-lhe onde podia colocar a bomba e que mesmo se fosse árabe não era problema dele...
O individuo tornou-se repentinamente apologético, claramente envergonhado e tentou explicar que pelo facto de ter olhos escuros me confundiu e que até trabalhou em tempos com portugueses e espanhóis e são boa gente... A discussão terá tomado proporções mais sérias pois entretanto um casal polaco pediu satisfações ao homem pela atitude degradante. 

Como em tudo na vida há a um tempo para tudo e esta experiência (amarga) levou-me a pensar que realmente se começa a sentir uma certa histeria, alimentada por a poderosa máquina de propaganda do PiS (o canal estatal TVP - jocasamente apelidado de TVPiS) e os canais de rádio e televisão aliados dos conservadores, o canal TRWAM, Radio Marija e as revistas WPROST e do Rzeczy.

Os partidos de direita conservadores, patrióticos como o ONR, Restauração Nacional da Polónia ou NOP Narodowe Odrodzenie Polski estiveram presentes na marcha de 11 de Novembro e fizeram-se ouvir e ver. Não foram banidos ou proibidos de participar apesar dos protestos da Esquerda e da destemida comunidade LGBT que apresentou-se numa contra-manifestação tida como a maior de sempre...

Patriotas mascarados marcham nas ruas de Varsóvia no 11 de Novembro, o Dia da Independência.


Os ultra-nacionalistas pretendiam intimar... Estavam mascarados com lenços que os faziam parecer caveiras, outros com passa-montanhas, empunhavam a bandeira branca e vermelha queimando fogos que emanavam fumo vermelho e branco. Os canticos nacionalistas, frases claramente racistas e outros relacionados com a História dos Cruzados preocupou judeus e muçulmanos. Slogans como "Polónia branca, Polónia pura" e "A Europa terá de ser branca ou inabitada" foram alvo de críticas mas também de complacência por os partidos de direita nacionalistas e conservadores que viram a marcha tão só e apenas como uma bela celebração de patriotismo polaco...

A questão é que os polacos são, regra geral, patriotas. Sabem o que lhes custou a liberdade e a independência. Foi ganha com luta, morte, sangue e sofrimento. Perderam o país e recuperaram-no tal como a sua identidade. Não se espere portanto que não se celebre este dia em particular com alarido e formalidade (o povo polaco é particularmente formal e de arraigadas tradições), e note-se que se esta marcha foi notória e mediática outras houve que sem a cobertura dos media, sem lenços com caveira e slogans também acontecem por toda a Polónia mas não serão mostradas ou discutidas como esta porque os media noticiam sobretudo o que choca e chama a atenção e nesse aspeto tornaram a marcha num verdadeiro sucesso...


O fantástico Parque Nacional de Białowieza e o grave problema ambiental na Polónia


Um tesouro na Polónia, o Parque Nacional de Bialowieża.

A Polónia é  um dos países mais poluídos da União Europeia, é um facto incontornável ainda que relegado para segundo plano pela imprensa estatal que o considera como exagero dos media de Esquerda e estrangeiros ou como interferência da UE em assuntos soberanos da Polónia. 
Muitos polacos não querem mesmo saber do impacto ambiental da queima do carvão por centrais hidroelétricas e a nível doméstico pois não há uma alternativa económica para enfrentar o frio a partir Outubro até Março (por vezes Abril e Maio) sem a queima de carvão ou lenha (por vezes lixo). 

A maior parte dos blocos de apartamentos nas grandes cidades e centros urbanos são aquecidos por um sistema de água quente que circula desde as centrais (denominadas de Elektrociepłowia) queimando carvão (ou carvão e biomassa ou gás) para aquecerem gigantescas caldeiras de água que, ao evaporar, é levada em elevada pressão através de tubagens que por sua vez fazem girar turbinas fornecendo milhares de volts de electricidade. O vapor resultante é  canalizado para o aquecimento central doméstico, os conhecidos kalorifer, ou aquecedores. Esta indústria é omnipresente na Polónia e cada uma destas centrais queima milhares de toneladas de carvão anualmente com o pico nos meses gélidos.

