sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Leis mais duras para quem conduz alcoolizado na Polónia


Quem conhece a Polónia sabe bem que o álcool é um problema grave e por vezes presente nas ruas, transportes públicos e nas imensas lojas de venda de bebidas alcoólicas - muitas 24/7 - a que os polacos denominam de "sklep monopolowy" ou seja, loja de monopólio. Beber vodka e cerveja faz parte da cultura do país e está para os polacos como o vinho está para os portugueses com a diferença que enquanto muitos de nós bebemos álcool às refeições eles fazem-no mais no fim-de-semana ou em ocasiões de festa. 

Infelizmente os excessos causam também tragédias e a sinistralidade rodoviária na Polónia é elevada e causada em grande parte pelo álcool e pela condução em velocidade que se pratica no país. 

Durante o regime comunista, na República Popular da Polónia (PRL) o vodka e os cigarros eram bens que tinham de estar disponíveis e usados em trocas frequentes no sistema de senhas de ração que caracterizaram os regimes totalitários sob alçada da U.R.S.S.

Limites de percentil de álcool no sangue na Europa. De notar que nos países produtores de vinho como Portugal, Espanha, Franca,  Itália e Grécia a tolerância é mais elevada sendo o Reino Unido o "recordista da tolerância" com 0.08. 


Na Polónia havia e ainda há uma importante industria do álcool, sobretudo cervejarias e destilarias que produziam vodka e cerveja, um pequeno consolo numa sociedade com poucas alegrias, opções e alternativas de vida. Depois do colapso do sistema comunista na Europa Central e de Leste o desemprego aumentou e com ele o consumo de álcool, fruto da liberalização da economia e relaxamento das leis e policiamento aos infractores. Os alcoólicos crónicos eram frequentemente internados em sanatórios estatais (izba wytrzeźwień) onde eram literalmente forçados a fazerem o "desmame" do álcool sendo inclusivamente presos até que lhes passasse o problema. 

Problema esse que nunca se sanou nem com medidas draconianas e para quem conhece ou frequentou uma festa com polacos sabe bem que não se livra de uma bebedeira que pode ser mais ou menos profunda mas que facilmente pode descambar numa de caixão à cova com consequências por vezes imprevisíveis. É que o vodka tem a capacidade de gerar uma poderosa amnésia e em certos casos cancelar a auto-censura levando àquilo a que se denomina em certos meios de "destruição do ego". Quem tem maus fígados fica exposto facilmente na sua mesquinhez e aqueles pensamentos que, quando ébrios, conseguimos controlar saem para fora com a força de uma locomotiva soviética transportando Estaline e todos os representantes do Soviete Supremo... 

Aparecer no dia seguinte sem o telemóvel, relógio, sapatos e casaco, ficar enrolado numa paragem de autocarro, fazer a linha toda do eléctrico até o maquinista mandar sair, falar com fluência uma idioma que pensávamos não dominar ou acordar num apartamento desconhecido com um cão a lamber-nos as mãos e a abanar vigorosamente a cauda enquanto uma loira de olhos esverdeados nos oferece chá e bolachas são estórias possíveis depois de uma noite de festa na Polónia.

A lei polaca estabelece 0.2 gramas de álcool no sangue como limite. A partir dai incorre-se em crime, punível com prisão e cassação da carta de condução. A regra é portanto muito simples. Na Polónia se conduzir não beba! Os 0.2 são na realidade um zero pois mesmo abaixo desse limite incorre-se em multas elevadas e tribunal com direito a passagem pelo procurador e uma audição. Felizmente que os transportes públicos são em abundância, não sofrem grandes atrasos e os táxis não são muito caros.

O dia 1 de Janeiro do corrente ano, na cidade de Kamien Pomorskie, perto da fronteira com a Alemanha, a Noroeste, um trágico acidente rodoviário tirou a vida a seis pessoas, sendo uma delas uma criança. Os contornos são semelhante a tantos outros: Um BMW, jovens embriagados, excesso de velocidade, despiste e atropelamento. Em Łódź foi semelhante antes do Natal tendo como consequência o atropelamento de um rapaz e o seu cão, na noite de fim de ano uma mulher grávida de oito meses - embriagada - que foi colhida por um ligeiro na sequência de desordens numa das ruas mais pobres e problemáticas de Łódź e, mais recentemente - com a gravidade de ter sido o condutor de um eléctrico - o atropelamento mortal de duas idosas e ferimentos no condutor e passageiros de um ligeiro de passageiros. Apesar disto algumas fontes indicam que quase metade dos acidentes com álcool registam-se com ciclistas embriagados... 

STOP aos condutores embriagados. Campanha governamental que, infelizmente, não tem surtido os efeitos desejados. 

Donald Tusk, o Primeiro-Ministro da Polónia, reagiu a todos este eventos funestos com a promessa de medidas, leis e multas pesadas contra os prevaricadores incluindo uma eventual obrigatoriedade de ter um alcoolómetro no automóvel junto com a parafernalia obrigatória como o extintor, camisa reflectora, estojo de primeiros socorros, triângulo e o não esquecimento da obrigatoriedade de uso de médios durante todo o ano.

Espera-se que a lei possa eventualmente reduzir a sinistralidade na Polónia e provavelmente só mesmo multas pesadas (alegadamente metade do salário) poderão fazer pensar aqueles que se aventuram a uma voltinha que pode muito bem ser a derradeira... 




4 comentários:

Ryan disse...

Se não me engano o alcoolómetro já faz parte do material a trazer com o resto "do obrigatório" em França. O Alcoolismo não é problema de um ou dois países. Este problema é mundial.

Pepe Chaves disse...

Muito bom Ricardo, estaremos reproduzindo aqui no Brasil, onde tais problemas também são muito graves. Grande abraço!

Ricardo Taipa disse...

Só mesmo multas e tolerância zero podem reduzir a sinistralidade causada por os alcoolicos. Infelizmente há-de haver sempre imbecis que se julgam resistentes á bebida. Deveriam também legislar os ciclistas que gozam de um estatuto de quasi-vacas sagradas...

Ricardo Taipa disse...

Sempre ao dispor Pepe. O Brasil com o seu tamanho e população é outro dos países com elevada sinistralidade. As montadoras e o governo ainda se aproveitam de um mercado pouco exigente havendo carros ainda sem airbag frontal e lateral de série. Algo já não visto na Europa e América do Norte há mais de uma década.