quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A cidade e o campo

A Polónia que muitos observam a partir da janela do avião é esta. Pradaria e floresta. Dizem que na vizinha Ucrânia ainda há mais campo e mais floresta. A Europa Central e de Leste que se estende por dimensões inusitadas para lá daquilo que em tempos se denominou de CEE. Cenários bucólicos e de grande beleza.
Quem já viajou de avião para a Polónia, durante os meses em que não está tudo coberto com um manto branco, sabe que da pequena janela se vê um imenso país verde intercalado por cursos de água, lagos e zonas urbanas que, num minuto e meio, desaparecem para dar lugar a florestas e pradarias onde o verde impera. Este Agosto experimentei algo que há muito desejava, a província polaca, longe do trânsito e ruído, longe da rotina diária, do stress e do cinzentismo que as áreas urbanas inevitavelmente proporcionam. 

Quase ao estilo de Tom Hanks em Cast Away (passo o exagero) estive na Polónia profunda, na Polónia rural onde nas noites de Estio as estrelas cintilam e a via láctea aparece em todo o seu esplendor, onde o som ininterrupto do trânsito na avenida Włókniarzy dá lugar ao som dos grilos e das cigarras.


Proporcionou-se a possibilidade de viver no campo durante duas semanas, um mundo praticamente oposto ao reboliço das grandes cidades, ao ridículo de não poder esperar cinco segundos para que as portas do elevador se fecham e carregar no botão, de ler nos lábios de muitos condutores o kurwa entre um semáforo mais prolongado e uma velhinha de muletas que quer passar na passadeira. No campo impera o silêncio intercalado pelo vento nas folhas das árvores, o mugir das vacas, o cacarejar das galinhas, o latido dos cães à distância e o zunido de moscas - o maior transtorno num mundo onde o tempo passa devagar e o sol é o relógio. Apenas a cem quilómetros de Łódź está-se na Polónia profunda, não há muitos vestígios da proximidade de área urbana e a pradaria polaca aparece em todo o seu esplendor. São quilómetros de campo a perder de vista entre-cortados por uma estrada nacional onde de vez em quando passa um automóvel ou camião; o ruído do motor e dos rodados aparece e desaparece para dar lugar de novo ao silêncio da província. Alguns dos autocarros que ligam a aldeia à vila e a vila à cidade são antigos, têm um aspecto arredondado e para o olho mais atento nota-se que os faróis e farolins são iguais aos do Fiat 125P dos anos 70. Uma experiência a não perder para fãs desse meio de transporte.

Existe uma outra Polónia onde os meios de subsistência provêm do trabalho de sol a sol, onde o mugido da vaca para a ordenha dita o acordar e onde a rotina não está ligada a horários de transporte públicos, turnos e neologismos como Office Hours ou Out of Office Hours. As aldeias polacas são microcosmos onde todos se conhecem e onde existem amigos e inimigos, conhecidos e desconhecidos, gente importante e gente menos importante. Onde outrora se viam latifúndios hoje vê-se o minifúndio, fruto do Comunismo, são longas e estreitas tiras de terreno onde cada um tem a sua casa, a sua choça, celeiro e eira. Assim ditou um regime que desapareceu tão rápido como apareceu. Os pastos que outrora eram divididos escrupulosamente para alimentar o gado hoje em dia são dados a alguém que toma conta das casas durante o resto do ano. É uma forma de pagamento pela cortesia. Os velhos vão-se e os filhos nem sempre querem seguir as pisadas dos pais, na cidade há outros atractivos e uma vida diferente. No campo a Igreja Católica ainda é insofismável e no local onde estive o altifalante transmite a missa para toda a aldeia, os Hosanna na Wysokości* ouviam-se em todo o lado. 

