quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Ressaca da consoada e ruas vazias

Imagem in Flickr: http://flickr.com/photos/access/2165356177/ por acess.denied

Ontem (dia 24 de Dezembro) foi um dia atarefado com um trânsito caótico na cidade de Łódź e, com certeza, em todas as grandes urbes polacas.
Como prenda surpresa no sapatinho - umas 7 horas antes da hora prevista - desembrulhei um acidente que me custou uma jante e dois pneus... digo dois pneus pois quando um rebenta o seu parceiro do outro lado tem de ser mudado também. Ter carros italianos e condutores portugueses serve para isto... o seu carácter latino e o temperamento típico levam-nos a ficarem ciumentos e a quererem prendas também, assim 400 PLN de prendas vão para o meu querido Lancia Lybra...

Mas, acidentes à parte, foi o dia da tradicional Wigilia ou Consoada onde não se come o bacalhau com batata cozida, nem peru nem se deve emborcar vinho ou álcool para acompanhar a refeição. Em nossa casa não é bem assim pois "cada macaco no seu galho" e sem hard feelings - felizmente para mim!

Primeiro devo frisar que não sou uma pessoa particularmente religiosa mas também não me considero ateu se bem que tecnicamente, e de acordo com os cânones da Igreja Católica, sou um herege que noutros tempos iria prestar contas por ser um insurrecto... isto serve para dizer que a tradição é, apesar de tudo mantida, mais a tradição polaca do que a portuguesa...

Na nossa mesa de Natal convivem paredes-meias as iguarias polacas e as portuguesas mas como não sou fã de peixe prefiro sempre um bom naco de carne regado com uns copinhos de tinto alentejano.

Hoje, 25 de Dezembro de 2008, as ruas estão vazias e o sossego faz com que pareça que vivo nalguma aldeia polaca, entre pastagens e florestas.

E dou por mim a pensar (mais uma vez) que estou a passar o Natal num país que, na minha infância, só ouvia falar nos programas de desenhos animados do Vasco Granja!

KONIEC

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Filas na Polónia - Kolejka

Musiałówna Anna, <> http://www.fotopolis.pl/index.php?g=325&aktz=3

Nem sempre mas muitas vezes tenho reparado que nas filas dos supermercados e mercearias polacas sou quase que empurrado pelo parceiro/a atrás de mim, certas vezes levo com o carrinho nas nádegas, outras tenho uma velhota a entrar em rota de colisão enquanto digito o código do cartão no terminal...

Nos primeiros anos era algo que me irritava solenemente mas com o tempo fui-me habituando - que remédio! - a esse tipo de situações. Se repararem em muitas filas de supermercado mas especialmente em talhos, padarias e pequenas mercearias os polacos estão praticamente colados uns aos outros e não se importam com tal.

Procurando uma eventual explicação para tal "hábito cultural" apenas me ocorreu que só podem ser resquícios do tempo das senhas de ração comunistas e do stress que esta gente tinha para poder comprar algo nas lojas antes que esgotasse, provavelmente um buraco na fila era o garante de alguém chegar primeiro à caixa e pedir um dos últimos bifes ou papo-secos disponíveis nas prateleiras!

O comunismo deixou marcas neste povo especialmente nas gerações mais antigas, enquanto que em Portugal tínhamos as mercearias do "Senhor Zé", com a sua típica balança Avery e as caixas de fruta na entrada, sempre com produtos disponíveis e a retalho, na Polónia o sistema era totalmente diferente e recebiam-se porções de acordo com aquilo que o governo considerava necessário.

Vejam o exemplo de uma senha de ração (Kartka) na imagem:

O P-3 constituía-se por 14 quadrados correspondentes a vários artigos como por exemplo, farinha, açúcar (250 ou 1500 gramas), cigarros (6 maços), álcool (uma garrafa), chocolate (sucedâneos pois não havia mesmo chocolate de cacau), gorduras (375 gr), 100 gramas de detergente etc, no centro assinava-se o nome e morada do comprador.

A agravar este sistema "igualitário" do regime das senhas estava a disponibilidade da mercearia pois havia meses em que tudo esgotava rapidamente ou não estava disponível portanto os quadradinhos de nada serviam! Claro que para fazer frente às necessidades florescia o mercado-negro - dito o maior da Europa - e os esquemas fura-vidas que mais tarde viriam a formar algumas moles de "bebavundos" que ainda proliferam nas ruas da Polónia.

