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sábado, 21 de maio de 2016

A Polónia é um país racista? Não, mas tem racistas...



Recentemente na imprensa portuguesa veio à tona um incidente entre estudantes de intercâmbio portugueses e um cidadão polaco na cidade de Rzeszów (leia-se Jé-chuv) no Leste da Polónia, a aproximadamente 80  km da fronteira com a Bielorrússia. A agressão aconteceu sem motivo aparente e alegadamente por terem sido confundidos com... árabes. O caso foi motivo suficiente para muitos portugueses emigrados na Polónia serem contactados por jornalistas nacionais. Nas redes sociais e nas páginas dedicadas aos portugueses e à comunidade portuguesa neste país o tema revelou-se fonte de polémica e desacordo entre aqueles que nada têm a dizer de relevante contra os polacos e outros que já sentiram na pele confrontos e agressões verbais, sobretudo pela sua cor de pele.



Os jornalistas queriam saber se os que aqui residem se sentem ameaçados e se conseguem viver normalmente o seu dia-a-dia. As respostas dividiram-se entre aqueles que nunca passaram por tal e outros que já tiveram situações desagradáveis com comentários claramente racistas e ameaças veladas à sua integridade física por cidadãos polacos.

Ponto comum - e aqui também contam exemplos que conheço nos quase treze anos de emigração - é a cor da pele sobretudo com negros e mulatos mais do que a nacionalidade per se, no entanto desde a crise dos refugiados e consequente irresponsabilidade de Angela Merkel e da UE na organização e logística para recepção de refugiados de guerra e migrantes económicos (com os migrantes já ocorria há mais de uma década em Calais, França, e Dover, Reino Unido, mas a UE fez sempre vista grossa) os movimentos patriotas e nacionalistas, um pouco por toda a Europa, reaparecem com mais força e com maior número de apoiantes - vide exemplo da FN  de Marie Le Pen na França ou o UKIP e BNP (British National Party) no Reino Unido. Na pacifica e tolerante Suécia os partidos que se manifestam contra a emigração descontrolada e contra o politicamente correcto ganham mais notoriedade. Geert Wilders na Holanda foi inclusivamente processado por alegados comentários racistas contra a imensa e crescente comunidade marroquina e islâmica nos Países Baixos. E ainda temos do lado de lá do Atlântico a crescente popularidade de Donald Trump...

A Polónia, um dos países mais cristãos e católicos do continente Europeu, senão de todo o planeta, não é excepção e o núcleo da  sua identidade está intrinsecamente ligado a esta religião. Relembremos que a Polónia é um país maioritariamente católico e praticante situado entre outros países luteranos e ortodoxos e ainda aqueles onde a religião cada vez  mais é relegada para segundo plano como na Escandinávia e Federação Russa.

A ascensão do partido PiS (Verdade e Justiça) ao poder (executivo e presidencial) arrasta consigo toda esta "artilharia" religiosa e a Polónia conservadora onde Jesus, Maria, a cruz de Cristo, a missa e uma fervorosa fé católica se junta aos media religiosos como a Radio Maryja e o canal televisivo TRWAM de Tadeusz Rydzyk. Como medida populista a promessa de "subsídio de criança" aos pais com mais do que um filho (500 PLN mês ou 120 EUR por criança) revelou-se genial, consolidando em certos meios o garante do apoio popular a este partido por muitos anos - pelo menos se conseguirem cumprir (pagar) a promessa...

Com esta conjuntura politica e sem uma palavra critica do governo contra aqueles que se manifestam de modo xenófobo e racista - o instituto governamental responsável pelo tratamento destes casos foi recentemente fechado do dia para a noite - os movimentos de extrema-direita, amiúde ligados a claques de futebol agressivas, a apoiantes de ideais de pureza racial ariana ao estilo Nazista, e à intolerância contra a diferença, seja ela  religiosa ou não, crescem a  olhos vistos sobretudo contra a ideia da "Islamização da Europa". 

Este conceito de Islamização da Europa tornou-se extremamente popular há alguns anos atrás com vídeos virais sobre o possível futuro do nosso continente em 2050. Nesses vídeos é explicado que a actual taxa de fertilidade na Europa será resolvida por esses emigrantes que, ao contrário dos autóctones, se  reproduzem num modo incomparável.
Cidades como Marselha e Malmo na Suécia serão  maioritariamente muçulmanas tal como outras  no Reino Unido, Holanda, Bélgica e Alemanha, no espaço de duas ou três décadas. Assim pretendem passar a mensagem os autores do vídeo.

