terça-feira, 3 de novembro de 2009

Coisas da guerra...



A evocar os crematórios. Radegast ou Radogoscz foi uma estação de caminhos de ferro que tinha uma linha que acabava em Auschwitz e em outros campos de concentração da "solução final". 

Hesitei antes de colocar este novo post mas afinal viver na Polónia tem destas coisas. Ora num dia estamos em pleno dia de Finados ora noutro damos por nós em locais históricos relacionados com o conflito de 1939-1945.

O dia estava solarengo e a convidar a um passeio, apesar do vento gélido que soprava. Peguei no carro e fui ter com o Rui, demorando apenas dez minutos a chegar  à larga e movimentada avenida onde ele mora. O motivo da visita desta vez prendia-se com um mecânico que ele me recomendou e que fica mesmo ao lado da casa dele.

Conduzir na Polónia implica habituarmos-nos a estradas de asfalto irregular, a uns buracos de vez em quando, umas "lacadas", umas tampas de saneamento que parecem cápsulas de garrafas a saírem da estrada e, volta e meia, um pneu furado e substituição regular dos casquilhos de suspensão - aprendemos rapidamente a palavra wahacze (braço de suspensão) e uszkodzone (estragado).

A visita à oficina quase merecia um outro post mas tendo em conta que a reparação vai custar caro e neste momento é totalmente inconveniente para a situação financeira da família, prefiro nem mencionar mais nada...

Como o assunto foi tratado com celeridade e não havia muito mais a fazer senão combinar o dia e saber o preço do material e mão-de-obra acabei por ir com o Rui na spacer (palavra polaca que significa ir passear).
Moramos na zona de Radogoszcz em Bałuty, trata-se de uma imensa freguesia dentro da cidade de Łódź que, a bem dizer, são sobretudo zonas-dormitório e floresta, mais do que outra coisa qualquer.

A pouco mais de 300 ou 400 metros da casa do Rui fica a estação de caminhos de ferro de "Radagast", o nome dado pelos Nazis durante a ocupação de Litzmannstad (Łódź).





No pequeno museu da estação de Radegast podemos consultar as listas com os nomes dos deportados. Tudo está perfeitamente bem conservado, dactilografado em alemão em folhas A4 e organizado em cadernos. Os que foram levados para a morte têm um visto escrito a lápis ao lado do apelido. 

Radegast foi palco do início da tragédia de milhares de famílias judaico-polacas. Łódź foi até ao final do conflito a cidade polaca com maior comunidade de judeus mas bastaram pouco menos de cinco anos para que isso mudasse radicalmente. Os grandes campos de concentração, ou de extermínio, ficavam a Sul de Łódź, perto de Cracóvia e Częstochowa e são tristemente célebres pelo seu nome de ocupação: Auschwitz-Berkinau (Oswięcim) e Treblinka (Brzezinka).

Em Łódź o gueto judaico foi isolado pelas tropas do III Reich e totalmente aniquilado ao longo da década de 40. Gradualmente os judeus-polacos foram separados e levados de comboio em vagões de gado, sem condições nenhumas, empilhados e sofrendo horrores que nem vale a pena escalpelizar. O processo de deportação da comunidade judaica e "limpeza" da cidade dessa minoria étnica chamava-se de Judenrein.



Este museu e os monumentos simbolizando o destino final e as mãos - a lembrarem-me as mãos que batiam nas portas das câmaras de gás, quando libertavam o Zyklon B - foi palco de alguma celeuma pelo seu custo elevado numa cidade que precisa manifestamente de obras. Polémicas à parte ninguém fica indiferente à simbologia presente neste local que foi inaugurado por o Presidente Kaczyński

O gueto, construído rapidamente pelos Nazis, era no fundo um conglomerado industrial, alimentado pelas centenas de manufacturas e fábricas dos judeus-polacos, os detentores de grande parte do capital e grandes empreendedores da altura. Na nossa História de Portugal também não nos livramos das "judiarias", ou seja, do saque e violência contra os judeus sempre que o Rei precisava de "ouro". Assim o fizeram os Nazis com grande parte das riquezas da comunidade hebraica e bens que se encontravam no gueto, incluindo obviamente a mão-de-obra dos residentes.

Hoje em dia a estação de Radegast é um memorial dos mais de 230.000 judeus de Łódź que foram desalojados da cidade, a maioria deles não sobreviveu a guerra e passaram por aquela estação de comboios. Calcorrear aquele chão em pedra, aquela plataforma, ver a locomotiva a vapor com frases em alemão e dois vagões de gado, onde podemos entrar, é como viver um filme, sentir por um momento a inenarrável crueldade do ser humano para com o seu semelhante. Ocorre-nos no pensamento a pergunta - mas porquê? Como foi possível tanta crueldade? Foi possível.



Foto tirada com o telemóvel a um dos vagões de transporte. Os olhais para fixar as cordas aos animais e as pequenas janelas com arame farpado. Depois da guerra os comunistas iriam usar sistema semelhante com a diferença de levarem as vitimas para a Sibéria (opositores ao regime, intelectuais) abrindo as portas e deixando-as morrer de frio. 



Tirou-se uma foto dentro do vagão. Os nossos rostos dizem tudo. 



Uma das locomotivas que levavam as composições. Fiquei na dúvida se teria esta cor nos anos 40. 

 

Vista de Radegast a partir do miradouro construído de propósito há pouco tempo  

domingo, 1 de novembro de 2009

Coisas de cemitérios

Quando nascemos em países cuja religião predominante é o catolicismo não podemos evitar que certas tradições da Igreja nos passem ao lado, como se diz em inglês you can run but you can't hide*, e no fundo são tradições que nos fazem sair um pouco do frenesim, banalidades, rotina e preocupações diárias para recordar aqueles que já não se encontram entre nós e nos fazem falta.

Tal como escrevi há um ano atrás este dia de Finados é vivido com grande frenesim em toda a Polónia especialmente junto aos cemitérios - na sua maior parte verdadeiras necrópoles - podemos ver uma autêntica maré humana com o preto como cor predominante. Junto aos muros estão as bancas dos vendedores de flores e de velas mas também os que vendem balões, pipocas, algodão doce, kiełbasa e afins.

Só na passada sexta-feira morreram nas estradas da Polónia mais de 20 pessoas em acidentes de viação, uma prova do movimento que este feriado religioso gera.  Em Portugal, apesar da grande agitação nos cemitérios, nunca vi nada que se comparasse a isto que observo na Polónia; são dias em que a polícia tem especial trabalho em ordenar o trânsito e manter a ordem pública. Se por um lado grande parte dos polacos se desloca de automóvel por outro o transporte público é ainda o meio privilegiado de se alcançarem os cemitérios. Nestes dias organizam-se inclusivamente linhas especiais e fecham-se ou abrem-se determinadas artérias para que o tráfego flua e os autocarros circulem mais rapidamente e sem atrasos.

Já é o quinto Dia de Todos os Santos que passo na Polónia, em todos eles o sol brilhou mas faz frio, aquele frio que nos faz arrefecer rapidamente o rosto e as mãos, um frio que me recorda outros finados, passados em Portugal, as idas a Amarante para por umas velas na campa da avó Rosalina - a mãe do meu pai - e visitar a campa de um bisavô que havia nascido no século XIX e tinha uns grandes bigodes farfalhudos.



O cemitério "Cmentarz Komunalny "Szczecińska"‎ tem aproximadamente um quilómetro de uma ponta a outra, não só é fácil perdermos-nos lá dentro como também não encontrarmos determinadas campas.



