domingo, 24 de abril de 2016

Sauron e Mordor


O ano começa polémico entre acusações internas e externas ao executivo polaco de estarem a contribuir para o desmantelar da Democracia em consequência do despedimento de três juízes do Tribunal Constitucional - alegadamente em favor de magistrados que favorecem o PiS - do pagamento de mais de 26 milhões de złoty (aproximadamente 6 milhões de €) em compensação por danos à fundação Lux Veritatis pela parte do Narodowym Funduszem Ochrony Srodowiska i Gospodarki Wodnej (Fundo Nacional de Protecção ao Ambiente e  Gestão de Água) entre outras polémicas que prometem um 2016 agitado...

Considerado com Eminência Parda do PiS, Kacyński não está oficialmente no poder mas o Presidente e Primeiro-Ministro (Duda e Szydło) são eleitos pelo seu partido Prawo i Sprawiedliwość. 

 No Parlamento Europeu, em Janeiro, a Primeiro-Ministro da República da Polónia, Beata Szydło, eleita pelo PiS, respondeu a questões sobre a situação da Democracia no seu país, defendendo a sua causa patriótica como o reforço dos valores europeus e o papel deste país (Polónia) na História do continente enquanto, sublinhou, tudo não passa de um mal-entendido, os tribunais e os media públicos estão bem e recomendam-se... Este discurso, contudo, não impediu certas falácias como a afirmação de terem acolhido 1 milhão de refugiados da Ucrânia em território polaco em consequência do conflito iniciado pela invasão da Crimeia. Números difíceis de provar apesar da evidente emigração dos vizinhos de Leste na Polónia que, segundo as estatísticas, serão a maior comunidade de emigrantes no território.

Reflexo da inacção da União Europeia perante os atentados em Paris e Bruxelas, a crise resultante do conflito sírio e a ineficácia no controlo das entradas de refugiados e migrantes económicos no continente europeu - é agora sabido e oficialmente admitido que de facto entraram indivíduos radicalizados entre os que chegam ao continente fugindo da guerra - a Polónia em consequência recusou oficialmente a aceitação de mais refugiados havendo inclusivamente manifestações anti-Islão e anti-emigração (sobretudo contra os refugiados muçulmanos) e contra-manifestações nas grandes cidades polacas. Os movimentos patriótico-nacionalistas estão agora a ter mais aceitação do que nunca, não só na Polónia mas em todo o continente, o liberalismo, os movimentos e partidos humanitários, conotados sobretudo com a Esquerda e com o "Politicamente Correcto" estão debaixo de fogo.

No cartaz: zakaz pedalowania pode-se ler  como "proibida a paneleiragem" ou "viadagem" numa manifestação da extrema-direita polaca. 

Os tempos mudam e este ano parece que desperta um monstro que ninguém quer realmente incomodar. Enterrado na lama desde 1945, os movimentos nacionalistas e fascistas beneficiam do medo, do caos e da raiva que as injustiças despertam nas pessoas, cresce e ganha força perante uma UE gorda, tecnocrata, acomodada, burocrática e demasiado preocupada com o já referido politicamente correcto. Nos EUA, Donald Trump, o candidato mais ignorante, boçal e bacoco dos últimos anos ganha um suporte inusitado o que não é um problema directamente europeu mas e pode vir a ser ou não fossem os EUA nossos aliados.

O "estouro" de Andrzej Duda e o desastre de Smoleńsk

Fonte: http://bi.gazeta.pl/im/c3/ce/12/z19720131Q,Wypadek-Andrzeja-Dudy--Limuzyna--ktora-jechal-prez.jpg



O presidente da República da Polónia "esbarrou-se" (como dizem lá no Norte) na Auto-Estrada A2 quando seguia no BMW presidencial, um série 7 blindado. Alegadamente um pneu traseiro rebentou fazendo o veiculo sair repentinamente fora da estrada, quase capotando na berma. Mas foi só o susto ainda que, ou não fosse típico da politica e dos media polacos, um acontecimento esmiuçado e debatido com direito a comissão de investigação não fosse o caso de ser um potencial atentado à vida do chefe-de-estado como, assim acreditam o PiS e Kaczyński, o desastre de aviação em Smoleńsk na Rússia em 2010 que ainda hoje é fonte de polémica e de inúmeras comissões de investigação (e teorias da conspiração) semelhantes às do acidente de aviação do Primeiro-Ministro português Sá Carneiro, restantes passageiros e tripulação em Camarate.

Ao que consta os novos pneus estariam disponíveis em armazém mas não foram mudados a tempo o que porventura teria evitado o rebentamento e o acidente com a principal figura de Estado da Polónia.


O aborto e o cárcere para quem aborta e ajuda a abortar e o fim da comparticipação para a fertilização in vitro.




Na Polónia, por exemplo, não se compra a pílula de contracepção sem receita médica e o ponto de vista da Igreja Católica no que diz respeito ao aborto e a métodos contraceptivos é seguido à letra pelos conservadores e pela grande parte dos partidos políticos mais à direita. Com o PiS no poder o movimento "pro-vida" ganha força e está para ser aprovado em parlamento a lei que prevê a detenção da mulher que decide pelo aborto (e quem a suportou directa ou indirectamente) com pena efectiva até cinco anos. Inúmeras manifestações pacificas contra esta medida ocorrem um pouco por toda a Polónia não se registando confrontos ou necessidade de intervenção policial.

Do mesmo modo a fertilização in vitro pode ser penalizada a nível da comparticipação do Estado polaco o que acaba por ser um contra-senso num dos países com a mais baixa taxa de fertilidade da UE. Prevendo poupanças na ordem dos 110 milhões de złoty (27 milhões de €) o executivo terá assim menos problemas em realizar os pagamentos do novo e prometido plano "500+" que atribui o pagamento mensal de 500 PLN (116€) a casais com mais do que um filho.

2016 promete ser um ano de grandes polémicas e divisões, não apenas na Polónia mas também no mundo ocidental, um ano que parece ser o encetar da ascensão de forças malignas ao estilo Sauron do Senhor dos Anéis ou pura e simplesmente o resultado de décadas do "Politicamente Correcto", do laxismo de Bruxelas e do tão apregoado multi-culturalismo que, à medida que o nevoeiro se dissipa, revela debilidades num modelo porventura demasiado permissivo e mais unilateral do que outra coisa.

Para todos os efeitos a "procissão ainda vai no adro" quando consideramos que mais de três milhões de refugiados se acumulam na fronteira entre a Síria e a Turquia, outros milhares continuam a cruzar o mediterrâneo, os britânicos em Junho votam pelo sim ou não a permanecerem na UE (o sim parece estar a ganhar terreno) e na Sicília a Cosa Nostra declara guerra aos gangs africanos de tráfico de humanos que trazem consigo, em média, mil refugiados por dia àquela ilha.


2 comentários:

Daniel A. Lourenço disse...

Pequena errata, logo no início do texto.
Onde se lê:
"...em Janeiro, a Presidente da República da Polónia, Beata Szydło"
deve ler-se:
"...em Janeiro, a primeira-ministra da Polónia, Beata Szydło"

Ricardo disse...

Obrigado Daniel!