quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Ser ou não ser Charlie. Eis a questão.


O tópico não se insere propriamente na questão do português ou portugueses na Polónia mas o acontecimento e as repercussões  parecem-me ser suficientes para reflexão. 



A notícia do massacre de seis jornalistas na redacção da revista Charlie Hebdo e de dois agentes da autoridade em Paris foi recebida com choque e revolta no Ocidente, especialmente no continente europeu mas convém sempre relembrar que a Polónia é um dos países da UE e do velho continente mais católico e conservador apesar das mudanças que têm vindo a ocorrer na sua sociedade desde 1989. A escassa comunidade árabe na Polónia sabe que aqui as questões religiosas são delicadas e a tolerância para com a diferença – não só em termos religiosos - em determinados círculos da sociedade polaca é um barril de pólvora com um pavio curto.

A recente legislação polaca a proibir o abate ritual de gado e a venda de carne Kosher e Halal (ver aqui neste blogue) foi considerado pela comunidade judaica e muçulmana como uma afronta e retrocesso nas relações entre a Polónia e as comunidades árabes mas tida como um avanço civilizacional por as associações de protecção dos animais e pelos livre-pensadores.

A chacina na redacção da revista de sátira francesa Charlie Hebdo, dos “gendarme” e restantes vitimas inocentes, no principio deste novo ano de 2015 foi um acto absolutamente execrável tal como são todos os atentados, assassinatos e raptos feitos por extremistas religiosos convictos da sua santidade ao fazê-lo em nome de Deus, sem qualquer compaixão para as vitimas.

A minha avó paterna era católica, ia a missa regularmente, rezava o terço e benzia-se quando passávamos em frente de um cemitério. Era ainda uma criança mas aquilo fazia-me confusão, parecia mais uma superstição como fazer figas quando alguém se cruza com um gato preto, não passar por baixo de um escadote (essa é lógica) ou sete anos de azar para quem parte um espelho…
Sempre a respeitei na sua fé tal como o faço com a minha sogra polaca que é igualmente católica, vai à missa regularmente e reza frequentemente o terço mesmo que por vezes esteja ao mesmo tempo a ver o noticiário na TVP. 

Do mesmo modo tenho sido respeitado na minha opção de não querer seguir uma religião ou culto apesar de alguns comentários mais irónicos pelo facto de praticar Reiki e ser vegetariano com aspirações a vegan – aqui complica mais, ser vegetariano ou vegan, é algo onde a tolerância é menor e quase todos se tornam instantaneamente em dietistas, vá-se lá saber porquê…

É precisamente esse respeito por as opções dos outros que me faz não querer ser Charlie e desatar a criar avatares e a partilhar nas redes sociais o "Je suis Charlie" que tanta gente sem sentido de humor e uma pletora de políticos, alguns tão terroristas como os outros, fazem alarde. A Liberdade de expressão que tanto sofrimento, e sangue fez correr na Europa durante séculos e que é um dos pilares da civilização ocidental parece ultrapassar algo que é o pilar de qualquer civilização, o respeito pelo próximo.

O humor brejeiro, não refinado, das caricaturas e cartoons da publicação Charlie Hebdo encheram as medidas de uma pequena clientela (cerca de 60.000 exemplares por mês) que aumentou exponencialmente depois do massacre de Paris (5 milhões de exemplares nas bancas depois do ataque). Agora todos sabem que a Charlie Hebdo existe! Resumidamente os islamitas não representam por imagens as suas divindades ou qualquer outra, nem Jesus Cristo que eles consideram um dos grandes profetas da humanidade. É considerado idolatria. OK, tudo bem, bola para a frente que atrás vem gente! Os cartoonistas "brincaram" com isso e alguém usou esse argumento para gerar violência. 

O que agora parece ser politicamente correcto é não comentar a publicação ou considerar os desenhos como falta de gosto; equivale a ser apontado como alguém que está contra as vitimas como se o facto de comentar o evidente exagero das suas sátiras fosse igual a aceitar o terrorismo islâmico como valido, isso é nada mais nada menos do que pura manipulação da opinião pública, a bengala do “ou estão connosco ou contra nós”. Isso é o “dupli-pensar” de George Orwell no livro 1984 aplicado na sociedade em 2015.


Um bom exemplo de humor refinado foi a resposta de Winston Churchill quando“Lady Astor” lhe disse – Se fosse meu  marido envenenava o seu café… ao que Churchill respondeu – Se fosse minha mulher, tomava-o.


E para Bessie Braddock; Winston você está bêbado! Churchill: Tem razão Bessie. E você é feia mas amanhã pela manhã, estarei sóbrio e você continuará feia.


Tolerância é um conceito muito amplo que ao longo de séculos e transformações sociais tem vindo a ser implementado com maior ou menor sucesso. Na cidade do Porto, ali mesmo ao lado da Torre dos Clérigos temos a conhecida mercearia Casa Oriental fundada em 1910 (onde se pode comprar o tradicional bacalhau e outras iguarias portuguesas) na entrada, mesmo por cima do letreiro, podemos ver uma pintura antiga com um escravo negro, descalço e de pé, a segurar um tabuleiro (com um bule de chá?) servindo o seu senhor português que se encontra sentado descontraidamente numa cadeira, vestido com roupas coloniais. Certamente que a mercearia não merece um ataque violento por parte da comunidade africana em Portugal apesar da manifesta mensagem colonialista e racista de algo que foi pintado há mais de 100 anos mas para os padrões da sociedade contemporânea é manifestamente ofensivo e certamente ninguém o faria nos dias que correm. 



É essa ténue margem entre o respeito ou a falta do mesmo que gera a tolerância e a convivência pacifica entre os povos ou o ódio e intolerância que na realidade ninguém deseja em absoluto.





1 comentário:

Gera Souza disse...

Perfeito!! Penso exatamente igual e compartilho suas idéias!!
Parabens!!!