Leio os seus poemas e trechos de alguns dos seus livros, infelizmente não entendo grande parte do que escreveu mas são as palavras dele que ecoam na minha mente, ler algo que o meu sogro escreveu é em parte ouvir-lhe a voz e o pensamento.  Um sogro que nunca conheci, um avo que não conheceu os seus netos, como o outro avo que está noutro cemitério, a 3500 quilómetros deste. 

 O cemitério onde está enterrado o meu sogro Mieczesław Kucner - que nunca conheci pois morreu em 1992 - fica a cerca de três quilómetros de casa, trata-se de uma gigantesca necrópole na qual podemos sem grandes problemas fazer um ou dois quilómetros a pé, dentro do cemitério.
Das vezes que lá fui foram-me contando histórias de algumas das campas, numa está enterrado um serial killer que nos anos 80 violou e matou algumas raparigas de Łódź, a sua fotografia está com os olhos furados e riscada, noutro a campa de um jovem que morreu na passagem de ano em consequência de uma briga estúpida entre adolescentes bêbados e também vou lendo centenas de apelidos polacos, alguns inevitavelmente fazem-nos sorrir, como a campa da família Puta, ou da família Śmietana (creme).



 A campa de Paweł Ogaza fica ao lado da campa do meu sogro e deixa-me sempre triste. Não só partiu cedo desta vida como nem na morte se lembram dele. As flores são plásticas e as velas que vão sendo colocadas à sua memória são oferecidas por anónimos. Paweł morreu esfaqueado na passagem de ano de 1992 para 1993, uma agressão escusada tirou-lhe a vida aos 15 anos. Quando passarem 20 anos sobre a sua morte (Janeiro de 2013) e tendo em conta que ninguém da família mantém o local, a campa vai ser utilizada para outro defunto, Paweł Ogaza desaparecerá completamente. Coisas de cemitérios...





* Podes correr mas não podes esconder-te 

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Meninice - hoje e antigamente



Apercebemos-nos que os anos passaram a galope quando observamos os nossos filhos e as gerações mais novas. O meu filho mais velho (três anos e meio) tem uma verdadeira fixação por telemóveis e botões, quando não está a passar no Baby TV ou no Mini Mini os seus desenhos animados favoritos  e se avizinha uma crise existencial infantil basta procurar no Youtube ou na Internet e carregá-los. Para ele um computador é algo natural, mais um dos electrodomésticos da casa, tão natural como foi para mim o televisor Grundig Sensotronic a preto e branco que estava no apartamento em São João do Estoril ou o rádio para os meus pais e o automóvel, para os meus avós. 

 A station do pai e da mãe do Manuel e do Marcel tem uma cadeira especial para ele se sentar e tem de estar sempre com o cinto de segurança colocado, como os pais. O mais pequenino (9 meses) também tem o seu "ovo" e os respectivos cintos de segurança. Os bancos têm encostos de cabeça que tiram a visibilidade e o tablier tem muitos botões e luzinhas acessas.
O carro do meu pai era um Fiat 128 Sport de cor vermelha, com duas portas e as únicas luzes no interior provinham do conta-quilómetros, conta-rotações, indicador do nível de combustível e temperatura do motor, mesmo assim eram um verde desmaiado que só de vez em quando mostravam um quadradinho verde e outro azul forte. Não haviam cintos de segurança atrás, nem sequer se usavam na frente - apesar de ter uns instalados que nunca eram usados. Percorremos milhares de quilómetros nessa Fiat, a maior parte em Portugal e alguns em Angola - mas nao me lembro desses.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

25 anos da morte de Jerzey Popiełuszko

Há precisamente um quarto de século um conhecido e acarinhado padre polaco de nome Jerzy Popiełuszko desaparecia misteriosamente. Popiełuszko era persona non grata para o regime comunista, já havia recebido sinais do descontentamento das altas esferas polacas e sobrevivera um acidente de automóvel que havia sido planeado para o liquidarem mas mesmo assim não teve medo, meteu sempre o pé na porta para que esta não se fechasse. Foi encontrado sem vida, num reservatório de água do Vístula, passados 11 dias do seu desaparecimento.


A edição de 19 de Outubro do jornal Gazeta Wyborcza relembra Jerzey Popiełuszko e o seu processo de beatificação. Ao lado da fotografia do padre uma promoção do McDonald's, com um cupão para os leitores do Gazeta poderem beber gratuitamente um café 100% arabica, sinais dos tempos...


O cadáver de Popiełuszko seria encontrado por uma equipa de mergulhadores, as buscas demoraram mais de 48 horas, o seu corpo de 37 anos apresentava marcas de espancamento, estava dilacerado e manietado, mais tarde veio-se a saber que fora torturado.

A noticia seria recebida com choque em toda a Polónia e no estrangeiro, na sua paróquia foi recebida com silencio seguido de choro e pranto dos seus fieis. O "padre do Solidariedade" tinha pago com a sua própria vida a ousadia de desafiar o sistema. Nas suas homilias e intervenções o padre teve um importante papel politico e unificador, recordemos que no inicio dos anos oitenta a Polónia esteve três anos sob Lei Marcial e os únicos ajuntamentos autorizados faziam-se nas igrejas e nas paróquias. Popiełuszko havia atingindo notoriedade graças aos seus discursos frontais, anti-comunistas e as suas criticas abertas e ousadas ao comunismo, por se opor a todas as formas de laicismo ou a separação dos poderes do Estado e da Igreja como, por exemplo, a proibição de crucifixos nas escolas.

Por vezes há quem não entenda o fervor religioso da maior parte dos polacos, um povo profundamente devoto e católico, mas o comunismo foi a alavanca do catolicismo mais do que um meio de o conter.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Crónica de uma ida ao Consulado de Portugal em Varsóvia



O Bilhete de Identidade estava quase a expirar, ainda ontem tinha ido ao Registo Civil na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e hoje o tal "Validade: 20/10/2009" que me parecia tão distante havia chegado.

Tantas coisas mudaram neste ínterim de cinco anos a começar pelo seu portador que de rapaz magrinho passou a homem "robusto" e portador de uma visível barriga que, como dizia, o Pedro Rodrigues é a curva ascendente do nível de vida. Curiosamente ninguém se orgulha desta curva ascendente mas pronto sempre podemos dizer que é genético e característica dos latinos...
 Estes cinco anos compreenderam uma autentica revolução na minha vida.  A ultima alteração feita no BI foi ao estado civil onde passou a constar o famoso CAS. Entretanto mudei de país, para a improvável imigração na Polónia, e sou hoje em dia o pai babado de dois meninos luso-polacos, essa nova estirpe de portugueses resultantes da Diáspora lusitana tão bem descrita há mais de 500 anos pelo nosso poeta Camões nos Lusíadas!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Notas de rodapé na Polónia

 O Tempora, o Mores! 

Numa visita ao PUP (Powiatowy Urząd Pracy) em Łódź - Centro de Emprego - deparo com um curioso aviso colado num dos pilares mesmo ao lado dos balcões de atendimento.






Pedimos Silêncio

Indivíduos que tenham ingerido álcool não serão atendidos 

E "mai" nada!!! Um eufemismo polaco para "não atendemos bêbados" e sublinhado no "não serão atendidos", caso para dizer O tempora! O mores!