Esquematicamente o problema reside quer na falta de alternativa económica imediata - ainda que se aventa a possibilidade de energia nuclear - no poderoso lobby do carvão (Minas de carvão estatais na Silésia e Sindicatos que grosso modo representam mais de um milhão de votantes) e obviamente falta de vontade política (pelas razões mencionadas) num país que depende desta fonte energética para mover a sua economia já que 80% provém da queima deste mineral.

O smog de Cracóvia, um problema premente na cidade do "Dragão de Wawel".


Cracóvia e as regiões de Opole, Silésia e Pequena-Polónia (Małopolskie) a par com as grandes cidades e a capital Varsóvia - sofrem niveis alarmantes de poluição chegando por vezes a igualar Pequim e Nova-Deli quando a falta de vento permite que no vale da região de Cracóvia o smog não disperse. Muitos compatriotas residentes nesta popular cidade polaca confirmam a falta de qualidade do ar que ali se respira quando, no pico do Inverno, milhares de lares e as centrais a carvão literalmente "vomitam" gases nocivos para a atmosfera. Não se prevêem a médio-prazo alterações significativas nesta indústria e de acordo com Michal Herman o CEO da PG Silesia a Polónia continuará dependente desta fonte de energia pelos próximos 15 anos...

Jóia da Coroa da Polónia (como foi em tempos o nosso Pinhal de Leiria e ainda é o Gerês) com um significante significado histórico e valor ambiental (considerado como Reserva Biosférica pela UNCESCO) o Parque Nacional de Białowieża (Białowieski Park Narodowy) com uma superfície de mais de 100 mil metros quadrados e adjacente à Bielorrússia está em risco desde a ascensão do PiS ao poder. 

O Governo reitera que a permissão para o corte de madeira na àrea florestal protegida do Parque Nacional é parte de um plano para debelar uma praga, um escaravelho (Ips Typographus) que destrói abetos e que só com o corte substancial de certas áreas da reserva se poderá debelar...

Białowieża não foi considerado à toa como reserva biosférica pela UNESCO. É considerado como o ultimo reduto da extinta floresta europeia (basicamente o que era a Europa antes da agricultura massiva) e um local magnífico - alguns dizem mágico - onde se encontra o bisonte europeu e centenas de outras espécies (mamíferos, aves e insectos) como lobos, raposas, linces, texugos, veados, alces, esquilos, castores, coelhos, lebres, corujas, a águia prateada e dourada, cegonhas, corvos, patos, pica-pau, gansos etc...

O Greenpeace e inúmeras associações ambientalistas estrangeiras e na Polónia protestam veementemente contra esta decisão do governo alegando que se verificam irregularidades na gerência e supervisão dos madeireiros. A situação escalou de tal modo que chegou ao Tribunal de Justiça Europeu e a sentença foi clara; ou a Polónia pára com o corte florestal ou arrisca-se a ter de pagar uma multa diária de 100.000 €. O governo protesta, acusa, mais uma vez, a UE de interferência com decisões internas da Polónia, justifica com estudos científicos (estatais) que provam a necessidade de cortar árvores para debalar a praga do escaravelho dos abetos. Organizações ecologistas entendem que tudo isto faz parte do equilibrio biológico, dos ciclos da natureza.

A luta entre conservar o Parque Nacional pela exploração madeireira controlada - versão governamental - e a não-interferência - versao ambientalista - mantém-se e avizinha-se difícil nos próximos tempos tal como outras lutas numa Polónia que parece seguir os passos do Húngaro Viktor Urban.







quinta-feira, 20 de julho de 2017

A "PiSlónia" a recordar 1989...


"Portuguesmente falando" Jarosław Kaczyński teve recentemente um "ataque de caspa" no Parlamento polaco, o Sejm. Nada como aquela expressão idiomática portuguesa para expressar o zeitgeist do momento neste país da Europa Central. Desde o passado Domingo os protestos da oposição são diários contra a intenção do partido PiS (Lei e Justiça) em tomar o controlo absoluto do Surpremo Tribunal, i.e, passando leis que impedem o mesmo de as tornar anticonstitucionais.

