Conforme citado supra, escrevi isto em Novembro de 2014, quando se completaram dez anos da minha estadia na Polónia e, num estalar de dedos, aqui nos encontramos em 2026 e a caminhar a passos largos para 2027. O tempo realmente passa num ápice! Conheci a Polónia sete dias depois dos ataques do 11 de Setembro numa altura em que ninguém tinha muita vontade de se sentar num avião mas com algum nervosismo e optimismo à mistura lá fui para o intercâmbio Erasmus-Sócrates com mais dois companheiros de viagem para esse país tão longe (agora longe é Portugal, esse solarengo país na Península Ibérica).
Seria um fastio enumerar os acontecimentos históricos deste país nestes vinte e cinco anos que passaram, muitos deles estão neste blogue (incluindo a morte de Karol Wojtyła o Papa João Paulo II ou o desastre aéreo de Smoleńsk) descritos então por um português recentemente imigrado na Polónia; a perspectiva era distinta, havia ainda o "ver o país pelos olhos de um português" e agora tempus fugit é inevitável ver Portugal e o mundo como se fosse pelos olhos de um polaco - não deixamos de ser portugueses (não dá!) porém em vinte e cinco anos cresce um polaco ou polaca dentro de nós, um Ryszard, um Grzegorz , Jan, uma Anna, Agnieszka, um Michał, uma Agata ou um Paweł. E assim será com aqueles na Diáspora portuguesa (e somos tantos por esse mundo fora).
Dezembro de 2001 em Zakopane a descobrir a Polónia. Tal como na canção de Edith Piaff, je ne regrette rien, ni le bien, ni le mal. Voltaria a fazer o mesmo sem hesitar.
Na minha última "visita de médico" a Portugal, em Maio, pela celebração do octagessimo aniversário da minha mãe e após uma ausência de alguns anos deu para sentir ainda mais esse fosso ao observar Portugal e os portugueses no seu dia-a-dia.
O típico café pela manhã e o pastel de nata, a padaria com as doçarias com as quais me regalei na minha infância, adolescência e os primeiros anos de adulto, os velhinhos e as raspadinhas, as conversas entre eles e elas, o à-vontade das pessoas e o sorriso e boa disposição mais frequentes - agora o cara de pau era eu com o tom mais sério e o passou-bem em vez dos dois beijinhos da praxe, fruto de anos e anos de Polónia onde tais tradições não são típicas. O sorrir demasiado pode ser interpretado como ser um pateta ou alguém com pouca seriedade, os beijinhos na cara é um invasão do espaço pessoal quando não se é próximo da pessoa e na realidade até me habituei a isso ao ponto de já nem saber bem quando dar os beijinhos e a quem a não ser à família mais chegada.
Nestes anos vinte do século XXI vivo numa outra Polónia, muito distinta daquela que presenciei em 2001 durante o meu intercâmbio estudantil entre 2001 e 2002 ou em 2004 quando assentei arraiais nestas latitudes.
Em 2001 o "Skyline" da capital polaca era dominado pelo Palácio da Cultura, construído na Era Estalinista, agora está gradualmente a desvanecer entre os novos arranha céus da baixa varsoviana.
A adesão à UE transformou o país e muitas mentalidades apesar das vozes de protesto e repúdio que entendem a União Europeia como um estorvo e ensejam um "Polexit" - vejo isso como o escarafunchar russo em certos sectores da sociedade polaca e muitos polacos nem se aperceberem de tal.
A Polónia aproveitou bem a UE e as facilidades do Espaço Schengen. Pela sua localização privilegiada entre o Oeste e o Leste europeu tornou-se um ponto estratégico e logístico para inúmeros sectores da actividade económica incluindo a China e o novo corredor "Rota da Seda - Marco Polo" que promete movimentar as relações económicas entre a Polónia, a UE e a China por via rodoviária e ferroviária.
A guerra na Ucrânia não só marcou uma assinalável mudança na sociedade polaca derivado dos refugiados ucranianos (estimados em mais de um milhão) bem como a necessidade de modificar e adaptar não só a política externa bem como a defesa do país e sobretudo as suas fronteiras a Leste.
Em 2022 com o compatriota João Faria em voluntariado na Cruz Vermelha polaca, nas semanas a seguir à invasão da Ucrânia e crise de refugiados.
O crispar das relações diplomáticas com a Rússia e Bielorrússia, o investimento brutal nas forças militares polacas (atualmente as quartas forças armadas melhor equipadas da UE, a aproximarem-se da Alemanha e Itália (a primeira é a França) e as relações com Washington durante a administração Trump ditam o Zeitgeist na Polónia. O cenário de uma hipotética guerra ou conflito militar com Moscovo não pode ser descartado e o risco de confrontação com a potência nuclear de um Putin desaguisado põe à prova a NATO que os russos - e agora até o presidente dos Estados Unidos - consideram ser um tigre de papel...
