sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Finados - Wszystkich świętych


O que vale é que tinha 150 zloty de gasóleo no depósito, tinha abastecido de manhã nas bombas do Tesco, a 4.08 o litro, antes de me aventurar na ida ao cemitério.

Hoje tirei um dia de folga para supostamente tratar de assuntos pessoais entre os quais mudar a panela de escape da minha carrinha, pensei que daria tempo para tudo inclusivamente ir com a sogra ao cemitério onde se encontra a campa do meu sogro mas nem por ser uma Sexta-Feira me livrei de ficar com a perna esquerda cansada de tanto embraiar alem de ter tirado uns bons quilómetros de vida útil ao disco de embraiagem.

Este dia de Todos os Santos ou Wszystkich Swiętych mobiliza os polacos de tal modo que se torna mórbido não o ir ao cemitério mas sim usar o carro para a visita, principalmente em grandes cidades como Łódź. Mais vale ficar enlatado nalgum autocarro Icarus ou ir de Volvo ou Mercedes mesmo que se vá de pé toda a viagem.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Graffiti


A dada altura deixamos de notar que eles existem mas a verdade é que a quantidade de paredes, muros, mobiliário urbano - praticamente tudo o que está estático na via pública - das grandes cidades polacas está "graffitado" ou "tagado".


Aqui em Łódź a guerra dos graffiti faz-se sobretudo entre os fãs dos clubes de futebol ŁKS e Widzew, normalmente começa com um simples graffiti do logótipo do clube que vai ser riscado e vandalizado pelos rivais. Para quem não está a par desta realidade ficará chocado com a quantidade de cruzes de David (o símbolo de Israel) que aparecem como forma de insulto mas não é nada directamente contra os judeus ou especificamente contra a nação israelita mesmo que apareca uma forca com uma cruz de David pendurada e a mensagem "ŁKS = Judeus" ou "Widzew = Judeus".

O nível dos graffiti é proporcional à inteligência e fanatismo dos seus adeptos, chamar judeu é um insulto e uma forma de menosprezar o clube adversário. De onde virá este anti-semitismo?

Mas, à parte deste lado negro dos graffiti futebolísticos, surgem por vezes verdadeiras pinturas murais que só no nosso "Verão Quente" existiram.
O mais conhecido de todos, tido como o maior da Polónia e da Europa, fica na avenida Piotrkowska, na alçada lateral de um edifício, e representa a cidade de Łódź como um barco (łódź) que navega num mar de lajes de cimento.


Para os lados de minha casa, em Bałuty, o proprietário de uma pizzaria resolveu que estava na hora de acabar com os constantes graffitis futebolísticos e vai de contratar os ditos "vândalos" para lhe pintarem a parede da "Pizzeria Corleone"!



Remédio santo!

domingo, 26 de outubro de 2008

Outono - Jesień



Hoje de manhã, enquanto passeava a cadela, tirei esta fotografia nas traseiras do prédio. O Outono chegou com toda a sua força e beleza, pelo menos para mim é um espectáculo da natureza, o prelúdio do Inverno (aquela palavra terrível - Zima!) e de... muito frio.

Ainda há pouco tempo estas árvores estavam repletas de folhagem verde e os ninhos dos pássaros com as suas crias fervilhavam de actividade, as crianças brincavam nas caixas de areia, nos baloiços e nos arcos enquanto os adolescentes jogavam basquetebol ruidosamente e ao sabor do hip hop que emanava das colunas dos seus carros.
Os "pombinhos" beijavam-se nos bancos mais próximos e sentia-se frequentemente o cheiro a kiełbasa assada (o churrasco polaco) proveniente de alguns "parterze" (rés-do-chão) mais afortunados que têm a sorte de terem um terrenito nas traseiras mas agora tudo acaba assim.

A esta fase que atravessamos os polacos chamam-lhe "Outono polaco dourado" por causa das cores outonais que invadem a paisagem, sobretudo os dourados e amarelados das folhas.

