segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Crónica de uma ida ao Consulado de Portugal em Varsóvia



O Bilhete de Identidade estava quase a expirar, ainda ontem tinha ido ao Registo Civil na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e hoje o tal "Validade: 20/10/2009" que me parecia tão distante havia chegado.

Tantas coisas mudaram neste ínterim de cinco anos a começar pelo seu portador que de rapaz magrinho passou a homem "robusto" e portador de uma visível barriga que, como dizia, o Pedro Rodrigues é a curva ascendente do nível de vida. Curiosamente ninguém se orgulha desta curva ascendente mas pronto sempre podemos dizer que é genético e característica dos latinos...
 Estes cinco anos compreenderam uma autentica revolução na minha vida.  A ultima alteração feita no BI foi ao estado civil onde passou a constar o famoso CAS. Entretanto mudei de país, para a improvável imigração na Polónia, e sou hoje em dia o pai babado de dois meninos luso-polacos, essa nova estirpe de portugueses resultantes da Diáspora lusitana tão bem descrita há mais de 500 anos pelo nosso poeta Camões nos Lusíadas!



Sexta-Feira passada fui a Varsóvia de comboio, já não o fazia há mais de oito anos! O automóvel foi sempre o meio de transporte utilizado e as idas a Varsóvia apenas para chegar ao Okęciem, o aeroporto internacional polaco. A estação de caminhos de ferro Łódź Fabryczna continua igual a si mesma com o seu aspecto decadente, rodeada de vagabundos e bêbedos nas entradas e com as paredes cinzentas ao bom estilo da PRL (República Popular da Polónia), vide, tempos da outra senhora.

Surpreendido fiquei ao entrar num moderno comboio e não nos "jurássicos" comboios de outrora com as locomotivas "socjalistyczny komunistyczny" e as carruagens com compartimentos e cortinas espessas que, diga-se de passagem, eram convenientes para a privacidade e para casais de namorados mais fogosos mas esses tempos já lá vão e agora entramos em carruagens com janelas panorâmicas, ar condicionado, painéis informativos e casas de banho limpas com portas automáticas. O comboio parte às 8:58 em ponto, silencioso e confortável. O bilhete de ida-e-volta, Łódź Fabryczna-Warszawa Centralna custa pouco mais de 60 złoty, em segunda classe.

Apercebemos-nos daquilo que é a verdadeira Polónia quando os muros com os graffiti dos fãs dos clubes de futebol ŁKS ou Wydzew dão lugar a floresta e a campos verdejantes a perder de vista, casarios aqui e ali, casais rurais, prados, vacas a pastarem e pequenas localidades que parecem ter apenas um passagem de nível e meia-dúzia de casas. A maior parte da Polónia é isso mesmo, campo, planícies, colinas, floresta e lagos.

Em pouco menos de uma hora e meia, com paragens em localidades mais habitadas, começo a ver de novo grafittis nos muros só que desta vez é o clube Legia Warszawa que impera, estamos em território de Varsovianos, a capital da Polónia não está tão longe de Łódź como isso mas ali não há lugar para os violentos fãs dos clubes da cidade de Łódź, nem piam.
Depois de uma breve passagem por um túnel negro como o breu, a recordar-me a entrada em Porto São Bento vindo de Famalicão,  eis-nos chegados a Warszawa Centralna, esse ícone do Comunismo polaco que é pouco mais velho do que eu.



Curioso como a nossa percepção das coisas muda. Há nove anos atrás quando vi Warszawa Centralna pela primeira vez senti um misto de fascínio e repugnância. Aquela estação tinha um aspecto verdadeiramente "Orwelliano", com as suas paredes e pilares negros, sem luz natural, com as suas galerias onde abundam os pequenos snack-bar e quiosques, mesmo ali ao lado de outro ícone do "Grande Irmão" soviético, o Palácio da Cultura.
Recordo-me do cheiro a comida invadir as minhas narinas e a dificuldade que foi arranjar alguém que falasse inglês e nos dissesse onde estava o comboio para Łódź.