O partido no poder não abdica desta decisão e só o Direito de Veto presidencial poderá reverter tudo, o problema é que o Presidente foi eleito pelo PiS...



A cartada final seria se o PiS conseguisse ter o Ministro da Justiça a nomear - e evidentemente a demitir - os juízes do Surpremo Tribunal. O argumento de Kaczyński é o de existirem elementos da outrora "PRL" ou República Popular da Polónia na dita instituição; os infiltrados, os "comunas", a "esquerdalha" como assim são adjectivados. 

A situação revela-se de tal forma grave que a UE considera sanções para a Polónia, nunca antes vistas, caso o PiS vá para a frente com esta decisão. A sanção mais grave porventura, será cancelar o direito de voto da Polónia a nível do Parlamento Europeu o que levou outro polaco, Donald Tusk, o Presidente do Conselho Europeu, a pedir uma reunião de emergência com o Presidente em funções.

Andrzej Duda, o Presidente da República, está debaixo de uma pressão imensa. Por um lado a sua lealdade a Jarosław Kaczyński e por outro o possível Direito de Veto, que só este tem, em impedir esta alteração de raiz à constituição da Polónia. Está neste momento nas mãos do Presidente Duda ficar na História da Polónia como herói ou como vilão, ainda que isto varie proporcionalmente a quem ficará afectado com o sim ou o não do veto... 

A oposição reuniu-se hoje em frente do Palácio Presidencial em Varsóvia, na charmosa Stare Miasto da capital, para um protesto monumental (dizem mais de 50.000 almas apenas em Varsóvia e outras tantas nas grande urbes). Facto referido em rodapé pelo canal estatal TVP - e em números muito menores - (canal esse agora jocosamente denominado de TVPiS...) mas amplamente noticiado pelos meios de comunicação social sem associações ao partido no poder ou por aqueles ligado à oposição.



Membros da oposição conhecidos do grande público, o Ex-Director do Tribunal Constitucional, Adam Strzembosz, idoso mas muito lúcido, discursaram com argumentos sólidos e entre palavras de ordem como "Oposição Unida!", "Polónia livre e Europeia!" e outros claramente provocatórios como denominarem o PiS de "Comunas" pela galopante censura e perseguição à oposição bem como o recurso ás autoridades para prenderem e levarem a braços manifestantes... A recordar protestos do passado como aqueles nos anos 80, em especial os que levaram ao colapso do regime Comunista-Socialista em 1989 e a posterior implementação da Democracia na Polónia.

Adam Strzembosz, ex-Director do Surpremo Tribunal Constitucional da Polónia fez questão em deixar uma mensagem a Kaczyński "há momentos aos quais não podemos passar ao lado [...] Disse ao Presidente (Kaczyński) para não se sujar com esta lei, porque um dia vão dizer que ele introduziu uma lei de responsabilidade colectiva. Isto terá conotações históricas".

Pela voz da ala dura do PiS e fidelisima a Jarosław Kaczyński, como a Primeira-Ministra Szydło, a opinião pública é inundada, sobretudo através do canal TVP, com mensagens patrióticas a relacionarem os protestos como falta de sentido patriótico, obediência cega à elite da União Europeia, que de acordo com o PIS, interfere com os assuntos e política interna da Polónia, e manobras de bastidores dos resquícios do "ancient règime", deposto, entre outros, por os irmãos Kaczyński.


Neste caldeirão, actual e em desenvolvimento, o líder do PiS, teve o dito "ataque de caspa" no Parlamento, mostrando-se lívido e agressivo com os protestos e com a movimentação da oposição. Visivelmente transtornado o político disse alto e em bom som (sic):

"Não limpem os vossos focinhos de traidores com o nome do meu falecido irmão. Vocês destruíram-no, vocês mataram-no! Vocês são a escória!"

A reacção não se fez esperar... Entre apupos e acusações a oposição foi peremptória em afirmar que Kaczyński finalmente deixou cair a sua máscara de hipócrita e vingativo. Será este o leit motif por trás da decisão de interferir com a Lei e funcionamento das altas instituições judiciais do país?