Penso muitas vezes no Outono de Vila Nova de Famalicão, que diferença! Se por um lado é menos frio por outro é muito mais húmido e as nossas belas casinhas mediterrâneas/sulistas não foram feitas para o frio, os portugueses no fundo são optimistas e andar de camisola e meias grossas dentro de uma casa húmida é normal (é só até ao Carnaval!), ao menos aqui temos os aquecedores a fazerem esquecer rapidamente as agruras do tempo, já em Portugal era normal ficar com os dedos gelados no teclado do computador!

Mas não posso ser tão ríspido com o nosso Outono português. Fazem-me falta as castanhas... essa iguaria que tantas vezes me fez protestar quando passava na Avenida dos Aliados e ficava a cheirar a castanha assada ao passar pelas inúmeras vendedoras de castanhas que rodeiam a estação de São Bento.
Desculpem minhas senhoras! Nunca mais vos farei cara de pau! Venham as castanhas embrulhadas nas páginas amarelas roubadas nas cabines telefónicas, podem mesmo vir embrulhadas no Correio da Manhã ou no jornal A Bola, venham é as minhas ricas castanhas assadas e os saudosos magustos que por aqui as castanhas polacas não são comestíveis e magusto é algo que nunca se ouviu por estas paragens!


Na passada Sexta-Feira, ao rodar a chave do carro, ouvi novamente o melancólico "plin plin plin" do computador de bordo a avisar para ter atenção na estrada, o carro relembra-me sempre que o frio chegou e a temperatura está abaixo de 4 graus.
Obrigado pela preocupação mas por vezes preferia nem saber!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Prawo Jazdy vs Carta de Condução




Ando com este dilema... ficar com a minha carta de condução portuguesa ou trocar por a carta de condução (Prawo Jazdy) polaca.

Antes da adesão da Polónia à União Europeia era um martírio poder conduzir com carta de condução portuguesa neste país, nem a Carta Verde das companhias de seguros cobriam a Polónia, era preciso uma extensão de cobertura e emissão de nova carta verde.

O nosso patrício Luís Sousa vive em Łódź há muitos anos e gastou muito dinheiro para obter uma carta de condução internacional e para a revalidar regularmente, caso contrário não poderia conduzir o seu próprio carro nestas paragens. A nossa carta de condução, modelo das comunidades, com o P era, até há bem pouco tempo, nie honorowana o que significa que não era aceite nem válida pelas autoridades polacas.

Cheguei a enervar-me na Direcção Geral de Viação deles, mesmo depois da adesão! Na altura o Wydział Komunikacji (DGV) onde se obtinham as cartas ficava no célebre palácio do judeu Israel Poznański e estava ocupado por funcionários públicos dos tempos "da outra senhora" os quais eram tudo menos prestáveis.
Disseram-nos (aos portugueses) que a nossa carta de condução não era válida e que precisaríamos de fazer exame teórico e prático para poder conduzir na Polónia. Quando confrontados com um e-mail da Comissão Europeia, que me dei ao trabalho de contactar e que dizia que a nossa carta era válida em todo o território da UE, limitaram-se a fazer má cara e a dizerem que "prosze pana... jak pan chce!" o que traduzindo diz "caro senhor... como queira!".

Entretanto o Wydzial Komunikacji mudou de instalações e de funcionários. Onde outrora estava uma velha rabugenta está uma polaca ruiva que fala inglês e explicou tudo tin-tin por tin-tin.
Afinal a carta é válida e pode ser trocada por uma carta polaca, sem necessidade de exames. O senão é o facto de termos de eliminar a nossa carta do P, tem mesmo de ser obliterada.

A desvantagem maior contudo reside no facto de ao obtermos a Prawo Jazdy passarmos a ter pontos na carta (20 pontos) que são retirados consoante as infracções cometidas pelo titular, o que não acontece na nossa "cor-de-rosa", modelo das comunidades. Portanto nada de ultrapassar os 0,2 de alcoolemia ou pisar demasiado no acelerador sempre que vemos aquelas rectas ladeadas de plátanos e com campos verdes a perder de vista ou os tractores e inúmeros camiões que regularmente entopem as droga krajowa...