Capa da revista polaca w Sieci que gerou grande controvérsia. Braços peludos e pele morena violam a Europa, simbolizada pela mulher branca vestida com a bandeira da UE. Coitados dos "tugas" peludos (como o vosso escriba) e os morenos com barbas e eventual "monochelha"...

Os polacos, que vivem no Reino Unido e na Escandinávia, contam histórias dos efeitos do politicamente correcto, do multi-culturalismo onde a integração é frequentemente mínima com exigências de respeito absoluto por razões religiosas como, por exemplo, exigência de carne Halal em escolas públicas, proibição de vestimenta ocidental para evitar "provocar" a tentação nos homens de fé islâmica, a crescente insistência da aplicação da Lei da Sharia no Ocidente e a proibição de imagens religiosas cristãs mesmo durante o Natal e Páscoa. 



Este é um dos principais motivos  para esta crescente onda de anti-islamismo na Polónia aliado a um facto histórico que enche os polacos de orgulho e que ocorreu em 1683, a Batalha de Viena, quando o rei polaco Jan Sobieski III - durante a fase histórica da República das Duas Nações (Polónia-Lituânia) - derrotou os Turcos-Otomanos, protegendo a Europa de uma longa e violenta guerra religiosa, alterando para os séculos seguintes a história do nosso continente. 

Na Polónia moderna a comunidade árabe não cria conflitos e está bem integrada na vida polaca; trabalham, têm os seus próprios negócios e actividades, muitos concluíram aqui os seus estudos superiores e a maioria casou com cidadãos polacos formando família. Conheço alguns deles; sírios, marroquinos, argelinos, iranianos, egípcios e tunisinos. Gente boa que, ao contrário daquilo que muitos  pensam, conseguem facilmente ser nossos amigos e nós deles, alguns são mais restritos no consumo de álcool ou carne de porco pela sua fé no Islão mas outros vivem perfeitamente bem e adaptados ao nosso modo europeu, ocidental.

E onde reside a Polónia racista? Reside na intolerância de alguns cidadãos polacos que não são o orgulho desta nação, são provocadores, são de mente fechada ao estilo Mississipiano dos  séculos precedentes e das comunidades herméticas onde o Ku Klux Klan ainda hoje congrega, são aqueles que fazem sons de símio quando um jogador negro toma a posse da bola ou quando compra bananas no mercado, aqueles que chamam negro sujo quando o vêem com uma mulher branca ou que ameaçam "limpar o país" de pretos, de indianos, de  árabes e judeus, dos homossexuais, das lésbicas, dos ateus, dos que são ecologistas e vegetarianos, daqueles que preferem a bicicleta ao automóvel ou que pura e simplesmente recorrem a métodos anticoncepcionais que ficam fora daqueles recomendados pela Igreja Católica...

Os polacos que assim não pensam e agem foram denominados de Najgorszy Sort Polaków (o pior tipo de polaco) por, o agora comparado a Viktor Orban, Jarosław Kaczyński. Tal como os nossos compatriotas que já foram vitimas de xenofobia e racismo há milhares de polacos e estrangeiros nacionais da UE e não só no mesmo cesto... O problema é cultural e está longe de ser resolvido nas próximas décadas. É acima de tudo um problema polaco e entre polacos.

Uma coisa é certa, a Polónia não é partidária do politicamente correcto e como típica nação eslava tem poucas contemplações e paciência com interferências externas ao seu modo de vida e organização. Há-de ser sempre uma tarefa hercúlea pretender de nações eslavas comportamentos similares aqueles dos europeus do Norte, se ao longo dos seus mais de mil anos de história com invasões, divisões e tentativas de aniquilação a nação polaca  nunca desapareceu e foi incrivelmente teimosa na manutenção do seu idioma (não há cá acordos ortográficos  há séculos) e cultura então há que esperar sentado por uma "revolução-cultural", na realidade as coisas aqui mudam com o tempo mas demora e resolvem-se entre os que aqui nasceram...



domingo, 13 de julho de 2014

Será a Polónia uma nação dividida?