Os quiosques plastificados da Polónia e as calçadas ondulantes




Quando moramos na Polónia passamos a não reparar em certos pormenores, passam a fazer parte do nosso dia-a-dia e escorrem pelas janelas dos nossos carros ou nas janelas dos transportes públicos, se vamos a pé consideramos-los como mais um obstáculo a contornar, refiro-me aos típicos quiosques polacos construídos com placas de zinco e PVC.
A maior parte deles são do grupo polaco Kolporter SA, uma empresa de distribuição de imprensa semelhante à portuguesa VASP.  O formato de caixote, com quatro paredes ao alto e um tecto aparafusado é comum a todos variando o tamanho, cores e janelas. Quando para aqui vim estudar faziam-me espécie, considerava-os um autentico atentado ambiental e verdadeira poluição visual, cheguei a considerar pendurar uma bandeira do Greenpeace num deles e chamar a TVN mas depressa entendi que perante os rigores do clima polaco fazia sentido o recurso a materiais que não oxidem e os quiosques são locais privilegiados para sacarmos um bilhete de autocarro ou de eléctrico, ou mesmo uma caixa de fósforos - providencial para quem fuma e fica sem gás no isqueiro.

As calçadas - ou passeios - polacos costumam estar partidos e tortos, são bons para o sapateiro ter trabalho a colocar capas e saltos-altos nos sapatos das senhoras e maus para os tornozelos de quem anda distraído ou atrasado, arriscamos-nos a ir "por ali abaixo" e acabarmos com  todo o power and the glory a mancar, contudo costumam ter uma grande vantagem sobre os dos nosso país; são mais largos e não temos de andar a fazer gincana ou a bater ombros com um  parceiro desconhecido. De qualquer modo com a glaciação no Inverno e deglaciação na Primavera não me admira que se apresentem no estado em que estão.

A Peste Negra nos Oltcit e Wartburg 

Há automóveis que marcaram uma era na Polónia. Para nós (portugueses) não nos dizem rigorosamente nada, nesses tempos circulavam nas nossas estradas carros melhores e muitos portugueses já tinham poder de compra para adquirirem um Renault 9 ou 11, um Toyota Corolla, um Golf ou um dos populares Uno, Renault Supercinco, Corsa e Ford Fiesta.
Na Polónia não era bem assim. A Citroen vendia uma espécie de Citroen Visa com duas portas que estava de longe de ser um coupe mas que pelo menos tinha um tablier digno da Guerra das Estrelas.
Onde param estes carros? Há anos que não vejo um a circular!


O Oltcit era mais do que um carro, era também um tablier digno de qualquer painel de instrumentos dos foguetões da URSS.


Haviam outras marcas do tempo da foice e do martelo, feios como o perfil de Estaline, Lenine e Marx. O Wartburg foi um deles. Fabricado na RDA teve como grande evolução a instalação, logo a seguir  à queda do muro de Berlim, do motor 1300 do VW Polo!


 Álvaro Cunhal e o meu avô materno (PCP dos sete costados) teriam considerado o Wartburg como um bom carro, apropriado para as massas populares, para o proletariado explorado pelos capitalistas selvagens sem escrúpulos... eu tampouco... 
Porque motivo é que estes carros traziam sempre um estojo de ferramentas completo? 




sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Dimitri nie zyje - O Dimitri morreu

 Quando saíste da linha de montagem da firma Polar devia fazer um frio de rachar, nesses tempos os Invernos não eram como hoje em dia. Haviam dias em que nevava tanto que os poucos carros particulares que estavam estacionados em frente dos prédios desapareciam por completo e não se pegavam neles durante semanas, faziam-se autênticos muros de neve nos passeios e por vezes os autocarros não conseguiam circular.

Dimitri; sei que passaste por tempos difíceis num país que fazia parte do bloco soviético.  Enquanto gelavas, a Polónia esteve em estado de sitio. Viste passar soldados na rua, mesmo por baixo da cozinha onde te encontras, Lech Wałęsa tentava passar a mensagem de libertação do sindicato livre Solidarność (Solidariedade) e dos trabalhadores polacos que enfrentavam as elites do partido, o Vaticano elegia um Papa polaco chamado Karol Wojtyła, a URSS e os EUA estavam em guerra fria - não tão fria como o teu congelador - e as Brigadas Vermelhas atacavam alvos na Europa Ocidental naquilo que mais tarde se veio a saber ser uma estratégia imunda dos serviços secretos ocidentais para causar tensões e reforçar os poderes da OTAN na infame Operação Gladio.

Provavelmente sabias onde o teu dono escondia aqueles livros e cartas que o regime não tolerava, nunca o denunciaste a ninguém do partido, sempre aceitaste o catolicismo e a fé da tua dona, passaste pelas mãos de uma menina que hoje em dia é mãe e também tua dona, sofreste com a curiosidade do filho daquela menina polaca e do seu marido português mas não conseguimos evitar que ele te ligasse e desligasse no botão de descongelar, não somos omnipresentes e as tuas borrachas nunca vedaram por aí além de modo a ficares bem fechado.

A dada altura deves ter achado incorrecto o boicote de muitos países ocidentais ao Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo - por causa da invasão do Afeganistão - mas ficaste satisfeito com o boicote da URSS e dos comunistas quatro anos depois, em protesto pelo boicote anterior.
Mal sabias que um dia um dos teus donos havia de ser de um país do outro lado da Cortina de Ferro, que irias gelar Coca-Cola, Pepsi, Fanta e até bacalhau.

Ficaste revoltado quando encontraram o cadáver massacrado do padre Popieluszko e o levaram dentro da bagageira de um Fiat 125P, apanhaste um grande susto quando a central nuclear de Chernobyl na Ucrânia (então parte da URSS) explodiu um dos reactores e na recta final dos anos oitenta assististe a grandes mudanças naquilo que te rodeava, o teu congelador e as tuas prateleiras tinham mais produtos para congelar, haviam mais marcas do que antigamente, os iogurtes começaram a ter pedaços de fruta e apareceram os primeiros códigos de barras.

Nunca te recusaste a trabalhar apesar da tua voz ter ficado mais rouca ao longo do tempo (não vou esquecer aquele zumbido durante a noite!) e teres um elevado salário de Kw/hora, tampouco de precisares de descongelar regularmente para não entorpeceres. Desculpa por pensar que eras um Dimitri qualquer da URSS, afinal eras polaco, deves ser algum Lech, Marian, Kazimierz?




Passaste do século XX para o XXI a congelar, no novo milénio continuaste a manter as mais frias relações com os teus donos e quase chegavas ao fim da primeira década do novo século mas anteontem deixaste de  funcionar, não avisaste ninguém que ias partir para a sucata.

Quem quer pensar em reparar-te? Dizem que o custo não compensa, que o teu compressor deixou de funcionar, que há outros frigoríficos mais económicos e que inclusivamente se podem bloquear para que as crianças não lhes mexam, o tempo passou tão depressa Dimitri... os frigoríficos já nem fazem gelo, onde já se viu isso? O gelo e frio em abundância eram o grande atributo dos frigoríficos modernos, agora já não têm gelo e alguns até vêm com ecrãs de LCD onde sabemos que funções escolher e programar.

Tens um novo nome a titulo póstumo, chamas-te agora elektro-złom, ou seja, sucata-eléctrica.

Do Widzenia Dimitri!


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pontos nos ii

Foram feitas algumas alterações de fundo ao blogue nomeadamente a alteração do título Portugueses na Polónia para Um português na Polónia. Na realidade este blogue descreve sobretudo a minha aventura polaca e pontos de vista de um português - nascido em Lisboa e criado em Vila Nova de Famalicão - que se encontra no coração da Europa Central.