As fundações que sustentaram os oitenta anos de paz no continente europeu estão a ser abaladas com o guarda-chuva americano a ser retirado por uma administração chantagista, hostil e petulante com os aliados e parceiros económicos de longa data, por o presidente dos oligarcas, corrupto, chanfrado, néscio, um energúmeno inculto, uma pantomima que cada vez mais demonstra ser um joguete da Rússia. E nisto o mea culpa vem da Europa ocidental e membros da Aliança Atlântica que confortavelmente beneficiaram da política externa americana e agora encontram-se numa encruzilhada, mãos nas ancas e olhar confuso.
A própria União Europeia está em contração com a locomotiva alemã que apresenta sinais evidentes de fadiga. Os franceses dizem que Quand il pleut à Paris, il bruine à Bruxelles ou seja "Quando chove em Paris, faz neblina em Bruxelas" o que se pode agora atualizar para Berlim em vez de Paris.
A China e a Rússia integram o bloco BRICS que, junto com o portento económico que é o Brasil e a Índia e as riquezas auríferas da África do Sul e outros países africanos, asiáticos e do Médio Oriente, são per se uma nova ordem mundial à qual a UE tem de estar atenta apesar das novas parcerias com o Canadá e também com a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai dentro dos acordos UE-Mercosur, os que têm tido os seus revezes com o cumprimento das exigências e inúmeras regulações da UE com a administração de um certo tipo de antibióticos na carne de bovinos que não são permitidos na União Europeia. Esta parceria causou um protesto ruidoso por parte dos produtores polacos e europeus e acusações de ingerência da UE nos interesses destes o que foi um fogacho para os partidos anti-UE.
Surge agora o vislumbrar de uma nova parceria económica entre o Canadá e a UE em consequência dos desaforos sistemáticos de Trump e retaliação económica com o país vizinho e com a totalidade do bloco europeu. Tal como a Noruega e a Suíça que são parceiros privilegiados da UE, apesar de não fazerem parte do bloco e nem terem necessidade ou ensejo de tal, o Canadá vê na aproximação aos europeus (e vice-versa) um novo impulso nas relações externas e económicas para além daquelas que até há pouco tempo pareciam ser inabaláveis com os EUA.
Curiosamente o Canadá faz fronteira com a UE nas ilhas Saint Pierre et Miquelon - cerca de vinte quilómetros entre as pequenas ilhas e a Terra-Nova tal como o Brasil tem com a Guiana Francesa.
Vivemos em tempos incertos ou melhor, agora sabemos que vivemos em tempos incertos. A bolha de proteção americana que ainda vinha do pós-guerra e da Guerra-Fria, dos dois blocos Leste e Oeste entre a URSS e os EUA ao estilo do que nos habituamos com Hollywood nos James Bond, Rambo e Força Delta dissipou-se e expôs vulnerabilidades que só a NATO poderá (esperemos que não) provar serem infundadas, ou não.
A realidade está aqui, a pouco mais de quatrocentos quilómetros de Łódź nas fronteiras com o enclave de Kaliningrado da Federação Russa, a Bielorrússia de Lukashenko e o estoicismo da nação ucraniana. São centenas de quilómetros de arame farpado, barreiras, vigilância, tropas que agora usam fogo real depois da morte, com um punhal, de um jovem soldado polaco por um ilegal que atravessava a fronteira com a Bielorrússia. A Polónia defende diariamente as fronteiras da UE tal como os ucranianos, os Estados Bálticos e agora também os finlandeses após décadas de neutralidade.
Na passada quinta-feira, dia 17 de Setembro, por volta do fim da manhã ouviram-se dois estrondos fortíssimos, como duas explosões. O prédio vibrou, os pássaros esvoaçaram e quem estava em casa veio à janela. Nas redes sociais de Łódź todos perguntam o que seria. Um explosão forte nalguma fábrica da cidade? Os russos? Uma explosão de gás?
No espaço de meia hora os noticiários já confirmavam que a Força Aérea da Polónia (Siły Powietrzne) tinha levantado da base aérea de Łask vários caças F-16 em direcção à fronteira com a Ucrânia, perto de Lublin (cerca de 340 Km a Leste de Łódź).
Haviam suspeitas que mais uma provocação russa decorria na raia com a Ucrânia, um ataque de drones massivo.