Acordar pela manhã e focar a vista numa imensa pradaria com uma floresta ao longe é um regalo. Pela manhã o chilrear dos pássaros e um pequeno almoço no alpendre com leite fresco a pouco mais de 1,50 PLN o litro é sinal que estamos longe de supermercados e de hipermercados onde o preço quase que triplica. O pão fresco compra-se a diferentes horas e cada padeiro tem o seu horário e furgão, o nosso simpático padeiro polaco passava perto das 9 da manhã e anunciava-se com vigorosas buzinadelas, mais tarde passavam outras carrinhas a venderem outros artigos, cada um com uma música ou buzina diferente. A curiosidade é inevitável; quem são estas pessoas? De onde vêm? A mesma curiosidade aguçava-se ao ouvirem uma língua estrangeira ou o aspecto pouco polaco de um dos habitantes da casa. 

Na aldeia as crianças faziam em questão em desejarem o seu dzień dobry sempre que passavam em frente ao portão da casa. Os vizinhos são de dois tipos; ou agricultores ou empresários por conta-própria - alguns dos quais com tiques de novo-riquismo que me trouxeram verdadeiros sentimentos de déjà vue. A dada altura, na casa da quinta ao lado, que está fechada quase todo o ano (o proprietário vive a maior parte do ano na Alemanha) ouviu-se música; se fosse em Portugal seria Quim Barreiros ou Ágata mas ali era o mais popular possível, o verdadeiro Disco Polo - músicas com letras que, infelizmente, consigo compreender como: 

Jesteś szalona, mówie Ci.
Zawsze nia bylas, skoncz juz wreszcie snic.
Nie jestes aniolem, mówie Ci.
Jestes szalona.

És uma doida, digo-te.
  Sempre o foste, finalmente deixa de sonhar.
  Não és um anjinho, digo-te.
  És uma doida.

Doido fiquei eu. Estes sucessos do panorama musical polaco, passados ad nausea acabaram com um Renault Scenic de portas e mala aberta a despejar Mozart numa vã tentativa de abafar o som da aparelhagem do vizinho. Outras experiências enriquecedores, ternurentas e caricatas houve mas contarei noutra ocasião. 

* Hosana nas alturas

6 comentários:

PM Misha disse...

leite a 1,50pln?
vou comprar uma działka!

Anónimo disse...

Lá terei que ir um dia conhecer essa planície verdejante.
Bem descrito o relato,para mim no campo o pior são mesmo as moscas e outros insectos.Bom mesmo é o descanso e ver as estrelas à noite.
Beijo a todos-- Mami

Ryan disse...

Este ano tambem fui para fora ca dentro e esse desenho que fazes da Polonia, excepto a musica, tambem o vi. E bom sair do betao e entrar em espacos perdidos no campo onde se ouve um carro a passar uma vez por hora ou entao onde se cheira a bosta de cavalo de manha e onde os insectos atacam quais kamikazes sem darem qualquer especie de treguas. eu gostei mas confesso que nao poderia viver no campo durante meses a fio onde pouco acontece... por exemplo internet ha sitios que nem a cheiro e onde ha quase faz lembrar o velhinho modem 56k.

Ricardo Taipa disse...

@ PM Misha - Assim mesmo. Os agricultores recebem 0,40 groszy ou um pouco mais por litro, o resto vai para a cooperativa e o lucro para a fábrica. Se comprares uma "działka" assegura-te que nao tens vizinhos a ouvirem Disco Polo! lol

@ Anónimo - A lembrar os tempos que passamos na quinta de Alpiarça.

@ Ryan - Cada vez mais aprecio esse tipo de isolamento, deve ser a idade... O cheiro a bosta de vaca é inevitável aqui e ali - sobretudo quando amanham a terra - mas vá lá que é um cheiro natural e imensamente diferente dos esgotos urbanos ou esquinas mijadas de certos edifícios em zonas sombrias das "kamienica" de Łódź. :))

Geraldo Geraldes disse...

Importante é que os catraios tenham gostado da liberdade :). E em calhando, até preferem o disco polo a Mozart :p .

Ricardo Taipa disse...

@ Geraldo Geraldes - @ A pequenada adorou e quer mais. O Mozart não é standard no cantante do Renault, até GNR e BAN passa... :)