quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O português, os polacos e a República das Bananas


Paulo Franco, um compatriota em terras de Sua Majestade, fez as parangonas de jornais ingleses, portugueses e polacos pela invulgar situação de se encontrar no desemprego em virtude de não falar o idioma polaco. 

A empresa Fyffes em Coventry, Reino Unido, especialista no processamento e embalamento de bananas está envolta em polémica depois de um supervisor de nacionalidade portuguesa declarar publicamente que foi posto de parte e despedido por não entender o pessoal que deveria supervisionar. Acontece que a maior parte dos trabalhadores da Fyffes são polacos, tal como outros milhares espalhados em centenas de empresas e sectores de actividade pela Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte.

Poderemos atribuir as culpas exclusivamente à comunidade polaca no Reino Unido? Ou aos trabalhadores polacos da Fyffes? Parece-me que não, diga-se em abono da verdade. Os gestores e os managers britânicos deixaram - convenientemente e com margens de lucro - que os polacos tomassem conta das suas empresas. A mão-de-obra barata, a facilidade em preencher vagas deixadas pelos ingleses e a dedicação ao trabalho que caracteriza o trabalhador polaco no estrangeiro são um chamariz para o patronato num país que outrora foi o maior império colonial do mundo e um dos ícones da tecnologia e indústria mundiais. Os polacos fazem aquilo que lhes é natural e que foi também característica da emigração portuguesa em França - nos anos 60 e 70 do século passado - falam entre si a sua língua materna.

Paulo Franco viu-se no meio do turbilhão de um problema que afecta o Reino Unido contemporâneo. A emigração descontrolada e a fiscalização escassa - senão inexistente - dos seus imigrantes. Na Austrália, por exemplo, uma das condições para ter visto de trabalho é precisamente falar língua inglesa. E não é apenas dizer Good Morning, thank you, my name is e fuck you. É mesmo falar, escrever e entender inglês. Em Inglaterra tentaram estabelecer regras que se denominam de minimum standards que consistem numa espécie de exame de admissão em inglês. Acontece que, como em tudo, há sempre subterfúgios e o tal exame é feito por alguém que já sabe o que responder. O patronato fecha os olhos a tudo isso desde que os seus lucros não sejam afectados. 

Tudo isto acaba por ter o seu lado irónico quando me recordo de uma expressão que já ouvi mais do que uma vez (bem mais do que uma vez) sempre que falo inglês na Polónia - ou quando tenho dificuldades em exprimir-me - Jesteś w Polsce, mów po Polsku (Estás na Polónia fala em polaco). Nesse sentido não será justo dizer You're in England, speak English...


4 comentários:

BR NA EUROPA disse...

É difícil para todos os lados. É como estrangeiro que vai ao Brasil e vê que a maioria da população não fala Inglês como segunda língua. A diferença é que brasileiros (latinos em geral) são pacientes com estrangeiros e têm uma maior simpatia. No caso do post a coisa é ainda mais complicada. A verdade é que a UE abriu as portas para o leste europeu justamente pelos trabalhadores bons e baratos que aqui situam-se. Não adianta chorar pelo leite derramado. Os ingleses de hoje reclamam que não há empregos lá, mas perguntem a eles se alguém quer trabalhar numa fábrica ou pegando no pesado, como pedreiros, encanadores, garçons... É o preço que se paga. No Brasil acontece o mesmo no Sudeste do país, onde os descendentes dos barões de café ainda se acham no direito de discriminar o próprio povo brasileiro, simplesmente porque são nordestinos. A vida continua, dinheiro na mão de poucos e os muitos pensando que têm algo, não têm nada.

Ricardo Taipa disse...

Exacto Rhobert. Enquanto a imigração barata e a mão-de-obra quase-escrava convier aos ricos nada mudará. Na realidade os patrões da empresa das bananas estão-se cagando para a língua dos supervisores ser polaco, chinês, português, vietnamita ou congolês. O que interessa é o lucro, o resto são fait-divers.

E sim, os ingleses sempre tiveram problemas laborais graves, de tal modo que a industria automóvel deles (Austin, Morris, British Leyland e Rover) não existe mais.

suane santos disse...

Todos os supervisores dessa empresa também são polacos. E a verdade é que ele foi demitido, por incompetência, nada a ver com o idioma.

Ricardo Taipa disse...

@ Suane - Se a empresa é polaca não deveriam contratar indivíduos que não falam polaco.