terça-feira, 31 de março de 2026

O sonho do regresso aos anos 90

 Há uns dias sonhei que estava ao volante de um carro que nunca tive nem sequer conduzi. Um Peugeot 205 dos anos 80, daqueles da primeira série com caixa de 4 velocidades, o interior espartano onde em frente só havia o conta-quilómetros, um relógio analógico, o indicador de nível de combustível e a série de luzes avisadoras de carga de bateria, pressão do óleo, temperatura da água e travões. 


Sabia que estava nos anos 90, ainda não tinha "crescido para os lados" e sentia uma sensação de estar apenas ali, naquele preciso momento, sem a constante pressão de poder receber uma mensagem no Messenger, no Whatsapp, ler as últimas sobre a crise no Médio-Oriente, da guerra na Ucrânia, do Trump, do Putin ou as revelações dos emails de Jeffrey Epstein que, entre outros, as elites comem bebés e são uns degenerados e nós lá adicionamos isto à lista de razões para andarmos cabisbaixos.

 Um mundo sem os "reels" do Instagram e do Facebook, as fotos das férias ou curiosidades deste e daquele conhecido, amigo, celebridade ou "influencer" (evito isso como o diabo foge da cruz) sem os vídeos dos nossos YouTubers favoritos, os meme que algum colega, amigo ou familiar enviou e que nos fez rir (mas que até é IA), isto entre todas as notícias e tsunami de publicidade que recebemos diariamente mais os posts que nos alertam sobre o que se passa "por detrás das cortinas" entre governos cada vez mais plutocráticos, mafiosos, parceiros de oligarcas e oportunistas. 

Levamos um valente puxão para a Esquerda, para a Direita, para a Esquerda Liberal, a Direita Liberal, agora passa para os conservadores, agora é a vez dos progressistas, dos comunistas e os fascistas que ainda se encontram por aí com os radicais e os reaccionários, o turbilhão, ora roda, ora senta e fica-se com tonturas e... Olha! O telemóvel vibrou no bolso das calças  rrrrr rrrrr - uma notificação! O Trump agora disse que o Estreito de Ormuz se vai chamar de Estreito de Trump? - O perfeito idiota! E ficamos indignados e toca a partilhar no Whatsapp com os amigos e familiares. E olha outra notificação! Rrrr rrrr - Veja o novo vídeo do MonkeyWrench Mike de Oklahoma, o pato de estimação dele morreu ao fim de três anos, fiquei triste (até fiquei mesmo) e mais uma notificação agora do...

E no sonho ali estava ao volante do pequeno e simples Peugeot, 205.

Sem travões ABS, sem ajudas à condução, sem airbags ou pré-tensores dos cintos de segurança, sem uma carroçaria feita para absorver energia cinética em caso de choque, sem ar condicionado (baixavam-se as janelas para entrar ar fresco), sem o Android Auto para estar emparelhado com o telemóvel e tudo o que esse telefone, televisor, aparelhagem de música, agenda, máquina fotográfica, câmara de filmar, carteira, calculadora, máquina de escrever, rádio mais dezenas de "apps" para isto e para aquilo porque até é rápido e evita ficar na fila etc..

No Peugeot tudo é sereno e sem pressas. A Internet e os Smartphone ainda eram algo de ficção científica. Parei o carro e fui ao bolso das jeans buscar o telemóvel Nokia 5110 para mandar um SMS ao Pedro Rodrigues dizendo que tinha um Peugeot 205. Lá estava o começo do frenesim. Partilhar, estar contactável e poder contactar. 

E acordei em 2026 no mundo das notificações e da quase zero privacidade tentado a ver as redes sociais e as últimas "breaking news" do BBC News, do canal NOW, do TVP da Polónia, os vídeos do fulano, do cicrano e do beltrano...

Em trinta anos com o advento da Internet e do Smartphone a transformação da sociedade foi equiparável à Revolução Industrial com notórias vantagens e desvantagens para a sociedade. As novas gerações ficam fascinadas e até intrigadas como era possível viver sem um telemóvel,  usando apenas uma lista de números telefónicos na carteira e moedas para colocar na cabine telefónica ou no café pagando os impulsos da chamada. Os meus pais esperavam que tudo corresse bem, que ninguém arranjasse brigas ou acidentes na estrada (sim, houve porrada e acidentes até com capotamento mas contarei noutra ocasião). De manhã depois da noite de copos com os amigos acordava com a boca ressequida sentido-me um espantalho, os pais diziam "passas a vida nas vadias" e eu lá consentia com um gesto da cabeça dado entre um café e uma torrada.

