domingo, 14 de julho de 2013

Viver com um português


É um facto que a Polónia tem cada vez mais emigrantes sobretudo de Leste. Os seus vizinhos da Ucrânia e da Bielorrússia mas também da Moldávia e das antigas repúblicas da URSS (Tchetchenia, Cazaquistão) procuram melhores condições de vida e trabalham em ocupações que os próprios polacos evitam ou fazem no estrangeiro, sobretudo na Inglaterra, Escócia e Irlanda. É também um facto que a Polónia, dos países da UE, é um dos que tem menor percentagem de emigrantes - cerca 2% da população - de acordo com as estatísticas. Entre eles estão alguns portugueses, quase como os gauleses da aldeia de Obélix e Astérix.

Uma pergunta recorrente a muitos portugueses na Polónia é o que estamos aqui a fazer. Afinal de contas deixamos o nosso "jardim à beira-mar plantado" por um país frio, com pouco sol, ex-comunista, com uma democracia jovem e com um nível de vida inferior àquele de Portugal e da maioria dos países da UE. A resposta não é fácil e muitas vezes só mesmo um "porque sim" serve como explicação. A maior parte dos emigrantes portugueses são homens e têm uma relação afetiva ou casamento com uma polaca mas também já se começam a encontrar cidadãs portuguesas com polacos ainda que em muito menor quantidade. 




Durante a revolução industrial, em pleno século XIX, a cidade de Łódź teve alguns emigrantes portugueses mas pouco ou nada se sabe sobre eles. Consta que alguns passaram por aqui durante a II Grande Guerra, alistados no exército espanhol para combaterem na Frente Russa, ao lado dos alemães. Quando passaram pela Polónia literalmente perderam as estribeiras com as polacas deixando os organizados e disciplinados alemães à beira de um ataque de nervos - a tal ponto que estes lhes chamavam de ciganos e ainda tinham de os ouvir a cantar o Tiroliro! Morreram todos pouco depois.

A maioria dos nacionais vieram para estes lados já no século XXI. Os programas de mobilidade Erasmus e Leonardo da Vinci trouxeram a maior parte e as polacas ou foram com eles para Portugal ou agarram-nos na Polónia. A língua portuguesa mas também a facilidade em falarem outros idiomas sem dificuldades - como o inglês, espanhol e francês - facilitam a procura de emprego e as chances de encontrar trabalho. Em muitos casos trabalham em corporações, em IT, e saem da Polónia com o curriculum bem preenchido e atraente para outros empregadores em países mais desenvolvidos como a Alemanha, Inglaterra, Irlanda, Suíça e Luxemburgo.

E a nossa reputação? Assunto delicado...

Tal como a maior parte dos latinos sobretudo espanhóis e italianos caímos nos estereótipos de faladores, mulherengos, macho-latino, infiéis às mulheres e preguiçosos. Os polacos chamam-lhe de południowe temperament ou seja temperamento sulista. O nosso temperament justifica os excessos e fama que muitos compatriotas deixam na Polónia. Os maus exemplos sobressaem e são provavelmente em muito maior escala. É verdade que há imensos casos de portugueses com múltiplas relações, em bebedeiras regulares, conhecidos da vida-noturna e cujo objetivo é o de copular, beber álcool e divertir-se o mais possível - alguns chamam-lhe de "o eterno Erasmus". 


Zézé Camarinha o estereotipo do macho-man lusitano.


Num fórum polaco, o kafeteria.pl, há um tópico interessante cujo tema é: Vida com um português. A discussão é entre polacas e o tema a discutir é a vida a dois com um português. Existem aquelas felizes com o seu "tuga" e as outras que os abominam. Umas tecem rasgados elogios outras arrependem-se da amarga experiência com o macho-latino... O curioso é que ao longo das 11 páginas do tópico lemos comentários pouco abonatórios não só aos homens portugueses mas também a questões culturais que para nós são familiares e de certo modo naturais ainda que, diga-se em abono da verdade, pouco correctas na sociedade moderna em que os papeis da mulher e do homem se fundem cada vez mais. 