Uma vingança pela oposição (na altura governo) que nunca concordou com a teoria de atentado no trágico "Acidente de Smolensk" em 2010 e até com o facto de colocarem o cadáver do Presidente em Cracóvia (no Palácio de Wawel - correspondente ao Panteão Nacional em Portugal). Oposição essa que, no sua convicção, eventualmente conspirou, com a Rússia, para que a aeronave presidencial se despenhasse?

Os motivos pessoais de Kaczyński parecem arrastar a Polónia para uma instabilidade política sem precedentes desde 1989, ano em que décadas de um regime totalitário absurdo e mantido com mão-de-ferro Soviética chegou ao fim abrindo as portas para que a este país finalmente se encontrasse consigo próprio e posteriormente com o outro lado do hemisfério, com o qual se identifica em inúmeros aspectos, mantendo a sua identidade e voz no  continente europeu, ainda que não forçosamente de mão dada com a Igreja Católica e com valores conservadores a que nem todos os polacos aspiram, apoiam e suportam.










quinta-feira, 13 de julho de 2017

Donald Trump visita a Polónia - A Pax "Trumpiana"...

6 de Julho de 2017. O Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump e a Primeira-Dama Melania Trump, acompanhados pela filha Ivanka aterram na Polónia para uma "visita de médico", breve mas rodeada de grandes expectativas e curiosidade por parte da comunidade internacional. Tudo isto numa Polónia "PiSificada", governada por conservadores e por uma elite com fortes ligações á Igreja Católica. 

Trump em frente ao monumento da Insurreição de Varsóvia de 1944. 

A família Trump metida no Air Force One, atravessando o Oceano Atlântico em direcção ao Velho Continente tinha um objectivo bem definido, a reunião anual do G20, as nações com voz e músculo no mundo. Importantes decisões, parcerias, acordos e também desacordos são discutidos entre protestos de rua violentos e uma infindável quantidade de jornalistas ansiosos por notícias, ainda para mais com o tão esperado confronto Trump vs Putin entre acusações graves da Rússia ter "viciado" as eleições nos EUA, favorecendo a vitória de Trump, com recurso a pirataria informática, o problema da Coreia do Norte, Crimeia, Síria, Daesh, NATO, terrorismo etc...



Para a Polónia e para o agora todo-poderoso PiS de Kaczyński essas questões não interessam directamente à Polónia e os polacos. A visita de Trump e de um Presidente dos EUA significa muito mais para um país que, mais do que nunca, bate o punho na mesa contra tudo o que está a Leste das suas fronteiras e que não faz parte da UE, especialmente a Federação Russa, a qual acusam de ter planeado a queda do Tupolev presidencial em 2010, em Smolensk...



A Polónia do PiS não pretende apenas ser mais um dos membros da UE, da NATO ou cliente regular e refém da Gazprom na velha e gasta questão energética. O partido conservador é adamante na questão do braço-de-ferro com a Rússia pós-URSS e pretende ser o defensor dos "portões a Leste da Europa", dos valores cristãos, patriotas e culturais contra qualquer ameaça que fale russo e escreva em cirílico ou que professe a fé no Islão... 


O Presidente dos EUA, teve uma recepção calorosa (incluiu autocarros com apoiantes de aluguer) ao contrário de outros países da UE, incluindo o Reino Unido, onde Trump sabe que não é exactamente bem-vindo ou mesmo na Alemanha onde violentos protestos culminaram em actos de vandalismo.


Kaczyński, Beata Szydło a Primeiro-Ministro e o Executivo polaco do PiS mantendo distância de Lech Wałęsa (fora da imagem).