Vai demorar algumas gerações até certos hábitos mudarem mas se pensarmos que, de acordo com uma recente sondagem na Alemanha, 60% dos jovens nas escolas secundárias não sabiam o que era a RDA e a RFA então estamos, sem duvidas, no bom caminho...






sábado, 6 de dezembro de 2008

Anna Walentynowicz - O "Salgueiro Maia" polaco




"Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui."

Salgueiro Maia foi, durante muitos anos, um "ilustre desconhecido" de muitos portugueses, não quis protagonismo, recusou cargos políticos e limitou-se a cumprir o seu trabalho (assumindo um grande risco) naquela madrugada de Abril de 1974, proferiu a frase supra quando ainda se encontrava na Escola Pratica de Cavalaria em Santarém.
Com certeza perguntam-se o que tem Salgueiro Maia a ver com Anna Walentynowicz, perguntar-vos-eis o que tem a ver Portugal de 1974 com a Polónia. Eram dois regimes opostos, gentes que mal se conheciam e vivia-se em plena Guerra Fria, a Europa estava divida por uma "Cortina de Ferro" e assim esteve durante mais de uma década.

Salgueiro Maia e Anna Walentynowicz são ambos heróis quasi-esquecidos da revolução.

Lech Walesa é, para todos os efeitos, o ícone do Sindicato-Livre Solidariedade mas a tão conhecida e respeitada figura da oposição polaca não esteve sozinho nas inúmeras greves e conspirações que os trabalhadores dos estaleiros de Gdansk fizeram durante o socialismo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O FSO Polonez - Polski Motoryzacja

FSO Polonez Caro - Like it or leave it... muitos polacos dirão leave it...


Quem vive na Polónia conhece sobejamente este veículo, trata-se de um FSO Polonez de fabrico polaco.

Um post num blogue acerca do Polonez parece ser uma perda de tempo (porventura até é) mas a verdade é que o Polonez foi, e ainda é, parte integrante da paisagem automobilística polaca, o Polonez foi o primeiro carro de muitas famílias polacas, a primeira grande alegria e com certeza fonte de muita irritação pois, dizem os polacos, que os FSO não eram grande coisa no que diz respeito a fiabilidade.

Este modelo tinha como função substituir o FSO 125 P ou "Duży Fiat", baseado no luxuoso Fiat 125 italiano, mas conviveram "amigavelmente" durante décadas, ou seja, o Polonez não substituiu o 125 P mas complementou-o... Para quem não sabe o Polonez é basicamente um 125P no que diz respeito ao chassis e soluções mecânicas, o que mudou foi o chapéu... ou seja, a carroçaria.

Em 1978 a FSO apresenta a primeira versão do Polonez que se identifica pelos quatro faróis redondos na frente e frente plástica, este modelo foi desenhado por Giugaro, o conhecido designer italiano, e foi exportado para imensos países, sobretudo do bloco soviético mas é possível ver Polonezes em países tão distantes como por exemplo no Egipto e no Vietname.

A história da indústria automobilística polaca é muito interessante. No final da II Guerra Mundial os polacos produziram alguns modelos populares, como o Warszawa, baseados em modelos da URSS, mais tarde a FSO criou modelos baseados em Fiats italianos como por exemplo o 126 P e o 125P mas também montaram alguns 127 e 128 Sport Coupé. No entanto com o Polonez foi possível demonstrar a capacidade dos engenheiros polacos.

Infelizmente o Comité Central cortou as asas ao engenheiros polacos e deixaram dezenas de projectos interessantes nas gavetas. Desde versões roadster do Syrena a protótipos de Coupés, Polonezes 4x4, micro-carros estilo Twingo, desenhados 15 anos antes deste modelo da Renault, até ao projecto da Euro-van que, em meados dos anos setenta apresentava um projecto, que seria visto nas ruas europeias décadas depois na forma de uma Renault Traffic.

Este modelo da FSO nunca passou de protótipo devido ao sistema político

O Polonez teve dezenas de alterações estilísticas, versões de todos os tipos como as pick-up, furgão, station, ambulância e coupé, e recebeu motores diesel de origem PSA (Peugeot) e motores a gasolina de 16 válvulas de origem Rover (iguais aos motores dos Rover 214/414).

Em 2002 o Polonez acaba a sua carreira de décadas.

Curiosamente o FSO Polonez, mesmo tendo inúmeros problemas mecânicos, apresentou resultados surpreendentes num teste de colisão efectuado em 1994. A frente absorveu bem o choque, as portas abriram depois do embate e o depósito de combustível não rebentou.

Quem diria?