Temos actualmente um fórum na Internet que serve de ponto de encontro para a comunidade portuguesa na Polónia, esse espaço virtual tem vindo, a passo e passo, a tornar-se uma referência para os patrícios que aqui se encontram a viver e trabalhar (ou a estudar) e para todos aqueles que precisam de saber mais sobre este país, aos que visitam diariamente o Fórum Portugueses na Polónia o meu agradecimento, obrigado amigos!

Havia que colocar os pontos nos ii. Está feito, bola para a frente que atrás vem gente...

Quentes e boas?


O Outono aproxima-se a passos largos, tempo de comemorarmos o São Martinho, fazermos o magusto, termos as velhinhas a vender castanhas embrulhadas em folhas do Jornal de Notícias, no mercado, nas feiras, na entrada do túnel que dá acesso à estação de São Bento no Porto...

Bati com a cabeça na mesinha de cabeceira e acordei repentinamente. Estou na Polónia, não temos velhinhas a venderem castanhas assadas nem temos magusto. No entanto há castanhas por todo o lado, os ouriços caiem das árvores nas ruas, nas alamedas e nas vielas aqui em Bałuty.

As castanhas polacas não são comestíveis, não são doces como as portuguesas. Experimentei comer um pedaço de castanha polaca... Amarga, amarga, amarga!!! Os rigores do clima polaco assim o ditam, castanhas em abundância mas apenas para enfeitar. Que bom... 




segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Foi-se o guarda-chuva polaco



O presidente Kaczyński explica a importância do sistema anti-míssil (tarcza antyrakietowa) na Polónia...

Pairava no ar a ameaça nuclear. A Polónia e a República Checa tinham-se atrevido a desafiar o outrora aliado soviético, o Grande Irmão - chapadas na cara do Kremlin, 20 anos depois do divórcio, tinham de ser retribuídas com mão pesada, sem piedade, à boa maneira russa.
Os russos disseram-no abertamente. No caso da Polónia e da República Checa instalarem um sistema anti-míssil norte-americano no seu território estariam sujeitos a serem atacados com misseis nucleares, o Kremlim apontaria de imediato ogivas nucleares em direcção a Polónia e à República Checa, o enclave de Kaliningrad seria a plataforma ideal para terem os polacos de rédea curta. 
O presidente polaco Lech Kaczyński não cedeu às ameaças de Moscovo, as negociações com o então presidente George Bush e as contrapartidas dadas pelo Pentágono (instalação de uma fábrica de material aeronáutico na Polónia) estavam alinhavadas. As negociações e expropriações de terrenos eram discutidas em acessos debates com os proprietários rurais com direito a transmissão televisiva. 
O escudo anti-míssil serviria para defender o Ocidente de alegados ataques nucleares por parte de países como o Irão e do "eixo do mal" mas com a eleição de Barak Obama o complexo plano do Pentágono foi repentinamente cancelado, na realidade souberam primeiro os jornais americanos do que Varsóvia e Praga. A Polónia e a República Checa não irão ter nenhum "guarda-chuva" norte-americano - o  novo sistema será "flexível" e prevê o recurso a plataformas em navios de guerra e instalação do radar de detecção no Cáucaso.  

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Em vias de extinção - Fiat 126 P



Um instantâneo. Um condutor polaco pára o seu 126P para observar o que se passa no pequeno motor.
Quem conhece ou já visitou a Polónia deve ter reparado num pequeno automóvel bastante popular nas estradas e ruas da Polónia, trata-se do Fiat 126 P - o P significa Polski (polaco).
Para os que aqui moram e fazem as suas vidas deixa de ser algo em que reparamos e damos importância, sabemos que se trata de um Maluch (o Fiat "Pequenino" como carinhosamente lhe chamam os polacos) e que são aos pontapés, no entanto tenho vindo a reparar que, a cada ano que passa, os pequenos carrinhos são cada vez menos, estarão a entrar em vias de extinção?
Em 2001, quando aqui aterrei pela primeira vez, foi o primeiro carro que reconheci a partir da janela do avião, era noite e passava junto à pista do aeroporto Okęciem um Maluch amarelo torrado, e notem que estava em Varsóvia onde o parque automóvel é substancialmente mais variado, melhor e mais moderno que em muitas outras cidades do país, inclusivamente Łódź. Nessa altura ainda se viam a circular muitos - mesmo muitos - Fiat 126 P.
O que me chamou a atenção neles é que a maioria se encontravam bastante enferrujados e por vezes com o capot de uma cor, uma porta de outra ou mesmo com um pau a segurar provisoriamente o forro do tejadilho para que não caísse na cabeça do passageiro ou retirasse visibilidade da pequena janela traseira.
Quando em 1972 o governo da então República Popular da Polónia (PRL) decidiu oferecer ao povo polaco um meio de transporte particular e barato escolheu o pequeno Fiat 126 italiano, que tinha substituído gradualmente o 600 e o 850. Os acordos de cooperação com o Grupo Fiat da família Agnelli e os países comunistas deram lugar aos soviéticos Lada 1200 (base Fiat 124), ao Fiat 125P (base Fiat 125), Fiat 126P e Zastava 1100 (Fiat 128); ainda se fabricaram alguns 127, 132 e 124 Sport mas só foram atribuídos às elites comunistas e altos funcionários públicos aos aparatchi

domingo, 6 de setembro de 2009

Kiełbasa, ziemniaki, kiszone ogórki e alheira de Mirandela

A kiełbasa polaca está para os polacos como a alheira está para os portugueses


O que têm em comum? Nada, a não ser o facto de serem dois dos petiscos mais apreciados por polacos e portugueses.

Quem conhece polacos e a Polónia sabe como a kiełbasa (chouriço), ziemniak* (batata) e kiszone ogórki (pickles de pepino) fazem parte da "dieta" polaca, é um dos pratos mais baratos e simples de se fazerem. A alheira de Mirandela, ou outro tipo qualquer, é também muito popular no nosso país e todos sabemos como gosta de vir acompanhada, por exemplo, de puré de batata.

E já que falamos em comida acrescento que na Polónia não podemos falar da "santíssima trindade gastronómica" do pequeno-almoço, almoço e jantar - como conhecemos em Portugal. São países distantes, com hábitos culturais diferentes aos quais, confesso, me custa habituar, não dispensando, por exemplo, um pequeno-almoço com café ou um jantar mais completo e variado.

Os polacos definem os seus hábitos alimentares com aquilo que chamam de śniadania (pequeno-almoço) que pode ser, por exemplo, um pedaço de pão com manteiga acompanhado de chá, um iogurte ou um prato de cereais, a drugi śniadania (segundo pequeno-almoço) que podem ser sandes com kiełbasa ou kiszone ogórki, obiad (almoço) onde amiúde servem a tal kiełbasa ou uma sopa.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Invasão da Polónia foi há 70 anos


1 de Setembro de 1939, Sexta-Feira.


Passaram sete décadas desde a invasão da Polónia pelo exército do partido Nacional Socialista. Foi como vemos na imagem acima. A Polónia tinha de ser invadida e partilhada - novamente.
Muitos desconhecem ou não atribuem importância a um facto histórico; a Rússia também invadiu a Polónia - mais tarde, a 17 de Setembro do mesmo ano.
Os seus poderosos e belicosos vizinhos sempre a desejaram conquistar e dividir, destruir a sua soberania, destituir o seu governo, arrasar o seu exército e exterminar a sua população, no final do conflito de 1939-1945 pouco lhes restou senão a sua identidade cultural, o patriotismo e a fé.

