quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Meninice - hoje e antigamente



Apercebemos-nos que os anos passaram a galope quando observamos os nossos filhos e as gerações mais novas. O meu filho mais velho (três anos e meio) tem uma verdadeira fixação por telemóveis e botões, quando não está a passar no Baby TV ou no Mini Mini os seus desenhos animados favoritos  e se avizinha uma crise existencial infantil basta procurar no Youtube ou na Internet e carregá-los. Para ele um computador é algo natural, mais um dos electrodomésticos da casa, tão natural como foi para mim o televisor Grundig Sensotronic a preto e branco que estava no apartamento em São João do Estoril ou o rádio para os meus pais e o automóvel, para os meus avós. 

 A station do pai e da mãe do Manuel e do Marcel tem uma cadeira especial para ele se sentar e tem de estar sempre com o cinto de segurança colocado, como os pais. O mais pequenino (9 meses) também tem o seu "ovo" e os respectivos cintos de segurança. Os bancos têm encostos de cabeça que tiram a visibilidade e o tablier tem muitos botões e luzinhas acessas.
O carro do meu pai era um Fiat 128 Sport de cor vermelha, com duas portas e as únicas luzes no interior provinham do conta-quilómetros, conta-rotações, indicador do nível de combustível e temperatura do motor, mesmo assim eram um verde desmaiado que só de vez em quando mostravam um quadradinho verde e outro azul forte. Não haviam cintos de segurança atrás, nem sequer se usavam na frente - apesar de ter uns instalados que nunca eram usados. Percorremos milhares de quilómetros nessa Fiat, a maior parte em Portugal e alguns em Angola - mas nao me lembro desses.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

25 anos da morte de Jerzey Popiełuszko

Há precisamente um quarto de século um conhecido e acarinhado padre polaco de nome Jerzy Popiełuszko desaparecia misteriosamente. Popiełuszko era persona non grata para o regime comunista, já havia recebido sinais do descontentamento das altas esferas polacas e sobrevivera um acidente de automóvel que havia sido planeado para o liquidarem mas mesmo assim não teve medo, meteu sempre o pé na porta para que esta não se fechasse. Foi encontrado sem vida, num reservatório de água do Vístula, passados 11 dias do seu desaparecimento.


A edição de 19 de Outubro do jornal Gazeta Wyborcza relembra Jerzey Popiełuszko e o seu processo de beatificação. Ao lado da fotografia do padre uma promoção do McDonald's, com um cupão para os leitores do Gazeta poderem beber gratuitamente um café 100% arabica, sinais dos tempos...


O cadáver de Popiełuszko seria encontrado por uma equipa de mergulhadores, as buscas demoraram mais de 48 horas, o seu corpo de 37 anos apresentava marcas de espancamento, estava dilacerado e manietado, mais tarde veio-se a saber que fora torturado.

A noticia seria recebida com choque em toda a Polónia e no estrangeiro, na sua paróquia foi recebida com silencio seguido de choro e pranto dos seus fieis. O "padre do Solidariedade" tinha pago com a sua própria vida a ousadia de desafiar o sistema. Nas suas homilias e intervenções o padre teve um importante papel politico e unificador, recordemos que no inicio dos anos oitenta a Polónia esteve três anos sob Lei Marcial e os únicos ajuntamentos autorizados faziam-se nas igrejas e nas paróquias. Popiełuszko havia atingindo notoriedade graças aos seus discursos frontais, anti-comunistas e as suas criticas abertas e ousadas ao comunismo, por se opor a todas as formas de laicismo ou a separação dos poderes do Estado e da Igreja como, por exemplo, a proibição de crucifixos nas escolas.

Por vezes há quem não entenda o fervor religioso da maior parte dos polacos, um povo profundamente devoto e católico, mas o comunismo foi a alavanca do catolicismo mais do que um meio de o conter.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Crónica de uma ida ao Consulado de Portugal em Varsóvia



O Bilhete de Identidade estava quase a expirar, ainda ontem tinha ido ao Registo Civil na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e hoje o tal "Validade: 20/10/2009" que me parecia tão distante havia chegado.

Tantas coisas mudaram neste ínterim de cinco anos a começar pelo seu portador que de rapaz magrinho passou a homem "robusto" e portador de uma visível barriga que, como dizia, o Pedro Rodrigues é a curva ascendente do nível de vida. Curiosamente ninguém se orgulha desta curva ascendente mas pronto sempre podemos dizer que é genético e característica dos latinos...
 Estes cinco anos compreenderam uma autentica revolução na minha vida.  A ultima alteração feita no BI foi ao estado civil onde passou a constar o famoso CAS. Entretanto mudei de país, para a improvável imigração na Polónia, e sou hoje em dia o pai babado de dois meninos luso-polacos, essa nova estirpe de portugueses resultantes da Diáspora lusitana tão bem descrita há mais de 500 anos pelo nosso poeta Camões nos Lusíadas!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Notas de rodapé na Polónia

 O Tempora, o Mores! 

