sexta-feira, 18 de março de 2011

Tens saudades do teu país? Gostavas de regressar a Portugal?

São perguntas que oiço frequentemente, a maior parte das vezes em polaco mas também em português e em inglês. Os polacos parecem ficar surpreendidos com o facto de viver no país deles há tantos anos e porque motivo troquei o solarengo e belo Portugal pela Polónia e os seus gélidos Invernos. Alguns dizem que ensandeci... Os portugueses sentem a mesma curiosidade apesar de compreenderem e amiúde se lamentarem da situação económica e política em que se encontra o nosso "jardim à beira-mar plantado". A verdade é que sim. Sinto saudades de Portugal, obviamente... 

Parque Nacional da Peneda Gerês

De algum modo temos que formar uma carapaça para evitar essas saudades (esse sentimento tão português e peculiar), sobretudo as saudades da família, dos nossos lugares, dos amigos e até de algo tão simples como de repente entender tudo o que dizem, sem dificuldades, sem traduções e sem partes lost in translation.
No fundo cresci e tornei-me adulto em Portugal, sou 100% português - apesar da costela galega do bisavó Augusto. São quase oito anos de Polónia e a dada altura já me sinto também um pouco polaco, a distância permite-nos ver Portugal de outro modo e acabamos por dar mais atenção aos problemas do país que nos acolhe. Aquele canal de televisão e as notícias na rádio que no principio eram sons indistintos passam a formar palavras, frases, declarações, testemunhos, reportagens. O próprio conceito de lar torna-se difuso a partir do momento em que constituímos família com nacionais, no momento em que temos residência, trabalho e pagamos impostos no país de acolhimento. É inevitável ficarmos divididos e somos sempre um pouco estrangeiros quer aqui quer no nosso próprio país. As comparações surgem, o apelo de regressar é bilateral quando os sentimentos estão em ambos os lados. 

Fernando Pessoa em tempos escreveu: O valor das coisas não é o tempo que elas duram, mas a intensidade com que ocorrem. Aqui se encontra uma grande verdade e porventura a explicação para nos ligarmos e criar raízes noutras culturas, em locais remotos e com outras gentes. A intensidade com que as coisas ocorrem, quantos portugueses não vivem intensamente a Polónia? Quantos não vivem intensamente noutros países?

O regresso é uma incógnita mas de momento não o equaciono. Quem estará mal? Eu próprio? Portugal? Os portugueses? Há gente bem sucedida no nosso país, temos mentes brilhantes, pessoas que fazem a diferença tenham elas estudos superior ou não. Desfilam na minha memória tantos portugueses que fizeram essa diferença, gente boa e honesta que não pede nada e não exige. Engenheiros e doutores humildes que fazem corar os pedantes que exigem o tratamento por Sr. Dr. e Senhor Eng. O Sr. Zé que pergunta sempre por mim e pela minha irmã, o meu vizinho do rés-do-chão que ajuda a minha mãe sempre que pode, aqueles amigos no Facebook que não os vejo há mais de dez anos mas que sinto como se fosse ontem a ultima vez que os cumprimentei com um "tchau". Os portugueses deixaram-se levar por um enorme marasmo semelhante àquele que manteve um ditador no poder durante quase 40 anos. O individualismo tirado dos maus exemplos de uma classe política eminentemente corrupta e gasta e de uma média-burguesia néscia e mal formada abafam um país que em tempos foi uma nação de empreendedores, de exploradores destemidos e trabalhadores incansáveis - onde se imaginaria há apenas vinte anos atrás alguém viver exclusivamente de benefícios sociais sem ter verdadeira vontade de trabalhar para também contribuir para o bem comum? 

Ria Formosa, Algarve, Portugal. Imagem: http://br.olhares.com/flamingos_iii_ria_formosa_i_faro_foto3141905.html
Como emigrante faço a parte que me compete. Naquilo que posso promovo o meu país. Sugiro as nossas praias no Algarve, Lisboa e Sintra, o Porto e Braga, Guimarães, o Alentejo, a beleza do interior português, da Serra da Estrela, do Minho e do Gerês, de Trás-os-Montes e dos seus lugarejos, o vale do Douro, a nossa gastronomia e os nossos excelentes vinhos (defendo-os vigorosamente), a beleza da ilha da Madeira e a espetacularidade dos Açores onde, dizem alguns, será o que resta da legendaria Atlântida. Posso dizer, sem modéstia, que meti alguns polacos em aviões para visitarem Portugal, frisando sempre que somos uma nação com fronteiras estáveis há mais de 850 anos, que não temos divisões internas como os nossos vizinhos espanhóis e que somos um povo hospitaleiro com uma identidade própria e uma cultura especifica. 

A Monarquia em Portugal teve o fim do seu ciclo abruptamente em 1908, a Primeira República deu origem ao Estado Novo que acabou num dia de sol em Abril, o que restava do nosso Império Colonial desapareceu logo a seguir. Um dia alguém atirará uma pedrada na vidraça, numa manhã ou numa tarde qualquer seja ela de nevoeiro ou não. Tudo é uma questão de tempo...

2011


1974







1 comentário:

Máximo disse...

Tens razão, a saudade é um sentimento bem português, se bem que às vezes é preciso sentir saudade de Portugal para lhe dar o seu devido valor! :)