A invasão da Polónia começou antes de Setembro com a assinatura do infame Pacto Molotov-Ribbentrop, um tratado de não-agressão entre a Alemanha e a Rússia que incluía a invasão e anexação da Polónia. Uma total e absoluta violação da soberania polaca. A Polónia deveria ser riscada do mapa.

Mas não foi. E aqui estou a escrever num computador, em Łódź, na Polónia livre, setenta anos depois.





Jeszcze Polska nie zginela,
Kiedy my zyjemy.
Co nam obca przemoc wziela,
Szabla odbierzemy.


Polónia ainda não sucumbiste,
Enquanto nós vivermos.
O que o inimigo nos tirou pela força,
Pela espada recuperaremos

In Wikipedia:



Nos dois anos seguintes a à anexação, os soviéticos prenderam aproximadamente 100.000 cidadãos polacos e deportaram entre 350.000 a 1.500.000, entre os quais 250.000 a 1.000.000 terão morrido, na sua maioria civis.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Na Polónia um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural...

O que é natural e fica bem é cada um usar a imagem com que nasceu...

O spot publicitário ao Restaurador Olex é lembrado por muitas gerações, o slogan do preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não passaria hoje pelo crivo do "politicamente correcto" mas isso é tema para outra discussão, o que interessa é esta palhaçada - não encontro outra designação - que a Microsoft Polska desencadeou com um simples Photoshop feito a um anúncio norte-americano...


A Microsoft Polska decidiu remover o afro-americano da imagem original e trocá-lo por um sorridente branco; até aqui estaria tudo bem se não fossem dois pormenores... um é que se esqueceram da mão negra - supomos que o polaco andou a conduzir com o chispe de fora - e o outro é que estão a ser acusados de racismo, de decapitação de negros...

A Polónia será um país eminentemente racista? Na minha opinião não. A Polónia sempre foi tida como um país tolerante com estrangeiros, a começar pelas enormes comunidades judaicas que aqui existiram antes da II Grande Guerra e as minorias de alemães e ucranianos.

Durante o comunismo entraram na Polónia inúmeros estudantes africanos, vindos de países simpatizantes da URSS e do COMINTERN, muitos deles por aqui ficaram e criaram as suas famílias. Alguns deles vieram das nossas ex-colónias, encontramos por vezes angolanos, guineenses e cabo-verdianos nas ruas das nossas cidades polacas.

Racismo ou questões de Marketing?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O casino da esquina e a "jogatina" polaca...

Las Vegas em Łódź, o Golden Dust wersja polska (versão polaca)

Algum patrício referiu num blogue ou no fórum dos portugueses na Polónia a apetência dos polacos para a "jogatina", ao que parece os polacos são fervorosos adeptos de jogos de azar e gastam-se milhões de zlotys a cada ano nestas actividades lúdicas...

Ultimamente tenho vindo a reparar na crescente quantidade de máquinas tipo slot-machine - ao estilo daquelas que vemos amiúde nos cafés de Espanha. Começam a aparecer nas estações de serviço, nos cafés, em restaurantes, em clubes e até têm direito a "casinos de esquina" , como o que abriu aqui ao lado da minha casa.

O Café Las Vegas está aberto na całe dobe, ou seja, vinte e quatro horas. Promete servir refrescos e cafés mas lá dentro, à parte do balcão, vemos apenas slot-machines e bancos altos com pés cromados. Na vitrina uma fotografia de um suposto felizardo a ganhar dinheiro, na fachada lateral um néon - um leds digamos - a dizer Hot Spot 24 H Non Stop.

Hot Spot, twenty four seven numa pacata vizinhança da cidade de Łódź

Este café Las Vegas está completo acompanhado de uma pizzaria chamada Don Corleone e de um banco com Bankomat (Multibanco) para levantar - se disponível - os złoty necessários ao "vicio".

Smacznego i dobry fart!

sábado, 8 de agosto de 2009

Quando nos põem no mesmo saco...



Uma promoção a produtos espanhóis nos supermercados Lidl. Um touro bravo num banner - como não podia deixar de ser - e as cores vermelhas e berrantes para lembrar o sol e o pó do único país contíguo a Portugal.

Ainda fui ver se tinham caramelos, como aqueles que os portugueses compravam do lado de lá, quando ainda haviam fronteiras fechadas, mas não... não haviam caramelos daqueles que se colavam aos molares e arrancavam os chumbos aos velhinhos, apenas vi uns sub-produtos quaisquer e, espantem-se, queijo de cabra português! Ziegenkase em alemão! Ser Kose em polaco...


Não comprei o raio do queijo... vão chamar espanhóis a outros! Então andou o D. Afonso Henriques a meter a sua querida mãe na masmorra, a correr com o conde galego e a passar a fio de espada os castelhanos e os mouros para isto? Mais de 800 anos depois metem-nos no mesmo saco?

Já não bastava o Cristiano Ronaldo ser comprado por eles como ainda nos tiram a exclusividade ao nosso queijo e às nossas cabras?

Só falta tornarem o cozido à portuguesa, a carne de porco à alentejana e o licor de merda um prato e bebida tipicas espanholas... irra!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Raios e coriscos!


Agora que me encontro numa situação inesperada de desemprego e provavelmente a ter de entrar em litígio com a entidade patronal, o Verão para estes lados parece ajudar ainda mais a estados de depressão, em perfeita harmonia com o meu estado de espírito.

Ontem à noite descambou tudo em Łódź. Depois de uma tarde abafada e nublada o vento levantou e atingiu nalgumas zonas da região os 130 Km/h, três pessoas morreram em consequência de acidentes de viação provocados por quedas de árvores. Da janela do quarto pude observar os céus a serem rasgados por relâmpagos e o ribombar dos mesmos a ecoarem na atmosfera.

Os media encarregaram-se de trazer as notícias à família portuguesa e houve algumas reacções de alarme que um telefonema dissipou rapidamente.

As frentes frias não querem largar a Europa Central e antevê-se um não-Verão seguido do dias curtos e frios - preferível nem pensar nisso!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Valores da família


Foi com muito agrado que recebi a noticia que mais um dos "tugas residentes" na Polónia é pai de uma menina.

No caso em questão foi com especial agrado pois trata-se de um amigo de longa data que conheceu a Polónia ao mesmo tempo que eu, foi graças a ele que dei o passo para subir as escadarias da reitoria da Universidade Fernando Pessoa e preencher os papéis necessários para fazer um Erasmus na Polónia. Foi a primeira e única escolha; havia hipóteses de irmos para Itália ou para a Grécia mas escolhemos mesmo a desconhecida e fria Polónia.

Daqui a pouco vão fazer dez anos sobre esses acontecimentos - parece que foi há muito mais tempo - e sobre tantas aventuras que passamos juntos. Com os namoros que fomos tendo nesta terra surgiram receios de deixarmos o património genético para trás, assumir compromissos e responsabilidades. Hoje em dia sorrio quando recordo algumas conversas e situações que vivemos juntos, dignas de um qualquer American Pie wersja Polska...

Os anos passaram tão depressa Luís! Somos pais, casados e bons chefes de família, só não somos do Benfica como se diz lá em Portugal - Quem não é do Benfica não é bom chefe de família... mas isso não interessa mesmo nada, afinal tu és "lagarto" e eu simpatizo (de vez em quando) com os tripeiros mesmo que não conheça o plantel dos azuis e brancos.

Parabéns meu amigo, que fique registado no blogue este momento solene.

