terça-feira, 18 de março de 2014

A hipocrisia da Crimeia e a ameaça de uma nova Guerra Fria


A 28 de Julho do corrente ano celebram-se os 100 anos do começo da I Grande Guerra. Nada como uma mudança no precário balanço da paz mundial para os celebrar condignamente... 25 anos depois do principio do fim da Guerra Fria e dos novos paradigmas trazidos pela liberdade e economia de mercado a agora Federação Russa volta a mostrar as suas garras na Crimeia deixando o mundo atónito. 

Tropas russas ocupam um dos aeroportos da Crimeia.

É difícil resumir a crise na Ucrânia e na Crimeia nas poucas linhas do artigo de um blogue mas não é difícil descortinar a enorme hipocrisia das politicas externas da UE, dos EUA e das grandes potencias mundiais na anexação, digo na "união", da Crimeia com a Federação Russa depois do referendo no qual mais de 90% dos seus habitantes disseram sim ao fim da Crimeia enquanto parte de território da Ucrânia. Presumo que não seja tarefa fácil pensar em independência ou nos prós e contras da autonomia quando se está rodeado por um dos exércitos mais experiente, numeroso e bem equipado do mundo. Uns tiveram direito à protecção dos capacetes azuis da Nações Unidas enquanto outros foram bombardeados indiscriminadamente, como os Jugoslavos, ou invadidos sob o pretexto de esconderem armas de destruição maciça ou ainda apoiados nos bastidores pelos serviços secretos das potencias dominantes para bem dos seus interesses económicos e geo-estratégicos.

Pouco interessa também os tratados assinados pelos EUA e URSS depois da Guerra Fria em que se respeitavam as leis e soberania dos novos estados independentes. Do mesmo modo relega-se para segundo plano os originais habitantes da Crimeia, os Tártaros, que sofreram perseguições hediondas, deportações em massa (muitos deles para os GULAG) e fome durante o Estalinismo e no regime Soviético. A autentica limpeza étnica levou a uma Diáspora dos Tártaros encontrado-se hoje em dia dispersos na Europa de Leste havendo inclusivamente uma pequena comunidade na Polónia.

No momento em que escrevo estas linhas a tensão aumenta na Crimeia e na Ucrânia. O Parlamento ucraniano considera inconstitucional a separação deste território - a independência tem de ser aprovada pelo Parlamento - e mobilizam-se reforços para as tropas ucranianas na Crimeia. Refira-se alias que todo o imenso terreno da Ucrânia encontra-se rodeado pelo exército da Federação Russa pronto a intervir caso hajam motivos para tal nem que seja com uma temida operação de bandeira falsa tão conhecida de outras guerras e conflitos mas mantida convenientemente com o rótulo de teorias da conspiração... 

Os EUA ameaçam com sanções e a UE mantendo o seu típico low-profile, não querendo melindrar a Federação Russa e os negócios que mantém com o gigante de Leste, considera também o recurso a sanções para com os russos o que levaria a médio-prazo a uma nova Guerra Fria e consequente desestabilizar da paz mundial num mundo onde já não há lugar para a bipolaridade com uma China poderosíssima no tabuleiro.

E como isto afecta a Polónia? 

A Polónia tem sido voz activa contra a politica externa da Federação Russa e no apoio aos vizinhos ucranianos. Enquanto membro da UE pretende ser o porta-voz e diplomata privilegiado nas questões a Leste do continente europeu. É um dos poucos países que não mostra ter medo de Vladimir Putin, da Federação Russa e dos oligarcas da Gazprom - o gigante soviético do gás. O presidente Komorowski apela os aliados a sanções efectivas aos russos e não apenas o arreganhar de dentes a que se tem assistido e que poucos efeitos produz no rublo, índice revelador da ineficiência das ameaças dos EUA e da UE.

A questão deixada na gaveta, em 2008 quando Obama se tornou Presidente, foi a do sistema anti-míssil na Polónia e na República Checa. O sistema seria instalado pelos EUA nestes dois países e serviria como medida de defesa contra um possível ataque de misseis convencionais e nucleares vindos da Federação Russa. Na altura Bush era ainda Presidente, Medvedev Presidente da Federação e na Polónia o falecido Kaczyński. Num curto espaço de tempo tudo mudou com a eleição de Barack Obama, o desastre aéreo de Smolensk e a eleição de Bronisław Komorowski e a reeleição de Vladimir Putin. O projecto ficou na gaveta e só agora com a crise na Crimeia se menciona uma possível activação do mesmo incluído o de o instalar na Ucrânia... 


A questão energética é também crucial com a exportação de gás proveniente da Rússia. Enormes e extensos pipelines partem do gigante russo para a Europa Ocidental fornecendo gás e aquecimento a milhões de lares, empresas e industrias na Europa de Leste, Central e inclusivamente na Alemanha, Áustria e Itália. Uma dependência comum entre a necessidade de energia para a UE e receita para a Federação Russa. Entretanto grupos radicais ucranianos ameaçam com a destruição dos gasodutos que fornecem gás ao ocidente como medida de prevenção para impedir o eclodir de uma III Grande Guerra. 

Novos desafios desenham-se no horizonte e, espera-se, que não comece uma nova Guerra Fria num mundo que cada vez mais precisa de paz e prosperidade. 


3 comentários:

Ryan disse...

Referencias e bem que a Polónia esta a bater o pé aos Russos mas a atitude do pessoal do costume mantém-se. Isto não passa tudo de uma questão financeira. Talvez esta seja das maiores hipocrisias do pós guerra-fria

Ricardo Taipa disse...

É que é mesmo. Money talks...

Anónimo disse...

A hipocrisia falsidade e mentira são uma chaga dolorosa para os que såo vítimas! do poder dos mais fortes e poderosos e dos grandes interesses económicos .