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terça-feira, 24 de junho de 2014

O escândalo e as escutas de Sikorski


As águas calmas em que navegava o governo do primeiro-ministro polaco Donald Dusk agitam-se face à tormenta causada pelos ventos levantados pelo ministro dos negócios estrangeiros Radek Sikorski em consequência de escutas ilegais entre o mesmo e o ex-ministro das finanças Jacek Rostowski. A publicação Wprost obteve as conversações e publicou-as levando o escândalo para fora das fronteiras da Polónia atingindo especialmente as relações diplomáticas entre o Reino Unido e os Estados Unidos da América. 


A revista Wprost e a sua capa "Liberdade de Expressão" como o lettering do Sindicato Solidariedade a recordar tempos de opressão e combate aos repressores.  


"Ele f.... tudo, e não o entende". Foi deste modo que Sikorski se referiu aos planos de reforma das relações entre o Reino Unido e a UE sugeridos por David Cameron. 
A conversa cai particularmente mal numa altura em que os ingleses se sentem ressabiados com os números da emigração nas ilhas britânicas e com a sobrecarga no seu sistema de subsídios e segurança social a par com o crescimento de sentimentos anti-UE alimentados em parte por o partido nacionalista de direita e euro-céptico UKIP.

domingo, 21 de novembro de 2010

João Garcia esteve em Łódź

Inserido no programa do 12 Explorers Festival, organizado pelo Clube de Trekking de Łódź, o alpinista e recordista português João Garcia foi um dos convidados de honra do festival, junto com outras figuras de craveira do alpinismo mundial. Não poderia perder a oportunidade de ver ao vivo um dos portugueses que nos orgulham. João Garcia foi o primeiro luso a escalar o monte Evereste e atingir o seu cume (8848 metros) - ainda para mais sem recurso a oxigénio artificial. Estávamos em Maio de 1999.


Muitos de nós recordam-no por esse feito que quase lhe custou a vida e deixou-lhe marcas profundas a todos os níveis; sustivemos a respiração durante dias na espera de noticias sobre a sua recuperação em Espanha. João Garcia não desistiu e continuou a sua paixão. Curiosamente o alpinista português conhece polacos há bem mais tempo do que a maioria de nós, emigrantes na Polónia, a sua primeira expedição (1993) aos Himalaias foi com uma equipe polaca liderada por Krzysztof Wielicki, um dos maiores "himalaistas" do mundo que escalou o Evereste em pleno Inverno. Uma façanha única que elevou a bandeira polaca ao ponto mais elevado do planeta Terra.

Na passada Sexta-Feira desloquei-me à Avenida Politechnika para assistir à sua palestra. Tipicamente polaca a organização do evento; pouco publicitada e algo caótica em termos de informação concreta quanto ao local onde decorria mas, por outro lado, uma grande quantidade de público aderiu, sobretudo estudantes do Politécnico de Łódź. Quando cheguei havia um atraso e ainda decorria a apresentação anterior, dos aventureiros norte-americanos Stephen Bouey e Steven Shoppman. Entre milhares de quilómetros de estrada os americanos mostravam algumas das suas peripécias que incluiu beberem sangue de cobra ou preparem um borrego. Finalmente consegui entrar na sala e ficar em pé numa das alas, ao lado esquerdo do palco.

João Garcia foi apresentado pelo anfitrião e estava acompanhado de uma tradutora. Foi com um sorriso e com orgulho que o vi pela primeira vez; estava vestido com jeans e com uma camisa de flanela, sem quaisquer pretensões e mostrando apenas aquilo que ele é, um modesto aventureiro e explorador - o nosso Indiana Jones, por assim dizer.

Foram apresentados três filmes de escaladas a montanhas - que não incluíam a escalada ao Evereste - e por vezes, na ausência de dobragem em polaco, ouvi em português os comentários de João e dos seus amigos do Clube de Alpinismo Português, os quais, provavelmente, só eu a minha mulher entendemos pois não ouvi mais risos, especialmente na parte em que um dos companheiros de João diz - Pá... está um frio do ca... um frio do caraças! O documentário elucida-nos sobre o lado técnico de uma escalada. Não é apenas subir por ali acima e pregar ferragens e cordas até se chegar ao cume. Uma escalada pressupõe dinheiro (patrocínios) um estudo prévio, um aclimatizar, o acampamento ou base num local ideal e o cuidado em consumir a ração e sobretudo obter água. Convém também estar em comunicação com o exterior. Há montanhas que não têm neve e gelo nos cumes e se não houver uma reserva de água não há chances de sucesso. 

No fim do documentário o anfitrião propôs ao público fazerem perguntas a João Garcia. Na falta de voluntários (ou então devido à vergonha que a maioria dos polacos têm em falar inglês em público - são um povo tímido) ofereci-me para lhe fazer uma pergunta. De repente estou com um enorme microfone vermelho na mão - que ainda por cima não estava ligado - e com centenas de polacos a olharem para mim. Foi inevitável... A  garganta secou, senti a mãozinha tremelicar ligeiramente e a minha pergunta, em inglês, saiu algo atrapalhada, ao que me foi pedido por João para refazer-la em português.  Meu dito meu feito e perguntei-lhe: - Sendo o João o nosso recordista mundial, o que há para fazer depois de uma escalada ao Evereste? João disse que era uma pergunta típica (lá se foi a  minha originalidade) aquela sobre o futuro. A resposta não poderia ser melhor; João Garcia não pratica montanhismo para obter apenas recordes. Na realidade as escaladas recordistas são uma das melhores ferramentas de marketing para obter patrocínios, tão necessários para empresas deste tipo. A quantidade (leia-se em altitude) não é o mais importante, a qualidade é que conta. Lugares novos, cumes nunca antes explorados e escalados.

 Para a posteridade fica o autógrafo e a fotografia 

Quando vi João Garcia na reportagem do noticiário da RTP, na sala do apartamento de Famalicão, estaria longe de pensar que o viria a conhecer na Polónia, 11 anos volvidos sobre a famosa escalada ao Evereste. João Garcia é autor de vários livros sobre alpinismo. A Mais Alta Solidão, Mais Além e 10 Passos para  Chegar ao Topo. Finalizo este artigo com o prefácio de Miguel Sousa Tavares no livro A Mais Alta Solidão:


“Sigo, pois, a caminhada do João Garcia, reconhecendo em cada um dos passos relatados a marca de um solitário que aos poucos, se vai despojando de tudo o que é supérfluo – até mesmo da lanterna que lhe fará tanta falta na descida, das luvas exteriores que lhe custarão alguns dedos das mãos, ou da própria lucidez, que lhe custará a tragédia do regresso – até que nada mais reste do que a obstinação de quem, tendo esperado tão longamente por aquele momento, sabe agora, com o cume á vista, com o mundo inteiro a seus pés, que não há regresso nem arrependimento. Apenas aquela subida até ao cimo, até ao limite – seja ele onde for.”