Wszystkiego najlepszego!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Portugueses na Polónia - a comunidade - cada vez menos - dispersa


Sou nostálgico, gosto de recordar o passado e fazer comparações com o presente. Veio-me à memória as dificuldades que tive em pesquisar no Yahoo informações sobre Łódź, isto há bem mais de 8 anos. A Polónia ainda era um país completamente desconhecido para os portugueses. Bem: ainda o é mas nesses tempos era ainda mais.

Informações concretas sobre a cidade de Łódź eram escassas e pouco informativas e nem sequer se pensava em encontrar alguma comunidade lusa nessas longínquas paragens!

Hoje em dia não. Como dizemos lá em Portugal "somos poucos mas bons" e devagarinho vamos-nos conhecendo e travando amizade. Temos inclusivamente um fórum onde alguns se reúnem e se conhecem e os blogues de portugueses na Polónia proliferam no ciber-espaço.

Hoje conheci de uma só assentada três portugueses sendo um deles um "portulaco" genuíno - meio polaco, meio português. Dois vivem na Polónia e outro está em Portugal mas com as devidas saudades da vida que aqui tinha.

Tive uma longa e agradável conversa telefónica com um patrício que se aventura nos negócios na Polónia. Originário de Lisboa o Gonçalo vai sendo um dos embaixadores dos produtos portugueses na Polónia. Em comum com outros portugueses a trabalharem neste país e a tentarem erguer negócios ficam as dificuldades inerentes à inevitável diferença cultural, a barreira linguística e a malfadada crise económica que tolhe e retarda a expansão de negócios e de ideias.

sábado, 4 de julho de 2009

Polónia - dormir sem estores e sem lençóis



Koldra i poduszki (colcha e almofadas) bastante típicas na Polónia



Na realidade nunca me habituei a ter de dormir sem as providenciais persianas plásticas com furinhos, como temos na esmagadora maioria das casas portuguesas. Em Portugal o sol acaba por governar os nossos hábitos de sono e o necessário descanso mas na Polónia o astro-rei parece não exercer a força que mostra na Europa do Sul.

Quando vim para aqui estudar (parece que foi há uma eternidade!) estranhei de imediato as cortinas rendadas no dormitório e posteriormente no apartamento que aluguei com dois portugueses e dois finlandeses na Piotrkowska, número osiem dziesięć pięć - 85...

domingo, 28 de junho de 2009

Michael Jackson - como não podia deixar de ser...

Michael Joseph Jackson 1958 - 2009

Inevitável não referir a morte de Michael Jackson, goste-se ou não do artista. Cresci (crescemos e envelhecemos) ao som de músicas como Thriller, Billy Jean, Moonwalker, Stranger in Moscow, Black or White e tantas outras que Michael Jackson deixa como seu legado. Le roi est mort, vive le roi!

Andávamos esquecidos de Michael Jackson, o artista parecia estar coberto com uma camada de pó, atirado para um canto da memória colectiva até 25 de Junho de 2009 quando o seu coração parou de bater.
Recordo-me vivamente do tenebroso teledisco de Thriller aterrorizar os miúdos da rua - tinha então 9 anos - e causar incontinência num deles, das suas mudanças de visual, da sua presença em concerto, o modo de dançar, o seu gritinho imagem de marca, as dezenas de operações plásticas, o seu nariz delgado e rosto pálido, das máscaras, de pendurar um bebé numa janela a vários metros de altura, da Neverland, da queda vertiginosa da sua carreira, de escândalos envolvendo acusações de pedofilia, demência, bancarrota, dividas, custódia dos filhos, julgamentos mediáticos...
Nos anos noventa gostar de Michael Jackson era apreciar música "azeiteira" mesmo que a conseguíssemos cantarolar logo na primeira vez. O Rei da Pop tornava-se sinónimo de música popular, easy listening, de McDonalds musical para consumo das massas mas não deixava de ser bom.

O desaparecimento do cantor aos 50 anos dissipou momentaneamente o lado negro da sua brilhante carreira musical, todos querem recordar as boas músicas que fomos ouvindo ao longo de varias décadas.
Elvis Presley ganhou um novo rival nas teorias da conspiração sobre mortes simuladas. Michael Jackson é um fenómeno mundial na era da Internet, do Youtube, após a sua morte Michael Jackson continua a fazer correr tinta, a ganhar novos fãs, que descanse em paz.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Português não entra!


Pela primeira vez desde que vivo na Polónia barraram-me a entrada a um local alegando que pelo facto de ser estrangeiro não posso, só indivíduos com "polskie obywatelstwo", ou seja, com nacionalidade polaca. Pensando duas vezes tenho ideia que até é a segunda vez que me barram a entrada.
A primeira foi numa discoteca em Łódź - já lá vão sete anos - onde decorria uma festa com "gangsters" polacos e respectivas "dziewczynas" e "dziwkas"... claro que eu e o outro "portuga" que me acompanhava rimo-nos como uns perdidos quando o porteiro - um loiro de corte militar e olhos azuis claros - nos disse um rotundo NIE! Talvez tenha sido intervenção divina, naqueles tempos os "gangstá" de merda ainda iam para as discotecas munidos de taco de basebol e faca de mato...


Desta vez foi diferente, poder entrar podia mas teria de preencher documentação, esperar a autorização da chefia e cruzar os dedos para alguém da embaixada de Portugal atender o telefone e confirmar que sou um cidadão acima de qualquer suspeita, no meu caso seria em vão pois nem sequer estou registado no consulado.

Tudo aconteceu numa rotineira visita de trabalho a uma gigantesca "elektrownia" (central eléctrica e de aquecimento) nos arredores da cidade de Konin na província da Wielkopolska.
A entrega de umas amostras e posterior diálogo com um potencial cliente revelou-se praticamente impossível.

As centrais eléctricas na Polónia - e ao que parece em todo o mundo - são locais estratégicos e protegidos, tem toda a lógica obviamente, e não se trata de qualquer discriminação pelo facto de ser cidadão português, espanhol, norte-americano, senegalês ou argentino.

Em todas as grandes cidades e aglomerados populacionais podemos ver estes colossos a vomitarem fumo e vapor-de-água das suas gigantescas chaminés, são contudo um osso duro de roer para o governo polaco pois o carvão ainda é usado para aquecer as gigantescas caldeiras emitindo gases nocivos para a atmosfera - os três países mais poluidores são conhecidos em certos meios como o Triângulo Negro, compreendendo a Alemanha, República Checa e a Polónia.


domingo, 14 de junho de 2009

Estamos em Junho! A sério?!


O meu carro é italiano mas o visor do ar-condicionado e o sensor de temperatura exterior não estão avariados... na passada Sexta fizeram mesmo 9 graus em Łódź...

Sim, supostamente estamos na silly season, em pleno Junho e com temperaturas que por vezes chegam aos maravilhosos 9 graus!!! A chuva tem caído copiosamente desde o início do mês, a fazer-nos recordar que o chamado clima ameno - que tão bem conhecemos - fica mais para Sul, lá para baixo, num país perto da África do Norte e fronteiriço com Espanha...



As previsões meteorológicas não são optimistas nem animadoras, o mau tempo parece ter vindo preencher o Junho polaco, entrecortado com alguns rasgos solarengos, em estilo de bodo aos pobres, mas insuficiente para aquecer um português que se preze - mesmo um já aclimatizado como eu!

Conduzir diariamente numa auto-estrada polaca torna-se um verdadeiro enfado quando temos chuva e somos obrigados a levantar o pé do acelerador não vá nos enfeixarmos contra um qualquer TIR de matrícula russa ou estónia que invadem e sulcam as vias terrestres polacas, a Polónia é para todos os efeitos um verdadeiro corredor para o mercado da Europa de Leste, nomeadamente para os vizinhos bielorrussos, ucranianos, estónios, letões, lituanos e russos.
A quantidade de camiões e TIR nas estradas e auto-estradas polacas são praticamente inimagináveis para o comum cidadão português que os vê em quantidades muito menores nas estradas lusas.