As queixas mais comuns são como seria de esperar a infidelidade mas também a inaptidão para as lides domésticas de alguns compatriotas. A mulher portuguesa tradicional faz tudo; cozinha, lava a loiça, aspira, varre, esfrega o chão, lava, estende e passa a ferro a roupa, faz as camas e as compras carregando sacos pesados e muitas em meios rurais ainda têm a horta e os animais para alimentar. Para ela a família e a casa é tudo e alguns portugueses na Polónia saem desse meio protetor para a vida real onde a mãezinha não está lá para os ajudar e onde uma mulher moderna não tem vontade, paciência, tempo ou mesmo aptidão para as lides domésticas que não sejam bilaterais. Muito menos para meninos-da- mamã.

A infidelidade é maior pavor entre aquelas que têm relacionamentos com portugueses. Na realidade o problema tem mais a ver com o género masculino do que com a nacionalidade mas é sabido que muitos dos nacionais na Polónia e também outros latinos - onde incluo brasileiros - têm vários parceiros sexuais. A questão que as polacas se esqueceram de abordar no fórum foi a de que um relacionamento (extra-conjugal ou não) é sempre a dois e as suas compatriotas em muitos casos não parecem importar-se com isso. Algumas delas são mulheres comprometidas e casadas e outras gostam de experimentar e ter muitos parceiros sexuais. Nos tempos que correm há cada vez menos mulheres que toleram e aceitam a infidelidade, a regra passou a ser - tu fazes? Eu também!

Depois há os exageros provenientes de dramas pessoais como aqueles descritos por uma utilizadora com o nickname Lisboana que escreveu uma mensagem em jeito de alerta, absolutamente execrável mas ao mesmo tempo hilariante, para com as polacas que têm relacionamentos com portugueses:

"lisboana
 Se me permitem gostaria de alertar antes dos vínculos sérios (matrimónio ou filhos, crédito em comum) com esses doidos. Tenho casa em Portugal desde 2008 e vou lá 6 meses ao ano. O que os meus vizinhos fazem é absolutamente uma loucura. Copulam uns com os outros, uma pessoa tem uma doença venérea, toda a vila tem. Desculpem por a resposta brutal. Senhoras que estão com indivíduos portugueses, usem preservativo!!! Protejam a vossa saúde porque os portugueses são descuidados. O facto que estão com vocês não significa que não convivam intimamente com a vizinha ou outra qualquer que tenha as suas necessidades... Não contraiam nenhum crédito com esses malucos, porque depois pagas tu o crédito e a casa está no nome de ambos."

lisboana
jesli moge to chcialabym przestrzec przed powaznymi zwiazkami (slub i dzieci, wspolne kredyty) z tymi oszolomami. Mam domy w Portugali od 2008 roku jestesmy tam 6 miesiecy w roku. To co wyprawiaja moi sasiedzi to po prostu masakra. Tam kopuluja wszyscy z wszystkimi, jak ma jedna osoba chorobe weneryczna, to ma cale miasteczko. Sorry, za tak brutelne opowiesci. Panie, ktore sa z facetami w Portugali, uzywajcie prezerwatyw!!! Chroncie swoje zdrowie, bo ci ludzie to wyluzowani Portugalczycy sa. To, ze sa z wami nie znaczy, ze nie wspolzyja z sasidka lub inna wyrwa, ktora akurat ma potrzebe.... Nie bierzcie zadnyc kredytow z tymi czubkami, bo pozniej kredyty splacasz ty a dom lub mieszkanie jest na was obojga.
Pozdrawiam


Os estereótipos existem por algum motivo, o principal talvez pelo facto de serem comuns a determinadas raças e nacionalidades. Os maus exemplos são sempre os que mais tinta fazem correr e tanto a nação polaca como os polacos são igualmente alvo de anedotas nos EUA tal como nós somos no Brasil.

Traímos as mulheres? Muitos homens traem e muitas mulheres também, em todos os continentes mas como em tudo há exceções e pessoas de grande valor e honra mas essas não valem discussões acaloradas entre amigos, nos cafés ou na Internet. Qual o interesse de discutir que o Luís ou o Fernando montaram uma empresa na Polónia e foram bem sucedidos? Qual o interesse em mencionar o Pedro ou o Daniel que são excelentes pais e maridos? Qual o interesse em perder tempo a falar do Rogério ou do Paulo que são fieis e amam de verdade a sua namorada polaca?