Numa visita ao PUP (Powiatowy Urząd Pracy) em Łódź - Centro de Emprego - deparo com um curioso aviso colado num dos pilares mesmo ao lado dos balcões de atendimento.






Pedimos Silêncio

Indivíduos que tenham ingerido álcool não serão atendidos 

E "mai" nada!!! Um eufemismo polaco para "não atendemos bêbados" e sublinhado no "não serão atendidos", caso para dizer O tempora! O mores!

Os quiosques plastificados da Polónia e as calçadas ondulantes




Quando moramos na Polónia passamos a não reparar em certos pormenores, passam a fazer parte do nosso dia-a-dia e escorrem pelas janelas dos nossos carros ou nas janelas dos transportes públicos, se vamos a pé consideramos-los como mais um obstáculo a contornar, refiro-me aos típicos quiosques polacos construídos com placas de zinco e PVC.
A maior parte deles são do grupo polaco Kolporter SA, uma empresa de distribuição de imprensa semelhante à portuguesa VASP.  O formato de caixote, com quatro paredes ao alto e um tecto aparafusado é comum a todos variando o tamanho, cores e janelas. Quando para aqui vim estudar faziam-me espécie, considerava-os um autentico atentado ambiental e verdadeira poluição visual, cheguei a considerar pendurar uma bandeira do Greenpeace num deles e chamar a TVN mas depressa entendi que perante os rigores do clima polaco fazia sentido o recurso a materiais que não oxidem e os quiosques são locais privilegiados para sacarmos um bilhete de autocarro ou de eléctrico, ou mesmo uma caixa de fósforos - providencial para quem fuma e fica sem gás no isqueiro.

As calçadas - ou passeios - polacos costumam estar partidos e tortos, são bons para o sapateiro ter trabalho a colocar capas e saltos-altos nos sapatos das senhoras e maus para os tornozelos de quem anda distraído ou atrasado, arriscamos-nos a ir "por ali abaixo" e acabarmos com  todo o power and the glory a mancar, contudo costumam ter uma grande vantagem sobre os dos nosso país; são mais largos e não temos de andar a fazer gincana ou a bater ombros com um  parceiro desconhecido. De qualquer modo com a glaciação no Inverno e deglaciação na Primavera não me admira que se apresentem no estado em que estão.

A Peste Negra nos Oltcit e Wartburg 

Há automóveis que marcaram uma era na Polónia. Para nós (portugueses) não nos dizem rigorosamente nada, nesses tempos circulavam nas nossas estradas carros melhores e muitos portugueses já tinham poder de compra para adquirirem um Renault 9 ou 11, um Toyota Corolla, um Golf ou um dos populares Uno, Renault Supercinco, Corsa e Ford Fiesta.
Na Polónia não era bem assim. A Citroen vendia uma espécie de Citroen Visa com duas portas que estava de longe de ser um coupe mas que pelo menos tinha um tablier digno da Guerra das Estrelas.
Onde param estes carros? Há anos que não vejo um a circular!


O Oltcit era mais do que um carro, era também um tablier digno de qualquer painel de instrumentos dos foguetões da URSS.


Haviam outras marcas do tempo da foice e do martelo, feios como o perfil de Estaline, Lenine e Marx. O Wartburg foi um deles. Fabricado na RDA teve como grande evolução a instalação, logo a seguir  à queda do muro de Berlim, do motor 1300 do VW Polo!


 Álvaro Cunhal e o meu avô materno (PCP dos sete costados) teriam considerado o Wartburg como um bom carro, apropriado para as massas populares, para o proletariado explorado pelos capitalistas selvagens sem escrúpulos... eu tampouco... 
Porque motivo é que estes carros traziam sempre um estojo de ferramentas completo? 




sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Dimitri nie zyje - O Dimitri morreu

 Quando saíste da linha de montagem da firma Polar devia fazer um frio de rachar, nesses tempos os Invernos não eram como hoje em dia. Haviam dias em que nevava tanto que os poucos carros particulares que estavam estacionados em frente dos prédios desapareciam por completo e não se pegavam neles durante semanas, faziam-se autênticos muros de neve nos passeios e por vezes os autocarros não conseguiam circular.

Dimitri; sei que passaste por tempos difíceis num país que fazia parte do bloco soviético.  Enquanto gelavas, a Polónia esteve em estado de sitio. Viste passar soldados na rua, mesmo por baixo da cozinha onde te encontras, Lech Wałęsa tentava passar a mensagem de libertação do sindicato livre Solidarność (Solidariedade) e dos trabalhadores polacos que enfrentavam as elites do partido, o Vaticano elegia um Papa polaco chamado Karol Wojtyła, a URSS e os EUA estavam em guerra fria - não tão fria como o teu congelador - e as Brigadas Vermelhas atacavam alvos na Europa Ocidental naquilo que mais tarde se veio a saber ser uma estratégia imunda dos serviços secretos ocidentais para causar tensões e reforçar os poderes da OTAN na infame Operação Gladio.