A previsão meteorológica para a Polónia prevê mais uma semana de chuva e sol com temperaturas a rondarem por vezes o máximo de 19 e o mínimo de 7...

E estamos nós em Junho...




quinta-feira, 4 de junho de 2009

Os 20 anos de Democracia polaca - um olhar vindo de dentro da ex-Cortina de Ferro


Lech Wałęsa derruba simbolicamente a primeira peça do dominó que levaria ao colapso do Comunismo na Europa Central e de Leste. Foto retirada do Gazeta online - Peter Andrews da Reuters

Quando era miúdo havia uma canção do Sting que me causava arrepios, chamava-se Russians e tinha como refrão if the russians love their children too - se os russos também amam as suas crianças.

A Polónia foi durante mais de quatro décadas parte do Bloco Soviético, do COMINTERN, do Pacto de Varsóvia, eram os amigos do Cunhal e do Agostinho Neto, eram os amigos da URSS (Urse como dizia o meu avô) inimigos dos americanos e dos ingleses, eram os povos que podiam invadir-nos, atirar bombas atómicas em Freixo de Espada à Cinta, em Venda das Raparigas e no Sobral de Monte Agraço, perseguir as vendedeiras de peixe da Marinha Grande e executá-las sumariamente por falarem tão alto, obrigarem o Zé da tasca a ler Karl Marx e levar enxertos de porrada se se atrever falar de futebol, sofreríamos sevícias das mulher-soldado polacas e russas...

Haviam bombas de vários tamanhos, cores e feitios para reduzir a cinzas todos os porcos capitalistas, do mesmo modo também lhes enviaríamos umas bombas atómicas bem gordas com ogivas múltiplas para explodirem em Stare Wies ou numa qualquer remota aldeia de pastores na Checoslováquia, assim andamos todos à espera do Apocalipse até que um dia o Comunismo caiu - de podre. Estávamos em 1989.

Apesar da Polónia ter sido o primeiro país satélite da URSS a afastar-se, foi a RDA que serviu de ícone para o colapso do Comunismo na Europa, o Muro de Berlim caiu com a fúria e alegria das multidões, os Trabant rolavam pela primeira vez em liberdade, em estradas da RFA, a canção de Sting deixou de fazer sentido de um momento para o outro... o som que passava na MTV, nas rádios e na televisão era o Winds of Change dos Scorpions.





Hoje, neste ano da graça de 2009, um português escreve a partir da Polónia, em plena liberdade, em terras que foram em tempos território do inimigo. Muita água correu debaixo da ponte, agora a Polónia é uma jovem Democracia, ficam os traumas de outros tempos a moldarem as mentalidades, ficam más recordações para uns e boas para os que usufruíram do "sistema", a Nomenclatura deve ter saudades...

E aqui estou, junto com tantos outros estrangeiros, a viver o dia-a-dia, num país improvável, numa emigração atípica mas, como dizia o nosso poeta:

E valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Novos rumos


Cheguei a uma encruzilhada na vida, está na hora de uma mudança de planos. Hoje deixo voluntariamente o local onde estou empregado desde que vim para a Polónia e passo a trabalhar para a empresa Vini More Społka Z o.o. de João Lima, são novos rumos que se tomam, novas oportunidades que surgem.

Passaram quatro anos e meio desde aquela primeira entrevista onde fiquei contratado quase imediatamente, aprendi muito desde então, conheci um bom pedaço deste nosso mundo graças a esta empresa, fica o meu agradecimento.

Fecha-se um ciclo e abre-se outro com a grande vantagem de ser - em grande parte - em língua portuguesa, em breve terei um novo patrão, português, homem do Norte, destemido e com ideias, como eu gosto.

Continuarei a viver a Polónia mas com Portugal e com a língua portuguesa mais perto e ouvida mais frequentemente.

Como dizia António Variações, esse homem à frente do seu tempo, Muda de Vida!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Encontro de patrícios lá para os lados da Wielkopolska

Panado com batata frita, cebola e uma fatia de queijo e um bizarro sortido de pierogi que o João praticamente nem tocou, tudo isto a meia-luz e acompanhado de Coca-Cola e sumo de laranja pois quem conduz, não bebe...

Graças aos computadores e à Internet já conheci imensas pessoas e - sem querer - arranjei inclusivamente casamentos - quem sabe do que estou a falar que se chegue à frente!

Sábado conheci mais um patrício, o João Jorge Azevedo Lima de Konin. A deslocação teve a ver com assuntos particulares mas também - como não podia deixar de ser - foi motivo de grande alegria pelo encontro de dois patrícios numa terra tão distante da pátria de Camões, uma pequena cidade na província da Wielkopolska.

Antes deste encontro já tinha conhecido outro português por terras polacas, o Geraldo Geraldes do blogue Divina Polónia, conversamos durante umas horas como se fossemos amigos de longa data, foi bom e recordo o Geraldo com o seu sorriso franco e com o seu sentido de humor refinado.

Geraldo, cá te esperamos.

Percorri 100 km em boa auto-estrada e esperei-o num centro comercial. Enquanto esperava entraram algumas pessoas, todos tinham caras de polaco excepto um individuo moreno. Era o João.
Foi refrescante poder falar em português e ouvir português, dizer uns saudáveis impropérios sem que ninguém entenda o que dizemos, falar sobre os temas típicos entre homens portugueses e conhecer algo mais de outros patrícios nestas paragens. Fiquei a saber, por exemplo, que o Misha é alto (eu imaginava o Misha pequenino) - mas isso deve ser culpa do avatar escolhido pelo nosso algarvio, não faz jus ao seus semblante!

Quando fui convidado a almoçar entramos num elegante restaurante polaco com a típica iluminação [praticamente inexistente], as rendas nas mesas as flores e velas a enfeitar a mesma. Tivemos um almoço à luz de velas - mas velas apagadas pois não haviam polacas!

2009 - Odisseia em Łódź


Não sei explicar o motivo mas desde sempre associei a Europa Central e de Leste a cultura, a música, orquestras e filarmónicas. Talvez tenha sido influência do filme 007 - Risco Imediato - The Living Daylights - com Timoty Dalton e a bela Myriam d'Abo que desempenha o papel de assassina do violoncelo e namorada de um mafioso moscovita, mas isso foi em 1987, há 22 anos atrás, hoje em dia escrevo este tópico num país que outrora se encontrava para lá da Cortina de Ferro.




A verdade é que a cultura musical ainda está bem presente na Polónia e pude assistir, na passada sexta-feira, a um espectáculo magnifico da Filharmonia Łódzka.

Integrado no terceiro aniversário do centro comercial Manufaktura, passou em ecrã gigante o filme, 2001 - Odisseia no Espaço (Odyseja Kosmiczna 2001) com a orquestra filarmónica de Łódź a tocar a banda sonora ao vivo, munida de todos os instrumentos, com coro e respectivo maestro.
Exceptuando alguns polacos mais excitados e barulhentos nas esplanadas e sendo entrecortada aqui e ali pelos gritos histéricos dos adolescentes no carrossel gigante, foi possível ouvir e apreciar a magnífica banda sonora do filme de Stanley Kubrik.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Polónia - A Espanha do Leste Europeu



De Espanha nem bom vento nem bom casamento, assim reza o provérbio mas da Polónia parecem soprar bons ventos e bons casamentos.

