quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sklepy Ogólnospożywczy ou pura e simplesmente as Mercearias



Um dia destes entrei numa sklep ogólnospożywczy, ou seja, numa mercearia. Em Łódź há imensas e nem as grandes superfícies, que depressa invadiram a Polónia de livre-mercado, como a cadeia de supermercados Tesco, Geant, E.Leclerc e os hard discount como o Lidl, Biedronka, Alma e outros conseguiram acabar com este tradicional comercio. A mercearia a que me refiro providenciou-me uma viagem no tempo, nas minhas memórias, até ao principio dos anos 80 em Vila Nova de Famalicão.
De repente já não estava na Polónia mas sim na mercearia do Sr. Zé. Não podia ser mais portuguesa, uma mercearia cujo merceeiro se chamava José e conduzia um Renault 4 de cor creme. Nesses tempos ainda se embrulhavam muitas coisas naquele papel grosso de embrulho e o bacalhau era devidamente cortado e embrulhado no dito com corda de sisal. Na entrada, por baixo do toldo, estavam caixas de fruta e de legumes e o balcão tinha sempre chocolates e doçarias disponíveis para arregalarmos a vista. Num canto, os chupa-chupa e noutro a tradicional balança Avery com os pratos e os pesos. Haviam cigarros de chocolate (a imitarem os SG Ventil) e as Belinhas junto com  as bolachas Maria, os chocolate Regina, as Fantasias de Natal e as pastilhas elásticas Gorila e Pirata - detestava as cor-de-laranja que eram acidas e faziam ranger os dentes! Algumas mercearias vendiam gelados da Olá (também não havia mais nada) e quase sempre um Perna de Pau ou um Epá faziam calar as criancinhas pedinchonas. Assim se gastavam num abrir e fechar de olhos uma nota do Sacadura Cabral, conhecida também como 20 escudos, verdinha, 20 paus ou 20 palhaços.



As mercearias polacas ainda têm um pouco desse mundo que está praticamente desaparecido em Portugal. O cheiro por vezes é semelhante e o típico mata-moscas com a luz violeta tem o seu lugar cativo, mesmo por cima do talho ou do lugar onde estão as carnes frias e as kiełbasa - não há cá tradução para kiełbasa, essa espécie de alheira polaca. 
Nalgumas mercearias ainda podemos encontrar a simpatia do comercio tradicional e, se formos clientes regulares, passamos (os estrangeiros) a ser alvo da curiosidade e das perguntas "da praxe", algo a que nos habituamos e que se aprende rapidamente; jestem Portugalczykiem (sou português) e tak, lubię Polska oczywiście (sim, com certeza que gosto da Polónia). 

Estes lugares costumam ser algo inéditos no que respeita a organização, por vezes temos uma floresta de preços nas prateleiras (feitos ainda com aquelas máquinas de autocolantes que se usavam nos anos 80) e passamos do lugar onde estão as sardinhas com molho de tomate picante para os pacotes de sopa de Barszcz Czerwony (sopa de beterraba vermelha) em pó. No tecto quase sempre encontramos um espelho para desmotivar os furtos de mercearia ou, naqueles mercearias mais ambiciosas, estilo supermercado, umas câmaras de filmar falsas e plásticas,cheias de pó. Algo que nesses supermercados costumam pedir é que se use um cestinho ao entrar, o tradicional, wózek. Um hábito que ainda me hoje me custa a entender tal como a fixação dos polacos em colocarem cortinas de renda nas janelas e em beberem chá a toda a hora faça chuva ou faça sol.

 





2 comentários:

linda disse...

Como me lembro desses tempos..
Ainda existem algumas por aqui e por ali.Foi bom recordar os teus pormenores são fantásticos não me lembraria do nome de tantos produtos..

Dr. Funkstein disse...

Lendo seu relato lembrei-me da minha infância. Meu finado pai tinha um conhecido português (Pois nos anos 80 aqui no Brasil todo dono de padaria e de mercearia era português) chamado Manuel. No balcão havia além da balança uma flâmula do Benfica e aquele cheiro de mil produtos se misturando. Só para constar, tal mercearia ficava em um bairro chamado Jardim Lisboa (Onde mais um português iria morar?)
Hoje em dia mesmo nos bairros de lata praticamente não existem mais mercearias como dantes. Todas já tem leitor de código de barras, balanças digitais e aquele clima impessoal de super mercado.
Eu quando criança também gastava muitas notas de cruzeiros, cruzados e sei lá mais o quê comprando balas e doces.