Na Polónia correu tudo de feição e foi indubitavelmente um sucesso diplomático para os dois paises. O Presidente polaco, Andrzej Duda e a Primeiro-Ministro Beata Szydło (ambos do PiS) receberam Trump e a Primeira-Dama, com pompa e circunstância e nem Lech Wałęsa, hoje em dia um idoso de bigode e cabelos brancos, faltou no discurso (ainda que tenha poucas dúvidas que Trump apenas o leu mas não escreveu) ainda que o velho electricista de Gdańsk tenha recebido apupos entre os aplausos quando o Presidente americano agradeceu, por três vezes, a presença do "líder do Solidariedade"... É que para todos os efeitos o PiS acusa Wałęsa de ser na realidade um traidor, mandatado pelo Partido Comunista por trás das cortinas, uma marionete mais do que um herói do Solidarność, como foi, por exemplo, a falecida Anna Walentynowicz.


O discurso de Trump foi longo e dado num local simbólico de Varsóvia, de grande importância na História do país, na Praça Krasiński, onde a Insurreição de Varsóvia ocorreu em 1944. Um momento histórico remarcável e impressionante na História da Polónia e da II Grande Guerra.

Trump tinha preparado um discurso formidável no que diz respeito a "tocar o coração dos polacos" e digo formidável porque continha uma compilação de factos históricos que enche de orgulho os polacos, uma nação patriótica, orgulhosa da sua resiliência face a inúmeras tentativas de aniquilação, fronteiras contraídas e eliminadas e a traição de que foi alvo quer pelo Ocidente quer a Leste no século passado.

"Mãe,estás a ver? Deu-me um passou-bem!" Os memes na Internet polaca não se fizeram esperar como de costume... 
Recordando a famosa estrofe do hino polaco, Mazurek Dąbrowskiego, "A Polónia não desaparecerá enquanto nós vivermos", o discurso do Presidente Norte-Americano abordou a importância das lutas do povo polaco na preservação dos valores culturais da civilização ocidental e de Deus, e tomou-as como exemplo para os EUA e para o Ocidente, um Ocidente que "deve ter ensejo de sobreviver"... 



Ivanka Trump e Michael Schudrich o rabino-chefe no Museu Polin da História dos Judeus-Polacos, dedicado ao Holocausto e comunidade judaica polaca. 

Como a agenda de Trump era de horas foi a sua filha Ivana que se dirigiu ao monumento dedicado à Insurreição de Varsóvia para prestar homenagem o que provocou o desagrado da agora simbólica comunidade judaica polaca que esperava o Presidente dos EUA no monumento erigido a este evento, como é tradição, apesar de Ivanka ser casada com um judeu-ortodoxo e alegadamente professar o judaísmo... 


Assim no dia seguinte Trump estava já ali ao lado, na Alemanha, deixando para trás um momento memorável e simbólico para os polacos - sobretudo para os que apoiam a política do PiS - uma promessa de respeitar o artigo 5 da NATO (apoio mútuo em caso de invasão ou ataque a um dos membros) e também uma factura bem gorda (30 biliões de Złoty ou 8 biliões de Dólares) e negócios diversos nomeadamente a delicada questão energética... 

O aperto de mão polaco foi selado com a promessa de aquisição do sistema de mísseis Patriot pela Polónia aos EUA e o fornecimento de gás-natural liquido americano, até agora dominado pelo gigante russo Gazprom, sujeitando a Europa Central e de Leste aos "caprichos" russos - por exemplo a ultima acção da Lituania em ser independente da Gazprom levou a uma redução de preço do gás russo em 20% - deixando a Polónia e os Estados Balticos lidarem com um ainda maior descontentamento da Federação Russa...


Entre bandeiras, ruas cortadas ao trânsito e ansiedade a visita de Trump sabe porventura a "business as usual", para ambos os lados... por um lado a Polónia pretende assegurar um papel crucial na organização estratégica do continente tornando-se essencial na NATO e protegida pelos Aliados, mostrar-se claramente como estando virada para o Ocidente, enterrando a ideia estereotipada de ser apenas mais um dos países-satélite da URSS e dando uma "reguada" na mão russa no que diz respeito ao fornecimento de energia. 


Os EUA e a administração Trump selam um acordo ao estilo "Pax Americana" dando exemplo a outros membros da NATO em como é essencial a contribuição de todos, comprando mais armamento - preferencialmente aos EUA - e pagando o quinhão que Trump diz não estar a ser respeitado, apoiando a expansão do Complexo Militar Industrial na Europa, mostrando que os Estados Unidos da América serão sempre os Aliados da Europa (e vice-versa) na preservação dos valores democráticos , da liberdade, de Deus e do estilo de vida Ocidental que, na opinião quer de Trump quer do PiS, estão ameaçados por forças externas interessadas em destruir e impor outros, opostos àqueles da civilização ocidental...



