quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Szczęśliwego Nowego Roku Dwa Tysiące Dziesiątego!

Le-se: Ch-tchen-ch-livego Novegu Roku (Feliz Ano Novo) e também há o Tudo de bom (Wszystkiego dobrego v-shest-quiego dóbregu) são palavras que ouvimos amiúde nesta véspera de Ano Novo.




Em Portugal era tudo mais informal, do tipo dar o passou-bem ou os dois beijinhos da praxe e desejar Bom Ano ou quando muito um "vê lá não te esqueças de comer as passas" ou "bebe champanhe mas do bom!". Aqui na Polónia os desejos de Bom Ano revestem-se por vezes de alguma cerimónia com um agarrar de mãos ou um muito solene discurso com desejos de um bom ano novo, cheio de sucesso, passado em família, com muita saúde, dinheiro, amor etc...


 Hoje tive de fazer as compras no hipermercado e não me livrei de ter de desejar o Sczęśliwego Nowego Roku a conhecidos e lojistas, dizer-lo é difícil ainda para mais com uma inoportuna infecção na garganta que me permite cantar o Born in the USA do Bruce Springsteen ou a canção de Joe Cocker You Can Leave Your Hat On com uma voz rouca - desafinada mas rouca. 

Este dia também se reveste de algo que me deixa sempre apreensivo. A quantidade absurda de fogo-de-artificio à venda no comércio a retalho - alguns deles parecem verdadeiros morteiros - e os adolescentes, já a partir de 29 e 30 de Dezembro, a detonarem algumas cargas, apesar da proibição de manuseamento e venda a menores.

Este ano a grande festa de Reveillon na TVN (um dos principais canais polacos) vai ser em Łódź, na Plac Wolności para ser mais especifico.  Anteontem conduzia em frente do Hotel Handel e do complexo comercial Manufaktura quando me deparo com algo que durante uns milésimos de segundo me deu uma imensa alegria; um OVNI!
Num piscar de olhos cai de novo na real e constato que se trata do gigantesco palco montado pelo canal para o evento, um autêntico disco voador plantado no coração da cidade de Łódż e a cortar com o aborrecido cinzento dos edifícios contíguos e da cidade.

Teoricamente estamos ainda no início do século, só em 2011 começa a nova década mas como ninguém se importa com isso e afinal vai ser o começo dos Anos 10 mais vale cumprir com a tradição e abrir a garrafa à meia-noite mesmo que esteja gelada, a garganta vai-se queixar mas como se diz em inglês: no pain, no gain!

Um excelente ano de 2010 para todos!

sábado, 26 de dezembro de 2009

No rescaldo do Natal




Passar um Natal com crianças que ainda não se aperceberam da fabulação do Pai Natal é viver esta quadra na sua plenitude; difere radicalmente dos natais passados enquanto solteiro ou daqueles passados enquanto casal sem filhos.

Na casa dos meus pais sempre abrimos as prendas na manhã do dia 25 de Dezembro entre a ansiedade de saber o que estava no sapatinho e o Vasco Granja na RTP a falar sobre desenhos animados - alguns deles polacos. Agora passamos a abrir as prendas na noite de 24 para 25 de Dezembro. Este ano foi o meu filho mais velho - com três anos e meio - que foi o centro das atenções e com a vontade que ele estava de abrir as prendas que estavam na árvore de Natal portou-se como um anjinho e comeu a sopa toda.

A prenda oferecida pela avó e pela tia de Portugal - um piano grande - foi a pièce de résistance do Natal do Manuel. Acontece que o brinquedo, como quase todos os brinquedos nas lojas, foi fabricado na China e vinha com uma característica comum aos brinquedos fabricados nesses país; barulho, muito barulho emanado de uma pequena coluna que é capaz de fazer inveja às colunas de muitos carros citadinos como um Kia Picanto ou um Toyota Aygo.
Cerca das 10:30 e após muito cansaço o Manuel decidiu pendurar as chuteiras e foi dormir deixando-nos (a nós e aos vizinhos) com sons electrónicos a ecoarem na mente e a levarem-nos a termos, durante o sono, experiências quase psicadélicas - ao bom estilo hippy flower power dos anos 60...

O dia seguinte foi previsível. Um ensonado Manuel a mal tocar com os dedinhos dos pés no chão e a perguntar em polaco gdzie jest mój pianino? (onde está o meu piano?). As condições começavam a requerer a exigência de só se tocar o piano com o volume baixo mas as crianças sabem bem como dar a volta ao texto e para voltar a ter o volume no máximo nada como desligar e ligar o piano...

Como a necessidade aguça o engenho e os vizinhos já tocavam música alto para abafar o ruído comecei a pensar em modos de acabar com aquela orquestra maluca e vai daí que, aproveitando uma providencial sesta do petiz, abri o dito piano e estofei a coluna de algodão. Claro que o Manuel ao acordar estranhou o volume baixo do seu piano mas pelo menos podemos cantar "Noite feliz, noite de paz..."