A base localiza-se a cerca de 30 Km da cidade de Łódź. Ao sobrevoaram a zona urbana os pilotos ultrapassaram a barreira do som e as explosões eram o estrondo sónico. Em dez minutos os caças estavam já junto à Ucrânia. Foi falso alarme mas demonstra o estado de intranquilidade, alerta e tensão da guerra híbrida na Europa. A Rússia põe à prova as capacidades de resposta e prontidão dos membros da NATO.
Os interesses económicos russos e a relação de interdependência destes com a Alemanha e UE ao nível energético ditou o erro crucial de se reagir com inacção à invasão e ocupação da Crimeia em 2014. O gás é petróleo russos, o gasoduto Nordstream 2 e os oligarcas russos paulatinamente tomavam as rédeas dos recursos energéticos europeus. Tal como a URSS fazia com o abrir e fechar a torneira do gás e petróleo como dissuasor ou punição para os prevaricadores do Comintern, assim seria a quem desafiasse a nova ordem de Putin, até à invasão da Ucrânia que parece estar longe de uma resolução.
A Polónia é um país de emigrantes, só nos EUA há perto de dez milhões de descendentes de polacos com especial concentração em Chicago, Nova Iorque e Michigan mas também no Canadá. Na Europa há milhares no Reino Unido e Irlanda, Alemanha, Holanda, Escandinávia, França e um pouco por toda a UE. No Brasil há uma forte comunidade polaca em Curitiba no Estado do Paraná e também se encontram na Austrália.
No próprio país deles há poucos imigrantes apesar de algum aumento desde que fazem parte da UE. A comunidade portuguesa são pouco mais de três milhares espalhados pelas grandes urbes, o grosso são evidentemente os ucranianos (70%), bielorrussos, georgianos, industânicos e curiosamente colombianos - no total e de acordo com o instituto GUS perfazem apenas 6% da população. O contraste com outros países da UE a Ocidente é evidente. As crises migratórias a que assistimos recentemente como em Ceuta e que são o fermento de movimentos políticos à Esquerda e à Direita estão a moldar uma nova Europa e mais do que nunca a criarem uma clivagem nunca vista entre os europeus, compatriotas e até entre famílias e amigos. Quem deve entrar? Quem não deve? Quem controla? Quem não quer controlar o influxo?
Imortalizada por Zeca Afonso na célebre canção "Traz outro amigo também", onde este canta: "Seja bem-vindo quem vier por bem" parece ser o único ponto de concórdia. Na Polónia são inúmeros os ucranianos e agora sobretudo as ucranianas a trabalharem tal como os inúmeros brasileiros, latino-americanos e africanos que vi em Portugal nas caixas de supermercado, em construção civil e um sem-fim de atividades.
Tal como eu e outros milhões de portugueses por esse mundo fora viemos por bem, para ganhar a vida, para formar família ou simplesmente para usufruir do país porque se gosta e entranhou-se em nós. Há maus exemplos de portugueses? Claro que sim, provavelmente em vez de um "post" escreveria um livro porque há muitos portugueses desonestos, assassinos, ladrões, corruptos, pervertidos por os quatro cantos do mundo tal como na comunidade brasileira em Portugal temos igual e membros da perigosas facções criminosas brasileiras relacionadas com o narcotráfico e o tráfico de seres humanos ou os negócios dúbios de membros da comunidade industânica.
Os polacos também têm inúmeros criminosos no seu curriculum de emigrantes como Richard Kukliński (o Iceman), Tillie Klimek uma "serial killer" de Chicago, o assassino do 25º presidente americano William McKinley - Leon Czolgosz - ou um dos mais célebres, o Unabomber, Ted Kaczyński (penso não estar relacionado com o velho dos gatos Jarosław Kaczyński)...
A comunidade portuguesa na Polónia não tem a presença e peso de outras como a da França, Luxemburgo, Canadá, Newark nos EUA e Suíça, somos "meia-dúzia de gatos pingados" espalhados pelas grandes cidades como Varsóvia, Cracóvia, Wrocław, Gdańsk, Łódź e Poznań mas há que assinalar e louvar o trabalho dos membros da Fundacja Portugalia que de alguns anos a esta parte têm levantado o estandarte lusitano pela Polónia e assistido a quem lhes pede auxílio.
Vinte e cinco anos uff... Duas décadas e meia com altos e baixos, alegrias e tristezas, encontros e reencontros, uma cultura diferente da portuguesa, um idioma que não é fácil de aprender mas ao mesmo tempo fascinante e a sensação de dever cumprido com uma família luso-polaca linda e da qual tenho imenso orgulho e que foi e é o meu cimento nestas paragens. Kocham Was!
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