Provavelmente sabias onde o teu dono escondia aqueles livros e cartas que o regime não tolerava, nunca o denunciaste a ninguém do partido, sempre aceitaste o catolicismo e a fé da tua dona, passaste pelas mãos de uma menina que hoje em dia é mãe e também tua dona, sofreste com a curiosidade do filho daquela menina polaca e do seu marido português mas não conseguimos evitar que ele te ligasse e desligasse no botão de descongelar, não somos omnipresentes e as tuas borrachas nunca vedaram por aí além de modo a ficares bem fechado.

A dada altura deves ter achado incorrecto o boicote de muitos países ocidentais ao Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo - por causa da invasão do Afeganistão - mas ficaste satisfeito com o boicote da URSS e dos comunistas quatro anos depois, em protesto pelo boicote anterior.
Mal sabias que um dia um dos teus donos havia de ser de um país do outro lado da Cortina de Ferro, que irias gelar Coca-Cola, Pepsi, Fanta e até bacalhau.

Ficaste revoltado quando encontraram o cadáver massacrado do padre Popieluszko e o levaram dentro da bagageira de um Fiat 125P, apanhaste um grande susto quando a central nuclear de Chernobyl na Ucrânia (então parte da URSS) explodiu um dos reactores e na recta final dos anos oitenta assististe a grandes mudanças naquilo que te rodeava, o teu congelador e as tuas prateleiras tinham mais produtos para congelar, haviam mais marcas do que antigamente, os iogurtes começaram a ter pedaços de fruta e apareceram os primeiros códigos de barras.

Nunca te recusaste a trabalhar apesar da tua voz ter ficado mais rouca ao longo do tempo (não vou esquecer aquele zumbido durante a noite!) e teres um elevado salário de Kw/hora, tampouco de precisares de descongelar regularmente para não entorpeceres. Desculpa por pensar que eras um Dimitri qualquer da URSS, afinal eras polaco, deves ser algum Lech, Marian, Kazimierz?




Passaste do século XX para o XXI a congelar, no novo milénio continuaste a manter as mais frias relações com os teus donos e quase chegavas ao fim da primeira década do novo século mas anteontem deixaste de  funcionar, não avisaste ninguém que ias partir para a sucata.

Quem quer pensar em reparar-te? Dizem que o custo não compensa, que o teu compressor deixou de funcionar, que há outros frigoríficos mais económicos e que inclusivamente se podem bloquear para que as crianças não lhes mexam, o tempo passou tão depressa Dimitri... os frigoríficos já nem fazem gelo, onde já se viu isso? O gelo e frio em abundância eram o grande atributo dos frigoríficos modernos, agora já não têm gelo e alguns até vêm com ecrãs de LCD onde sabemos que funções escolher e programar.

Tens um novo nome a titulo póstumo, chamas-te agora elektro-złom, ou seja, sucata-eléctrica.

Do Widzenia Dimitri!


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pontos nos ii

Foram feitas algumas alterações de fundo ao blogue nomeadamente a alteração do título Portugueses na Polónia para Um português na Polónia. Na realidade este blogue descreve sobretudo a minha aventura polaca e pontos de vista de um português - nascido em Lisboa e criado em Vila Nova de Famalicão - que se encontra no coração da Europa Central.

Temos actualmente um fórum na Internet que serve de ponto de encontro para a comunidade portuguesa na Polónia, esse espaço virtual tem vindo, a passo e passo, a tornar-se uma referência para os patrícios que aqui se encontram a viver e trabalhar (ou a estudar) e para todos aqueles que precisam de saber mais sobre este país, aos que visitam diariamente o Fórum Portugueses na Polónia o meu agradecimento, obrigado amigos!

Havia que colocar os pontos nos ii. Está feito, bola para a frente que atrás vem gente...

Quentes e boas?


O Outono aproxima-se a passos largos, tempo de comemorarmos o São Martinho, fazermos o magusto, termos as velhinhas a vender castanhas embrulhadas em folhas do Jornal de Notícias, no mercado, nas feiras, na entrada do túnel que dá acesso à estação de São Bento no Porto...

Bati com a cabeça na mesinha de cabeceira e acordei repentinamente. Estou na Polónia, não temos velhinhas a venderem castanhas assadas nem temos magusto. No entanto há castanhas por todo o lado, os ouriços caiem das árvores nas ruas, nas alamedas e nas vielas aqui em Bałuty.

As castanhas polacas não são comestíveis, não são doces como as portuguesas. Experimentei comer um pedaço de castanha polaca... Amarga, amarga, amarga!!! Os rigores do clima polaco assim o ditam, castanhas em abundância mas apenas para enfeitar. Que bom...