Muitos portugueses vêm para a Polónia viver por causa das polacas e por aqui ficam. Uns portam-se bem, outros não...


Quanto ao sermos preguiçosos devemos sempre recordar um pouco a nossa História. Não fizemos um dos maiores impérios mundiais estando sentados na praia a apanhar sol.

Somos sulistas mesmo que o futebol nacional queira criar uma divisão mesquinha e evidentemente artificial entre as gentes do Norte e do Sul de Portugal. Portugal é Europa do Sul e somos latinos. Gostamos de mesa e somos capazes de ficar em amena cavaqueira horas a fio, sentados à mesma depois de uma refeição - algo impensável para a esmagadora maioria dos polacos. Apreciamos um bom copo de vinho dos muitos e bons que temos disponíveis nas nossas regiões demarcadas. Um prato de tremoços e uma cerveja gelada são pequenos prazeres difíceis de compreender para o estrangeiro que não conhece Portugal e a sua cultura.

A maioria dos portugueses vibram com o futebol e aproveitam quando podem a costa portuguesa e uma sardinha assada na brasa acompanhada com um copo de vinho branco gelado. Damos beijinhos ao cumprimentar e mostramos as emoções mais facilmente que os europeus do Norte e do Leste. Falamos alto sim; nem sequer nos apercebemos disso a maior parte das vezes. Paramos no meio da rua quando em conversa e sabe-nos bem dormir pela manhã quando lá fora o calor aperta e não temos de ir trabalhar porque é fim-de-semana, férias ou dia de folga. 

Não somos apenas desporto, gastronomia, Fátima e Portugal para inglês ver.

 Essência dos Madredeus.

Existe também um Portugal culto, erudito. O Portugal das artes, da cultura e ciência mesmo que a crise e as abomináveis medidas de austeridade das máfias da banca as considerem como supérfluas retirando-lhes apoio. É este Portugal que muitos não conhecem e não lhes interessa conhecer porque são superficiais e pouco interessados no que lhes rodeia e é aqui que erramos. Não nos valorizamos enquanto nação, persistimos no erro de não investir fortemente na educação desde a pré-primária, em formar e educar o cidadão e sobretudo de evitar a debandada de cérebros que vão beneficiar países terceiros. 

Temos defeitos e virtudes como todos os povos neste planeta mas como diz a sabedoria popular: Não gosta!? Ponha na beira do prato! 





5 comentários:

Anónimo disse...

Polacas...polacas...prefiro mais a sul, há mto mais sensualidade

Ricardo Taipa disse...

Lá está, gostos são gostos. Pergunto-me se o anónimo/a conhece as mulheres do centro e Leste europeu. Desde quando é que elas não têm sensualidade? Aqui até se encontram empregadas de limpeza e caixas de supermercado que em Portugal seriam consideradas modelos... Believe it or not.

Anónimo disse...

Os povos do sul da Europa, como os portugueses, são Brancos Mediterrânicos, não são Latinos. A língua portuguesa `e que vem do latim, tal como o francês, o espanhol, o italiano, etc. Em termos de raça, o termo Latino designa povos da America do Sul e central.


Nao confunda origem linguistica com etnicidade, pois sao duas coisas bem diferentes.

Ricardo Taipa disse...

O anónimo poderia ter deixado as suas fontes é que é sabido que os povos latinos descendem dos habitantes do Lácio e durante a romanização surgem os idiomas latinos que são variantes do Latim falados pelo invasor.

Sendo assim os italianos, espanhóis, portugueses e franceses, que falam línguas latinas, são de facto latinos e os sul americanos devido à colonização europeia são designados de latino-americanos.

Anónimo disse...

Normalmente não me interesso por "conversas de blogs" mas uma vez que a minha namorada é polaca, comecei a ler e de facto concordo a 100% com tudo que é aqui dito. Apesar de malta do sexo masculino não gostar muito de nós(é essa a impressão que tenho) é uma país lindissimo com pessoas lindíssimas! Quanto as descendências já disse tudo e bem! Nada a acrescentar. Parabéns pelo blog