A Polónia, no parecer de Basílio Horta - presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) é a Espanha da Europa de Leste, vale a pena ler o artigo do Público:


O quarto maior destino do investimento português
Empresas portuguesas unem esforços para vingar na Polónia 10.03.2008 - 08h45 Raquel de Almeida Correia

"A Polónia é a Espanha do Leste", diz Basílio Horta. O presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) regressou sábado deste país, onde participou no lançamento da Câmara de Comércio Luso-Polaca, ouviu parte das 60 empresas nacionais lá instaladas e se aproximou do Governo local.
Os números comprovam: é o quarto destino em termos de investimento português e o maior em trocas comerciais, na Europa Central.

A investida começou em meados de 1990, com o grupo de distribuição Jerónimo Martins (JM), e culminou, até hoje, na criação de 60 empresas. Em 2006, a Polónia captou oito por cento do investimento português no estrangeiro, o que corresponde a 359 milhões de euros, ficando apenas atrás dos Países Baixos, da Espanha e do Brasil, com 28, 20 e 11 por cento, respectivamente, segundo o AICEP.

Uma aposta que garantiu ao capital nacional uma posição forte no país. A JM tornou-se líder em pouco mais de dez anos, com a cadeia de hard discount Biedronka. E o Millennium Bank, o banco do BCP na Polónia, atingiu, em 2007, os maiores lucros de sempre (121,8 milhões de euros).

Há, no caso polaco, uma tradição de investimento em rede, existindo muitas empresas que entram "à boleia" das já instaladas. O Millennium Bank, que hoje, de acordo com Vítor Pinto, responsável pela operação no país, "suporta financeiramente a entrada dos negócios portugueses na Polónia", recorreu aos colaboradores da JM quando quis realizar estudos para adequar a oferta ao mercado.

A construtora Mota-Engil também bateu à porta dos donos da Biedronka, tendo consultado Soares dos Santos, presidente do conselho de administração, antes de arriscar.

Hoje, esta estratégia mantém-se. A empresa de transacções electrónicas Payup, por exemplo, lançou-se, em Fevereiro, na Polónia, com a ajuda da Eurocash, grupo de distribuição português que comprou 49 por cento do seu capital e presta os seus serviços em 300 lojas. Agora, vai colocar, pela primeira vez, nas suas prateleiras produtos nacionais importados pela Atlantika, mais uma empresa portuguesa que quer vingar na Polónia.

sábado, 9 de maio de 2009

Ainda Łódź - as típicas vielas da cidade


As vielas de Łódź constituem um verdadeiro labirinto, algumas são apenas pátios, outras vielas de entrada e saída para outras ruas. Apesar de semelhantes cada uma conta uma história diferente e têm pormenores que as distinguem das demais.

Quem não conhece Łódź e as grandes cidades da Polónia costuma estranhar este locais recônditos que se acedem através de bafientas e escuras passagens nos velhos edifícios da cidade, há quem fique repugnado com a decadência, há quem fique fascinado e ainda quem repare que, por entre a degradação e falta de manutenção, existem edifícios e prédios absolutamente fantásticos. Sim, fantásticos.


Numa das passagens de acesso a um pátio. Pormenores que a luz de um flash consegue trazer de novo à claridade.


Muitos são do período anterior aos conflitos de 1914-1918 e 1939-1945 e outros são verdadeiras pérolas da Belle Epoque polaca, o século XIX e o estilo Secesja desfilam perante os olhares de turistas e locais sem que se apercebam, sem que entendam, que Łódź foi uma cidade que cresceu exponencialmente durante a revolução industrial, chamam-lhe inclusivamente a Manchester da Europa de Leste.

Durante a II Grande Guerra muitas famílias judaicas abastadas viviam nestes luxuosos apartamentos, a elite da cidade - não só judaica - usufruía de um nível de vida e comodidades que o comum cidadão apenas podia sonhar - quando sonhava.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Łódź que nunca veremos

A Grande Sinagoga de Łódź é hoje em dia um parque de estacionamento

A Polónia foi invadida por o exército do III Reich a 1 de Setembro de 1939, não houve sequer uma declaração de guerra.

Como em muitos outros acontecimentos na história a invasão deste país foi feita graças a uma operação de bandeira falsa, isto significa que os nazis simularam um ataque de forças polacas a uma estação de rádio alemã na Silésia.
Os operacionais nazi vestiriam uniformes polacos e invadiriam a estação radiofónica difundido uma mensagem anti-germânica, para que o ataque tivesse credibilidade a Gestapo entregava um silesiano-alemão - simpatizante polaco - de nome Franciszek Honiok.
Honiok seria vestido de modo a parecer um sabotador, abatido com uma injecção letal e o seu cadáver baleado com tiros. Seria posteriormente fotografado e mostrado às autoridades e imprensa, a qual teria um papel preponderante na galvanização das massas contra a Polónia.

O acontecimento de 31 de Agosto de 1939 ficou conhecido como o Incidente de Gleiwitz (Prowokacja gliwicka); a violência e destruição começara.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Morreu Vasco Granja


Vasco Granja 1925 - 2009


Morreu uma referência da minha infância, Vasco Granja.

Em Novembro de 2008 criei neste blogue uma mensagem acerca de Vasco Granja, ele faz parte de muitas gerações de portugueses, não só das gerações pós-25 de Abril como a minha.
Vasco Granja deixa obra, não é apenas um apresentador de desenhos animados da Europa Central e de Leste.

Vasco Granja lutou pela liberdade num Portugal ditatorial, foi preso pela PIDE, torturado e espancado por a polícia do regime Salazarista, divulgou cinema proibido pelo regime, mostrou a um país conservador e parado no tempo que noutras paragens se faziam desenhos animados divertidos e sem violência, muitos deles eram feitos na Polónia, em Łódź. Foi um grande dinamizador cultural.

Vasco Granja, descanse em paz. Portugal ficou mais pobre.

A inconfundível voz de Vasco de Granja em registo da TSF.

Pessoal... e Transmissível

http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917512&audio_id=896679

Majówka - Mini-férias na Polónia

Foi bom, mas foi-se. Os três dias de dolce fare niente passaram - como de costume - a correr, mal deu para descansar!

Maio é um mês especial para os polacos e para os que habitam neste país agora verdejante.
As agruras daquele (ainda recente) Inverno com neve e gelo, a sacudir neve do carro e dos sapatos, sem poder ir à varanda sem congelar parecem ter sido há muito mais tempo do que realmente foram.
A Primavera chegou com todo o seu ímpeto e praticamente já não há árvores sem folhagem.
Maio é de facto um mês especial para os polacos, é o mês do fim-de-semana prolongado e das mini-férias graças a um curioso "ajuntamento" de datas festivas que começam com o 1 de Maio e acabam com o Dia da Constituição, a estes dias chamam-lhes Majówka o que em português daria algo como "Maiada".

O 1 de Maio na Polónia não é o Dia do Trabalhador, isso de celebrar feriados de comunistas é mesmo e absolutamente para esquecer! Para sempre, até ao fim dos tempos.
O 1 de Maio é pura e simplesmente um dia de feriado nacional, diz-se em polaco Święto Pracy.

Biało i czerwony (branco e vermelho). A bandeira oficial desde 1919. Vermelho simbolizando a trágica história da Polónia, feita de derrotas, sangue derramado mas sempre com vitórias, a luta pela sua independência. Branco simbolizando a pureza e a paz, a honra.