Não há quem seja mais critico com a Polónia e com os polacos do que eles próprios. Ao longo de onze anos de vida neste país não me recordo de vez alguma em que, ao tecer um elogio à Polónia ou aos polacos, quando em conversa com um nativo, não venha uma resposta com alguma negatividade ou critica mais ou menos contundente. Do mesmo modo se criticarmos a Polónia e os polacos com um nativo podemos ter dois tipos de reacção; ficarem algo ressentidos connosco ou baterem ainda mais no ceguinho... 

Há uns anos atrás neste blogue escrevia sobre o facto dos polacos serem ou muito simpáticos e prestáveis ou de uma antipatia a roçar o rude. Bem... ainda não mudei de opinião volvidos estes anos todos e duvido que venha a mudar se bem que, confesso, não me fazer espécie a antipatia nos polacos enquanto houverem polacas simpáticas e bonitas com quem conviver e privar... 

Vem isto a propósito de um artigo do The Economist intitulado "Poland's second golden age. Europe's unlikely star" (A segunda era dourada da Polónia. A improvável estrela da Europa) no qual, com recurso, à frieza dos números e das estatísticas se conclui que a Polónia tem uma economia crescente e estável em contraste com a maioria daquelas na UE e dos antigos países do Bloco de Leste. Explicações para este fenómeno vão desde as reformas feitas logo em 1989 passando pela rápida adopção de uma economia de mercado agressiva a recursos como mão-de-obra qualificada e salários baixos. 



Quem parece não gostar desta "novidade" são alguns polacos - e descendentes de polacos - com acesso a um computador que comentam a o artigo como propaganda politica, mentira descarada, tendencioso, ridículo entre outras observações. 
Como pode a Polónia prosperar, comentam, quando mais de dois milhões polacos emigraram desde a abertura das fronteiras, quando 50% dos engenheiros recém-formados emigram e existe miséria e desemprego? Dizem que a outrora gigantesca industria polaca desapareceu, que não há nenhuma empresa polaca com projecção no estrangeiro e que tal como a Federação Russa estão a tornar-se um país de oligarcas ou de corruptos como os italianos. São uma colónia...


terça-feira, 24 de junho de 2014

O escândalo e as escutas de Sikorski


As águas calmas em que navegava o governo do primeiro-ministro polaco Donald Dusk agitam-se face à tormenta causada pelos ventos levantados pelo ministro dos negócios estrangeiros Radek Sikorski em consequência de escutas ilegais entre o mesmo e o ex-ministro das finanças Jacek Rostowski. A publicação Wprost obteve as conversações e publicou-as levando o escândalo para fora das fronteiras da Polónia atingindo especialmente as relações diplomáticas entre o Reino Unido e os Estados Unidos da América. 


A revista Wprost e a sua capa "Liberdade de Expressão" como o lettering do Sindicato Solidariedade a recordar tempos de opressão e combate aos repressores.  


"Ele f.... tudo, e não o entende". Foi deste modo que Sikorski se referiu aos planos de reforma das relações entre o Reino Unido e a UE sugeridos por David Cameron. 
A conversa cai particularmente mal numa altura em que os ingleses se sentem ressabiados com os números da emigração nas ilhas britânicas e com a sobrecarga no seu sistema de subsídios e segurança social a par com o crescimento de sentimentos anti-UE alimentados em parte por o partido nacionalista de direita e euro-céptico UKIP.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

David Santiago Rybczyński - luso-polaco desaparecido

Nos media polacos e nas redes sociais - nomeadamente no Facebook - lemos sobre o desaparecimento de um pequeno luso-polaco de quatro anos, filho de pai polaco e de mãe portuguesa. As notícias dão conta de um rapto, feito por dois homens e mãe, que ocorreu em frente do portão da residência onde o pequeno David vivia, há dois anos, com o seu pai - detentor da custódia. 


A história é contada na primeira pessoa (por o pai) que desde o dia 6 de Julho não sabe do paradeiro do seu filho. A cadeia televisiva polaca TVP entrevistou o progenitor, filmou a casa, o quarto e o infantário do petiz.

A vivenda de Jacek tem todas as condições; um bonito jardim e um quarto com brinquedos que até há pouco tempo era parte do pequeno mundo de David. A versão da mãe não se sabe; de acordo com Jacek Rybczyński os contactos de Cláudia Fernandes Santiago (o nome foi divulgado nos media polacos) em Portugal não estão disponíveis, ninguém atende telefones e telemóveis. Ninguém sabe de David, nem na Polónia nem em Portugal.