Ah! Já me esquecia! Na Consoada acabei mesmo por fazer francesinha. O molho levou demasiado concentrado de tomate e não ficou 100% apurado mas deu para as despesas e caiu bem melhor que a kapusta z grochem e os pratos de peixe que os polacos tanto apreciam.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Boas Festas aos meus leitores

Antes de mais desejo-vos um Feliz Natal, aos leitores que conheço e aos que desconheço mas lêem estes meus desabafos...




Mais um Natal passado na Polónia. Na realidade não passo o Natal em Portugal há mais de cinco anos. Vários motivos levaram a que isso aconteça e este ano não foi excepção, metade de uma década passada em Portugal e outra metade na Polónia, quem diria!

Esta consoada vou fazer algo diferente... não desfazendo a tradição polaca de comer peixe e "galaretka" (desculpem os polacos mas não consigo comer tal coisa), kapusta zniszczona (couve podre) que invade tudo, desde as narinas aos vãos de escada, às ruas (por vezes cheira a peido - podia dizer gases mas cheira mesmo a peido) e a sopa de cogumelos que realmente sabe muito bem como muitas outras sopas polacas... mas como dizia; vou fazer algo diferente, algo português sem ser bacalhau com batata cozida, grão e couve. Vou fazer francesinha especial! O Natal é quando um homem quer e sinceramente estando a mais de 3500 quilómetros da fronteira de Portugal e de Famalicão (ó restaurante Dragão e Sr. Matos!) vou mesmo fazer aquilo que gosto... a tradição já não é o que era.

Deliciai-vos ó polacos com os peixes e com as gelatinas, salivai com a couve estragada, com o rabanete e com os cournichons, cobri como quiserdes as saladas de pepino com creme, engoli em seco a pensar em carpas fresquinhas saídas do aquário e apanhadas com uma rede (coitadinhas das carpas) - eu vou comer francesinha acompanhada de um fino! Se me der na gana ainda abro o computador e procuro no Grooveshark os Xutos&Pontapés a começar com o Para Ti Maria e acabando no A Minha Casinha, talvez dê uma chance ao Rui Reininho e lhe perdoe a voz de charro e as letras "intelectualizantes" com rimas fáceis acabas em ão e com a palavra "banal" usada amiúde...

Penso nas fantasias de Natal, naquele famoso spot publicitário do velho que comia o coelhinho - sacana do velho! - e na miúda de tranças com ares de polaca que ficava ofendida e dizia que o coelhinho ia com o palhaço ao circo. Fosse hoje em dia e era acusado de pedofilia. Aqui não há sequer os chocolates Regina, temos os chocolates Wedel que são muito bons e outras doçarias e rebuçados.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Arbeit - Macht - Frei

Menos de 24 horas depois de colocar o tópico anterior a polícia polaca encontrou a placa Arbeit Macht Frei no Norte da Polónia mas cortada em três, sendo cada um dos pedaços correspondente a uma palavra.




Aparentemente o roubo não foi feito por neo-Nazis mas não há certezas se terá sido encomendado ou não, cinco homens suspeitos foram detidos e interrogados, aventam-se penas de prisão de dez anos para os meliantes.

A ver se desta vez colocam finalmente um sistema de vigilância CCTV civilizado...

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Trabalho (de roubar) Liberta




Nalguns países vizinhos da Polónia os polacos têm fama de ladrões. Custa-me escrever isto no meu blogue tendo uma família polaca e estando para sempre ligado a este país que tão bem me acolheu. Os estereótipos são assim mesmo; revestem-se muitas vezes de crueldade ou ironia - afinal nós, os portugueses, também não nos livramos da fama de sermos infiéis às mulheres...

Ocorreu um roubo impensável apesar de, há alguns anos atrás, uma ponte ter sido roubada e vendida como sucata. No campo de concentração de Óswięcim (Auschwitz) foi roubada a inscrição do portão principal com a célebre frase da obra do escritor alemão Lorenz Diefenbach - Arbeit Macht Frei (O Trabalho Liberta). Esta frase era colocada amiúde no gradeamento dos campos de concentração Nazi (não só em Auschwitz) pois estes eram supostamente locais onde os judeus deportados iriam trabalhar e dedicarem-se a actividades enquanto a guerra rugia.

A semanas do grande evento do aniversário da libertação do campo de concentração o roubo não poderia ter sido mais inconveniente numa Polónia que se quer afirmar numa UE céptica dos países ditos "de Leste" e pouco crente no sucesso do Euro 2012 em terras polacas e ucranianas. O frenesim está a dar que falar na imprensa e o próprio Benjamin Netanyahu exige que os polacos encontrem as letras urgentemente argumentando o significado simbólico das mesmas dentro do contexto do denominado Holocausto.