 Recordo as idas à praia de Vila do Conde nas férias de Verão à boleia com os primos e lá parava um carro em alguns minutos para nos levar e outro para trazer de volta a Vila Nova de Famalicão. Quase não há fotos dessas aventuras, desses tempos. Qual era a lógica de andar de máquina fotográfica na mochila? Nem se colocava essa questão. Fotos eram para momentos de festa ou alguma celebração especial e nem era barato "revelar" o rolo especialmente para estudantes. Vivia-se no momento, recordava-se mais tarde com o - Lembraste quando...

As notícias do mundo eram recebidas no noticiário da noite ou mostradas nas bancas dos quiosques onde se penduravam os jornais do dia ou da semana. Havia sempre uma rotação de interessados na imprensa, no jornal desportivo, no de notícias, no semanário, na revista mensal ou semanal. Do Brasil vinham as Selecções do Reader's Digest, as bandas-desenhadas da Disney da Editora Abril, a Turma da Mônica, o Homem Aranha da Marvel e outros Super-Heróis e Vilões. Em Portugal até 1992 a televisão era estatal e só haviam dois canais, a RTP 1 e a RTP 2 sendo o último de cariz mais intelectual com programas de grande qualidade e debates interessantes e culturalmente enriquecedores. Hoje em dia temos centenas deles e a escolha até se torna difícil, o termo "zapping" ou mudar canais sistematicamente tornou-se um hábito derivado da verdadeira torrente de informação a que somos sujeitos diariamente. 


O gráfico acima mostra a brutal exposição a publicidade há trinta anos e agora. Estamos invariavelmente esmagados por publicidade e informação. Poderá o nosso cérebro processar tanta informação? Não estaremos demasiadamente estimulados? Note-se que há trinta anos tínhamos o poder de escolha ao contrário de agora onde nos forçam a escolha com os ditos algoritmos, esse alfaiate digital que quer talhar tudo à nossa medida, ao gosto individual. O algoritmo é um sabichão, um conselheiro estilo Cardeal de Richelieu, um compadre e ao mesmo tempo uma concubina. Sabe os nossos gostos, os podres todos e os segredos mais escondidos, se um dia se zanga será como o provérbio: Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades! Deus, Alá, Zoroastro o universo e a Inteligência Artificial nos livrem disso...






quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Boas Festas Anno Domini MMXXV

Votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

E assim estamos a chegar ao fim do quarto de século. O que mudou no mundo em vinte e cinco anos e na Polónia em particular é um trabalho árduo para descrever em meia-dúzia de linhas e na (agora anual) publicação natalícia. 

Poucos dias depois do 11 de Setembro aterrava em Varsóvia ao abrigo do programa de intercâmbio estudantil Erasmus-Sócrates. A Polónia de então, ainda em pré-adesão à União Europeia e notoriamente com resquícios das décadas sob a esfera da URSS e do período conturbado da República Popular da Polónia era um outro mundo para quem vinha de Portugal. Creio que ainda vivenciei os últimos capítulos da transição histórica. 

Por aqui fiquei e muito provavelmente por aqui ficarei... O país transformou-se, desenvolveu-se e é agora uma outra Polónia,  um país bem integrado na UE e até parte dos G20. País ideal? Talvez não seja mas qual país ideal existe? A ala conservadora está bem implementada, com suficiente apoio popular apesar da oposição crescente. As novas gerações de polacos nascidos no século XXI lá se encarregarão de mover os trilhos noutra direcção, é inevitável. 

Terramotos? Incêndios? Tsunamis? Furacões? Avalanches? Inundações? Nada disso é muito comum nestas latitudes, os maiores desastres que ocorreram neste país foram despoletados por os seus vizinhos. A Alemanha e a Rússia foram piores do que quaisquer catástrofes naturais ao longo da sua história milenar. 

Numa Europa cada vez mais exposta na sua ingerência, após a administração Trump retirar o confortável guarda-chuva americano, constatamos que o Velho Continente confiou em demasia a sua segurança militar aos EUA, os recursos energéticos à Federação Russa e entregou de bandeja o comércio e a indústria à China. As liberdades das democracias ocidentais foram habilmente usadas por regimes autoritários para causarem danos e discórdia em alianças, acordos e planos a longo prazo e porventura causarem uma implosão.

Mais do que nunca a União Europeia tem de ser precisamente unida, encontrar finalmente uma identidade própria, uma liderança forte, para não perder a sua relevância, espírito liberal e humanitário num mundo cada vez mais fragmentado - onde países com recursos naturais e mão de obra abundantes emergem e onde os amigos de outrora podem ser os inimigos do porvir. 

A Europa não poderá ser feita toda de uma só vez, ou apenas de acordo com um só plano.

Será construída com ganhos concretos os quais criarão uma solidariedade de facto.

Robert Schuman