domingo, 27 de fevereiro de 2011

As grandes fábricas de carros nos tempos da PRL* - FSO/FSM

O parque automóvel polaco mudou de há dez anos a esta parte. Quando naquele dia de Setembro de 2001 saí do comboio que me levou de Varsóvia a Łódź, carregado de bagagens para o meu Erasmus, deparei-me com a cinzenta estação ferroviária e rodoviária de Łódź Fabryczna; rapidamente a atravessamos e estávamos no parque de estacionamento em frente. Precisávamos de um táxi que nos levasse para a residência de estudantes da universidade WSHE, na ulica Zródłowa. Como entusiasta de carros o primeiro veículo que me saltou à vista foi um velho Fiat 125P (P de Polski "Polaco") com os forros dos bancos a imitarem pele de tigre. Os patrícios que me acompanhavam não estavam para ai virados e lá acabamos por entrar para um Audi 100...

 Spot publicitário polaco ao "Maluch" nos anos 70.

Há dez anos ainda se viam nas estradas polacas imensos carros montados nas fábricas nacionais. O mais comum era o bem conhecido Fiat 126P, conhecido como Mały Fiat (Pequeno Fiat) ou Maluch (pequenito) mas também o Fiat 125P ou Duży Fiat (Fiat Grande) e o FSO Polonez que ainda hoje, mas em muito menor quantidade, se vai vendo nas estradas polacas.
FSO Syrena concebido inteiramente por engenheiros polacos. Fabricado de 1957 a 1983 na fábrica nacional da FSO em Bielsko-Biała
Nas semanas seguintes fui conhecendo mais modelos dos tempos do bloco soviético. O FSO Syrena  (os meus sogros em tempos tiveram um) que tinham um motor a dois tempos proveniente de um moto-cultivador e com um chassis em madeira nos primeiros modelos. É um clássico muito interessante e tem nos dias de hoje uma legião de fãs.
Viam-se também bastantes Trabant provenientes da RDA, Lada (diz-se UADA), Wartburg, Skoda 100 (Skoda sto) e Skoda 105 de fabrico checoslovaco, Zaporozhets de fabrico soviético, Dacia 1200 (iguais aos nossos Renault 12) fabricados sob licença na Roménia de Nicolae Ceausescu, Zastava 1100 (baseado no Fiat 128 italiano), o Yugo 45 e mais raramente o automóvel que em tempos era acessível apenas a gente importante do partido, os Volga (leia-se Vouga). Nota para a fábrica da da Zastava na Checoslováquia que foi destruída quase na sua totalidade pelos bombardeiros da OTAN durante a guerra dos Balcãs. Hoje em dia é parte do Grupo Fiat.

Os anos foram passando e as exigências dos polacos e do governo foram aumentando. A obrigação de uma vistoria anual para veículos com mais de dois anos (denominada de przegląd techniczne), o aumento do nível de vida e a importação massiva de carros da Alemanha ditaram o fim de muitos desses vestígios da PRL (República Popular da Polónia). No meio da primeira década do século XXI já se viam poucos modelos FSO com para-choques cromados e anteriores a 1985, muito menos modelos da década de 70. Os rigores do Inverno polaco e o sal nas estradas exigem muito do metal e não há protecção anti-corrosão que resista, especialmente em carros mais antigos onde a mesma era praticamente inexistente.

O Maluch resistiu até ao ano 2000 o que é um fenómeno se atendermos ao facto de que o lançamento desse modelo ocorreu em 1972, quando a Fiat pretendia descontinuar o célebre modelo 600. 

 As principais fábricas de automóveis polacas eram a já referida FSO e também a FSM (Fabryka Samochodów Małolitrażowych) ou "Fábrica de Automóveis Pequenos". As sinergias foram inevitáveis depois das privatizações; a FSO passaria a ser Daewoo-FSO com capital sul-coreano sendo posteriormente adquirida pelo grupo ucraniano UkrAVTO. A FSM passaria a designar-se de Fiat Auto Poland onde são actualmente fabricados os chic Fiat 500, motores para a Fiat Power Trains e caixas de velocidade.

Mas porventura o mais interessante nem é a história e a evolução das grandes fábricas de automóveis polacas e os seus modelos. Os protótipos e os projectos que nunca viram a luz do dia são a prova da capacidade dos engenheiros polacos. Pelas circunstâncias políticas muitos desses modelos não seriam comercializados mas são hoje em dia conhecidos, sendo alguns deles guardados como verdadeiras peças de museu.

Syrena Sport. Apresentado em 1961, considerado demasiado extravagante nunca viu a luz do dia e o único protótipo conhecido seria destruído nos anos 70. A imprensa inglesa teceria comentários muito positivos a este pequeno desportivo.

FSM Beskid. Concebido em 1983 como um compacto económico e versátil. Mais uma vez, por questões politicas, não seria fabricado e só sobreviveram 3 protótipos de dez fabricados. O Renault Twingo e o Autobianchi/Lancia Y10 têm semelhanças notórias. O Y10 seria lançado em 1985 e o Twingo em 1993. Deve o seu nome às montanhas polacas.

FSO WARS. Concebido no principio dos anos seria o substituto espiritual  do FSO Polonez. Nunca foi fabricado mas ainda sobrevivem alguns protótipos. O nome provém de Warszawa (Varsóvia).

Fiat 126 Kombi. Seria a versão "carrinha" (ou shooting break?) do 126 mas não chegou a ser produzida. 


Fiat 126 com transmissão nas rodas dianteiras e motor arrefecido a óleo e água - ao contrário do Maluch arrefecido ar e óleo. A FSO quase conseguiu transformar o 126 num mini-127 mas tudo não passou de um estudo. O 126 continuaria com motor atrás e transmissão traseira até ao fim da sua produção.

Fiat 126 "Bombel" ou Bolha. Uma versão comercial-ligeiro que eliminava os bancos traseiros. Também não foi produzido. 

* República Popular da Polónia 1952-1989 (em polaco:  Polska Rzeczpospolita Ludowa, PRL)







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