Como a União Europeia pretende uniformizar as cartas de condução para modelo único e válido no território então mais vale esperar; no meu caso ia custar-me ver a minha velhinha carta de condução, com aquela foto de um português magrinho e de olhar inocente, ser destruída num qualquer furador polaco.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Viver no Barco - I

Łódź em polaco significa Barco e é neste barco que me encontro desde 2004, ano em que decidi emigrar.


Não foi a primeira escolha de local para viver, apesar de ter passado um tempo fenomenal no Erasmus que fiz na Wyższa Szkoła Humanistyczna Ekonomiczna (WSHE), tendo conhecido a minha companheira nesta cidade, mesmo tendo casado por aqui ainda tentamos viver em Portugal mas todas as circunstâncias empurraram-nos para estas paragens.

Portugal encheu-me o saco, desculpem a frontalidade. Não o país em si, não a família ou os amigos mas o "Portuguese way of life" se é que podemos usar este neologismo. Foram frustrações em cima de frustrações, salários ridículos e horas extraordinárias que nunca seriam pagas, e depois uma situação de desemprego que na altura era geral na família!

Acima de tudo fomos vítimas das políticas de emigração que penalizavam todos os cidadãos portugueses casados com estrangeiros fora da União Europeia (casamos antes da adesão da Polónia à UE).
Fosse a minha mulher brasileira ou cidadã da União Europeia e tudo tinha sido diferente mas para os SEF não bastava o casamento para que ela se juntasse a mim e tivesse o tão ambicionado "visto de residência". Gastei muito dinheiro nos SEF em papeladas, selos e extensões do visto de turismo.
Quer em Braga quer no Porto eram hordas de emigrantes a pedirem vistos e extensões. Na Loja do Cidadão em Braga a funcionária disse-nos com um sorriso artificial que a "a Paulinha" (como se tivesse andado com ela na escola) teria de ir para o seu país e esperar pelo visto de residência. Prontamente lhe agradeci e disse que o melhor mesmo era emigrar para o país dela pois em breve ia ser parte da UE e tudo iria começar para aqueles lados.


Nós estávamos fartos da separação, de ansiedade e frustrados com as respostas que nos davam. A isto juntou-se mais uma vez o desemprego e como tal não foi preciso muito para que chegasse a casa e dissesse à Paula
"Start packing because tomorrow we go to Poland". Praticamente fomos viver para a Polónia com uma mão à frente e outra atrás, não fosse a ajuda das mães e teria sido virtualmente impossível a mudança.

E assim foi. Enchi metade do depósito, pois a abastecer totalmente só depois de atravessar a fronteira, despedi-me da minha irmã e do meu cunhado na noite anterior e da minha mãe de manhã e fizemos-nos de novo à estrada naquele Corsa 1.0 mas desta vez numa viagem de ida e sem volta programada. Quando atravessamos a fronteira (na Galiza) parei o carro para contemplar Portugal e meditar naquilo que deixava para trás, nas décadas que passei naquele país e nas memórias que ali deixava. Como sentia uma crescente mistura de revolta, frustração e tristeza decidi não sacudir o pó das sandálias mas ao invés arrancar a queimar pneu.

Chegamos a Łódź três dias e meio depois, completamente exaustos (dormi 18 horas seguidas!) mas com esperanças renovadas. Emprego encontramos passado pouco tempo e entretanto como a Polónia tinha aderido à UE não foi difícil obter o visto de residência ou Karta Pobytu.

Estou perfeitamente integrado na sociedade polaca com as devidas nuances em virtude de várias opções de vida como por exemplo não querer ter religião e como tal não participar na vida religiosa que muitos polacos vivem fervorosamente. Talvez esta seja a parte em que menos me integrei. Acabamos por não casar pela igreja apesar das pressões da família (sobretudo da família polaca) e decidimos, tendo em conta o livre-arbítrio, que o baptismo das crianças deverá ser escolha delas no futuro e em plena consciência. Se quiserem seguir a religião católica são livres de o fazer.

Fim do primeiro capítulo.