Quem conhece a Polónia e os polacos não pode deixar de achar algo caricatas as circunstâncias do roubo, a vigilância patética, as medidas serôdias da policia e serviços secretos polacos e a recompensa inicial de apenas 1100 zlotys - a recordar-nos cenas deliciosas de filmes-culto polacos da era comunista como Rejs, Miś e Seksmisja.

A angariação de fundos para a conservação deste património da humanidade tinha dado os seus resultados com a Alemanha a prometer uma injecção de capital de alguns milhões de Euros nos cofres da sociedade responsável pelo museu e conservação de Auschwitz. A famosa placa estava vigiada com uma camara de computador ligada à internet sem ter sequer registo das filmagens e com uma qualidade de imagem duvidosa!

A verdade é que as acusações disparam, qual tiro no escuro, em todas as direcções, desde serem os sucateiros polacos (só imaginei aqueles bêbados com o carrinho de mão cheio de metal a venderem tudo em troca de uma garrafa de vodka Royal) que foi aliás uma hipótese já colocada de parte, aos neo-Nazis, milionários excêntricos, ex-residentes do campo em acto de vingança, a própria sociedade responsável pela manutenção a querer chamar as atenções e até alguém que trabalhava no mesmo e arranjou um esquema para enriquecer rapidamente. No entanto e para já não apareceu a malfadada placa nem ninguém tem ideia de onde possa estar. Foi entretanto substituída por uma réplica construída de propósito para quando a original é reparada.

Houve um atraso considerável no reportar o roubo as autoridades, o suficiente para os meliantes a terem levado para fora da Polónia "Schengen" sem grandes entraves. A placa tanto pode estar na Polónia, como na Alemanha ou em Lisboa.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Polónia avulso - II

Bate leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Gente não é certamente e a chuva não bate assim. Fui ver... Oh! Kurwa! Neve outra vez!  

Acordei cedinho, como de costume, para levar o miúdo ao infantário e pelo caminho deixar a mãe no trabalho. Finalmente após uma longa temporada de chuva e dias de sol em pleno Inverno a neve apareceu, timidamente mas apareceu, vi-a pela janela quando ainda estava noite e ao longe, entre dois blocos de apartamentos, vi a piscarem as luzes da chaminé da central hidroeléctrica de Bałuty.




Estavam -3 e a neve cobria o meu carro, nada de verdadeiramente trabalhoso, a camada era fina e em menos de um minuto as janelas estavam limpas. Pergunto-me se iremos ter um white christmas ou não?

Os Hondas também se abatem...  



Alguém encostou este Honda Integra a poucos metros do prédio onde vivo. Andou o Verão e o Outono todo encostado a uma loja de flores, passou duas semanas entre dois postes de iluminação pública e agora descansa com as rodas metade no passeio, metade na estrada.

De integro já não tem nada e nunca vi tamanha corrosão num guarda-lamas traseiro! Minto. Vi corrosão semelhante nas fotografias tiradas pelo submarino que fez a expedição ao Titanic e no meu Fiat 128 Sport depois de ter estado debaixo de um choupo vários anos. Este Samurai deve ficar por aqui mas na Polónia nunca se sabe, polak potrafi[1] e não me admiraria se, daqui por uns tempos, o Integra aparecer num komis[2] qualquer a brilhar, tapado com quilos de massa e com a garantia que até era de um senhor reformado que viveu no Texas durante muitos anos e o trouxe porque tinha pena de se desfazer dele...





 [1] Um polaco consegue - em Portugal dizemos desenrasca
[2] Stand de automóveis no qual o carro fica a vender recebendo o dono do stand um "x" pela venda 



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quando o vento não sopra...




Durante a epopeia dos descobrimentos portugueses (provavelmente com o acordo ortográfico deveria dizer achamento...) os nossos heróis do mar receavam, para além do Adamastor de crespos cabelos e dentes amarelos, das tempestades e dos fogos de Santelmo, os momentos em que não soprava vento.
Quando atravessavam o Atlântico a caminho de terras de Vera Cruz ou o imenso Pacífico acontecia por vezes o pior; não soprar sequer uma aragem - ficarem na torreira do sol numa caravela pequena onde os víveres escasseavam e a água potável era pouca para as tripulações.

Assim tem acontecido com o meu blogue. Estou na torreira, a ouvir o ranger das cordas e das madeiras, sentido o salitre no rosto e esperando que o vento sopre novamente e me inspire.

Um fenómeno estranho talvez explique isto. Estou na Polónia, em pleno Dezembro, com temperaturas positivas - baixas mas positivas. Acordar de madrugada com 4 graus sem ter de raspar gelo do carro ou sacudir neve aos quilos parece surreal. Mas o Inverno está aqui, são os dias muito curtos onde às quatro da tarde já está praticamente de noite, os tectos de nuvens que tornam o céu uniforme e cinzento brilhante (o cacimbo como dizem em Angola) e um frio semelhante àquele que se sente quando estamos demasiado tempo na secção de congelados de um supermercado.