Agora sou outra pessoa, entendo o que está escrito nos painéis informativos, o que vão dizendo os transeuntes, pergunto algo em polaco e entendem-me sem dificuldades, o cheiro que emanam os restaurantes agrada-me, cheira a zapiekanka, sandes, pastelaria e doçaria polaca a sair do forno, cheira a pieczywo (pão) conheço-os, aprecio alguns deles. O odor já não me repugna, abre-me o apetite! Algumas miúdas que passam são giras, são tantas... conheço o estilo, aqueles olhos muito azuis ou verdes com uma forma felina, as pernas altas, já não fico deslumbrado, sorrio.  Sou um português "polonizado", não há margem para duvidas.

Graças ao fórum Portugueses na Polónia sei onde me dirigir, os meus compatriotas ajudam-me silenciosamente. No tecto sigo as placas que dizem Praga, compro dois bilhetes de eléctrico, subo as escadas e estou no exterior, o sol brilha do mesmo modo que brilhava lá em Portugal, há cinco anos atrás, mas faz mais frio, tenho de usar um casaco e arrependo-me de não ter um lenço para o pescoço, sopra um desagradável vento frio.



Lá está o Palácio da Cultura a espreitar por detrás de Warszawa Centralna, o trânsito é constante e a velocidade dos automóveis excessiva para uma zona urbana e central, os carros que passam são, regra geral, mais modernos e melhores do que aqueles que vemos em Łódź, estamos na capital, recordemos-nos.

Um eléctrico pára, consigo ler Rondo Waszyngton e sei que devo entrar nele. Encosto-me no fundo do eléctrico a contemplar o cenário, estranhamente uma teia de aranha enrola-se nos meus cabelos. Uma cigana, ou romena, entra com uma criança ao colo e com um copinho de iogurte vazio na mão. Diz em polaco dla dzieci proszę (para os meninos por favor) e vai pedindo à medida que vai avançando pela carruagem. Há quem recuse e o diga, outros ignoram-na, quando chega a mim tiro 1,50 złoty da algibeira do casaco, não os dou pela cigana mas sim pelo bebé que nem se apercebe de nada.
A paisagem urbana escorre pela janela suja do eléctrico, a luz é fraca e dá um aspecto bruxuleante ao Vístula, passo numa ponte que queria percorrer a pé e recordo-me do que o "nosso" algarvio Nuno B. tinha dito no fórum - "passar a pé na ponte do Vístula? ", vejo alguns peões nos passeios da ponte.

Antes de chegar à rotunda de Washington entra um cigano com alguns cinco ou seis anos, cabisbaixo pede dinheiro aos passageiros, repete a mesma frase vezes sem conta, sai do vagão sem uma moeda, lá fora esperam-no a mãe e mais irmãos. Finalmente chego onde queria, a imagem que tinha visto no Google Earth está em frente de mim, a três dimensões. A ulica Francuska já se vê, a Embaixada está a pouco metros.

Chegando a território português

Passando um banco vemos a Embaixada, facilmente identificada pela placa com a esfera armilar e as quinas. Toco a campainha, identifico-me e digo um bom dia, respondem-me em polaco. O segurança manda-me ir à volta, não vou portanto passar pelos Mercedes e BMW com matrícula diplomática que se encontram lá dentro. Ao lado fica o Consulado e é ai que devo tratar de documentos.

Uma senhora loira abre-me a porta e deseja-me um dzień dobry, respondo com um bom dia e com um dzień dobry. Não me choca o facto de ser uma polaca a atender-me num local público português, acredito que seja difícil arranjar um português que fale tão bem o polaco como alguns polacos falam português.
Preencho os papéis, recorto as fotografias e conversamos um pouco.  Conto-lhe sobre o fórum Portugueses na Polónia que é conhecido para aqueles lados, o Rui Vilela também é conhecido dessas lides dos fóruns e do passado 10 de Junho, fico a saber que em Varsóvia há uma loja espanhola com produtos portugueses, a Solara.