Extracto do discurso de Trump:



"Esta é a minha primeira visita à Europa Central, como Presidente, e eu estou muito feliz que possa estar aqui mesmo, neste magnificente e bonito pedaço de terra. É bonito. (Aplausos.) A Polónia é o coração geográfico da Europa, mas o mais importante, e que no povo polaco, vemos a alma da Europa. A vossa nação é grande porque o vosso espírito é grande e o vosso espírito é forte. (Aplausos).



Durante dois séculos a Polónia sofreu ataques brutais e constantes. Mas enquanto a Polónia foi invadida e ocupada, e as suas fronteiras apagadas do mapa, ela nunca poderia ser apagada da história ou dos vossos corações. Naqueles dias escuros, vocês perderam a vossa terra, mas nunca perderam o vosso orgulho. (Aplausos).


Assim, é com verdadeira admiração que eu posso dizer hoje, que a partir das fazendas e aldeias no vosso campo para as catedrais e praças das vossas grandes cidades, a Polónia vive, a Polónia próspera e a Polónia prevalece. (Aplausos).

Apesar de todos os esforços em transformar-vos, oprimir-vos, ou destruir-vos, vocês resistiram e venceram. Vocês são a nação orgulhosa de Copérnico - pensem nisso - (aplauso) - de Chopin, São João Paulo II. A Polónia é uma terra de grandes heróis. (Aplausos.) E vocês são um povo que sabe o verdadeiro valor do que defendem.

O triunfo do espírito polaco ao longo de séculos de dificuldades dá-nos a todos esperança num futuro no qual o bem vence o mal, alcança a vitória e a paz sobre a guerra.

Para os americanos, a Polónia tem sido um símbolo de esperança desde o início da nossa nação. Heróis e patriotas americanos polacos lutaram lado a lado na nossa Guerra de Independência e em muitas guerras que se seguiram. Os nossos soldados ainda servem juntos hoje no Afeganistão e no Iraque, combatendo os inimigos de toda a civilização.

Por parte dos Estados Unidos nunca desistiremos da liberdade e independência enquanto direito e o destino do povo polaco, e nunca, nunca o fará. (Aplausos). Os nossos dois países compartilham um vínculo especial forjado por histórias únicas e personagens nacionais. É uma comunhão que existe apenas entre as pessoas que lutaram e sangraram e morreram pela liberdade. (Aplausos.) 

Juntamente com o Papa João Paulo II, os polacos reafirmaram sua identidade como nação dedicada a Deus. E com essa poderosa declaração de quem vocês são, vocês vão entender o que fazer e como viver. Vocês estiveram em solidariedade contra a opressão, contra a polícia secreta sem lei, contra um sistema cruel e perverso que empobreceu as vossas cidades e as vossas almas. E vocês ganharam. A Polónia prevaleceu. A Polónia vai sempre prevalecer. (Aplausos)."



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Zbigniew Wodecki 1950-2017

Fora da Polónia practicamente era conhecido mas para quem reside neste da Europa Central era uma conhecida faceta da televisao e radio polacas.


Com a sua e abundante cabeleira, Zbigniew Wodecki, era imediatamente sendo frequentemente convidado e parte integrante de programas de entretenimento e musicais onde a sua como , compositor, cantor, actor e apresentador televisivo era largamente apreciada pelo polaco.



Nascido na cidade do de Wawel () em 6 de Maio de 1950, viria a falecer, sucumbindo a derivadas de enfisema , no Hospital Central da capital polaca, Varsóvia, no passado dia 22 de Maio.

Perde-se uma parte do mundo da e da História polaca, um talento indubitavel; nasce um do XX na Polónia.

*Zbigniew Wodecki - Lubię wracać tam, gdzie byłem

* Gosto de regressar, onde estive