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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O "emeryta" (reformado)

Uma imagem comum nas grandes cidades polacas. [1]


Hoje fui (finalmente) lavar o carro, teve mesmo de ser pois na Quarta-Feira tenho de fazer a Przeglądu Techniczny ou seja, a Inspecção Periódica Obrigatória.

O dia esteve soalheiro e começou com 270 zloty a mudarem de mãos devido a uma panela de escape nova que, por incrível que pareça, nem sequer era especifica para os Lancia Lybra 1.9 JTD... não houve um "tłumasz" (mecânico das panelas de escape) em Łódź que me dissesse que tem uma panela para esse modelo! Felizmente que o grupo Fiat sempre foi prodigioso em partilhar componentes e como tal levei, tomada e embrulhada, uma panela de Fiat Marea que além de ser mais barata ainda deixou uma saudável [not] ressonância estilo racing sempre que circulo a baixas rotações.

Feito isto fui lavar a viatura que parecia vinda de um qualquer Paris-Dakar... o serviço custou uns modestos 16 PLN com aplicação de espuma e cera para minimizar os estragos das lixadeiras automáticas. Depois do sopro das ventoinhas ter tirado alguma água da carroçaria foi a vez de aspirar o interior.
Meti uma moedinha de 2 zloty no aspirador e limpei a praia que tinha debaixo dos tapetes. Quando sacudia os ditos reparo que tenho um idoso a olhar para mim.

O senhor aparentava os setenta e muitos, tinha um saco de supermercado na mão, boina e óculos de massa graduados com um estilo antiquado. Perguntou-me, com um sorriso no rosto, se estava a lavar o carro por causa do feriado do 11 de Novembro ao que respondi que não, na realidade lavava o carro por causa da inspecção periódica.
Enquanto secava as janelas o senhor foi-me dizendo, com uma voz cansada, que ainda é do tempo em que as pessoas andavam quase todas de bicicleta, como ele disse rower (bicicleta em polaco) ainda pensei que tivesse um Rover mas depois caí na real.
Continuou dizendo-me que nesses tempos os carros eram poucos e hoje em dia são relativamente baratos, o irmão dele tem um e estima-o bastante, já ele não pode conduzir pois a pequena reforma não lhe permite esse luxo.

Foi então que me perguntou se uma garrafa de água e refrigerante que estavam no lixo eram minhas. Disse-lhe que não, que por acaso tinha reparado que alguém tinha-as tirado do carro ao aspirar e deixado-as no cesto. O senhor terminou a conversa, começou a rodar as garrafas na mão e meteu-as no saco, foi então para a paragem de autocarro com um sorriso nos lábios.

Naquele momento fiquei a pensar nos 270 zlotys que deixei na oficina, no carro que tenho aos 34 anos de idade e na injustiça de ver alguém que, depois de trabalhar uma vida toda, não só não pode comprar e manter um carro como ainda precisa de remexer no lixo dos outros.

Os vasculhadores de lixo

Recordo-me bem da primeira vez que tomei contacto com esta realidade na Polónia, as pessoas que vasculham no lixo.
Quem aqui vive já não se sente chocado mas para o estrangeiro talvez seja uma novidade, não pelo facto de não existirem vasculhadores de lixo em todo o mundo, mas pelo facto de na Polónia serem tantos e fazerem-no durante o dia.

Ao que parece a maior parte deles procuram latas de cerveja e metal para poderem vender o alumínio ao quilo e fazerem algum dinheiro, outros procuram restos de comida para não passarem fome, outros ainda vão buscar janelas, sofás, cortinados e móveis velhos para levaram para as suas dzialka, outros precisam de "fundos" para pagar o vicio do álcool.

Como diz o provérbio em inglês "one man's trash is another's man gold"!

[1] Retirado de Flickr, fotografia de oto-polska.blogspot.com