Pelos vistos causa alguma surpresa a repentina invasão de Łódź por portugueses, há alguns anos atrás não havia tal espécie mas hoje em dia são cada vez mais. A maioria são homens casados, uns com filhos outros não. Brinco com o facto de serem as polacas as culpadas disso tudo, da "colonização" da Polónia, a senhora que me atende sorri e acaba por concordar.
Deixei de ser um emigrante invisível, fiz o Registo Consular, consto para estatísticas, para celebrações e eventos especiais que celebram datas importantes do nosso país e da nossa república, em breve irei estar recenseado e poderei votar por correspondência, a minha morada no BI vai passar a ser Łódź - Polónia, quem diria?!
Ao contrário de alguns patrícios não tenho nenhuma queixa a fazer ao atendimento dos serviços consulares. Fui bem atendido e fui-me embora com tudo tratado. Cabe-nos também a nós, cidadãos portugueses sermos patriotas, sermos embaixadores de Portugal, assim alguns de nós o têm feito, seja através dos seus negócios e sucesso pessoal, blogues, fóruns, programas de intercâmbio de estudantes ou pela sua presença neste país que nos recebeu e que mostra interesse pelo nosso.

Não tenham duvidas que a comunidade portuguesa começa a crescer e a tomar forma, estamos a deixar de ser heterogéneos para sermos homogéneos. O nosso poeta conhecia o nosso espírito de aventura, a capacidade de adaptação na adversidade, Camões sabia-o e escreveu-o logo no início dos Lusíadas:

 As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
(...)
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte

Camões, Lusíadas, Canto I.










4 comentários:

Anónimo disse...

Os meus parabens por toda a sua descrição que fez neste post. Excelente.
Conheço essa viagem bem, já que quando me desloco a Lodz, 2 a 3 vezes anos vôo via Varzóvia, e faço sempre essa viagem de comboio, já que de carro é bastante dificil.... E essa viagem de comboio é excelente e exactamente como diz. Inclusivé a chegada/partida de Lodz Fabrizna.
Embora desta ultima vez que ai estive, me disseram que toda a lodz está em grande remudelação,inclusivé essa estação, agora sinistra.

Mas deixe-me apresentar: chamo-me Pedro e sou do Porto onde vivo com a minha companheira que é Polaca de Lodz, e viajo algumas vezes até essa cidade fantástica e de pessoas fantásticas também com alguma frequência.
tenho adorado as suas descrições e revejo-me em alguns sitios que fala, inclusivamente o restaurante onde fizeram o encontro de tugas, jantei lá em 7 de Setembro de este ano.
voltarei aqui com muito prazer para rever na sua escrita, essa terra.

Abraço

Pedro Lino

Ricardo Taipa disse...

Obrigado Pedro Lino

São incentivos como o do Pedro que me levam a continuar a partilhar estas experiências em terras polacas.

De facto Łódź está um caos com as obras de renovação das condutas de água e não há muitos atalhos que nos valham quando estamos ao volante. Hoje começou a nevar e imagino como vai ser ainda mais complicado conduzir!

Visite-nos e participe no fórum dos portugueses na Polónia, não foi feito apenas para quem vive aqui.

ab

Ricardo

Anónimo disse...

Viva Ricardo,

As sensacoes que tive foram semelhantes.
Antes da adesao à UE, uma Varsóvia estranha, ao nível de um bom filme do agente 007 - James Bond.
Depois, mais uma cidade Europeia... Uma cidade Cosmopolita.

Já em 2003 necessitei de ir ao Consulado e deve ter sido a mesma Senhora Loira, Simpática que me atendeu. :-) Fui muitíssimo bem recebido, inclusivé pelo próprio Consul.

Agora que voltei para ficar, tenho que me ir registar ao consulado, mas ir la de propósito nao me parece.

E a comunidade Lusa... Essa comeca a ter cada mais expressao e dimensao. Assim ajudasse a Economia! ;-)


Abraco,
Daniel

Anónimo disse...

Olá Ricardo!

Sou uma portuguesa que se encontra na Polónia, na cidade de Tarnów a participar no programa ERASMUS.
Andava por aqui aflita à procura de ajuda, uma vez que perdi o meu Cartão do Cidadão e não tenho passaporte encontrei o seu blogue.
Poderia me dar mais informação de como foi no Consulado? Pois necessito me deslocar a Varsóvia o mais rápido possível!

Cumprimentos
Ana Ventura