Jacek diz aos repórteres que vivia há dois anos com o seu filho e que a mãe não mostrava interesse na criança, desse modo e depois da separação do casal a custódia do menor foi atribuída ao pai. Um tribunal de Varsóvia decidiu desse modo depois de uma avaliação psicológica feita à progenitora. De acordo com os documentos divulgados pela TVP, um Dr. Bohdan Bielski, psicólogo do tribunal de família, entendeu que a mãe não teria condições psicológicas para ter a custódia de David. 

Depois do rapto a polícia polaca tentou, em vão, controlar as fronteiras terrestres e aéreas mas a investigação continua não se sabendo se a Policia Judiciaria portuguesa está no terreno. De acordo com Jacek a Interpol está envolvida nas investigações.


No Facebook encontramos o apelo do pai e no Youtube alguns vídeos da criança antes do rapto.

Dizia Groucho Marx que o casamento é a principal causa do divórcio mas devemos sempre ter em conta que amiúde entre as desavindas dos progenitores está um coração de criança e uma vida que deverá ser de alegria. Esperemos sobretudo que o pequeno David reapareça e que a nossa compatriota venha a público mostrar a sua versão dos acontecimentos.

Por favor divulguem. 


domingo, 10 de outubro de 2010

Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.

Há noticias que nos chocam pelo facto de nos identificarmos - de algum modo - com elas. Este fim-de-semana os principais diários portugueses destacaram um trágico acidente de viação (mais um dos muitos) em Portugal, no fatídico IP4. Um Renault Megane ultrapassa um autocarro com atletas e não evita o toque num pequeno Skoda Fabia que seguia do outro lado da estrada, na sua mão, correctamente. O despiste foi inevitável e a colisão do Skoda com o autocarro provocou a morte dos quatro passageiros do ligeiro; três deles eram cidadãos da Polónia. Um rapaz e duas raparigas. O condutor era português.




Por um lado conheço a realidade portuguesa e a "guerra civil" nas estradas do meu país, por outro conheço a Polónia e os polacos e fui, em tempos, um estudante Erasmus, como eles. Ao longo dos trinta e um anos em que vivi em Portugal assisti, ouvi e li sobre inúmeros acidentes nas estradas portuguesas. Conduzir em Portugal é aceitar que não há privilegiados, que não é o facto de termos oito airbags e estarmos "atados" dentro de um carro que nos pode salvar as vidas. Não há garantias de nada. Só a esperança que tudo corra bem e uma condução defensiva nos podem tranquilizar.
Maciej Hussak, Monika Rosinska e Edyta Rozanska eram três estudantes polacos em Portugal. Chegaram ao nosso solarengo país, como tantos outros, na busca de novas aventuras e desejando embeber-se naquilo que temos de melhor. Estiveram no Algarve, divertiram-se e terão, com certeza, admirado a beleza do nosso Atlântico, molhado os pés no mar e ouvido o bater da ondas, imagino que terão apreciado detalhes que para nós, portugueses, nos passam ao lado. Não há palavras que cheguem nem consolos suficientes. Esta noticia é sentida como se fosse vista pelos dois lados. Tragedia to był.

Tal como o Nuno Bernardes disse no seu blogue já não sabemos bem onde está a nossa casa, já somos um pouco dos dois países. "É tempo de voltar a casa… até que eu venha a casa de novo." É uma sensação estranha esta, como se fosse uma vida dentro de outra vida. Pensamos porque motivo estamos na Polónia, porque viemos aqui parar e também porque razão deixamos para trás o mar, a comida, o sol e os nossos sítios. Faz-me imensa falta o mar e o Báltico não preenche esse vazio. O Báltico é um mar de facto mas falta-lhe o vigor do Atlântico. O Atlântico é um oceano e quem vive perto dele sabe como uma vaga, em altura de mares-vivas, pode arrastar o que quiser e fazer desaparecer para sempre quem o desafiar. Por isso Fernando Pessoa escreveu:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Onde quer que estejam, nesse dito "lado lá" tenho a convicção que o Maciej, a Monika e a Edyta terão achado que tudo valeu a pena.