Mostrar mensagens com a etiqueta Viver e trabalhar em Łódź. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viver e trabalhar em Łódź. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Viver no Barco - II

Łódź - O coração da Revolução Industrial na Polónia

Fábrica de Israel Poznański em finais do século XIX [1]

Num primeiro contacto a cidade não impressiona ninguém, não tem um rio decente (tem uns afluentes), não tem praia nem lagos e parece ser uma enorme mancha cinzenta com avenidas e ruas cortadas a régua e esquadro mas não é bem assim.

Łódź é uma das cidades europeias com a maior percentagem de "mancha verde" e deve ser apreciada não como um todo mas ao pormenor. Infelizmente a maior parte dos edifícios históricos e o centro da cidade encontram-se degradados, as paredes partidas e sem ver tinta há décadas, os passeios quebrados e algumas fachadas pretas de anos de poluição vinda das chaminés e lareiras, do transito e do gelo.

Houvesse dinheiro e Łódź poderia ter um centro histórico que não fica nada a dever a algumas zonas de Paris, e não estou a exagerar! Venham cá e confirmem.

Łódź foi em tempos uma gigantesca cidade industrial. Segundo a Wikipédia, chegou a ser de tal modo industrializada que, durante o século XIX em plena Revolução Industrial, recebeu emigrantes de países tão longínquos como Portugal (sic) mas também Inglaterra, França e Irlanda. A industria têxtil tinha aqui o seu estandarte.

A comunidade judaica foi essencial para erguer a cidade e torná-la um dos maiores pólos industriais da Europa (senão o maior) no século XIX. O epíteto da "Cidade das Quatro Culturas" ou Miasto Czterech Kultur não é dado em vão, na realidade Łódź era uma cidade multi-cultural onde se podia verificar a convivência entre a comunidade judaica, alemã, russa e a maioria polaca. A cidade é inclusivamente palco de um festival anual chamado de Festival das Quatro Culturas onde se realizam eventos alusivos a essas comunidades.

Ainda hoje em dia basta uma visita relâmpago para se verem as imponentes fábricas dos grandes industriais como Israel Poznański (hoje em dia o centro comercial Manufaktura), Ludwik Geyer, Karl Scheiber, a fábrica branca entre outras, não dezenas, mas centenas de fábricas e pavilhões construídos no típico Tijolo Burro.
Os grandes magnatas da industrial têxtil construíam os seus palacetes com a fábrica(s) ao lado e edifícios, em estilo barroco, que serviam de albergue aos seus trabalhadores.

Casas construídas para os trabalhadores, a fábrica ficava mesmo em frente. [2]

Durante os anos de ouro de Łódź houve um judeu-polaco que se destacou de todos os outros, Izrael Kalmanowicz Poznański, o fundador de um dos ex-libris da cidade, o palácio Poznański e a gigantesca fábrica e edifícios contíguos que, até cerca de 2004, estavam praticamente abandonados e esquecidos, excepto o palácio onde actualmente existe um museu e serviços públicos.
Toda a zona envolvente foi recentemente reaproveitada por um grupo francês para erguer o gigantesco centro comercial Centrum Manufaktura (27 hectares) e um futuro hotel de quatro estrelas.


Izrael Poznanski 1833-1900. Consta que quando mandou construir o seu palácio foi perguntado sobre que estilo pretendia, terá respondido "todos!". [3]


Símbolo dos tempos. A fábrica que se tornou o maior centro comercial da Polónia e conseguiu destronar a famosa rua Piotrkowska como o "local onde tudo acontece". [4]

[1] Foto retirada do site sobre os judeus de Łódź in: http://www.shtetlinks.jewishgen.org

[2] http://picasaweb.google.com/Malgorzata.Majewska/LodzACityOnceFamousForTextileIndustryButAlsoCinema#5095636460858018530

[3] [4] Wikipedia Commons

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Viver no Barco - I

Łódź em polaco significa Barco e é neste barco que me encontro desde 2004, ano em que decidi emigrar.


Não foi a primeira escolha de local para viver, apesar de ter passado um tempo fenomenal no Erasmus que fiz na Wyższa Szkoła Humanistyczna Ekonomiczna (WSHE), tendo conhecido a minha companheira nesta cidade, mesmo tendo casado por aqui ainda tentamos viver em Portugal mas todas as circunstâncias empurraram-nos para estas paragens.

Portugal encheu-me o saco, desculpem a frontalidade. Não o país em si, não a família ou os amigos mas o "Portuguese way of life" se é que podemos usar este neologismo. Foram frustrações em cima de frustrações, salários ridículos e horas extraordinárias que nunca seriam pagas, e depois uma situação de desemprego que na altura era geral na família!

Acima de tudo fomos vítimas das políticas de emigração que penalizavam todos os cidadãos portugueses casados com estrangeiros fora da União Europeia (casamos antes da adesão da Polónia à UE).
Fosse a minha mulher brasileira ou cidadã da União Europeia e tudo tinha sido diferente mas para os SEF não bastava o casamento para que ela se juntasse a mim e tivesse o tão ambicionado "visto de residência". Gastei muito dinheiro nos SEF em papeladas, selos e extensões do visto de turismo.
Quer em Braga quer no Porto eram hordas de emigrantes a pedirem vistos e extensões. Na Loja do Cidadão em Braga a funcionária disse-nos com um sorriso artificial que a "a Paulinha" (como se tivesse andado com ela na escola) teria de ir para o seu país e esperar pelo visto de residência. Prontamente lhe agradeci e disse que o melhor mesmo era emigrar para o país dela pois em breve ia ser parte da UE e tudo iria começar para aqueles lados.


Nós estávamos fartos da separação, de ansiedade e frustrados com as respostas que nos davam. A isto juntou-se mais uma vez o desemprego e como tal não foi preciso muito para que chegasse a casa e dissesse à Paula
"Start packing because tomorrow we go to Poland". Praticamente fomos viver para a Polónia com uma mão à frente e outra atrás, não fosse a ajuda das mães e teria sido virtualmente impossível a mudança.

E assim foi. Enchi metade do depósito, pois a abastecer totalmente só depois de atravessar a fronteira, despedi-me da minha irmã e do meu cunhado na noite anterior e da minha mãe de manhã e fizemos-nos de novo à estrada naquele Corsa 1.0 mas desta vez numa viagem de ida e sem volta programada. Quando atravessamos a fronteira (na Galiza) parei o carro para contemplar Portugal e meditar naquilo que deixava para trás, nas décadas que passei naquele país e nas memórias que ali deixava. Como sentia uma crescente mistura de revolta, frustração e tristeza decidi não sacudir o pó das sandálias mas ao invés arrancar a queimar pneu.

Chegamos a Łódź três dias e meio depois, completamente exaustos (dormi 18 horas seguidas!) mas com esperanças renovadas. Emprego encontramos passado pouco tempo e entretanto como a Polónia tinha aderido à UE não foi difícil obter o visto de residência ou Karta Pobytu.

Estou perfeitamente integrado na sociedade polaca com as devidas nuances em virtude de várias opções de vida como por exemplo não querer ter religião e como tal não participar na vida religiosa que muitos polacos vivem fervorosamente. Talvez esta seja a parte em que menos me integrei. Acabamos por não casar pela igreja apesar das pressões da família (sobretudo da família polaca) e decidimos, tendo em conta o livre-arbítrio, que o baptismo das crianças deverá ser escolha delas no futuro e em plena consciência. Se quiserem seguir a religião católica são livres de o fazer.

Fim do primeiro capítulo.