sábado, 24 de julho de 2010

L’aventure, c’est l’aventure*

Ando a seguir o blogue 3maluchtrip.blogspot.com e delicio-me com as aventuras de cinco estudantes portugueses e um espanhol – com um apelido parecido com o meu – que decidiram comprar três pequenos Fiat 126P polacos e fazerem-se à estrada numa road trip impensável para alguns. Da Polónia a Portugal passando pela Alemanha, Itália e Espanha.



Quando fui estudante Erasmus na Polónia era dos poucos que queria comprar um Maluch** para as voltinhas mas fui prontamente desencorajado a fazê-lo por amigos polacos e por os colegas portugueses que não se mostraram muito entusiasmados com a minha ideia, principalmente a com o facto de acabarmos o Erasmus ao volante de um Fiat em vez da comodidade e rapidez do avião. Em 2001 já se arranjavam desses pequenos carros a resto barato – enferrujados e carcomidos – mas arranjavam-se. Há dez anos viam-se a cada esquina e vários em cada rua (cheguei a ver a frente de um num caixote do lixo) mas actualmente já não é bem assim. Começam a escassear os exemplares em bom estado, principalmente os que tinham pára-choques em aço cromado (mais antigos). Os sobreviventes são, na sua maioria, versões dos anos 90, com peças comuns ao Fiat Cinquecento e pára-choques em plástico.

O Rui, o José, o Joel, o André, o João e o Carlos não são pioneiros, outros o fizeram antes mas nem todos tiveram o entusiasmo de escrever um blogue a propósito ou de o fazer com um trio de Fiat num verdadeiro “seja o que Deus quiser”!. O meu amigo Fernando, do blogue Divina Polónia, fez-se sozinho à estrada num desses Fiat 126 amarelo torrado, com as trouxas todas amontoadas no pequeno habitáculo e lá acabou por chegar à sua terra são e salvo, sem avarias dignas de registo que impedissem a continuação da viagem. Podem encontrar o relato aqui.


A maior parte das pessoas não faz ideia do que é conduzir e ser passageiro num Maluch, como uma simples viagem de cem quilómetros equivale a uma viagem de mil num automóvel moderno. O Maluch é acanhado por dentro, seco de suspensões, tem pouco espaço para os passageiros de trás quer em altura quer para arrumar as pernas e pés. O pequeno motor colocado atrás vibra, zumbe e ronca como um zângão quando se puxa por ele e faz mais barulho do que velocidade - amiúde sente-se o cheiro a gasolina mal queimada no ar e dentro do carro. Bagageira só na frente, um pequeno espaço para uma maleta de viagem que foi aproveitado até ao último cm2 por muitas famílias polacas – por isso alguns compravam as calhas no tejadilho ou um pequeno reboque para levar as tralhas.


Ao contrário do Mini clássico o Maluch não tem muitos espaços para arrumos por dentro o que leva a aproveitar os bancos de trás, quando não há passageiros. Quando a Fiat apresentou o Fiat 126, no principio dos anos setenta, estava longe de imaginar que a produção terminaria numa Polónia democrática, candidata a membro da UE, no mítico ano 2000, no dealbar de um novo século.

O Maluch polaco deixou de ser um mero automóvel, passou a ser um estado de espírito, um ícone de uma Polónia que começa a ficar desfocada pelo tempo. Daqui por dez anos que carros levarão para Portugal os nossos estudantes Erasmus na Polónia? Com certeza nada tão carismático e divertido como um Maluch. O stock está a acabar a cada dia que passa portanto toca a aproveitar enquanto e tempo! Feliz viagem e toda a sorte do mundo aos malucos do Maluch. I cross my fingers for you.

* Musica de Jacques Brel para o filme L'aventure C'est l'aventure de Claude Lelouche - ano de 1972.

** Maluch: nome carinhoso que os polacos deram ao Fiat 126 - significa pequenino.

4 comentários:

Geraldo Geraldes disse...

Ricardo, há alturas na vida em que temos de ponderar as opiniões mas decidir por nós mesmos, tendo porém em mente que: " a road less travelled, is less travelled for a reason".
A minha viagem correu muito bem porque porque teve a devida preparação. Nas quatro semanas antes da mesma começar, fiz para aí uns 1500km na Polónia para ver se o carro aguentava. E só na última dela, de Cracóvia para Poznan (400km) é que vi que podia confiar no carro. Antes disso, tive para aí umas 10 avarias (principalmente eléctricas). Ah, e por duas vezes o motor simplesmente calou-se em pleno andamento, o que é sempre assustador. Polski temperament.
E muito importante, tive amigos polacos mecânicos em Cracóvia que me resolveram os problemas do carro. Sem a ajuda deles, não o tinha feito.
Sem preparação, uma viagem destas é sem dúvida mais animada, mas também pode ser muito estúpido não verificar travões ou suspensão (a pouca que existe).

Ricardo Taipa disse...

Se algum dos portugueses que estava comigo no Erasmus alinhasse tinha mesmo comprado um 125P ou um Maluch para ir até Portugal mas não havia nem ninguém com espírito de aventura nem tampouco alguém que gostasse de borrar as mãos em óleo e gasolina.

Também fiquei surpreendido com a decisão dos nossos compatriotas em meterem-se ao volante dos Maluch sem terem preparado devidamente os carros mas estou convencido que se algo corresse mal atiravam as maquinas de um barranco ou abandonavam-nos numa área de serviço qualquer.

Aldrin aldrinz72@hotmail.com disse...

Adorei seu blog. Sou brasileira e me apaixonei por um polonês. Agora estou aqui pesquisando sobre as sogras polacas (risos), porque imagino o susto que ela vai ter quando souber que sou brasileira, e que estou como diz um amigo meu português "a roubar o bebê da babuska": brasileira, neta de alemão (alemão este que quando veio ao Brasil, foi "enganado" por um polaco que levou todo seu dinheiro), 13 anos mais jovem que seu filhinho!

Ricardo Taipa disse...

Obrigado pelo seu comentário tão positivo Aldrin. O mundo é mais pequeno do que aquilo que pensamos. Trabalho com dois brasileiros. Um tem mulher polaca e outro descende de alemães e polacos. Um de Juiz de Fora MG e outro de Florianópolis SC.

Quando conheci o "mineiro" falei-lhe de um brasileiro que conhecia de uns fóruns e não é que esse individuo era tio dele! Foi rir a bom rir.

Bem-vinda e boas leituras. Felicidades com o polaco. ;)